{"id":19236,"date":"2021-12-03T12:22:54","date_gmt":"2021-12-03T15:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19236"},"modified":"2021-12-05T13:26:06","modified_gmt":"2021-12-05T16:26:06","slug":"dodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2021\/12\/dodo\/","title":{"rendered":"Dod\u00f4."},"content":{"rendered":"<p>O dod\u00f4 era uma esp\u00e9cie de ave que habitava a ilha de Maur\u00edcio, no Oceano \u00cdndico. Era. Talvez um dos animais extintos mais famosos de todos os tempos, a ave virou \u00edcone do impacto humano sobre a natureza, mas tamb\u00e9m ganhou a fama de ser um animal est\u00fapido. Est\u00e1 na hora de corrigir essa injusti\u00e7a hist\u00f3rica.<!--more--><\/p>\n<p>As ilhas Maur\u00edcio s\u00e3o um local bem remoto, o local mais pr\u00f3ximo \u00e9 outra ilha: a de Madagascar, no sul do continente africano. T\u00e3o remoto que s\u00f3 se foi criar uma col\u00f4nia por l\u00e1 em 1638, apesar de existirem relatos de visitas ao local desde a antiguidade. Os primeiros habitantes fixos (humanos) foram os holandeses, que at\u00e9 1710 tentaram fazer a ilha se tornar lucrativa, sem sucesso. Os franceses assumiram a partir dali, depois os brit\u00e2nicos tomaram conta, at\u00e9 que em 1968 a ilha se tornou uma rep\u00fablica independente.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria humana que realmente deu notoriedade ao local, desde os primeiros desembarques nas ilhas, os marinheiros se depararam com um animal \u00fanico: o dod\u00f4. Uma grande ave que n\u00e3o voava. Existem v\u00e1rias teorias sobre como o nome dod\u00f4 surgiu, mas a minha preferida \u00e9 a que vem do holand\u00eas \u201cDodaars\u201d, que significa traseiro gordo. Vou esconder todas as outras porque quero que todo mundo repita essa a partir de hoje. Dod\u00f4 significa traseiro gordo!<\/p>\n<p>Apesar de muitas ideias iniciais sobre a fam\u00edlia a qual a ave pertencia, desde um avestruz pequeno at\u00e9 mesmo uma esp\u00e9cie de galinha, o dod\u00f4 pertencia \u00e0 fam\u00edlia dos pombos. Desde o primeiro contato com humanos, a caracter\u00edstica mais chamativa do animal era sua docilidade. O dod\u00f4 se aproximava curioso das pessoas, e nada parecia assust\u00e1-lo. Alguns relatos antigos at\u00e9 o descreviam como inc\u00f4modo, por se aproximar dos acampamentos humanos e ficar por l\u00e1 como se nada.<\/p>\n<p>Diziam at\u00e9 que o animal n\u00e3o tinha conceito de perigo: voc\u00ea podia matar um dod\u00f4 na frente de v\u00e1rios outros e nenhum tentava fugir. N\u00e3o era nem que o dod\u00f4 n\u00e3o se importava com a presen\u00e7a das pessoas, ele ficava muito curioso e buscava o contato ativamente. Para marinheiros esfomeados depois de meses no mar \u00e0 base de biscoitos e rum aguado, era uma refei\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. O dod\u00f4 n\u00e3o precisa sequer ser ca\u00e7ado: bastava esperar eles virem para o abate e escolher o que parecia mais suculento.<\/p>\n<p>At\u00e9 por isso, ficou no imagin\u00e1rio popular a ideia de que o dod\u00f4 foi extinto por ser muito burro. Que todos correram para a morte na m\u00e3o dos humanos. Essas ideias est\u00e3o erradas por dois motivos: primeiro que os dod\u00f4s n\u00e3o eram burros, e segundo que n\u00e3o foram os humanos que acabaram com eles diretamente. Mas, para explicar isso, vamos falar um pouco sobre a hist\u00f3ria do dod\u00f4 na ilha e sobre biogeografia em geral.<\/p>\n<p>Nenhuma esp\u00e9cie descobriu o teleporte, ent\u00e3o temos que sempre considerar como um animal chega em qualquer lugar onde \u00e9 encontrado. Biogeografia \u00e9 o estudo da distribui\u00e7\u00e3o&#8230; geogr\u00e1fica&#8230; da vida no planeta. Como e por que eles est\u00e3o onde est\u00e3o. Como as ilhas Maur\u00edcio s\u00e3o muito remotas, das duas uma: ou havia uma ponte de terra entre outro lugar j\u00e1 habitado alguns milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, ou quem quer que chegou l\u00e1, chegou voando.