{"id":19178,"date":"2021-11-18T12:00:53","date_gmt":"2021-11-18T15:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19178"},"modified":"2021-11-18T11:35:04","modified_gmt":"2021-11-18T14:35:04","slug":"vagalhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/11\/vagalhoes\/","title":{"rendered":"Vagalh\u00f5es."},"content":{"rendered":"<p>Depois do grande tsunami que atingiu a Indon\u00e9sia, no ano de 2004, o termo se popularizou e qualquer onda grande passou a ser chamada de \u201ctsunami\u201d. Por\u00e9m, al\u00e9m de ser incorreto tecnicamente, ainda \u00e9 injusto: existe uma onda muito mais perigosa e assustadora que a tsunami. Desfavor Explica: Vagalh\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>Vagalh\u00f5es s\u00e3o ondas muito grandes, mas que n\u00e3o surgem em decorr\u00eancia de um evento anormal, como \u00e9 o caso das tsunamis. Um terremoto, um meteoro que atinja a \u00e1gua ou um grande deslizamento, podem desencadear um tsunami. Um vagalh\u00e3o costuma ser causado por uma conflu\u00eancia de fatores normais, como correntes mar\u00edtimas e ventos, que se combinam de forma a criar uma \u00fanica onda gigante que destoa de todas as que vieram antes e de todas as que vir\u00e3o depois.<\/p>\n<p>No caso de tsunami, um fen\u00f4meno externo empurra a \u00e1gua em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 costa criando uma onda que vai aumentando progressivamente at\u00e9 atingir a terra. O Vagalh\u00e3o n\u00e3o. Ele se forma de uma hora para a outra, em uma localiza\u00e7\u00e3o limitada e dura muito pouco (n\u00e3o o suficiente para chegar \u00e0 costa). \u00c9 r\u00e1pido, \u00e9 do nada, \u00e9 imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cMas Sally, as ondas do mar t\u00eam oscila\u00e7\u00f5es de tamanho, isso \u00e9 normal\u201d. Sim. Em alto mar, por conta da oscila\u00e7\u00e3o natural das mar\u00e9s, uma em cada 23 ondula\u00e7\u00f5es tende a ter o dobro da altura das outras. S\u00f3 que normalmente isso significa uma varia\u00e7\u00e3o de cent\u00edmetros. Um Vagalh\u00e3o \u00e9 uma onda de mais de 20 metros, que destoa absurdamente de todas as demais.<\/p>\n<p>Justamente por n\u00e3o terem uma explica\u00e7\u00e3o vis\u00edvel ou compreendida, durante muito tempo os Vagalh\u00f5es foram considerados lendas, mitos, mentiras ou exageros. Inclusive pela ci\u00eancia, que, durante s\u00e9culos, insistiu em dizer que as ondas do mar seguiam um padr\u00e3o linear e n\u00e3o seria poss\u00edvel que uma onda, aleat\u00f3ria, destacada das demais, variasse tanto de tamanho. <\/p>\n<p>Para piorar, s\u00e3o fen\u00f4menos imprevis\u00edveis (n\u00e3o d\u00e1 para saber exatamente quando e onde v\u00e3o acontecer), s\u00e3o repentinos (de formam rapidamente) e s\u00e3o r\u00e1pidos (duram pouco tempo, \u00e9 uma \u00fanica onda que sobe, colapsa e some). Some-se a isso o fato de que dificilmente quem cruzava com um Vagalh\u00e3o sobrevivia para contar a hist\u00f3ria, ent\u00e3o, era quase imposs\u00edvel conseguir provas ou relatos.<\/p>\n<p>E, mesmo os poucos que sobreviviam, eram desacreditados. Em 1933, o navio militar americano USS Ramapo, navegava entre as Filipinas e os Estados Unidos quando percebeu a forma\u00e7\u00e3o repentina de uma onda muito, mas muito maior do que as outras. Manobraram o mais r\u00e1pido que podiam, para tentar subir na onda de frente (com a proa), pois, se estivessem de lado, a onda poderia virar o navio.