{"id":19456,"date":"2022-01-19T13:05:26","date_gmt":"2022-01-19T16:05:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19456"},"modified":"2022-01-19T13:05:26","modified_gmt":"2022-01-19T16:05:26","slug":"koko-a-gorila","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/01\/koko-a-gorila\/","title":{"rendered":"Koko, a gorila."},"content":{"rendered":"<p>Koko foi provavelmente a gorila real mais famosa da hist\u00f3ria. Nascida em 1971 num zool\u00f3gico americano, viveu at\u00e9 os 46 anos de idade, falecendo em 2018. Seu passaporte para a fama foi a alega\u00e7\u00e3o de que seria capaz de se comunicar por meio da linguagem de sinais. Segundo sua tratadora, Francine Patterson, Koko entendia aproximadamente 2.000 palavras do ingl\u00eas e seu vocabul\u00e1rio alcan\u00e7ava mais de 1.000 sinais. E foi essa informa\u00e7\u00e3o que ficou com a maioria de n\u00f3s&#8230; infelizmente, as coisas n\u00e3o eram bem assim.<!--more--><\/p>\n<p>Boa parte dos animais se comunicam de alguma forma sonora. N\u00f3s inclu\u00eddos. Desde as vibra\u00e7\u00f5es de insetos, passando por cantos de p\u00e1ssaros, latidos, rugidos e at\u00e9 mesmo sonares de baleias, formas de interagir com outros animais \u00e0 dist\u00e2ncia se provaram muito \u00fateis no processo evolutivo. Vivemos num mundo cheio de sons por um motivo: animais eficientes em comunica\u00e7\u00e3o tendem a passar seus genes para frente.<\/p>\n<p>Eu escrevo isso para n\u00e3o passar a impress\u00e3o errada com a pr\u00f3xima frase: apesar de muitos animais de comunicarem, os seres humanos fazem isso num n\u00edvel absurdamente mais complexo. \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o de c\u00e9rebro, m\u00fasculos e cordas vocais extremamente adaptadas para a nossa forma de comunica\u00e7\u00e3o. Nem \u00e9 tanto uma quest\u00e3o de intelig\u00eancia pura, tem muito a ver com as possibilidades que nossos corpos t\u00eam.<\/p>\n<p>Alguns p\u00e1ssaros conseguem emitir sons complexos, alguns primatas t\u00eam destreza para movimentos mais finos, v\u00e1rios animais t\u00eam intelig\u00eancias avan\u00e7adas, mas a combina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para comunica\u00e7\u00e3o de alt\u00edssimo n\u00edvel s\u00f3 n\u00f3s temos. \u00c9 importante ter isso em mente porque quando falamos de animais se comunicando com humanos, \u00e9 mais ou menos como esperar que um beb\u00ea consiga dirigir um carro: n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 aquilo, como o corpo dele n\u00e3o permite realizar as fun\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Voltemos para Koko: a gorila foi adotada por Francine Patterson quando ainda era muito pequena, e passou sua vida toda sob a tutela da pesquisadora. Patterson tinha uma fascina\u00e7\u00e3o com a ideia de comunica\u00e7\u00e3o entre humanos e primatas, e tomou como miss\u00e3o de vida cuidar de Koko enquanto ensinava a gorila a usar a linguagem de sinais. Com o passar dos anos, Patterson foi ensinando mais e mais sinais para Koko, e soltando v\u00e1rios materiais para a m\u00eddia de massa sugerindo que estava tendo sucesso na empreitada.<\/p>\n<p>Koko foi exibida em diversos document\u00e1rios e apari\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas durante a vida, sempre num contexto de comunica\u00e7\u00e3o com seus tratadores. Francine Patterson jurava que a gorila n\u00e3o s\u00f3 entendia as palavras que ouvia de humanos, como conseguia responder de forma coerente com os sinais que aprendera. Nos v\u00e1rios v\u00eddeos disponibilizados por ela, Koko parece ser capaz de estabelecer uma forma de comunica\u00e7\u00e3o com pessoas, \u00e0s vezes at\u00e9 explorando temas mais complexos como sentimentos e curiosidade sobre aspectos da vida humana.