{"id":19493,"date":"2022-01-26T12:47:22","date_gmt":"2022-01-26T15:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19493"},"modified":"2022-01-26T12:47:22","modified_gmt":"2022-01-26T15:47:22","slug":"rotulos-desatualizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/01\/rotulos-desatualizados\/","title":{"rendered":"R\u00f3tulos desatualizados."},"content":{"rendered":"<p>Eu tenho mais uma teoria: essa fase da humanidade de se prender em clubinhos ideol\u00f3gicos cada vez mais radicais vai ser apenas uma fase. Uma fase longa, mas uma fase mesmo assim. Por mais paradoxal que possa parecer, r\u00f3tulos fazem menos e menos sentido com o passar das d\u00e9cadas, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que tanta gente est\u00e1 perdida e procurando qualquer porto seguro que puder encontrar.<!--more--><\/p>\n<p>Quando falo de r\u00f3tulos, falo das mais diversas \u201ctribos\u201d nas quais podemos nos encaixar na vida. Alguns vem de f\u00e1brica, outros s\u00e3o mais dependentes de escolhas e circunst\u00e2ncias da vida. Homem, mulher, branco, negro, hetero, gay, corintiano, palmeirense&#8230; todos r\u00f3tulos. Categorias nas quais nos encaixamos e usamos para definir nossas rela\u00e7\u00f5es com os outros.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea pensar no ser humano mais primal, n\u00e3o havia muita complexidade no seu ambiente. Nem mesmo muita diferen\u00e7a entre as pessoas. Demorou um bom tempo at\u00e9 mesmo para termos varia\u00e7\u00f5es de cor de pele. Naquele tempo, o ser humano m\u00e9dio era bem mais m\u00e9dio. Tribos eram meio que indiferenci\u00e1veis da fam\u00edlia, e essa era basicamente a diferen\u00e7a entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Por press\u00e3o seletiva, os humanos que se adaptaram melhor ao conceito de tribo acabaram sendo as bases para a popula\u00e7\u00e3o que viria depois. Tribos viraram cidades, na\u00e7\u00f5es&#8230; e ao mesmo tempo, descobrimos o valor da especializa\u00e7\u00e3o. As tribos come\u00e7avam a perder o sentido original, mas uma s\u00e9rie de novos r\u00f3tulos come\u00e7aram a surgir, tanto que muitos sobrenomes ao redor do mundo s\u00e3o baseados em profiss\u00f5es. O que a pessoa fazia realmente impactava sua identidade.<\/p>\n<p>Atravessamos os s\u00e9culos, e esse modelo tamb\u00e9m come\u00e7a a demonstrar sua fragilidade: a maioria das pessoas n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 t\u00e3o especialista. Talvez numa comunidade mais isolada ser carpinteiro criasse uma identidade s\u00f3lida, mas numa cidade grande, voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 mais um entre centenas, qui\u00e7\u00e1 milhares. Mas tudo bem, o estudo come\u00e7a a ficar mais popular.<\/p>\n<p>Pensadores deixam de ser raridade, e vivemos um avan\u00e7o r\u00e1pido no \u201cpacote b\u00e1sico\u201d de cultura do cidad\u00e3o m\u00e9dio. Ideias pol\u00edticas come\u00e7am a invadir o campo dos r\u00f3tulos intelectuais, criando mais e mais pessoas capazes de se identificar pelas teorias com as quais concordavam. Suas ideias podiam ser r\u00f3tulos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, a humanidade passa por duas guerras terr\u00edveis e em quest\u00e3o de algumas d\u00e9cadas, evolui em todos os aspectos numa velocidade absurda. Se voc\u00ea olhar para o que a humanidade era e o que se tornou durante o s\u00e9culo XX, talvez concorde comigo que a singularidade tecnol\u00f3gica j\u00e1 aconteceu: nunca a humanidade mudou e cresceu t\u00e3o r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Essa explos\u00e3o de n\u00fameros, possibilidades, integra\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significou uma explos\u00e3o de r\u00f3tulos: no come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, uma pessoa pode ser tantas coisas ao mesmo tempo que provavelmente explodiria a cabe\u00e7a de um ser humano de alguns s\u00e9culos atr\u00e1s. Voc\u00ea pode ter uma profiss\u00e3o por ano, pode se dizer homem, mulher, pode aprender sobre basicamente qualquer coisa e discutir isso com gente do mundo inteiro.<\/p>\n<p>Eu argumento que a gera\u00e7\u00e3o dos Millenials foi a que mais ficou confusa com todas essas possibilidades. Seus pais ainda estavam resignados e\/ou contentes com os r\u00f3tulos de pai, m\u00e3e, cat\u00f3lico, mu\u00e7ulmano, hetero, m\u00e9dico, pedreiro&#8230; coisas que consideramos mais tradicionais hoje em dia. Para quem veio antes dessa gera\u00e7\u00e3o, havia um n\u00famero limitado de r\u00f3tulos para se identificar, e nem era t\u00e3o opressivo assim porque faltava at\u00e9 a no\u00e7\u00e3o de outras possibilidades.