{"id":19175,"date":"2021-11-17T13:19:03","date_gmt":"2021-11-17T16:19:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19175"},"modified":"2021-11-17T13:19:03","modified_gmt":"2021-11-17T16:19:03","slug":"a-armadilha-da-mediocridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/11\/a-armadilha-da-mediocridade\/","title":{"rendered":"A armadilha da mediocridade."},"content":{"rendered":"<p>Eu pincelei o tema no Desfavor da Semana, mas agora eu quero desenvolv\u00ea-lo melhor: existe uma esp\u00e9cie de armadilha l\u00f3gica no desenvolvimento intelectual de uma pessoa. Um ponto m\u00e9dio entre ignor\u00e2ncia e conhecimento aprofundado que pode fazer com que qualquer um de n\u00f3s tenha ideias absolutamente bizarras sobre a realidade. Como voc\u00ea j\u00e1 viu pelo t\u00edtulo, eu a chamo de armadilha da mediocridade.<!--more--><\/p>\n<p>Tentando explicar de forma simples, a armadilha da mediocridade \u00e9 aquele momento em que voc\u00ea acha que entendeu um assunto, mas na verdade n\u00e3o entendeu. Uma pessoa totalmente ignorante est\u00e1 protegida dela, uma pessoa que se especializou no assunto tamb\u00e9m, mas provavelmente a maioria das pessoas n\u00e3o est\u00e1 nem numa categoria, nem na outra. E por isso, extremamente vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Argumento que achar que entendeu uma coisa \u00e9 mais perigoso do que n\u00e3o entender nada. O ser humano tem uma s\u00e9rie de instintos de autoprote\u00e7\u00e3o que agem em forma de medo, ansiedade, agressividade e tantos outros sentimentos desconfort\u00e1veis. Na falta de informa\u00e7\u00f5es, os instintos assumem. E por mais que eles tenham seu grau de risco, geralmente s\u00e3o baseados em sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Usando o exemplo da vacina: na falta de qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre a vacina, a pessoa vai voltar para o instinto de imita\u00e7\u00e3o do bando. Se todo mundo estiver tomando a vacina, a pessoa vai tamb\u00e9m. Fazer o que o resto da sua tribo ou grupo familiar faz normalmente significa estar mais protegido e n\u00e3o tem consequ\u00eancias negativas. Tribos suicidas n\u00e3o passaram seus genes pra frente.<\/p>\n<p>Agora, se a pessoa tem uma informa\u00e7\u00e3o negativa sobre a vacina, o intelectual come\u00e7a a peitar o instinto. O que por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 negativo, muito do que conquistamos como esp\u00e9cie est\u00e1 ligado com a nega\u00e7\u00e3o do instinto em prol de ideias que consideramos melhores, seja para n\u00f3s mesmos, seja para o grupo. Tribos que usaram o intelecto para suprimir o instinto e acertaram passaram seus genes pra frente.<\/p>\n<p>Estou argumentando que \u00e9 melhor que as pessoas sejam ignorantes e fiquem somente com seus instintos? Claro que n\u00e3o. Conhecimento \u00e9 poder! Mas&#8230; \u00e9 importante saber que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto ler uma manchete aleat\u00f3ria. Informa\u00e7\u00e3o sem sustenta\u00e7\u00e3o gera resultados aleat\u00f3rios na cabe\u00e7a. Esse \u00e9 o perigo: o ser humano precisa ser minimamente previs\u00edvel na sua compreens\u00e3o do mundo para que possamos avan\u00e7ar rumo a um futuro melhor.<\/p>\n<p>A armadilha da mediocridade \u00e9 especialmente perigosa quando se manifesta em temas que exigem coopera\u00e7\u00e3o humana. Sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 o exemplo da vez por causa da pandemia, mas basta olhar qualquer rede social para perceber como o discurso pol\u00edtico se esvai em certezas bizarras por todos os lados. N\u00e3o h\u00e1 campo comum porque os que ainda s\u00e3o ignorantes mudam de lado cem vezes na mesma discuss\u00e3o, os medianos est\u00e3o raivosos com as certezas que acabaram de descobrir que tem, e os estudados n\u00e3o sabem como conversar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>E s\u00e3o todos resultados esperados pelo n\u00edvel de conhecimento. Quem n\u00e3o sabe usa o instinto para seguir o bando que acha mais forte, quem sabe um pouco se sente validado pelos que n\u00e3o sabem, e os que se aprofundaram n\u00e3o sabem nem por onde come\u00e7ar a explicar para os outros. \u00c9 muito dif\u00edcil explicar uma ideia complexa para outro ser humano, muito mais quando ela depende de v\u00e1rias bases diferentes para come\u00e7ar a fazer algum sentido.