<\/p>\n<p>Em 2015, gravou um v\u00eddeo para a COP 21, a confer\u00eancia ambiental, onde dizia que a natureza era linda e que o ser humano era est\u00fapido, que precisava proteger a Terra. Muita gente deve ter achado inspirador. Talvez at\u00e9 acreditado que um gorila tinha alguma no\u00e7\u00e3o sobre preserva\u00e7\u00e3o ambiental, mas \u00e9 evidente que n\u00e3o faz o menor sentido que o animal tenha sido capaz de formular esse discurso. No v\u00eddeo, fica claro que os in\u00fameros cortes e a falta de foco do animal n\u00e3o passam de um truque incentivado pelos tratadores.<\/p>\n<style>.embed-container { position: relative; padding-bottom: 56.25%; height: 0; overflow: hidden; max-width: 100%; } .embed-container iframe, .embed-container object, .embed-container embed { position: absolute; top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%; }<\/style>\n<div class='embed-container'><iframe src='https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FVuNTiqHys0' frameborder='0' allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Tudo bem, n\u00e3o estou aqui para ser Capit\u00e3o \u00d3bvio e tentar desmascarar um animal falando sobre aquecimento global. S\u00f3 gente muito descompensada acreditaria nisso, mas o v\u00eddeo te d\u00e1 toda a informa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea precisa enxergar para entender o ponto deste texto: Koko n\u00e3o \u00e9 capaz de se comunicar com humanos em padr\u00f5es humanos de comunica\u00e7\u00e3o. A gorila apenas aprendeu a fazer sinais, mas n\u00e3o tem os elementos necess\u00e1rios para sequer se aproximar da capacidade de uma crian\u00e7a humana nesse sentido.<\/p>\n<p>Estudiosos de linguagem perceberam isso rapidamente: Koko faz sinais que podem ser interpretados como comunica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o sugerem que o animal tenha desenvolvido qualquer capacidade de falar como uma pessoa. Animais podem ser inteligentes ao ponto de aprender truques, um cachorro entende que \u201csenta\u201d e \u201cdeita\u201d s\u00e3o duas a\u00e7\u00f5es diferentes, mas ningu\u00e9m (em s\u00e3 consci\u00eancia) presume que o animal seja capaz de ir al\u00e9m de fazer uma a\u00e7\u00e3o depois de ouvir um som.<\/p>\n<p>E comunica\u00e7\u00e3o humana vai muito al\u00e9m de rea\u00e7\u00e3o a sons. Mesmo crian\u00e7as humanas muito novas come\u00e7am a entender a l\u00f3gica de como falamos: formam frases, entendem que tem que falar em turnos, fazem associa\u00e7\u00f5es entre conceitos&#8230; todas as coisas que Koko nunca fez. Seus tratadores e defensores tem opini\u00f5es contr\u00e1rias, \u00e9 claro, mas n\u00e3o podemos esquecer que a sugest\u00e3o da capacidade de comunica\u00e7\u00e3o do animal era literalmente o ganha-p\u00e3o de Patterson e todo o time que vivia ao redor de Koko.<\/p>\n<p>As frases atribu\u00eddas a Koko s\u00f3 parecem coerentes com uma grande dose de adapta\u00e7\u00e3o dos humanos ao seu redor. N\u00e3o s\u00f3 a gorila n\u00e3o conseguia se manter num assunto por mais que um ou dois sinais, como muitas de suas sequ\u00eancias aleat\u00f3rias de sinais eram interpretadas por uma boa vontade sem fim de Patterson.<\/p>\n<p>Durante um bate papo online patrocinado pela AOL, usu\u00e1rios do servi\u00e7o podiam fazer perguntas ao vivo para Koko, seus sinais eram digitados ao mesmo tempo que Patterson tentava interpretar. Koko n\u00e3o respondia nada com nada, mas isso n\u00e3o impedia a tratadora de tentar. Numa das respostas, Koko falou sobre mamilos, em ingl\u00eas \u201cnipple\u201d. A pergunta n\u00e3o tinha absolutamente nada a ver com mamilos. Patterson reagiu rapidamente: disse que Koko esqueceu a palavra para pessoa, \u201cpeople\u201d, e substituiu por uma palavra que rimava. Se trocasse mamilo por pessoa, a frase fazia algum sentido!<\/p>\n<p>Navalha de Occam: o que \u00e9 mais prov\u00e1vel, que Koko tenha respondido com sinais aleat\u00f3rios, ou que tenha pensado na rima sonora de uma palavra para substituir uma palavra esquecida? Lembrando que Koko se comunica por sinais, n\u00e3o por sons. Em linguagem de sinais, rimas s\u00e3o baseadas em movimentos parecidos, n\u00e3o em sons parecidos. N\u00e3o fazia nenhum sentido. Se fosse s\u00f3 dessa vez, v\u00e1 l\u00e1, mas todos os exemplos de comunica\u00e7\u00e3o de Koko com Patterson tem esse componente interpretativo.