<\/p>\n<p>No caso dos dod\u00f4s, foi a segunda op\u00e7\u00e3o. As ilhas Maur\u00edcio foram formadas por erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas h\u00e1 uns 10 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, ent\u00e3o sempre estiveram isoladas de qualquer outro local com vida. A vida vegetal chegou voando tamb\u00e9m, seja diretamente pelo vento (sementes s\u00e3o leves) ou mais provavelmente pelas aves, \u00fanicos animais que conseguiriam chegar at\u00e9 l\u00e1 com consist\u00eancia milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. Com milh\u00f5es de anos e terra vulc\u00e2nica f\u00e9rtil, a ilha conseguiu formar uma cobertura vegetal decente, e come\u00e7ou a ficar ainda mais atrativa para as aves que passavam por ela, especialmente para se reproduzir.<\/p>\n<p>Aves adoram ilhas remotas, por motivos \u00f3bvios de seguran\u00e7a. Nenhum predador terrestre consegue chegar at\u00e9 l\u00e1. Maur\u00edcio foi e ainda \u00e9 um ber\u00e7\u00e1rio de aves, que lentamente foram trazendo vida para o local. O dod\u00f4 chegou como um pombo, mais do que capaz de cobrir a dist\u00e2ncia entre Madagascar (ou mesmo o continente africano) e a ilha. A diferen\u00e7a \u00e9 que o ancestral da ave extinto eventualmente percebeu que era vantajoso ficar por l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p>E milh\u00f5es de anos se passaram. O suficiente para come\u00e7ar a alterar a fisiologia daquele pombo at\u00e9 se tornar o dod\u00f4. Animais que ficam em ilhas acabam criando estrat\u00e9gias muito pr\u00f3prias de evolu\u00e7\u00e3o. Existem dois casos muito comuns: nanismo e gigantismo. Ou o animal vai diminuindo para usar os recursos normalmente mais limitados de uma ilha, ou, como no caso do dod\u00f4, vai crescendo por um combo de excesso de recursos e nenhum predador.<\/p>\n<p>Ficar maior tem algumas vantagens: se voc\u00ea tiver comida o suficiente e seu tamanho n\u00e3o for um problema para se manter vivo, existe mais efici\u00eancia energ\u00e9tica e estabilidade num corpo maior. O elefante pode at\u00e9 precisar consumir muito alimento, mas esse muito \u00e9 proporcionalmente mais eficiente que a quantidade de alimento que um beija-flor precisa, por exemplo. Um beija-flor aumentado para o tamanho de um elefante precisaria de uma usina hidrel\u00e9trica de energia para continuar vivo&#8230;<\/p>\n<p>Mas estou desviando o foco: voltemos ao dod\u00f4. O animal voou para a ilha e resolveu ficar por l\u00e1. N\u00e3o faltava comida. E ent\u00e3o o pombo come\u00e7ou a crescer. Cresceu tanto que nem mesmo outras aves tinham qualquer chance de atac\u00e1-lo. O dod\u00f4 come\u00e7ou a evoluir com os seguintes par\u00e2metros evolutivos: comida abundante e aus\u00eancia total de predadores. Foram milh\u00f5es de anos com essas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Qual o resultado? Uma ave enorme que n\u00e3o precisava voar e n\u00e3o tinha utilidade nenhuma para qualquer instinto de sobreviv\u00eancia contra predadores. A natureza acaba jogando fora qualquer coisa que n\u00e3o est\u00e1 usando. Quando o ser humano deu de cara com o dod\u00f4, o animal sequer tinha no\u00e7\u00e3o que existia algo maior que ele no universo. Nada atacava o dod\u00f4, nada atacava o dod\u00f4 h\u00e1 milh\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que d\u00e1 pra chamar o animal de burro? Eu argumento que n\u00e3o. A estrat\u00e9gia evolutiva que funcionou por milh\u00f5es de anos foi ser curioso e agir sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com a morte. No meio do caminho tinha o maior predador de todos, o \u00fanico animal terrestre que consegue chegar em qualquer ilha desse mundo. N\u00e3o tinha como prever a intera\u00e7\u00e3o com seres humanos porque evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o prev\u00ea porcaria nenhuma.