{"id":19155,"date":"2021-11-12T13:14:21","date_gmt":"2021-11-12T16:14:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19155"},"modified":"2021-11-12T13:14:41","modified_gmt":"2021-11-12T16:14:41","slug":"aprendendo-a-errar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/11\/aprendendo-a-errar\/","title":{"rendered":"Aprendendo a errar."},"content":{"rendered":"<p>Errar \u00e9 humano. A frase \u00e9 um clich\u00ea, mas n\u00e3o o \u00e9 \u00e0 toa: descreve muito bem como \u00e9 imposs\u00edvel passar pela vida sem cometer erros. Sejam erros que voc\u00ea consegue perceber logo ap\u00f3s o acontecido, sejam erros que demoram d\u00e9cadas para registrar como tal. De uma forma ou de outra todo mundo sabe disso, mas na hora de lidar com o erro, quase todo mundo&#8230; erra de novo.<!--more--><\/p>\n<p>Eu inclu\u00eddo, \u00e9 claro. Lidar com seus erros n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia exata, e at\u00e9 voltando para a frase inicial do texto, n\u00e3o \u00e9 como se pud\u00e9ssemos acertar sempre. N\u00e3o escrevo este texto para te ensinar um jeito ideal de passar pela vida, at\u00e9 porque isso eu n\u00e3o sei tamb\u00e9m, mas para dividir um pouco do racioc\u00ednio e experi\u00eancia acumuladas at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Por mais que pare\u00e7a algo \u00f3bvio, reconhecer um erro passa longe de ser um processo simples. Talvez a maior li\u00e7\u00e3o que eu tenha tirado dos meus anos de vida seja a de diferenciar as coisas entre o que voc\u00ea tinha capacidade de fazer diferente e as que n\u00e3o tinha. Exemplo banal: uma crian\u00e7a que n\u00e3o foi ensinada a usar o banheiro n\u00e3o pode ter culpa de se sujar. De uma forma ou de outra, quase todo mundo entende essa ideia, mas ela tem ramifica\u00e7\u00f5es muito maiores.<\/p>\n<p>S\u00f3 erra quem sabe como n\u00e3o errar. Porque se voc\u00ea n\u00e3o tem as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para diferenciar resultados positivos e negativos de uma a\u00e7\u00e3o, como julgar essa a\u00e7\u00e3o? Eu peguei o exemplo da crian\u00e7a borrando as cal\u00e7as porque muitos dos problemas que a maioria dos adultos tem com os erros que cometem vem da ilus\u00e3o que se tornar adulto termina o processo de aprendizado.<\/p>\n<p>Adultos perdoam crian\u00e7as por erros, mas mais importante: crian\u00e7as se perdoam por seus erros. O adulto tem a no\u00e7\u00e3o bem mais clara que a crian\u00e7a n\u00e3o tinha ferramentas para fazer melhor, e a crian\u00e7a ainda n\u00e3o tem essa expectativa irreal que sabe tudo o que fazer. Um dos maiores problemas dos jovens que come\u00e7am a lidar com a vida adulta \u00e9 essa confus\u00e3o sobre o que deveriam ou n\u00e3o deveriam saber.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que esse conjunto ideal de informa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias n\u00e3o existe na pr\u00e1tica. Quando voc\u00ea completa 18 anos de idade, a lei passa a te tratar como adulto, esteja voc\u00ea pronto ou n\u00e3o. Spoiler: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1. Mas tinha que ter um n\u00famero exato por tecnicalidade legal e escolheram um que parecia razo\u00e1vel. Seja como for, o ponto aqui \u00e9 que se a gente parar para pensar mesmo, n\u00e3o \u00e9 como se existisse um ponto m\u00e1gico no tempo em que a pessoa come\u00e7a a ter no\u00e7\u00e3o real de tudo o que faz.