<\/p>\n<p>Antes da cultura de internet estar estabelecida, o acometido pela armadilha da mediocridade n\u00e3o tinha plateia, e por tabela, n\u00e3o tinha incentivo pr\u00e1tico para continuar nessa fase. Ou se especializava para encontrar gente disposta a lhe dar aten\u00e7\u00e3o (o PhD em f\u00edsica n\u00e3o vai dar muita trela para quem acaba de aprender as leis da termodin\u00e2mica), e o ignorante n\u00e3o vai sequer dar a possibilidade de come\u00e7ar esse assunto em condi\u00e7\u00f5es normais de socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A armadilha da mediocridade se manifestava na forma de isolamento, a pessoa tinha que decidir para que lado iria: ou ia se aprofundar para ter acesso a especialistas, ou ia cansar do assunto por falta de est\u00edmulo externo. Lembrando que existem tantos campos de conhecimento poss\u00edveis que a chance de algu\u00e9m pr\u00f3ximo ter o mesmo interesse quase sempre era baix\u00edssima. Mas a humanidade avan\u00e7a para uma era de comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea e constante.<\/p>\n<p>E nessa era, a armadilha da mediocridade ganha uma nova cara: o refor\u00e7o externo. Se voc\u00ea \u00e9 med\u00edocre num tema, rapidamente encontra mais e mais pessoas no mesmo n\u00edvel para validar suas ideias. A pessoa n\u00e3o tem mais a necessidade de se aprofundar para discutir seu tema de interesse: n\u00e3o vai faltar companheiro de mediocridade com a internet.<\/p>\n<p>Importante: med\u00edocre \u00e9 apenas o que \u00e9 mediano, n\u00e3o \u00e9 bom ou ruim. Usamos a palavra errado no dia a dia, como se fosse algo negativo. Med\u00edocre no campo intelectual \u00e9 quem deu um passo al\u00e9m da ignor\u00e2ncia. O que \u00e9 positivo no saldo geral: queremos mais gente saindo da ignor\u00e2ncia. O que n\u00e3o podemos achar saud\u00e1vel \u00e9 que tanta gente fique presa nessa faixa med\u00edocre sem a menor no\u00e7\u00e3o de que o efeito Dunning-Kruger existe: pessoas com pouco conhecimento (mais maior que zero) sobre um tema tendem a achar que sabem muito mais do que realmente sabem.<\/p>\n<p>S\u00f3 com mais estudo que fica clara a quantidade de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para realmente entender daquilo. Com um mundo que isolava o med\u00edocre, essa percep\u00e7\u00e3o tinha mais chances de acontecer, mas no s\u00e9culo XXI, onde existem comunidades inteiras de med\u00edocres refor\u00e7ando uns as ideias do outro, o risco da pessoa nunca perceber quanta coisa falta para ela realmente entender do assunto \u00e9 alt\u00edssimo.<\/p>\n<p>Tem uma express\u00e3o da l\u00edngua inglesa que diz \u201cmisery loves company\u201d &#8211; numa tradu\u00e7\u00e3o bem livre \u201cdesgra\u00e7a adora ter companhia\u201d \u2013 que fala sobre como gente que se sente mal tende a despejar seus sentimentos ruins nos outros; e eu acredito que mediocridade tamb\u00e9m adora ter companhia. \u00c9 meio que instintivo: o ser humano que aprende algo fica empolgado com a ideia de ensinar para outras pessoas. Um dos instintos mais valiosos da nossa esp\u00e9cie! Mas ningu\u00e9m disse que a pessoa precisa ensinar algo bom. A recompensa cerebral vem ao ensinar informa\u00e7\u00e3o segura e ao ensinar informa\u00e7\u00e3o bizarra. A pessoa se sente bem n\u00e3o importa o que diga.<\/p>\n<p>O ignorante n\u00e3o tem informa\u00e7\u00e3o para dividir, o especialista tem muita e mal sabe como come\u00e7ar, agora&#8230; o med\u00edocre? Ele tem a informa\u00e7\u00e3o no tamanho ideal, e melhor ainda, maquiada para parecer mais atraente. O med\u00edocre pode jogar no mercado um produto informativo muito mais f\u00e1cil de consumir, porque como n\u00e3o tem aprofundamento, os grupos de pessoas presas na armadilha da mediocridade v\u00e3o testando milhares de formas de contar sua informa\u00e7\u00e3o limitada, at\u00e9 encontrar as melhores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o voa pela internet: foi selecionada para ser a mais eficiente. Mesmo que quem a desenvolva ou reproduza n\u00e3o tenham no\u00e7\u00e3o disso. O que \u00e9 mais interessante vai pra frente, porque os temas n\u00e3o avan\u00e7am na escala do conhecimento. Est\u00e3o sempre girando ao redor do mesmo eixo, rejeitando incongru\u00eancias e refor\u00e7ando argumentos agrad\u00e1veis para os impactados. Se a sua informa\u00e7\u00e3o tem um ponto fraco, \u00e9 s\u00f3 parar de falar dele e focar mais na parte que costuma deixar as pessoas mais impressionadas.