<\/p>\n<p>Se amanh\u00e3 o oxig\u00eanio da Terra desaparecer por m\u00e1gica, morre todo mundo. O ser humano seria burro por n\u00e3o ter adaptado um sistema alternativo de respira\u00e7\u00e3o antes disso? O dod\u00f4 fez tudo certo e continuou vivendo muito bem por milh\u00f5es de anos, mas o ambiente mudou. E mudou r\u00e1pido. De repente, macacos pelados gigantes entraram no seu ambiente perfeito, e eles estavam com fome.<\/p>\n<p>N\u00e3o se muda o comportamento instintivo de milh\u00f5es de anos em algumas gera\u00e7\u00f5es. O dod\u00f4 simplesmente n\u00e3o estava aparelhado para enfrentar predadores. Tanto que nem fugia. Uma das crueldades dessa hist\u00f3ria \u00e9 que o que chamavam de burrice na verdade era curiosidade: o dod\u00f4 queria ver as novidades, e n\u00e3o deixava o medo atrapalhar. E eu digo que \u00e9 crueldade porque foi muito do que transformou o ser humano. Quanto mais eficientes nos torn\u00e1vamos em viver em sociedade e reduzir os riscos de fome, exposi\u00e7\u00e3o aos elementos e predadores, mais eram selecionados os indiv\u00edduos curiosos. Curiosidade fez com que nos torn\u00e1ssemos animais racionais.<\/p>\n<p>O dod\u00f4 n\u00e3o foi extinto por ser burro, foi extinto por ser confiante e curioso. Faltou um polegar opositor ali. E falando em polegares opositores, tamb\u00e9m \u00e9 importante desmistificar outra ideia: n\u00e3o foi a ca\u00e7a dos humanos que acabou com o dod\u00f4. Sim, o ser humano devastou a popula\u00e7\u00e3o local para comer e at\u00e9 mesmo para proteger suas planta\u00e7\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es, mas a ilha \u00e9 relativamente grande e tinha espa\u00e7o para a esp\u00e9cie sobreviver se s\u00f3 os humanos fossem o problema.<\/p>\n<p>S\u00f3 que humanos nunca v\u00eam sozinhos. O que realmente definiu o fim da esp\u00e9cie foram os animais que trouxemos juntos nos barcos. Para um animal sem conceito nenhum de predador, at\u00e9 mesmo uma popula\u00e7\u00e3o de ratos pode ser fatal. Mas os humanos trouxeram coisas ainda piores: cachorros e gatos. O ser humano tende a n\u00e3o dar bola para um animal inofensivo, mas outros animais carn\u00edvoros, especialmente os que v\u00e3o se tornando selvagens por abandono (os humanos iam embora da ilha e deixavam ela vazia por d\u00e9cadas), esses n\u00e3o v\u00e3o perdoar uma esp\u00e9cie assim.<\/p>\n<p>O ser humano deu um golpe violento na popula\u00e7\u00e3o de dod\u00f4s, mas foram os animais que colocamos l\u00e1 que finalizaram o trabalho. N\u00e3o deu tempo da simp\u00e1tica ave se adaptar a uma ilha que em quest\u00e3o de s\u00e9culos ficou cheia de predadores. As outras aves ainda tinham o instinto de fuga, o dod\u00f4 n\u00e3o. Quando o ser humano finalmente come\u00e7ou a pensar em proteger esp\u00e9cies amea\u00e7adas, j\u00e1 era tarde demais. Hoje em dia, temos apenas desenhos e ossos para estudar.<\/p>\n<p>A extin\u00e7\u00e3o do dod\u00f4 pode ter sido o primeiro impacto real que uma extin\u00e7\u00e3o teve no imagin\u00e1rio humano. Mesmo que tenha ficado famosa pelos motivos errados (dizendo que o animal sumiu por ser muito burro), \u00e9 uma das primeiras hist\u00f3rias que a maioria de n\u00f3s ouve falar quando o assunto \u00e9 extin\u00e7\u00e3o. E nem que seja por d\u00f3 do \u201cbichinho burro\u201d, \u00e9 uma forma de percebermos o impacto que temos no mundo. O dod\u00f4 morreu para nos ensinar que a vida de outros animais acaba, que os recursos n\u00e3o s\u00e3o infinitos. Talvez sua extin\u00e7\u00e3o tenha sido \u00fatil para evitarmos a nossa.<\/p>\n<p>Talvez.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que estou ecochato, para dizer que percebeu o paralelo com o ser humano moderno (sim!), ou mesmo para dizer que seria um excelente animal de estima\u00e7\u00e3o (aves s\u00f3 cagam onde querem): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dod\u00f4 era uma esp\u00e9cie de ave que habitava a ilha de Maur\u00edcio, no Oceano \u00cdndico. Era. Talvez um dos animais extintos mais famosos de todos os tempos, a ave virou \u00edcone do impacto humano sobre a natureza, mas tamb\u00e9m ganhou a fama de ser um animal est\u00fapido. 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