{"id":19722,"date":"2022-03-24T11:49:23","date_gmt":"2022-03-24T14:49:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19722"},"modified":"2022-03-24T11:52:39","modified_gmt":"2022-03-24T14:52:39","slug":"efeito-placebo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/03\/efeito-placebo\/","title":{"rendered":"Efeito Placebo"},"content":{"rendered":"<p>Um rem\u00e9dio simulado, uma subst\u00e2ncia ou interven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem efeito direto em doen\u00e7as, mas, que mesmo assim, faz o paciente melhorar. Tratado por muitos como sin\u00f4nimo de ignor\u00e2ncia ou pouca intelig\u00eancia, ele pode afetar a todos n\u00f3s, pois a mente de qualquer pessoa \u00e9 capaz de se sobrepor ao f\u00edsico, ao corpo e ao racional. Desfavor explica: Efeito Placebo.<!--more--><\/p>\n<p>O termo Placebo vem do latim, em uma tradu\u00e7\u00e3o livre, significa algo como \u201cagradar\u201d. Justamente \u00e9 esse o princ\u00edpio: se o rem\u00e9dio, tratamento ou terapia cai no gosto do paciente e gera uma expectativa de cura, o Efeito Placebo pode acontecer \u2013 e com mais frequ\u00eancia do que se imagina.<\/p>\n<p>Placebo n\u00e3o \u00e9 necessariamente um medicamento. Ele pode ser um procedimento, uma terapia ou um tratamento. Por exemplo, um estudo com pacientes com S\u00edndrome do Intestino Irrit\u00e1vel mostrou consider\u00e1veis melhoras em pacientes submetidos a \u201cacupuntura\u201d. <\/p>\n<p>Est\u00e1 entre aspas, pois era acupuntura placebo, feita com agulhas falsas que n\u00e3o perfuram a pele. Percebeu-se um \u00edndice de melhora surpreendente, relacionado n\u00e3o apenas \u00e0 acupuntura, como tamb\u00e9m ao atendimento m\u00e9dico: quanto mais aten\u00e7\u00e3o eles recebiam do m\u00e9dico, quanto maior a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, mais eles melhoravam. M\u00e9dicos acolhedores criam maior expectativa de cura.<\/p>\n<p>Existem at\u00e9 casos de cirurgias placebo muito bem-sucedidas. Um exemplo que ficou conhecido foi um estudo de pacientes com artrose que passaram por uma \u201copera\u00e7\u00e3o placebo\u201d, procedimento no qual se fazem pequenas incis\u00f5es no paciente, sem qualquer a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. S\u00f3 cortes mesmo. Estes pacientes da \u201copera\u00e7\u00e3o placebo\u201d obtiveram os mesmos resultados dos pacientes que passaram pela cirurgia convencional. <\/p>\n<p>Durante muito tempo, o placebo foi usado apenas como par\u00e2metro para comprovar (ou n\u00e3o) a efic\u00e1cia de um medicamento ou tratamento (papo t\u00e9cnico: duplo-cego): um grupo recebia o medicamento real e outro recebia um placebo (e ningu\u00e9m sabia o que estaca recebendo). Se o grupo que recebia o medicamento real tivesse melhores resultados, era sinal de que ele era eficiente. <\/p>\n<p>Mas, com o tempo se percebeu que o grau de melhora nos grupos que fazem uso de placebo era impressionante. Em alguns casos, cerca de 40% dos volunt\u00e1rios que recebiam placebo mostraram melhoras significativas. Isso fez com que a ci\u00eancia comece a questionar o que estava gerando essa melhora. Foi quando se come\u00e7ou a estudar o Efeito Placebo e perceber que, em alguns casos, o poder da sugest\u00e3o pode curar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 misticismo. O Efeito Placebo \u00e9 cientificamente comprovado e explicado. Quando uma pessoa \u00e9 exposta a algo que ela acredita que possa ajud\u00e1-la, cur\u00e1-la ou atenuar um desconforto, isso afeta \u00e1reas do c\u00e9rebro que processam as emo\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Isso foi visto e comprovado por exames de imagem. Mapeando as \u00e1reas do c\u00e9rebro que respondem \u00e0 expectativa de estar tomando um medicamento ou fazendo um tratamento que funciona, foi poss\u00edvel investigar como a atividade dessas regi\u00f5es cerebrais impacta o corpo.  <\/p>\n<p>Descobriu-se que essa atividade cerebral influencia n\u00e3o apenas o estado emocional, mas tamb\u00e9m outros processos do corpo, como o n\u00edvel dos horm\u00f4nios, o sistema imunol\u00f3gico e o sistema nervoso perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ter a expectativa de uma melhora pode desencadear respostas f\u00edsicas reais. Falso \u00e9 apenas o rem\u00e9dio, o efeito que ele provoca \u00e9 muito verdadeiro. A expectativa de melhora pode, s\u00f3 para citar alguns exemplos j\u00e1 comprovados pela ci\u00eancia, mudar a percep\u00e7\u00e3o de dor, aliviar inflama\u00e7\u00f5es ou reduzir o tremor causado por mal de Parkinson. <\/p>\n<p>\u00c9 isso que a gente quer dizer quando repetimos que sua mente cria realidade. N\u00e3o \u00e9 aquele papo furado de \u201cO Segredo\u201d, \u00e9 um processo bioqu\u00edmico cerebral com consequ\u00eancias concretas, comprovadas e reais que impactam o corpo.<\/p>\n<p>\u201cMas Sally, quem te garante que \u00e9 a mente? E se o conte\u00fado do placebo de fato curar a pessoa?\u201d. Simples: quando a pessoa descobre que era um placebo, o efeito cessa imediatamente. <\/p>\n<p>Por isso, muitos defendem que o funcionamento do mecanismo do placebo est\u00e1 ligado a um mecanismo chamado \u201caten\u00e7\u00e3o seletiva\u201d. Em um resumo muito grosseiro, a pessoa para de canalizar sua aten\u00e7\u00e3o para a dor, para os sintomas da doen\u00e7a e passa a olhar para a perspectiva de cura, fazendo com que a mente perceba isso de forma priorit\u00e1ria, deixando a dor e demais sintomas em segundo plano. <\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 algo estranho \u00e0 ci\u00eancia, h\u00e1 muitos exemplos pr\u00e1ticos que talvez voc\u00eas tenham experimentado (e que a ci\u00eancia j\u00e1 provou) de como nosso foco de aten\u00e7\u00e3o pode jogar muito a favor ou contra. Talvez por isso, independente de placebo, pessoas que encaram doen\u00e7as com uma atitude mais positiva sobrevivam mais. O estado de \u00e2nimo e o lugar onde voc\u00ea decide colocar o foco afetam sim o resultado final.<\/p>\n<p>Um exemplo extremo: \u00e9 muito comum que soldados em campo de batalha nem ao menos percebam que est\u00e3o feridos at\u00e9 que algu\u00e9m lhes diga ou o combate pare. Como sua aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 toda voltada para a batalha, isso gera uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas no corpo que fazem com que a sensa\u00e7\u00e3o de dor ou do ferimento fique em segundo plano.<\/p>\n<p>E a coisa \u00e9 mais sofisticada do que voc\u00ea pensa: h\u00e1 nuances dentro dos placebos, de acordo com as cren\u00e7as que voc\u00ea tenha na sua mente. <\/p>\n<p>J\u00e1 foi comprovado que a forma de tomar uma p\u00edlula tende a influenciar na efici\u00eancia do placebo (por exemplo, tomar duas p\u00edlulas de uma vez, uma vez por dia, gera melhores efeitos placebo do que tomar a mesa p\u00edlula, uma por vez, uma duas vezes por dia), o tamanho do comprimido (quanto maior, melhor costuma ser o efeito) e at\u00e9 sua cor influencia (p\u00edlulas azuis costumam ter melhores efeitos relaxantes, enquanto vermelhas funcionam da forma contr\u00e1ria). <\/p>\n<p>Inje\u00e7\u00f5es de placebo s\u00e3o mais eficientes do que p\u00edlulas de placebo, quando prescritas para a mesma doen\u00e7a. Rem\u00e9dios placebo oferecidos como sendo de um grande laborat\u00f3rio s\u00e3o mais eficientes do que placebos de laborat\u00f3rios desconhecidos ou gen\u00e9ricos. Quanto mais longo e complexo \u00e9 o tratamento com placebos, maiores as chances de gerar efeito. Estes e muitos outros detalhes podem influenciar no Efeito Placebo, pois corroboram com cren\u00e7as que temos em nossas mentes.