<\/p>\n<p>Errar \u00e9 t\u00e3o humano que voc\u00ea consegue errar do primeiro momento que \u00e9 capaz de fazer uma escolha at\u00e9 o \u00faltimo. Percebam que estamos falando de erros at\u00e9 aqui, mas n\u00e3o definimos o que configura um erro: presume-se que voc\u00ea entenda claramente o que \u00e9 errar, mas ser\u00e1 que entende mesmo? Se voc\u00ea tivesse que descrever isso para uma crian\u00e7a, como falaria?<\/p>\n<p>Eu tentaria dizer que errar \u00e9 escolher o que faz mal para voc\u00ea ou para as pessoas com as quais voc\u00ea se importa. Iria por esse \u00e2ngulo porque o ser humano tem uma b\u00fassola interna: recompensas cerebrais. Algumas coisas fazem seu c\u00e9rebro soltar subst\u00e2ncias que te agradam, algumas coisas fazem o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas e a\u00ed, ser\u00e1 que s\u00f3 essa ideia hedonista d\u00e1 conta do recado? Buscar boas sensa\u00e7\u00f5es pode te deixar viciado e\/ou te colocar em situa\u00e7\u00f5es terr\u00edveis. Se a crian\u00e7a internalizar que o certo \u00e9 se sentir bem e pronto, vai comer doce at\u00e9 ter dor de barriga. E depois pode virar um adulto drogado ou prom\u00edscuo. Eu at\u00e9 coloquei algo sobre as pessoas com as quais a crian\u00e7a se importa para lembr\u00e1-la que a vida humana depende de socializa\u00e7\u00e3o, e temos que manter outras pessoas felizes tamb\u00e9m; mas existem v\u00e1rias formas de subverter esse pensamento. Formas que uma crian\u00e7a pode at\u00e9 n\u00e3o conseguir pensar naquele momento, mas que um adulto consegue rapidamente.<\/p>\n<p>Percebem como o papo pode come\u00e7ar a ficar filos\u00f3fico rapidamente? O que \u00e9 certo? O que faz bem? O que \u00e9 verdade? S\u00e3o v\u00e1rias ideias extremamente complexas que a maioria de n\u00f3s define uma vez durante a cria\u00e7\u00e3o e depois toca a vida toda comparando nosso estado atual com elas. E isso, curiosamente, \u00e9 um erro. Sua no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 certo ou errado tem que evoluir com o passar dos anos, sen\u00e3o voc\u00ea vai acabar sendo uma crian\u00e7a vivendo num mundo de adultos. E isso \u00e9 receita de sofrimento.<\/p>\n<p>Ter essa no\u00e7\u00e3o infantilizada do que \u00e9 certo ou errado \u00e9 comum o suficiente para que a maioria de n\u00f3s nunca perceba o problema. Faltam exemplos ao nosso redor e raramente algu\u00e9m aborda o tema. Vai dizer que voc\u00ea n\u00e3o se frustra constantemente com outras pessoas tendo comportamentos infantis? Teimar com algo obviamente ineficiente, rea\u00e7\u00f5es exageradas ao menor sinal de problema, ignor\u00e2ncia inexplic\u00e1vel sobre algo que parece \u00f3bvio&#8230; a lista vai longe. Sem querer fazer um tratado sobre a humanidade como um todo, mas j\u00e1 fazendo: quase todo problema de relacionamento (de todos os tipos) pode ser tra\u00e7ado de volta a um comportamento que n\u00e3o esperar\u00edamos de um adulto.<\/p>\n<p>E olha a sutileza da quest\u00e3o: o que achamos que um adulto deveria saber? O que n\u00f3s sabemos. \u00d3bvio, n\u00e3o d\u00e1 para cobrar do outro o que nem sabemos que existe. \u00c9 inescap\u00e1vel olhar para o mundo com os nossos olhos e nossa experi\u00eancia. Sempre vamos nos comparar ao outro, porque \u00e9 o \u00fanico par\u00e2metro que temos. Se voc\u00ea sabe como fazer uma coisa do jeito certo, do jeito que acredita ser certo, pelo menos, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o presumir que o outro seja