<\/p>\n<p>Tiveram sorte, o barco n\u00e3o afundou e quem passou pelo Vagalh\u00e3o sobreviveu para contar a hist\u00f3ria. O problema \u00e9: n\u00e3o acreditaram. Na \u00e9poca, os instrumentos de navega\u00e7\u00e3o eram rudimentares demais para poder dimensionar o tamanho da onda, restou apenas o relato dos marinheiros, que afirmaram que o Vagalh\u00e3o era mais alto que o mastro do navio. O mastro do navio tinha 30 metros.<\/p>\n<p>Pelos c\u00e1lculos da tripula\u00e7\u00e3o do USS Ramapo, a onda que atingiu o navio tinha em torno de 34 metros de altura. Mas n\u00e3o tinham como provar. Rapidamente come\u00e7aram a ser desacreditados: muitos os chamaram de mentirosos, exagerados e at\u00e9 levantaram a hip\u00f3tese de que estavam todos b\u00eabados.<\/p>\n<p>S\u00f3 se passou a acreditar na exist\u00eancia de Vagalh\u00f5es em 1995, ap\u00f3s o caso da Plataforma de Draupner. Este caso tirou os Vagalh\u00f5es da categoria de \u201clendas\u201d e lhes garantiu um lugar no mundo real.<\/p>\n<p>Uma plataforma de petr\u00f3leo localizada em alto mal, nas proximidades da Noruega, chamada de Plataforma de Draupner,  foi atingida por um Vagalh\u00e3o. Como ela tinha um bom sistema de monitoramento, foi poss\u00edvel identificar uma onda que se formou totalmente fora do padr\u00e3o e atingiu a plataforma. Esta foi a primeira vez que um Vagalh\u00e3o foi detectado por um instrumento de medi\u00e7\u00e3o. Agora n\u00e3o tinha o que questionar, o fen\u00f4meno estava documentado.<\/p>\n<p>A onda recebeu o apelido de \u201cOnda do Ano Novo\u201d, pois se formou em 1\u00b0 de janeiro de 1955. O mar estava com ondas em um determinado padr\u00e3o de tamanho, at\u00e9 que, do nada, se formou uma onda com mais de 25 metros de altura, algo que equivaleria mais ou menos a um pr\u00e9dio de dez andares. <\/p>\n<p>O evento foi confirmado por uma leitura feita por um sensor a laser, por v\u00eddeo e fotografias, por imagens de sat\u00e9lite, por radares da superf\u00edcie do oceano, por sistemas de imagem de ondas est\u00e9reo, por transdutores de press\u00e3o no fundo do mar e por navios de pesquisa oceanogr\u00e1fica. Diante de tantas evid\u00eancias, cientistas tiveram que admitir que Vagalh\u00f5es existem.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 poss\u00edvel que apare\u00e7a uma onda absurdamente maior do que as demais e do nada. N\u00e3o \u00e9 progressivo. \u00c9 ondinha, ondinha, ondinha, ond\u00e3o de mais de 20 metros e ondinha, ondinha novamente. Por\u00e9m, n\u00e3o se preocupe, as chances de que voc\u00ea cruze com um Vagalh\u00e3o s\u00e3o muito, mas muito pequenas. Aproximadamente 0,0001%. Este texto n\u00e3o \u00e9 para te criar medo de viajar em navio, \u00e9 apenas para te contar que essas ondas existem, mas s\u00e3o muito raras.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatores podem ocasionar o surgimento de um Vagalh\u00e3o, mas s\u00e3o fatores que n\u00f3s n\u00e3o controlamos e \u00e0s vezes nem percebemos. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts at\u00e9 conseguiu desenvolver algoritmos para prever o surgimento de Vagalh\u00f5es, na inten\u00e7\u00e3o de alertar os navegantes, mas o estudo concluiu que a previs\u00e3o m\u00e1xima poss\u00edvel seria de apenas dois ou tr\u00eas minutos, ou seja, n\u00e3o ajuda muito. No relat\u00f3rio final eles ainda colocaram um adendo: \u201cno mar, \u00e9 preciso ser humilde\u201d. <\/p>\n<p>Considerando que \u00e9 algo que s\u00f3 foi documentado em 1995, \u00e9 compreens\u00edvel que ainda n\u00e3o se saiba muito bem de onde vem. Sabe-se que podem