{"id":19061,"date":"2021-10-19T11:42:28","date_gmt":"2021-10-19T14:42:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19061"},"modified":"2021-10-22T17:43:26","modified_gmt":"2021-10-22T20:43:26","slug":"sindrome-das-pernas-inquietas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/10\/sindrome-das-pernas-inquietas\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome das Pernas Inquietas"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 sentiu uma necessidade incontrol\u00e1vel de mexer as pernas? Uma agonia, formigamento, arrepio, pontada ou at\u00e9 dor que te cause uma urg\u00eancia em movimentar os membros inferiores? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 loucura da sua cabe\u00e7a, isso existe e tem um nome: S\u00edndrome das Pernas Inquietas, ou, SPI para os \u00edntimos.<!--more--><\/p>\n<p>A pessoa sentir uma necessidade incontrol\u00e1vel de mexeras pernas? Bem, disso obtemos duas rea\u00e7\u00f5es: 1) quem n\u00e3o \u00e9 portador dessa s\u00edndrome diz \u201cu\u00e9, isso existe?\u201d e 2) quem \u00e9 portador dessa s\u00edndrome diz \u201cu\u00e9, mas n\u00e3o \u00e9 todo mundo que sente isso?\u201d. Sim, isso existe. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 todo mundo que sente isso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chamada de Doen\u00e7a de  Willis-Ekbom, a S\u00edndrome das Pernas Inquietas se caracteriza por quatro sintomas b\u00e1sicos: 1) Alguma sensa\u00e7\u00e3o de desconforto que leva a pessoa a precisar movimentar as pernas; 2) Al\u00edvio desse desconforto (ainda que parcial) depois que se movimentam as pernas; 3) Piora dos sintomas quando a pessoa est\u00e1 sentada ou deitada em repouso e 4) Piora dos sintomas no final do dia ou \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Estima-se que 7% da popula\u00e7\u00e3o brasileira sofra de algum grau desta s\u00edndrome, por\u00e9m poucos recebem um diagn\u00f3stico, ent\u00e3o, provavelmente s\u00e3o mais. D\u00e1 para dizer com tranquilidade que pelo menos 10% da popula\u00e7\u00e3o brasileira tem SPI, diagnosticada ou n\u00e3o. \u00c9 muita gente.<\/p>\n<p>Como, via de regra, n\u00e3o \u00e9 algo incapacitante, nem sempre a pessoa procura por um m\u00e9dico, muitas vezes por achar que \u00e9 apenas sinal de pressa, ansiedade ou por medo de ser tachado de maluco ou ser ridicularizado. Assim, o portador de SPI acaba se virando sozinho e criando mecanismos para viver com ela. <\/p>\n<p>Se j\u00e1 \u00e9 ruim para um adulto, \u00e9 pior ainda para crian\u00e7as.  Normalmente, quando uma crian\u00e7a descreve essa sensa\u00e7\u00e3o aos seus pais, ningu\u00e9m d\u00e1 muita bola. Os pais costumam atribuir essa urg\u00eancia em mexer as pernas \u00e0 indisciplina, acham que \u00e9 uma crian\u00e7a \u201cinquieta\u201d que n\u00e3o obedece e, em vez de ajudar, brigam.<\/p>\n<p>Como a S\u00edndrome se manifesta quando a pessoa est\u00e1 sentada ou em repouso, \u00e9 comum que as crian\u00e7as apresentem este sintoma quando s\u00e3o obrigadas a sentar para assistir aula, estudar ou fazer seu dever de casa. Quando a crian\u00e7a se levanta constantemente, muitos pais interpretam isso como uma desculpa para n\u00e3o estudar e, em vez de ajudar brigam. <\/p>\n<p>Este foi o motivo que me fez escrever o texto: levar informa\u00e7\u00e3o aos pais para que cada vez menos crian\u00e7as sejam for\u00e7adas a viver uma situa\u00e7\u00e3o desgastante e at\u00e9 de sofrimento. E esse sofrimento n\u00e3o ser\u00e1 apenas f\u00edsico.<\/p>\n<p>Se o seu filho alega que n\u00e3o consegue ficar sentado ou deitado, se ele demonstra uma necessidade frequente de mexer as pernas, em vez de brigar, leve ao m\u00e9dico. N\u00e3o apenas pela S\u00edndrome das Pernas Inquietas em si (que tem tratamento), mas pela autoestima da crian\u00e7a tamb\u00e9m: ser cobrada por algo que ela n\u00e3o pode dar (ficar sentada ou ficar quieta) gera ang\u00fastia, sensa\u00e7\u00e3o de incompet\u00eancia e medo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 brincadeira, os portadores dessa S\u00edndrome de fato sentem um desconforto incapacitante e uma urg\u00eancia incontrol\u00e1vel em mexer as pernas. Pode soar absurdo para quem n\u00e3o passa por isso, mas \u00e9 algo real, cientificamente comprovado e reconhecido pela medicina. Ent\u00e3o, n\u00e3o se resolve gritando, brigando ou mandando parar. Est\u00e1 al\u00e9m da for\u00e7a de vontade. Se resolve com tratamento.<\/p>\n<p>E quando eu falo sobre crian\u00e7as, n\u00e3o quer dizer que esta S\u00edndrome n\u00e3o possa se manifestar em adultos. Muitas pessoas desenvolvem esse problema ap\u00f3s os 45 anos. Ele \u00e9 mais comum e mulheres do que em homens, mas todos n\u00f3s podemos enfrentar essa S\u00edndrome um dia, por isso, o texto \u00e9 informa\u00e7\u00e3o v\u00e1lida para todos: se um dia acontecer com voc\u00ea, as informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o aqui.