capaz tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00f3 que muitas vezes, o outro n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o sabe o que voc\u00ea sabe, e pior, por isso n\u00e3o consegue tomar decis\u00f5es que sejam compreens\u00edveis para voc\u00ea. E eu n\u00e3o digo isso para te tornar infinitamente compreensivo(a): eu confio que a escolha certa \u00e9 ter padr\u00f5es b\u00e1sicos de compatibilidade com as pessoas com as quais voc\u00ea convive. Se voc\u00ea n\u00e3o quer estar por perto de algu\u00e9m com a intelig\u00eancia emocional de uma ameba, faz muito sentido. Se voc\u00ea n\u00e3o quer conversar com gente cuja cultura \u00e9 muito diferente da sua, tudo bem. Se voc\u00ea acha que o senso \u00e9tico da pessoa \u00e9 minimamente question\u00e1vel, acho v\u00e1lido que voc\u00ea n\u00e3o deixe se aproximar. Mas tudo isso tem que ser feito de forma consciente.<\/p>\n<p>De uma certa forma, a no\u00e7\u00e3o do que configura errar \u00e9 a melhor m\u00e9trica para testar a compatibilidade entre duas ou mais pessoas. Essa no\u00e7\u00e3o nasce do conjunto de experi\u00eancias e aprendizados de uma pessoa, est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 personalidade dela. Arrisco dizer que o culpado por rela\u00e7\u00f5es ruins na sua vida est\u00e1 nessa diferen\u00e7a b\u00e1sica entre o que \u00e9 um erro e o que \u00e9 um acerto. A pessoa que n\u00e3o entende um comportamento como errado que voc\u00ea acha errado vai fazer isso repetidas vezes se voc\u00ea n\u00e3o conseguir colocar na cabe\u00e7a dela que aquilo \u00e9 um erro, ou mesmo se ela n\u00e3o conseguir te convencer de que n\u00e3o \u00e9 um erro.<\/p>\n<p>A vida humana \u00e9 t\u00e3o cheia de vari\u00e1veis e nuances que pode ser que esse acordo sobre certo e errado nunca chegue. E digo mais, muitas vezes ele n\u00e3o chega e as pessoas insistem em continuar uma rela\u00e7\u00e3o (pode ser amorosa, amizade ou mesmo de neg\u00f3cios) que n\u00e3o faz bem para nenhuma das partes.<\/p>\n<p>Como eu dizia antes, muito do que se considera errado \u00e9 tatuado na cabe\u00e7a durante a cria\u00e7\u00e3o e dificilmente \u00e9 modificado depois disso. Esse \u00e9 um passo mais avan\u00e7ado nesse processo: de tempos em tempos faz bem observar o que voc\u00ea acha certo ou errado para saber se com o seu conhecimento e experi\u00eancias atuais ainda pensa igual. Porque as pessoas t\u00eam fases tamb\u00e9m. N\u00e3o s\u00f3 fases da experi\u00eancia de vida que vai se acumulando, como fases muito mais passageiras baseadas em situa\u00e7\u00f5es pontuais da vida.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode ter conhecido algu\u00e9m que combinava muito bem enquanto sua mente estava aceitando alguns erros a mais e depois ver que n\u00e3o funcionava mais quando voc\u00ea voltou \u00e0 sua m\u00e9dia. Se voc\u00ea entra numa fase porra-louca e come\u00e7a a beber sem parar para se anestesiar, pessoas que n\u00e3o tem freios para seus v\u00edcios n\u00e3o te parecem t\u00e3o erradas. Mas se essa fase passa e voc\u00ea quer se estruturar novamente, elas voltam a te incomodar. A Sally me disse uma vez que achava que casamento deveria ser um contrato com prazo que precisa de renova\u00e7\u00e3o, eu achei a ideia excelente: dada a natureza humana, algumas coisas funcionam por tempo limitado. Ningu\u00e9m sabe como vai estar amanh\u00e3, e at\u00e9 mesmo a sua no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 