{"id":18992,"date":"2021-10-01T13:34:23","date_gmt":"2021-10-01T16:34:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=18992"},"modified":"2021-10-01T13:34:23","modified_gmt":"2021-10-01T16:34:23","slug":"clickbait","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/10\/clickbait\/","title":{"rendered":"Clickbait."},"content":{"rendered":"<p>Com a Era da Informa\u00e7\u00e3o, surgiram v\u00e1rias palavras novas no vocabul\u00e1rio do cidad\u00e3o m\u00e9dio. Clickbait \u00e9 uma delas. Eu defino como um incentivo (honesto ou n\u00e3o) para que uma pessoa clique num link da internet. Se bem que&#8230; talvez o termo j\u00e1 n\u00e3o caiba mais apenas na rede mundial de computadores.<!--more--><\/p>\n<p>Porque por mais que uma parte consider\u00e1vel da economia mundial j\u00e1 esteja atr\u00e1s de links de internet, clickbait \u00e9 o tipo da coisa que vai se espalhando para o resto do mundo por causa do seu sucesso. N\u00e3o podemos esquecer que a internet como conhecemos j\u00e1 \u00e9 mais velha que boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, mesmo que voc\u00ea quiser considerar a banda larga como ponto inicial da rede que conhecemos hoje.<\/p>\n<p>Muita gente j\u00e1 cresceu com a internet, muita gente j\u00e1 mudou de carreira para trabalhar nela. \u00c0s vezes esquecemos isso, mas estamos falando de um setor muito maduro da economia mundial. Tem gente com mais de duas d\u00e9cadas de experi\u00eancia em produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, vendas e propagandas online. E nesse tempo todo, muitas coisas foram tentadas para extrair o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel de cada pixel na tela.<\/p>\n<p>O clickbait atual pode ser visto em chamadas estranhas ou descaradamente mentirosas para artigos que v\u00e3o te vender alguma coisa, ou no uso de imagens e conceitos apelativos para gerar uma a\u00e7\u00e3o do internauta. \u201c5 rem\u00e9dios caseiros para (insira \u00faltima doen\u00e7a que voc\u00ea pesquisou aqui)\u201d, ou \u201cEssa m\u00e3e de (insira sua cidade aqui) ficou rica com esse m\u00e9todo surpreendente\u201d e coisa do tipo.<\/p>\n<p>A tecnologia ao dispor de publicit\u00e1rios e influencers \u00e9 muito mais avan\u00e7ada que o cidad\u00e3o m\u00e9dio imagina. Podemos criar materiais que se adaptam ao que a pessoa parece interessada, n\u00e3o temos acesso ao quem \u00e9 quem, mas a rede social sabe tudo e compartilha os dados com quem paga para ela. O clickbait moderno n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sensacionalismo e apela\u00e7\u00e3o generalizada, s\u00e3o coisas que podem estar focadas nas suas \u00faltimas a\u00e7\u00f5es online. E considerando quanta gente passa o dia todo conectada, \u00e9 muita informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios truques para atrair aten\u00e7\u00e3o de uma pessoa, muitos deles n\u00e3o foram inventados para a internet, afinal, desde que o mundo \u00e9 mundo tem algu\u00e9m querendo chamar aten\u00e7\u00e3o dos outros. T\u00e1ticas cl\u00e1ssicas como apostar em comida, sexo e viol\u00eancia funcionam como sempre funcionaram, frases curtas que deixam uma d\u00favida no ar como os jornais sempre fazem em manchetes, listas e conte\u00fado f\u00e1cil de digerir como as revistas (lembram delas?). A internet tentou de tudo, em todas as combina\u00e7\u00f5es. Por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O que funcionou seguiu em frente, o que n\u00e3o funcionou foi deixado pra tr\u00e1s. Sele\u00e7\u00e3o natural das coisas mais apelativas poss\u00edveis para o ser humano. Digo mais, boa parte da forma de se comunicar pela internet j\u00e1 passou por esse filtro tamb\u00e9m. Ningu\u00e9m for\u00e7ou os emojis, eles simplesmente aconteceram. Funcionam como atalhos para conceitos maiores, como uma l\u00edngua paralela, e tamb\u00e9m como substitutos de express\u00f5es faciais e corporais em conversas. Foram testados e aprovados pelo pov\u00e3o, que evidentemente n\u00e3o ia aprender a escrever melhor s\u00f3 porque tanta comunica\u00e7\u00e3o ficou escrita.