<\/p>\n<p>Cidad\u00e3o nem considerava se assumir gay, cidad\u00e3 nem se enxergava na vida sem ter filhos. Na melhor das hip\u00f3teses, podia escolher seu r\u00f3tulo profissional, porque pol\u00edtica e religi\u00e3o j\u00e1 estavam mais ou menos definidas pela fam\u00edlia. O mundo explode em conex\u00e3o e possibilidade em poucas d\u00e9cadas, e uma gera\u00e7\u00e3o inteira (Millenials) d\u00e1 de cara com um mundo que n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o condutivo a ter os mesmos r\u00f3tulos que seus pais e av\u00f3s, al\u00e9m de serem criados num mundo com informa\u00e7\u00e3o praticamente infinita.<\/p>\n<p>Faz sentido que tenham pirado. O povo mais descompensado com quest\u00f5es de identidade est\u00e1 justamente nessa faixa et\u00e1ria de 20 e poucos at\u00e9 40, tendo chiliques na rede social, tomando rem\u00e9dio faixa preta e morrendo de medo de ser cancelado. Tem tantos r\u00f3tulos para chamar de seu que ficam nervosos com a escolha. Ningu\u00e9m quer se colocar um r\u00f3tulo do qual vai se arrepender depois, e pior, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que tem na cabe\u00e7a a necessidade de se rotular, afinal, foram criados por r\u00f3tulos ambulantes.<\/p>\n<p>Mas vai ver como a Gera\u00e7\u00e3o Z lida com isso: filhos de uma gera\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, j\u00e1 foram criados com informa\u00e7\u00e3o ilimitada num mundo que nem sabe mais o que fazer com tantos r\u00f3tulos. Se voc\u00ea fala com qualquer pessoa (criada em ambiente mais saud\u00e1vel) perto dos 20 anos de idade, vai perceber que v\u00e1rios dos r\u00f3tulos que os Millenials ainda tinham na cabe\u00e7a nem fazem sentido para eles. E da\u00ed ser gay, hetero, bi? Eles s\u00e3o as tr\u00eas coisas se quiserem. Seus amigos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Profiss\u00e3o? Sei l\u00e1, o que der na telha ou for necess\u00e1rio. N\u00e3o pensam mais em termos de fazer uma coisa para o resto da vida, entendem que \u00e9 normal ter v\u00e1rias formas de ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Muita gente acha que essa gera\u00e7\u00e3o herdou a lacra\u00e7\u00e3o dos Millenials, mas n\u00e3o \u00e9 assim que eu enxergo: apesar de alguns exagerarem, a maioria s\u00f3 considera que alguns comportamentos ruins que t\u00ednhamos antes n\u00e3o valem mais.<\/p>\n<p>S\u00e3o menos racistas e homof\u00f3bicos, n\u00e3o porque eles s\u00e3o maravilhosos seres humanos, e sim porque quem veio antes se preocupava demais com esses r\u00f3tulos. \u201cZoomer\u201d ficando azedo com voc\u00ea por dizer algo que consideram transf\u00f3bico n\u00e3o est\u00e1 necessariamente querendo se exibir como uma pessoa superior, a pessoa simplesmente n\u00e3o entende por que voc\u00ea est\u00e1 cismando com uma bobagem dessas.<\/p>\n<p>Nossa, Somir, ent\u00e3o s\u00e3o todos melhores que a gente? Claro que n\u00e3o, s\u00e3o jovens idiotas que v\u00e3o fazer idiotices como a gente fez tamb\u00e9m. Mas a neura com r\u00f3tulos da gera\u00e7\u00e3o anterior n\u00e3o \u201cpegou\u201d neles. E a gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 vindo depois da Z, que alguns j\u00e1 chamam de Alpha, \u00e9 uma que eu estou curioso para ver: talvez todo o conceito de r\u00f3tulos j\u00e1 n\u00e3o registre na cabe\u00e7a deles. Talvez uma fase \u201ctribal\u201d ou outra como todos temos na adolesc\u00eancia, mas sem essa press\u00e3o social de sempre estar dentro de uma caixinha de elementos de personalidade.<\/p>\n<p>Eu imagino que o caminho da humanidade vai desembocar numa total falta de compromisso com r\u00f3tulos. Imagine o seguinte: voc\u00ea est\u00e1 no ano 2290, boa parte da sua vida acontece dentro da realidade virtual, n\u00e3o porque o mundo est\u00e1 horr\u00edvel, mas porque a economia foi pra l\u00e1 e as pessoas tiveram que seguir. Fazer uma cadeira virtual d\u00e1 mais dinheiro que fazer uma real, por exemplo.<\/p>\n<p>Seu corpo, suas opini\u00f5es, sua personalidade&#8230; todas coisas que podem ser alteradas com um clique. Faz sentido pensar em termos de homem, mulher, hetero ou gay se voc\u00ea passou sua cria\u00e7\u00e3o brincando de trocar de sexo no mundo virtual? Como ser racista se todo mundo pode ser da cor que quiser, e mudar a hora que quiser? Como fazer senso de profiss\u00e3o se \u00e9 basicamente sua criatividade que define quanto valor voc\u00ea consegue tirar de produtos e servi\u00e7os virtuais?