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil explicar para quem n\u00e3o passa por isso, eu mesma demorei bastante a entender o que se sente. Basicamente, manter as pernas em repouso causa uma agonia progressiva e insuport\u00e1vel, que \u00e9 traduzida como diferentes est\u00edmulos por cada portador desta s\u00edndrome: ang\u00fastia, sensa\u00e7\u00e3o de agonia, formigamento, inquieta\u00e7\u00e3o, dor, pontadas, arrepios, desconforto, desespero, sensa\u00e7\u00e3o de que o m\u00fasculo vai se atrofiar ou se desfazer se n\u00e3o for movimentado ou de que existem insetos caminhando pelas pernas.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa o nome que se d\u00ea a essa agonia, o fato \u00e9 que ela gera uma urg\u00eancia em mexer as pernas, o que, dependendo do grau, pode ser bastante cansativo para seus portadores. Algumas pessoas relatam acordar no meio da noite pela necessidade de mover as pernas, algo que, sem d\u00favidas, prejudica o sono e o descanso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode dificultar muito a vida de quem precisa ficar parado por muito tempo, seja em uma sala de aula, seja em um teatro, seja em uma reuni\u00e3o de trabalho. Eventos rotineiros do dia a dia podem virar um verdadeiro desafio e fonte de estresse.<\/p>\n<p>Em casos mais severos, s\u00e3o observados movimentos das pernas mesmo durante o sono: chutes e outros movimentos involunt\u00e1rios que podem causar um transtorno para a vida do portador da s\u00edndrome e para quem convive ou dorme com eles. Nos piores casos tamb\u00e9m pode ocorrer a necessidade de mexer os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Vale lembrar que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que a pessoa sinta isso todo santo dia para que ela seja portadora da s\u00edndrome. H\u00e1 casos de pessoas que apresentam os sintomas algumas vezes por semana ou algumas vezes por m\u00eas, muitas vezes agravados por situa\u00e7\u00f5es de estresse. <\/p>\n<p>O determinante para procurar ajuda \u00e9: o quanto isso atrapalha sua vida? Voc\u00ea viveria melhor se n\u00e3o sentisse isso? Geralmente a resposta \u00e9 \u201csim\u201d, pois al\u00e9m de interferir em atividades rotineiras, este problema acaba perturbando o sono.<\/p>\n<p>E muitas vezes perturba o sono sem que a pessoa sequer perceba. Os movimentos, ainda que durante o sono, fazem com que a pessoa tenha os diferentes est\u00e1gios de sono interrompidos, ent\u00e3o, mesmo que durma, n\u00e3o \u00e9 um sono reparador. Os portadores dessa s\u00edndrome frequentemente reclamam de acordarem cansados, sonolentos e n\u00e3o sentirem descanso depois de dormir e n\u00e3o entendem o motivo.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe bem o que causa esta S\u00edndrome. Acredita-se que exista um componente gen\u00e9tico (sendo, portanto, heredit\u00e1ria), mas, al\u00e9m dele, \u00e9 poss\u00edvel identificar problemas de sa\u00fade relacionados, como a defici\u00eancia de ferro, ou comportamentos que possam estar ligados ao diagn\u00f3stico, como o abuso de medicamentos. A S\u00edndrome tamb\u00e9m foi associada a outras doen\u00e7as, como diabetes ou insufici\u00eancia renal.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m pode ser experimentada, de forma tempor\u00e1ria, por gestantes  (normalmente ela aparece no \u00faltimo trimestre e costuma desparecer depois do nascimento do beb\u00ea), em pessoas que est\u00e3o fazendo desintoxica\u00e7\u00e3o de alguns tipos de drogas ou pessoas que interrompam o uso de tranquilizantes ou rem\u00e9dios para dormir.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico deve ser feito por um m\u00e9dico. Pode ser um diagn\u00f3stico cl\u00ednico (apenas examinando o paciente) ou podem ser necess\u00e1rios alguns exames. Se voc\u00ea suspeita que possa ter S\u00edndrome das Pernas Inquietas, procure um m\u00e9dico. Muitas vezes a coisa se resolve (ou melhora muito) com um tratamento simples, como a suplementa\u00e7\u00e3o de ferro, por exemplo.<\/p>\n<p>Existem alguns fatores externos que contribuem para a piora dessa s\u00edndrome: consumo de cafe\u00edna, cigarro e \u00e1lcool causam uma piora vis\u00edvel no problema. Obesidade e estresse tamb\u00e9m influencia de forma negativa. Priva\u00e7\u00e3o de sono ou apneia do sono agravam o problema, mas a\u00ed se cria um c\u00edrculo vicioso: a pessoa n\u00e3o dorme bem por precisar mexer as pernas e o problema piora pelo fato da pessoa n\u00e3o dormir bem.