{"id":19465,"date":"2022-01-21T15:05:49","date_gmt":"2022-01-21T18:05:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19465"},"modified":"2022-01-21T15:05:49","modified_gmt":"2022-01-21T18:05:49","slug":"caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/01\/caminhos\/","title":{"rendered":"Caminhos."},"content":{"rendered":"<p>Jorge estava com dores no est\u00f4mago h\u00e1 semanas, o m\u00e9dico sugerira uma endoscopia para entender melhor o que acontecia. Deitado numa maca na sala de pr\u00e9-cirurgia, esperava o anest\u00e9sico fazer efeito. O anestesiologista acabara de pedir para que ele contasse de dez at\u00e9 um.<\/p>\n<p>\u201cDez, nove, oito, sete&#8230; seis&#8230; cinco&#8230; qua&#8230;\u201d<!--more--><\/p>\n<p>Ele foi cedendo \u00e0 escurid\u00e3o aos poucos, sentindo uma onda de relaxamento atravessar o corpo. Logo sentiu um susto, que o fez abrir os olhos rapidamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha mais sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, e diante de sua vis\u00e3o, enxergava o pr\u00f3prio corpo deitado na mesa de opera\u00e7\u00e3o. A equipe m\u00e9dica parecia desesperada, aplicando uma massagem card\u00edaca vigorosa. Enfermeiras corriam com tubos, inje\u00e7\u00f5es, demorou algum tempo para fazer senso da situa\u00e7\u00e3o. Olhou ao redor, viu as paredes do hospital, era como se estivesse flutuando pr\u00f3ximo ao teto. Bra\u00e7os e pernas ainda estavam ali, mas n\u00e3o tinha controle sobre os membros. Ainda vestia o avental azul.<\/p>\n<p>Deveria ser uma cena angustiante, mas n\u00e3o mexia com seus sentimentos. Era como observar um estranho. Seu corpo parecia estar l\u00e1 embaixo, mas n\u00e3o sentia mais conex\u00e3o com ele. Nem mesmo a ideia de posse. O verdadeiro \u00edmpeto do momento era sair dali. Jorge tenta se mover.<\/p>\n<p>Sem sucesso. Quanto mais tenta controlar seu corpo, mais lenta a cena abaixo dele se torna. M\u00e9dicos e enfermeiros se movem de forma mais e mais lenta at\u00e9 finalmente ficarem est\u00e1ticos. \u00c9 como se o tempo tivesse parado. E s\u00f3 a\u00ed que ele se sente livre.<\/p>\n<p>Primeiro um avan\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o da parede, depois um giro de corpo que o coloca diante do teto da sala de cirurgia. Ao se virar, percebe que o corpo est\u00e1 atravessando as lumin\u00e1rias, como se fosse imaterial. S\u00e3o mais alguns minutos ou horas at\u00e9 finalmente entender a nova forma como se movimentava. Ele gira para uma posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel, pelo menos no \u00e2ngulo da vis\u00e3o. Se v\u00ea de p\u00e9 num canto da sala, o mundo fazendo mais sentido enxergado de onde estava acostumado.<\/p>\n<p>Ainda sem interesse real no corpo que os m\u00e9dicos tentavam reanimar, parados no tempo com express\u00f5es compenetradas, Jorge se volta para as portas do centro cir\u00fargico, prevendo que seria capaz de atravess\u00e1-las, mesmo estando fechadas. O que realmente acontece.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na sala de pr\u00e9-cirurgia, e logo depois num dos corredores do hospital. Uma enfermeira parecia apressada no momento que foi congelada, corpo inclinado e passo muito mais largo que suas pernas presumiriam. Ele n\u00e3o pode deixar de notar como ela \u00e9 atraente, especialmente chamativa pelos seios volumosos por baixo do uniforme. Ele se aproxima, e depois de olhar para os lados, coloca a m\u00e3o no busto da mulher.<\/p>\n<p>A m\u00e3o atravessa o corpo dela como se n\u00e3o existisse. Um tanto quanto frustrado, completa a a\u00e7\u00e3o atravessando o corpo da enfermeira. Enquanto est\u00e1 passando por ela, tudo fica escuro. Do outro lado, d\u00e1 de cara com outra mulher.<\/p>\n<p>\u201cHomem n\u00e3o presta mesmo!\u201d<\/p>\n<p>Ele se assusta. A mulher tinha a pele bem morena, grandes olhos negros e cabelos presos num coque, ela vestia o mesmo tipo de avental que ele.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 aqui tamb\u00e9m?\u201d \u2013 Jorge pergunta, ainda assustado.<\/p>\n<p>\u201cEu ia te perguntar a mesma coisa, antes de voc\u00ea tentar passar a m\u00e3o na enfermeira.\u201d \u2013 ela est\u00e1 com um olhar de reprova\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o passa uma imagem agressiva, h\u00e1 um certo humor no tom da voz e nas express\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEu queria saber se eu podia tocar nas pessoas&#8230;\u201d \u2013 ele explica.