<\/p>\n<p>Clickbait \u00e9 um caso parecido: selecionado como vantajoso na guerra evolutiva da internet. Se aten\u00e7\u00e3o vira o ativo mais valioso, o dinheiro est\u00e1 na busca dela. Mas a quest\u00e3o deste texto \u00e9 sobre como o clickbait vai se infiltrando na comunica\u00e7\u00e3o humana ao mesmo tempo. Quase todo mundo tinha um parente ou conhecido \u201cmeio Bolsonaro\u201d h\u00e1 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, aquela pessoa que sempre falava alguma coisa exagerada e fora de tom em reuni\u00f5es. Hoje em dia n\u00e3o parece que todo mundo ganhou mais uns 15 tios b\u00eabados na ceia de Natal? Bolsonaros de direita, esquerda, centro e tudo mais, n\u00e3o \u00e9 sobre o alinhamento pol\u00edtico, \u00e9 sobre a falta de tato na comunica\u00e7\u00e3o, no berro pela aten\u00e7\u00e3o, nos exageros evidentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que as pessoas tenham mudado tanto assim em t\u00e3o pouco tempo. E eu argumento que n\u00e3o mudaram. Como eu costumo dizer em v\u00e1rios outros aspectos, o ser humano \u00e9 basicamente o mesmo, mas hoje em dia a gente v\u00ea mais. E isso pode acontecer porque temos mais contatos mesmo, por mensagens, redes sociais e tudo mais; mas tamb\u00e9m pode ser resultado de uma \u201cclickbaitiza\u00e7\u00e3o\u201d da comunica\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O que acontece com quem \u00e9 impactado por mensagens extremamente apelativas o tempo todo? Como uma pessoa compete com a internet pela aten\u00e7\u00e3o dos seus pares? A minha impress\u00e3o \u00e9 que meio sem perceber, o cidad\u00e3o m\u00e9dio acompanhou a corrida armamentista por aten\u00e7\u00e3o que acontecia na m\u00eddia mais popular do mundo. A internet virava um territ\u00f3rio de berros, e quanto mais ela se intromete nas nossas vidas, mais barulho faz mesmo com a autofalante desligado.<\/p>\n<p>N\u00f3s que temos acesso constante \u00e0 internet, e hoje em dia esse grupo \u00e9 a maioria (mesmo que indiretamente no caso de pessoas mais pobres), estamos sendo cozinhados lentamente nessa panela de sensacionalismo. N\u00e3o existe fen\u00f4meno isolado: se as pessoas aprendem que um tipo de comunica\u00e7\u00e3o funciona no lugar X, pode ter certeza que come\u00e7am a aplic\u00e1-la no lugar Y. Sim, eu sei que pessoas normais ainda falam como pessoas normais em v\u00e1rios lugares, mas os descompensados come\u00e7aram a falar mais alto.<\/p>\n<p>E digo mais: a nossa toler\u00e2ncia com os descompensados foi subindo nesse meio tempo. Voc\u00ea v\u00ea a batalha campal das redes sociais e de repente aquela pessoa fazendo discurso aleat\u00f3rio no meio de uma conversa comum n\u00e3o parece mais t\u00e3o bizarro. E mais, voc\u00ea foi exposto ao assunto uma vez ou outra, normalmente de forma caricata e apelativa. Sem querer j\u00e1 entrou na mente aquele tom exagerado, e discutir alguma coisa nesse n\u00edvel de baixaria n\u00e3o registra mais como uma quebra de padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou, num resumo do argumento: tem cada vez mais gente fazendo clickbait em conversas offline. Novamente usando o presidente como exemplo: Bolsonaro falava as mesmas coisas que fala agora h\u00e1 d\u00e9cadas, mas foi s\u00f3 na era do clickbait que ele come\u00e7ou realmente a ser ouvido. Servia para um grupinho dele que garantia vaga no Congresso, mas o discurso funcionou muito bem para o resto do povo quando as pessoas j\u00e1 estavam acostumadas com essa forma de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O clickbait como forma de comunica\u00e7\u00e3o ficou popular. E como em todas as formas de apela\u00e7\u00e3o, rapidamente ele come\u00e7a a sair de controle. Fazer um filme porn\u00f4 \u00e9 impactante; fazer dez \u00e9 ter um emprego. E a\u00ed, se voc\u00ea quiser continuar atraindo aten\u00e7\u00e3o das pessoas, tem que come\u00e7ar a exagerar mais e mais, at\u00e9 um ponto onde pode ser que n\u00e3o tenha mais pra onde ir s\u00f3 na fala. \u00c9 quando as pessoas come\u00e7am a se colocar em risco real.<\/p>\n<p>Aqueles viciados em cirurgias pl\u00e1sticas normalmente s\u00e3o pessoas com necessidade patol\u00f3gica de aten\u00e7\u00e3o ficando cada vez mais sem ideias do que fazer. Virar um monstro pode ser uma solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o digo que sabem conscientemente que est\u00e3o ficando deformados para aparecer mais, mas que o inconsciente j\u00e1 fez a conex\u00e3o e est\u00e1 jogando para ganhar. O clickbait talvez seja a fase de incuba\u00e7\u00e3o dessa doen\u00e7a de necessidade de aten\u00e7\u00e3o. O primeiro sinal de que tem algo errado. E quando falo de clickbait, j\u00e1 \u00e9 a cren\u00e7a (err\u00f4nea) de que voc\u00ea s\u00f3 vai ter aten\u00e7\u00e3o se arrancar ela da outra pessoa.