<\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil montar um ex\u00e9rcito de conhecedores med\u00edocres com tempo livre para replicar uma ideia, \u00e9 quase imposs\u00edvel combater isso com especialistas. \u00c9 quest\u00e3o de n\u00fameros. No tempo que demora para fazer um texto desmentindo tr\u00eas boatos, s\u00e3o criados e divulgados outros dez. A hora do especialista \u00e9 disputada e cara. A hora do med\u00edocre \u00e9 abundante e gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>E vejam bem, \u00e9 importante ressaltar que falar besteira n\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstica obrigat\u00f3ria do med\u00edocre. Para boa parte dos textos que escrevemos aqui no Desfavor, Sally e eu somos med\u00edocres. \u00c0s vezes falamos besteiras? Sim, falamos. \u00c9 inescap\u00e1vel quando voc\u00ea n\u00e3o pode se dedicar muito ao material, mas na maioria das vezes, nos baseamos em conhecimento de gente que estudou muito e que n\u00e3o foi extensivamente questionada pela comunidade cient\u00edfica. Ou, se falamos algo que \u00e9 disputado, avisamos que \u00e9 disputado.<\/p>\n<p>Ser med\u00edocre n\u00e3o \u00e9 problema. Eu sou um especialista em mediocridade: sei um pouquinho sobre milhares de temas, mas se precisar aprofundar, eu dou um passo pra tr\u00e1s e vou escutar quem gastou tempo de verdade com o tema. A informa\u00e7\u00e3o que eu tenho e quero passar para voc\u00eas \u00e9 justamente essa: n\u00e3o precisa ter medo de ser med\u00edocre, quase sempre \u00e9 melhor que ser ignorante, mas precisa ter a clara no\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o de saber mais do que realmente sabe. Eu s\u00f3 tenho coragem de dar tantas opini\u00f5es aqui no Desfavor porque eu aprendi a ficar numa regi\u00e3o mais segura do conhecimento: pode fazer conex\u00f5es \u00e0 vontade, mas s\u00f3 afirme o que voc\u00ea tem condi\u00e7\u00f5es de defender com dados e opini\u00f5es de gente muito bem estudada.<\/p>\n<p>Acertar sempre \u00e9 imposs\u00edvel, at\u00e9 escrevi sobre isso semana passada, mas reduzir a quantidade de erros para um n\u00edvel razo\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 tarefa imposs\u00edvel. Muito pelo contr\u00e1rio: a internet ajuda demais nesse sentido. Bateu uma d\u00favida? Procure informa\u00e7\u00f5es. O que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 ficar preso num ciclo de mediocridade, escutando s\u00f3 gente que tem mais ou menos o mesmo n\u00edvel de conhecimento que voc\u00ea. Porque \u00e9 a\u00ed que as bizarrices que acabam infestando a mente dos ignorantes v\u00e3o se criando.<\/p>\n<p>A armadilha da mediocridade \u00e9 meio que um padr\u00e3o na vida, sempre que voc\u00ea se interessar um pouquinho por um tema, vai estar a um passo de cair nela. Toda jornada come\u00e7a com o primeiro passo e temos que passar por essa armadilha mesmo, mas idealmente com a plena no\u00e7\u00e3o que ela est\u00e1 l\u00e1. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 percebendo que falta MUITA coisa para aprender sobre qualquer tema que esteja interessado, voc\u00ea provavelmente caiu nessa armadilha. Sair \u00e9 f\u00e1cil se voc\u00ea souber onde est\u00e1: basta procurar material aprofundado e se perguntar honestamente se est\u00e1 entendendo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o estiver, sorria: voc\u00ea est\u00e1 no caminho certo. Se tudo o que voc\u00ea achar apenas estiver refor\u00e7ando o que j\u00e1 sabia, voc\u00ea est\u00e1 no meio da armadilha e n\u00e3o encontrou os especialistas ainda. Se sentir burro sobre um tema \u00e9 a melhor coisa que pode acontecer na jornada do aprendizado. \u00c9 quando voc\u00ea pode acreditar que est\u00e1 avan\u00e7ando. Se o seu tema de interesse estagnar, pule fora da armadilha.<\/p>\n<p>E se encontrar outras pessoas nesse lugar ruim, pelo menos sabe o que est\u00e1 acontecendo. A pessoa s\u00f3 sai desse buraco se quiser, mas ela precisa saber que est\u00e1 num buraco. Ajudar ou n\u00e3o \u00e9 prerrogativa sua, afinal, como eu acabo de dizer no texto todo: conhecimento \u00e9 poder. Poder \u00e9 escolher.<\/p>\n<p>E n\u00e3o tenha medo de ser med\u00edocre, tenha medo de se iludir que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que achou o texto mediano, para dizer que se sentiu mal lendo o texto (pode ser positivo), ou mesmo para dizer que eu j\u00e1 escrevi esse texto antes de forma mais confusa (todo dia eu fa\u00e7o isso): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu pincelei o tema no Desfavor da Semana, mas agora eu quero desenvolv\u00ea-lo melhor: existe uma esp\u00e9cie de armadilha l\u00f3gica no desenvolvimento intelectual de uma pessoa. Um ponto m\u00e9dio entre ignor\u00e2ncia e conhecimento aprofundado que pode fazer com que qualquer um de n\u00f3s tenha ideias absolutamente bizarras sobre a realidade. 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