<\/p>\n<p>As coisas n\u00e3o t\u00eam mais o peso que tinham. A sua imagem e a tribo que voc\u00ea pertence n\u00e3o t\u00eam o significado emocional que teriam para uma pessoa do mundo de hoje. O cidad\u00e3o pode avatar humano ou mesmo ser um peixe com asas. O pr\u00f3prio r\u00f3tulo de ser humano pode n\u00e3o ser relevante. E se intelig\u00eancias artificiais dentro da simula\u00e7\u00e3o forem dif\u00edceis de diferenciar de outra pessoa? Talvez nem ter um corpo seja um r\u00f3tulo \u00fatil.<\/p>\n<p>Eu dou esse salto no tempo para dar um exemplo extremo de onde vejo a humanidade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: rumo a um mundo onde quase todos os problemas que temos hoje com diferen\u00e7as de pensamento e comportamento n\u00e3o sejam mais problemas. Eu imagino gente cada vez menos comprometida com um modo de ser, at\u00e9 porque a sele\u00e7\u00e3o natural deve dar conta de quem ficar muito travado.<\/p>\n<p>A minha teoria vem da realiza\u00e7\u00e3o que os dias atuais, com tanta gente brigando por opini\u00f5es e filosofias (que mal entendem) \u00e9 resultado direto do modelo de r\u00f3tulos acabando. Quando as pessoas come\u00e7am a perceber que n\u00e3o h\u00e1 mais a estabilidade de se permitir ser rotulado e tocar a vida assim, sem muito estresse, come\u00e7am a se agarrar nos r\u00f3tulos que ainda parecem ter for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 o conservador que n\u00e3o quer casar dobrando a aposta na identidade do conservadorismo ao negar a ci\u00eancia, \u00e9 a lacradora desesperada por um relacionamento colocando fantasia de promiscuidade&#8230; \u00e9 gente que perdeu a seguran\u00e7a sobre o que s\u00e3o por n\u00e3o ter mais press\u00e3o externa para ser de um jeito ou de outro e foi procurar por um r\u00f3tulo bem forte para colocar no lugar.<\/p>\n<p>\u201cPosso n\u00e3o saber o que estou fazendo, mas pelo menos sei que voto no Lula ou no Bolsonaro.\u201d Melhor do que nada para elas, presumo eu. E isso \u00e9 s\u00f3 um exemplo superficial, de gente se agarrando a r\u00f3tulos pol\u00edticos para ter algo com o que se definir. Sei que soa intolerante hoje em dia, mas eu tamb\u00e9m enxergo r\u00f3tulos pegos por desespero em muita gente que est\u00e1 trocando de sexo, como se isso fosse dar alguma certeza do que se est\u00e1 fazendo na vida.<\/p>\n<p>Pode ser meu otimismo incorrig\u00edvel, mas isso me soa como \u201cdores do crescimento\u201d. A humanidade mudou de est\u00e1gio faz muito pouco tempo, e as pessoas n\u00e3o tiveram tempo de acompanhar. Do nada, quase tudo que era certeza para nossos antepassados n\u00e3o faz mais tanta diferen\u00e7a no presente. E tudo indica que vai fazer menos e menos sentido daqui pra frente.<\/p>\n<p>Dada a possibilidade de usar r\u00f3tulos como se fossem roupas, trocando de acordo com a vontade sem gerar muita rea\u00e7\u00e3o externa, as pessoas tendem a seguir por esse caminho. Eu desconfio que os Millenials sejam a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o dependente de r\u00f3tulos, e, goste voc\u00ea ou n\u00e3o, logo logo eles come\u00e7am a dar lugar para os Zoomers nas estruturas de poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto a voc\u00ea, mas eu realmente quero ver que bicho vai dar. Gente cada vez menos fan\u00e1tica, porque fanatismo n\u00e3o vai ter mais o mesmo valor para esse povo que vem por a\u00ed. Se eu estiver certo, \u00e9 s\u00f3 aguentar o tranco por mais uns vinte anos&#8230;<\/p>\n<p>Maldita gera\u00e7\u00e3o, a minha. Mas, se eu n\u00e3o compreender os problemas deles, quem vai? Somos mais que um r\u00f3tulo, e toda vez que voc\u00ea se vir preso a um deles, lembre-se que esse \u00e9 um comportamento que j\u00e1 teve seu prazo de validade vencido. O mundo vai ser herdado por quem n\u00e3o se importa com as tribos que pertence, e tudo bem com isso.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para me parabenizar por me assumir (eu me assumo l\u00e9sbico), para dizer que \u00e9 Millenial e se sentiu ofendido, ou para dizer que \u00e9 Zoomer e mandar s\u00f3 um \u201cmeia hora\u201d pra mim: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho mais uma teoria: essa fase da humanidade de se prender em clubinhos ideol\u00f3gicos cada vez mais radicais vai ser apenas uma fase. Uma fase longa, mas uma fase mesmo assim. 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