<\/p>\n<p>O estudo do vocabul\u00e1rio de Koko sugere que quase todos os sinais que usa s\u00e3o focados em desejos imediatos como comida ou socializa\u00e7\u00e3o. As \u00fanicas sinaliza\u00e7\u00f5es minimamente coerentes se referem a pedir comida ou carinho. Toda vez que Koko expressa algo al\u00e9m de \u201ceu\u201d e \u201ccomida\u201d ou \u201cafeto\u201d, \u00e9 muito aleat\u00f3rio. As pessoas que acreditam em sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o fazem o poss\u00edvel para tirar alguma l\u00f3gica daquilo.<\/p>\n<p>Mas tudo bem, ningu\u00e9m disse que a gorila precisava ser erudita. De uma certa forma, usar \u201ceu\u201d e \u201ccomida\u201d numa frase j\u00e1 \u00e9 mais complexo do que um gato miando para pedir comida. Pelo menos significa que a ideia b\u00e1sica de comunica\u00e7\u00e3o humana entrou na cabe\u00e7a do bicho, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda n\u00e3o significa isso. Koko parece falhar em entender que est\u00e1 falando com algu\u00e9m nos v\u00eddeos que foram disponibilizados. Alguns conceitos b\u00e1sicos como responder perguntas e entender que existem turnos numa conversa nunca s\u00e3o claramente vis\u00edveis no animal. Sim, Koko reconhece seres humanos e parece ser um bicho muito calmo e carinhoso, mas os sinais n\u00e3o parecem ser a forma como ela se expressa. Ela se concentra em objetos, n\u00e3o olha nos olhos, n\u00e3o&#8230; est\u00e1 na conversa. \u00c9 algo que voc\u00ea percebe claramente que a tratadora incentiva Koko a fazer.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o tiver um humano impondo uma conversa, Koko n\u00e3o conversa. Porque n\u00e3o passa pela cabe\u00e7a do bicho esse tipo de intera\u00e7\u00e3o. O c\u00e3o late para voc\u00ea por diversos motivos, at\u00e9 olha nos seus olhos para tentar entender o que te interessa, mas n\u00e3o est\u00e1 desenvolvendo um assunto, est\u00e1 chamando aten\u00e7\u00e3o porque quer algo do humano, ou mesmo porque fica feliz quando o humano est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o nele. Koko nem isso parece ter. O animal quase sempre parece estar na dele, num mundinho que humanos tentam entrar de tempos em tempos.<\/p>\n<p>Koko, muito bacana, entret\u00eam o ser humano. Mas \u00e9 \u00f3bvio no material divulgado que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro foco do bicho. E falando em material divulgado, um fator muito importante merece ser demonstrado: Patterson nunca divulgou material bruto de suas intera\u00e7\u00f5es com Koko, seja em v\u00eddeo, seja nos dados que usou para basear seus estudos. S\u00e3o sempre vers\u00f5es muito editadas (como o v\u00eddeo da COP21) e conclus\u00f5es de suas observa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o exatamente o que configura m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Outros estudos feitos com outros primatas, esses sim mais focados em apresentar resultados como eles s\u00e3o, demonstraram que sim, primatas avan\u00e7ados como chimpanz\u00e9s, gorilas e orangotangos conseguem fazer sinais e dar provas impressionantes de intelig\u00eancia, eles nunca apresentam os elementos b\u00e1sicos de comunica\u00e7\u00e3o humana. Um chimpanz\u00e9 nunca vai come\u00e7ar uma conversa com uma pessoa, nunca vai ouvir o que ela tem pra falar antes de interromper, nunca vai \u201cinventar\u201d sinais novos para expressar coisas que n\u00e3o foram aprendidas, e mais importante e b\u00e1sico: nunca vai montar uma frase coerente que n\u00e3o envolva \u201ceu\u201d mais algum desejo b\u00e1sico. Todos os estudos independentes feitos sobre o tema sugerem a mesma coisa, que s\u00f3 humanos conseguem ser coerentes em linguagem humana.