<\/p>\n<p>O clickbait de internet sabe que n\u00e3o tem muito para entregar. Normalmente \u00e9 um artigo vago que n\u00e3o responde pergunta alguma, est\u00e1 exagerando os benef\u00edcios ou malef\u00edcios de alguma coisa, est\u00e1 s\u00f3 tentando te vender algo sem comprova\u00e7\u00e3o de funcionamento&#8230; faz parte do jogo deles apostar todas as fichas no superficial para aparecer. Quando isso chega nas pessoas, podemos tra\u00e7ar alguns paralelos: quais s\u00e3o as pessoas que mais fazem esc\u00e2ndalo e se desesperam por aten\u00e7\u00e3o? Crian\u00e7as e adultos sem muitas qualidades. Gente que n\u00e3o tem seguran\u00e7a para se valorizar. No caso das crian\u00e7as, compreens\u00edvel; no caso dos adultos&#8230; uma tristeza.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se as pessoas est\u00e3o ficando mais sem gra\u00e7a ou se as expectativas s\u00e3o irreais na cabe\u00e7a das pessoas. Eu tendo a acreditar mais na segunda op\u00e7\u00e3o: com tanta vida \u201cfabricada\u201d em redes sociais e m\u00eddia que se baseia nelas, \u00e9 poss\u00edvel que muita gente comece a achar que uma vida que n\u00e3o rende um post bacana de Instagram por dia n\u00e3o \u00e9 uma vida bem vivida. Talvez esse senso coletivo de inadequa\u00e7\u00e3o incentive tantos a radicalizar no clickbait como filosofia de vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa o que tem de verdade ali, importa \u00e9 chamar aten\u00e7\u00e3o para conseguir o clique. Mas a\u00ed, percebemos uma crueldade do sistema: ningu\u00e9m gosta de ser enganado pelo clickbait. Ou a pessoa se convence que aquilo ali \u00e9 valioso para n\u00e3o achar que perdeu seu tempo, ou desconta sua frustra\u00e7\u00e3o em quem desperdi\u00e7ou sua aten\u00e7\u00e3o. Num an\u00fancio mequetrefe de internet, a pessoa n\u00e3o tem onde aplicar esses sentimentos, mas numa pessoa que se transformou em clickbait&#8230; a\u00ed sim.<\/p>\n<p>E a\u00ed temos tanta gente ficando doente da cabe\u00e7a por causa do feedback da internet. Ou entram na pilha que tem que ser perfeitos para dar conta das expectativas rid\u00edculas de seus seguidores, ficando cada vez mais ansiosos e inseguros; ou s\u00e3o atropelados por cr\u00edticas e rejei\u00e7\u00e3o de quem estava se esfor\u00e7ando para agradar. Ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. Ver muita gente te criticando d\u00f3i em qualquer mente, mas \u00e9 especialmente perigoso se voc\u00ea colocou na cabe\u00e7a que tem que ser um clickbait ambulante. Sua autoestima est\u00e1 desprotegida no meio do tiroteio.<\/p>\n<p>Quando a gente fala de saber se preservar, n\u00e3o \u00e9 papo de velho com saudades do mundo antes da internet ou paranoia de quem se acha muito importante, \u00e9 um aviso sobre sa\u00fade mental. \u00c9 muito bom poder \u201csair da internet\u201d quando quiser, baixar a poeira e lembrar que s\u00e3o s\u00f3 macacos pelados do outro lado da tela. Quanto mais voc\u00ea deixa a mentalidade do clickbait assumir o controle, mais est\u00e1 se colocando em posi\u00e7\u00e3o de risco. E na maioria dos casos, n\u00e3o tem compensa\u00e7\u00e3o financeira nisso. A pessoa faz clickbait sem ganhar dinheiro, s\u00f3 para chamar aten\u00e7\u00e3o. E s\u00f3 chama aten\u00e7\u00e3o porque foi enganada pela sociedade p\u00f3s-internet que precisa disso para ser v\u00e1lida. N\u00e3o precisa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m precisa de clickbait para ter uma vida boa. Voc\u00ea pode escolher usar a t\u00e1tica \u00e0s vezes, \u00e9 claro, mas sem nunca deixar ela se infiltrar no seu senso de valor pessoal. Crescer \u00e9 aprender que n\u00e3o precisa fazer tanto esc\u00e2ndalo assim para ter o que quer, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o sabe se o t\u00edtulo foi clickbait, para dizer que estava com saudade de ser pego(a) de surpresa pelo rumo do texto, ou mesmo para dizer que quem precisa ler isso n\u00e3o consegue ler isso: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a Era da Informa\u00e7\u00e3o, surgiram v\u00e1rias palavras novas no vocabul\u00e1rio do cidad\u00e3o m\u00e9dio. Clickbait \u00e9 uma delas. Eu defino como um incentivo (honesto ou n\u00e3o) para que uma pessoa clique num link da internet. 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