<\/p>\n<p>\u201cE a primeira coisa que voc\u00ea tenta \u00e9 pegar no peito dela?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o estava pensando&#8230; e&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cDeixa pra l\u00e1, tem coisa mais importante para pensar.\u201d<\/p>\n<p>Jorge rapidamente entra no assunto mais desej\u00e1vel:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea tamb\u00e9m estava numa cirurgia?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, eu estava com um problema no pulm\u00e3o, internada aqui perto, comecei a passar mal agora de pouco&#8230; s\u00f3 lembro da minha colega de quarto gritando, e depois, tudo parou.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea se viu por cima do seu corpo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, demorou um pouco para conseguir me mexer.\u201d<\/p>\n<p>\u201cIgual. Acho que a gente morreu&#8230; mas&#8230; \u00e9 estranho, eu n\u00e3o sinto nada.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu tenho duas filhas pra criar, n\u00e3o posso morrer n\u00e3o. Mas eu tamb\u00e9m&#8230; eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou sentindo nada de verdade. \u00c9 s\u00f3 algo que eu sei, n\u00e3o que eu sinto&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu quero sair daqui pra ver o que tem l\u00e1 fora. Vamos?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei, vai que a gente tem que ficar perto do corpo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea sente vontade de ficar perto dele? Porque eu estou com uma vontade enorme de sair&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9&#8230; eu tamb\u00e9m.\u201d \u2013 a mulher olha pra baixo, pensativa por alguns momentos. Logo ela se vira e come\u00e7a a flutuar pelo corredor.<\/p>\n<p>Jorge acompanha, seguindo a mulher. Depois de alguns momentos, ela se volta para ele:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 olhando a minha bunda, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>De fato, Jorge estava. A roupa da sua colega de anomalia temporal tinha uma conveniente fenda na parte traseira, e a mulher tinha l\u00e1 seus predicados por esse \u00e2ngulo. Ele olha para ela como n\u00e3o estivesse entendendo, e rapidamente se posiciona ao seu lado.<\/p>\n<p>\u201cMeu nome \u00e9 Jorge, e o seu?\u201d<\/p>\n<p>\u201cCamila.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea sabe onde \u00e9 a sa\u00edda?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o&#8230; mas, por que a gente est\u00e1 usando os corredores? \u00c9 s\u00f3 atravessar numa dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 sair.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVerdade!\u201d<\/p>\n<p>Os dois seguem na mesma dire\u00e7\u00e3o, Jorge come\u00e7a a ganhar um pouco de frente.<\/p>\n<p>\u201cBundinha bonita a sua.\u201d \u2013 ela diz com voz de deboche.<\/p>\n<p>Jorge se volta para ela, express\u00e3o envergonhada. Ele tenta fechar a fenda, Camila ri. Mais alguns c\u00f4modos atravessados at\u00e9 que os dois se veem do lado de fora. O sol est\u00e1 brilhando, pessoas paradas onde estavam quando o tempo parou, eles estavam na altura do segundo andar. Mas a altura n\u00e3o gerava desconforto.<\/p>\n<p>Camila aponta para um p\u00e1ssaro congelado no tempo, asas abertas um pouco acima de suas cabe\u00e7as. Por alguns segundos, os dois contemplam a cena.<\/p>\n<p>\u201cSe a gente morreu mesmo, por que s\u00f3 n\u00f3s dois estamos nos vendo? N\u00e3o deveria ter mais um monte de gente morta?\u201d \u2013 a mulher se volta para Jorge.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que a gente morreu ao mesmo tempo, e \u00e9 por isso que estamos juntos aqui?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sei como isso funciona. Mas&#8230; olha&#8230; a gente est\u00e1 voando!\u201d<\/p>\n<p>Jorge sorri. Com um movimento brusco, ele se ergue alguns metros no ar.<\/p>\n<p>\u201cTalvez&#8230; talvez d\u00ea para ir para o espa\u00e7o!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o parece uma boa ideia, e se a gente se&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 volto!