<\/p>\n<p>Da mesma forma, existem fatores externos que ajudam a melhorar a qualidade de vida dos portadores: pr\u00e1tica regular de atividade f\u00edsica (sobretudo nos membros inferiores), banhos quentes ou compressas quentes (que relaxam os m\u00fasculos), qualquer pr\u00e1tica relaxante como yoga ou medita\u00e7\u00e3o e massagens nas pernas.<\/p>\n<p>Se, mesmo abolindo h\u00e1bitos que agravam o problema e adotando h\u00e1bitos que ajudam a atenu\u00e1-lo a vida continuar dif\u00edcil, o m\u00e9dico pode prescrever rem\u00e9dios que melhorem a condi\u00e7\u00e3o. O tratamento vai desde uma suplementa\u00e7\u00e3o com ferro at\u00e9 medicamentos mais fortes. Fazendo a sua parte, cultivando h\u00e1bitos saud\u00e1veis e tomando os rem\u00e9dios indicados, a condi\u00e7\u00e3o melhora muito. <\/p>\n<p>Outro fator importante \u00e9 estar atento \u00e0 medica\u00e7\u00e3o que o portador de SPI faz uso, pois alguns medicamentos podem desencadear a S\u00edndrome das Pernas Inquietas ou piorar a condi\u00e7\u00e3o (antipsic\u00f3ticos, antidepressivos, anti-histam\u00ednicos e antiem\u00e9ticos). <\/p>\n<p>Muitas vezes trocando estas medica\u00e7\u00f5es o problema se resolve, por isso, quando consultar um m\u00e9dico para falar sobre a SPI \u00e9 importante levar anotado todos os medicamentos dos quais o paciente faz uso regular.<\/p>\n<p>A S\u00edndrome das Pernas Inquietas \u00e9 uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, ou seja, por enquanto, ela n\u00e3o pode ser curada de forma definitiva, mas possui diversas op\u00e7\u00f5es de tratamento que s\u00e3o capazes de melhorar ou at\u00e9 fazer desaparecer os sintomas, garantindo qualidade de vida a seus portadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um problema de sa\u00fade que gere consequ\u00eancias graves ao corpo, uma vez que ele n\u00e3o gera incapacidade ou morte, mas pode sim gerar danos \u00e0 qualidade de vida e \u00e0 autoestima do portador. E isso \u00e9 algo que precisa ser desmistificado: uma doen\u00e7a n\u00e3o deixa de ser importante pelo fato de n\u00e3o ser letal.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m morre de SPI, mas a s\u00edndrome pode sim causar danos a seu portador, dificultando sua vida e fazendo com que este se sinta incapaz: ao n\u00e3o dormir direito ou n\u00e3o conseguir se concentrar em tarefas quando est\u00e1 em repouso pode surgir um grau de estresse que pode desencadear outros problemas, como depress\u00e3o ou crises de ansiedade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o diagn\u00f3stico e tratamento s\u00e3o t\u00e3o importantes como o de qualquer outra doen\u00e7a, principalmente se a S\u00edndrome das Pernas Inquietas estiver dificultando sua vida de alguma forma. <\/p>\n<p>E, para terminar, repito a dica que sempre damos: nem todos os profissionais s\u00e3o bons profissionais, em qualquer \u00e1rea. Portanto, se voc\u00ea acha que tem SPI mas consultou um m\u00e9dico incapaz de diagnosticar, insista. V\u00e1 em outro, procure um segunda e terceira opini\u00e3o. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, mesmo para m\u00e9dicos essa doen\u00e7a \u00e9 pouco conhecida.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea \u00e9 portador de S\u00edndrome das Pernas Inquietas e estava sem diagn\u00f3stico at\u00e9 agora, \u00e9 importante que entenda que n\u00e3o \u00e9 culpa sua e n\u00e3o \u00e9 falta de for\u00e7a de vontade: \u00e9 algo que precisa de tratamento para melhorar. E por mais que voc\u00ea tenha descoberto isso um pouco \u201ctarde\u201d, que bom que descobriu. Daqui pra frente voc\u00ea ter\u00e1 a oportunidade de melhorar muito sua qualidade de vida!<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para duvidar que isso exista, para dizer que prefere balan\u00e7ar as pernas o dia todo a ficar sem caf\u00e9, nicotina e \u00e1lcool ou ainda para dizer que achava que balan\u00e7ar a perna o dia todo era normal: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 sentiu uma necessidade incontrol\u00e1vel de mexer as pernas? Uma agonia, formigamento, arrepio, pontada ou at\u00e9 dor que te cause uma urg\u00eancia em movimentar os membros inferiores? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 loucura da sua cabe\u00e7a, isso existe e tem um nome: S\u00edndrome das Pernas Inquietas, ou, SPI para os \u00edntimos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19062,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-19061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-explica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19061\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}