influenciar no surgimento de Vagalh\u00f5es (mas n\u00e3o se sabe muito bem como): vento (geralmente contr\u00e1rio \u00e0 dire\u00e7\u00e3o das ondas), correntes mar\u00edtimas (principalmente quando se forma uma corrente forte contr\u00e1ria \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de ondas), oscila\u00e7\u00f5es de temperatura e at\u00e9 de press\u00e3o. E, que fique claro: n\u00e3o \u00e9 preciso uma tempestade para que elas se formem. H\u00e1 casos de Vagalh\u00f5es que apareceram em meio a c\u00e9u azul e calmaria do mar: do nada, sobre um pared\u00e3o de \u00e1gua.<\/p>\n<p>De uma forma bem simplificada, o que costuma acontecer \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias ondas pequenas que acabam se transformando em uma onda muito grande. Alguma coisa faz com que v\u00e1rias ondinhas se acumulem e formem um ond\u00e3o: uma combina\u00e7\u00e3o errada das correntes mar\u00edtimas no fundo do oceano j\u00e1 basta. <\/p>\n<p>Para quem quiser aprofundar, \u00e9 poss\u00edvel entender como as ondas \u201cse juntam\u201d atrav\u00e9s da Equa\u00e7\u00e3o de Schr\u00f6dinger (aquele do gato), onde ele explica com um c\u00e1lculo como uma onda come\u00e7a a absorver a energia das ondas ao seu redor, se tornando muito maior do que elas. N\u00e3o vou aprofundar isso aqui, pois n\u00e3o seria did\u00e1tico, mas, para quem tem curiosidade, vale aprofundar.<\/p>\n<p>Vagalh\u00f5es s\u00e3o perigosos n\u00e3o apenas por terem for\u00e7a para virar um navio, eles tamb\u00e9m podem quebr\u00e1-lo ao meio ou destru\u00ed-lo por completo, dependendo da forma como a onda bata. Estima-se que ondas com mais de 30 metros possam chegar a uma for\u00e7a de mais de cem toneladas por metro quadrado quando batem em algo. Al\u00e9m disso, sua for\u00e7a de suc\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande que, quando a onda est\u00e1 \u201csubindo\u201d pode sugar o navio como se fosse uma canoa.<\/p>\n<p>Para piorar, n\u00e3o s\u00e3o apenas grandes, s\u00e3o \u00edngremes. Parecem um pared\u00e3o de \u00e1gua. Isso torna o impacto pior, pois \u00e9 como se fosse uma parede de \u00e1gua desabando na cabe\u00e7a de quem est\u00e1 embaixo. <\/p>\n<p>Como dissemos, as chances de algu\u00e9m cruzar com um Vagalh\u00e3o grande (mais de 30 metros) s\u00e3o muito pequenas, por isso, os navios s\u00e3o constru\u00eddos para resistir a ondas de, no m\u00e1ximo, 15 metros. Isso significa que um navio exposto ao dobro de for\u00e7a para a qual foi projetado quebraria como um palito de picol\u00e9.<\/p>\n<p>O que fazer se voc\u00ea se deparar com um Vagalh\u00e3o? N\u00e3o vai acontecer. E se acontecer, escolha uma religi\u00e3o e reze, pois n\u00e3o vai dar tempo de muita coisa. Em tese, a melhor sa\u00edda \u00e9 fazer o que o USS Ramapo fez (tanto que sobreviveram): surfar a onda, virar a proa (parte da frente do navio) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 onda e tentar ser levantado por ela, em vez de que ela caia na sua cabe\u00e7a. Mas, isso \u00e9 mais sorte do que ju\u00edzo, na pr\u00e1tica, \u00e9 muito improv\u00e1vel que algu\u00e9m consiga, pois o pared\u00e3o de \u00e1gua se forma muito r\u00e1pido.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, n\u00e3o h\u00e1 nenhum registro oficial de Vagalh\u00f5es no Brasil. Normalmente estas ondas tamb\u00e9m chamadas de \u201condas loucas\u201d costumam aparecer na costa da \u00c1frica do Sul, no Atl\u00e2ntico Norte e o entorno da Ant\u00e1rtica, pontos de conflu\u00eancias de diferentes correntes mar\u00edtimas.  