<\/p>\n<p>Percebam que eu n\u00e3o estou querendo falar mal de Koko ou outros animais que aprenderam alguma forma de sinal ou som que fazemos. A gorila n\u00e3o pode ser criticada por n\u00e3o conseguir fazer algo literalmente imposs\u00edvel para ela. \u00c9 a mesma coisa que ficar irritado com seu cachorro por ele n\u00e3o ter colocado a cerveja para gelar depois de voc\u00ea sair de casa. Koko parece ser um doce de bicho, \u00e9 muito bonito que tenha aprendido alguns sinais, mas ir al\u00e9m disso \u00e9 cair no mito criado por quem criou uma empresa ao redor dela.<\/p>\n<p>Koko \u00e9 um animal treinado para sustentar seus tratadores. Eu n\u00e3o vou ser hist\u00e9rico de afirmar que o bicho viveu uma vida ruim por n\u00e3o estar na floresta com outros gorilas, apesar de algumas sugest\u00f5es que Patterson exagerou na sua obsess\u00e3o com o animal e por vezes a fez sofrer para ensinar esses truques, 46 anos de casa, comida e aten\u00e7\u00e3o para um bicho que passaria aperto na natureza at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim. Pra complexidade mental de um gorila, duvido que tenha sido uma vida sofrida. Muito pelo contr\u00e1rio. <\/p>\n<p>Mas, que fique claro, sem o rigor necess\u00e1rio do m\u00e9todo cient\u00edfico no material divulgado pela sua tratadora, Koko est\u00e1 muito mais para animal de circo do que objeto de estudo. Talvez a ilus\u00e3o de que Koko realmente sabia falar e tinha um Q.I. alt\u00edssimo para um animal irracional gere alguma satisfa\u00e7\u00e3o em algumas pessoas, mas eu duvido que isso compense o problema fundamental de humanizar quem n\u00e3o \u00e9 humano.<\/p>\n<p>Koko foi muito usada como exemplo de como n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes assim, mas a verdade \u00e9 que somos. Mesmo que a diferen\u00e7a gen\u00e9tica seja pequena, \u00e9 suficiente para criar um abismo entre a capacidade intelectual de um ser humano e qualquer outro ser vivo na Terra. Sim, existem animais inteligentes, mas inteligentes dentro do contexto de intelig\u00eancia dos outros animais que n\u00e3o o ser humano.<\/p>\n<p>Eu falo brincando que animais tem intelig\u00eancia equipar\u00e1vel a de uma crian\u00e7a pequena, talvez pare de fazer essa piada (\u00e9 engra\u00e7ado ver a cara dos pais quando eu digo isso de forma s\u00e9ria) porque muita gente parece achar que tem compara\u00e7\u00e3o direta. N\u00e3o tem. Sou contra viol\u00eancia ou tortura contra animais, \u00e9 claro, mas acho dem\u00eancia acreditar que nossos companheiros de planeta t\u00eam qualquer condi\u00e7\u00e3o de compara\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>Koko foi um animal fascinante, mas n\u00e3o sabia falar. Ela nunca teve sequer a chance de falar, e salvo uma surpresa enorme, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que nenhum outro animal chegue sequer perto disso nos pr\u00f3ximos milh\u00f5es de anos (sem interven\u00e7\u00e3o humana gen\u00e9tica ou rob\u00f3tica). Intelig\u00eancia animal \u00e9 intelig\u00eancia animal, \u00e9 outra categoria que n\u00e3o se mistura com a nossa. N\u00e3o adianta for\u00e7ar, nenhum bicho consegue fazer o que fazemos.<\/p>\n<p>Podemos continuar gostando deles e fazendo o poss\u00edvel para tratar bem, mas sem ilus\u00f5es: cada um na sua categoria. Trate bicho como bicho, eles merecem essa bondade.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu estraguei seu dia, para dizer que nem sabia que esse bicho existiu, ou mesmo para dizer que ainda acha Koko mais inteligente que muito humano: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Koko foi provavelmente a gorila real mais famosa da hist\u00f3ria. Nascida em 1971 num zool\u00f3gico americano, viveu at\u00e9 os 46 anos de idade, falecendo em 2018. Seu passaporte para a fama foi a alega\u00e7\u00e3o de que seria capaz de se comunicar por meio da linguagem de sinais. 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