\u201d<\/p>\n<p>Jorge se lan\u00e7a c\u00e9u acima, numa velocidade que parece s\u00f3 aumentar. Ele n\u00e3o sente resist\u00eancia nenhuma em seus movimentos. O c\u00e9u, do azul claro da manh\u00e3 vai escurecendo aos poucos at\u00e9 se tornar negro. Ele pode enxergar as estrelas, e ao se voltar para a dire\u00e7\u00e3o da qual veio, v\u00ea o planeta Terra ocupando sua vis\u00e3o. Primeiro v\u00ea a cidade da qual sa\u00edra perder a defini\u00e7\u00e3o, depois vai come\u00e7ando a ver o cinza das constru\u00e7\u00f5es se tornar o verde da natureza, e depois o azul toma conta.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o \u00e9 espetacular. Ver em fotos \u00e9 totalmente diferente de presenciar a cena ao vivo. Depois de alguns giros, consegue enxergar a Lua. S\u00e3o meros segundos at\u00e9 chegar nela. A Terra ainda \u00e0 vista no horizonte torna tudo muito mais impressionante. N\u00e3o sente frio, n\u00e3o sente fome, n\u00e3o sente medo. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito boa.<\/p>\n<p>Logo, ele resolve disparar em dire\u00e7\u00e3o ao Sol. Imposs\u00edvel errar o ponto mais luminoso de todos. Ele voa pelo o que parecem alguns minutos at\u00e9 a estrela tomar conta de toda sua vis\u00e3o. A luz branca n\u00e3o o faz sentir calor ou incomoda os olhos. De perto, o Sol n\u00e3o se parece com as imagens que vira. \u00c9 tudo luz. Ele se afasta mais um pouco para poder ver um pouco melhor. N\u00e3o tinha tanta gra\u00e7a como imaginou. Ele come\u00e7a a dar voltas ao redor da estrela, brincando com sua velocidade absurda.<\/p>\n<p>\u00c9 quando finalmente percebe um enorme problema: de onde estava, n\u00e3o podia enxergar nada al\u00e9m da escurid\u00e3o do espa\u00e7o e algumas estrelas. A Terra&#8230; a Terra era invis\u00edvel da sua localiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabia nem se estava no mesmo plano dos planetas. Ele pensa como gostaria de contar para Camila o que estava vendo, mas n\u00e3o tem mais a menor ideia de onde ela est\u00e1.<\/p>\n<p>Ele se lembra da escola e como aprendeu que os planetas refletem a luz do Sol. Talvez se fosse na dire\u00e7\u00e3o do objeto mais brilhante, achasse um deles. Qualquer um, para se situar novamente. E \u00e9 isso que ele faz: dispara na dire\u00e7\u00e3o de outro ponto luminoso. N\u00e3o h\u00e1 muito no que se basear para definir sua velocidade. Mas, o ponto luminoso come\u00e7a a aumentar na sua vis\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um planeta. Era uma estrela. Duas, na verdade. Uma delas diante dele, e outra pr\u00f3xima, bem mais brilhante que as outras no fundo da vis\u00e3o. Ele n\u00e3o estava mais no Sistema Solar. Para todos os lados que olhava, tudo parecia indiferenci\u00e1vel. E assim, ele novamente viajou para o pr\u00f3ximo ponto que acreditava ser mais brilhante.<\/p>\n<p>Era o Sol? De perto \u00e9 imposs\u00edvel saber. De longe&#8230; de longe n\u00e3o tinha o que usar como medida de tamanho. Era tudo igual. Ele dispara numa dire\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria, esperando encontrar algum dos planetas, mas novamente, \u00e9 imposs\u00edvel descrever em que velocidade est\u00e1 realmente se movimentando. N\u00e3o h\u00e1 nenhum ponto de refer\u00eancia. Nenhum.<\/p>\n<p>Uma semana depois, no hospital:<\/p>\n<p>\u201cA senhora \u00e9 parente dele?\u201d \u2013 uma enfermeira pergunta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o&#8230; eu recebi alta hoje, me disseram que tinha um Jorge aqui, eu queria ver se era conhecido.\u201d \u2013 Camila responde enquanto olha para o corpo inerte de Jorge.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o veio ningu\u00e9m da fam\u00edlia dele, devia ser muito sozinho. Est\u00e1 em coma desde que teve uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 anestesia, coitado. Era seu conhecido mesmo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, mas&#8230; a gente pegou caminhos diferentes na vida.\u201d \u2013 Camila segurou a m\u00e3o de Jorge enquanto uma solit\u00e1ria l\u00e1grima escorria em seu rosto.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que essa realmente foi uma surpresa, para dizer que detestou esses nomes normais, ou mesmo para dizer que faria a mesma coisa: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge estava com dores no est\u00f4mago h\u00e1 semanas, o m\u00e9dico sugerira uma endoscopia para entender melhor o que acontecia. Deitado numa maca na sala de pr\u00e9-cirurgia, esperava o anest\u00e9sico fazer efeito. 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