S\u00e3o mais comuns ao longo da costa da \u00c1frica do Sul, onde dois oceanos (o Atl\u00e2ntico e o \u00cdndico) se encontram com o plus de correntes marinhas vindas da Ant\u00e1rtica. O recorde de danos \u00e9 dessa regi\u00e3o: nos \u00faltimo 30 anos mais de 20 navios afundaram ou ficaram danificados por Vagalh\u00f5es na regi\u00e3o da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Acredita-se que at\u00e9 o mito da Terra Plana esteja relacionado com Vagalh\u00f5es. Imagina s\u00f3, s\u00e9culos atr\u00e1s, pessoas viajando em caravelas pelos mares, at\u00e9 que, do nada, se deparam repentinamente com um pared\u00e3o de 30m de altura de \u00e1gua. Seria muito f\u00e1cil confundir isso com a borda do planeta: v\u00e1rias ondinhas pequenas e, repentinamente, um pared\u00e3o desse tamanho. Mais ainda para quem estava em uma caravela mais distante, observando o coleguinha ser sugado pelo Vagalh\u00e3o. Compreens\u00edvel dar meia volta e narrar o que viu com sendo a borda do planeta.<\/p>\n<p>V\u00e1rias hist\u00f3rias \u201cmisteriosas\u201d de navios que desapareceram sem deixar rastros tamb\u00e9m come\u00e7aram a ser revistas e os ind\u00edcios quase sempre apontam para os Vagalh\u00f5es. O caso mais famoso foi o do navio ingl\u00eas Waratah, que desapareceu por completo, sem deixar nenhum vest\u00edgio em 1909, quando fazia o trajeto da Austr\u00e1lia para a Inglaterra e, coincidentemente, navegava na costa da \u00c1frica do Sul, com mais de 200 passageiros a bordo.<\/p>\n<p>Quando o navio n\u00e3o chegou a seu destino, come\u00e7aram a buscas. Mas nada foi encontrado: nem um palito, nenhum vest\u00edgio. Algum tempo depois, um homem mentalmente confuso foi encontrado vagando numa praia da \u00c1frica do Sul, dizendo coisas sem nexo e as palavras \u201cWaratah\u201d e \u201conda grande\u201d. Acabou internado em um hosp\u00edcio e nunca se teve certeza se era um sobrevivente ou apenas uma pessoa sugestionada com o caso. <\/p>\n<p>Desde 2001 fizeram v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es tentando encontrar esse navio, mas at\u00e9 hoje, nenhum vest\u00edgio foi encontrado, e n\u00e3o tem nada de paranormal a\u00ed. Um Vagalh\u00e3o pode simplesmente moer um navio (com tudo que tem dentro) e\/ou pode pux\u00e1-lo para uma profundidade onde dificilmente ele ser\u00e1 encontrado e pode inclusive arrast\u00e1-lo para muito longe do lugar onde ele afundou.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o ser humano tem um hist\u00f3rico de resist\u00eancia a fen\u00f4menos que ele n\u00e3o pode prever e controlar, ent\u00e3o, ainda vai ter gente duvidando da exist\u00eancia dos Vagalh\u00f5es ou evitando o assunto. Mas eles existem. S\u00e3o assustadores, mas tamb\u00e9m s\u00e3o fascinantes.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que vai matricular seus filhos na nata\u00e7\u00e3o hoje, para dizer que \u00e9 tudo inven\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria que vende coletes salva-vidas ou ainda para dizer que isso pode explicar muita coisa no tri\u00e2ngulo das bermudas: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois do grande tsunami que atingiu a Indon\u00e9sia, no ano de 2004, o termo se popularizou e qualquer onda grande passou a ser chamada de \u201ctsunami\u201d. Por\u00e9m, al\u00e9m de ser incorreto tecnicamente, ainda \u00e9 injusto: existe uma onda muito mais perigosa e assustadora que a tsunami. 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