certo ou errado pode variar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o estou sendo incoerente? Eu disse que nossa ideia de certo e errado \u00e9 mut\u00e1vel, mas ao mesmo tempo disse que se forma cedo e nunca mais \u00e9 questionada&#8230; as duas coisas n\u00e3o podem ser verdade, certo? Pois bem, \u00e9 a\u00ed que entra o inconsciente, a maior parte da sua mente que n\u00e3o fica disposta claramente para voc\u00ea. As coisas podem coexistir sim, mas elas geram sofrimento quando combinadas. Eu nunca disse que era uma coisa boa&#8230;<\/p>\n<p>O perigo aqui \u00e9 ter racionalizado um senso de certo e errado desenvolvido por uma crian\u00e7a (que n\u00e3o tem capacidade para fazer isso) e no irracional, todas as trilh\u00f5es de mudan\u00e7as que viver sua vida gera. As coisas param de funcionar: voc\u00ea come\u00e7a a comparar algo que sente com algo que pensa, e as duas coisas n\u00e3o fazem mais sentido nenhum. Oras, \u00e9 claro que n\u00e3o fazem sentido, \u00e9 como querer que um papiro eg\u00edpcio funcione no seu celular. S\u00e3o coisas criadas em eras diferentes. Sua ideia de certo e errado provavelmente est\u00e1 travada em algum ponto passado distante, e sua intui\u00e7\u00e3o de certo e errado atualiza a cada intera\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando eu escrevo um texto falando sobre como lidar com erros, eu n\u00e3o estou falando de uma f\u00f3rmula, eu estou falando de ir buscar essa racionaliza\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fatalmente tem e comparar ela com o que voc\u00ea realmente sente sobre o assunto. Ser\u00e1 que \u00e9 um erro mesmo? Ser\u00e1 que hoje em dia voc\u00ea se perdoa por aquilo? Ser\u00e1 que se fosse outra pessoa errando e voc\u00ea s\u00f3 estivesse reagindo, ficaria t\u00e3o incomodado?<\/p>\n<p>Ou, ao contr\u00e1rio: ser\u00e1 que voc\u00ea realmente acha certo fazer o que est\u00e1 fazendo? Crian\u00e7a \u00e9 um bicho ego\u00edsta por natureza, falta no\u00e7\u00e3o do outro ainda. Se seu senso racional do que \u00e9 certo ainda est\u00e1 na inf\u00e2ncia, existe um risco consider\u00e1vel dele ser mais ego\u00edsta do que voc\u00ea gostaria de ser. E \u00e9 claro, seu eu infantil n\u00e3o sabia quase nada sobre o mundo, sobre as dificuldades da vida adulta, sobre como tanta coisa pode ser relativa&#8230;<\/p>\n<p>Mais do que se perdoar, aprender com o erro e seguir em frente, \u00e9 importante saber tamb\u00e9m o que voc\u00ea realmente considera errar. Porque perceber o erro \u00e9 um avan\u00e7o, e deixar de considerar erro o que n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m. Tanto que eu at\u00e9 vou mudar de ideia sobre como explicar um erro para uma crian\u00e7a:<\/p>\n<p>\u201cErrar \u00e9 aprender um jeito melhor de fazer as coisas.\u201d<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu errei ao escrever o texto, para dizer que eu devo ter feito uma merda muito grande (n\u00e3o, erro n\u00e3o tem hora), ou mesmo para dizer que queria um guia e se decepcionou: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Errar \u00e9 humano. A frase \u00e9 um clich\u00ea, mas n\u00e3o o \u00e9 \u00e0 toa: descreve muito bem como \u00e9 imposs\u00edvel passar pela vida sem cometer erros. Sejam erros que voc\u00ea consegue perceber logo ap\u00f3s o acontecido, sejam erros que demoram d\u00e9cadas para registrar como tal. 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