<\/p>\n<p>Tem toda uma t\u00e9cnica de como enganar sua mente melhor. Se voc\u00ea ficou curioso para saber mais, tem um v\u00eddeo bem did\u00e1tico sobre as \u201ct\u00e9cnicas\u201d de placebo, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yfRVCaA5o18\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">vou deixar o link aqui<\/a>. Est\u00e1 em ingl\u00eas, mas \u00e9 bem simples, bem f\u00e1cil de entender.<\/p>\n<p>Neste ponto, voc\u00ea pode estar se perguntando: se o placebo apenas impede que a gente sinta o que fato est\u00e1 ali, como \u00e9 poss\u00edvel que pessoas tenham se curado tomando placebos? \u00c9 uma pergunta complicada, para a qual, acredito que ningu\u00e9m tenha uma resposta definitiva.<\/p>\n<p>Se, em tese, a doen\u00e7a continua e a pessoa apenas para de sentir seus sintomas, a evolu\u00e7\u00e3o esperada disso \u00e9 que a pessoa continue doente, apenas sem perceber. Mas h\u00e1 casos ainda n\u00e3o explicados de pessoas que apresentaram uma suposta cura (exames constataram que n\u00e3o \u00e9 que a pessoa n\u00e3o perceba os sintomas, a doen\u00e7a de fato deixou de existir). N\u00e3o tem como dar certeza de nada, j\u00e1 que doen\u00e7as podem apresentar remiss\u00e3o espont\u00e2nea por raz\u00f5es desconhecidas.<\/p>\n<p>Para alguns \u00e9 a teoria da mente criar realidade levada \u00e0 \u00faltima inst\u00e2ncia: se voc\u00ea tirar totalmente o foco de algo prejudicial, esse algo tende a sumir, pois, se alguma forma que eu nem pretendo fingir que sei explicar, o que acontece no nosso corpo e no nosso entorno precisam de um observador para lhe dar realidade e, se voc\u00ea cortar o suprimento que a alimenta (n\u00e3o dando aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o colocando foco, n\u00e3o canalizando energia para aquilo), ela morre \u201cde fome\u201d.<\/p>\n<p>Lembram do texto sobre a Fenda Dupla? Que dependendo do observador, a luz pode ser onda ou part\u00edcula? Pois \u00e9, seria algo nessa linha: o olhar do observador tem o poder de modificar a realidade \u2013 ou a forma como vemos a realidade. O que nos leva a outra pergunta: o que \u00e9 a realidade? Tem quem diga que a realidade \u00e9 o corpo s\u00e3o e que a doen\u00e7a \u00e9 que \u00e9 um problema da mente, que a cria. Mas, vamos parar por aqui, pois a progress\u00e3o de pensamentos est\u00e1 saindo do controle. Voltemos ao Efeito Placebo.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa a teoria que o explique, o Efeito Placebo \u00e9 uma realidade e, em alguns casos, tem o poder de promover melhoras significativas ou at\u00e9 uma \u201ccura\u201d, desde que a pessoa acredite piamente que est\u00e1 sendo tratada com algo eficaz. O que nos leva a um dilema \u00e9tico: se uma pessoa tem uma doen\u00e7a para a qual a ci\u00eancia n\u00e3o oferece cura nem tratamento satisfat\u00f3rio, n\u00e3o seria um gesto at\u00e9 humanit\u00e1rio tentar dar um placebo para melhorar sua qualidade de vida?<\/p>\n<p>Para alguns sim. Se a mente cria realidade e podemos ajudar a mente dessa pessoa a criar uma realidade melhor (ou olhar para uma realidade melhor, ou focar em uma realidade melhor), por qual motivo devemos sujeit\u00e1-la ao sofrimento? <\/p>\n<p>Mas, para a maioria, a proposta n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, pela premissa do placebo: o m\u00e9dico tem que mentir para o paciente. Se tornarmos permitido enganar pacientes em nome do seu bem-estar, abriremos uma porta muito, mas muito perigosa. Imagina a quantidade de charlat\u00e3o que vai come\u00e7ar a vender \u201cmedicamentos\u201d por a\u00ed se n\u00e3o precisar de uma comprova\u00e7\u00e3o de resultados!<\/p>\n<p>Dentro da \u00e9tica ou n\u00e3o, o tratamento com placebos j\u00e1 foi feito diversas vezes no Brasil. Um caso famoso ocorreu no Hospital S\u00e3o Paulo (na capital paulista), quando testavam um rem\u00e9dio contra epilepsia. Selecionaram volunt\u00e1rios com casos graves, pessoas que tinham mais de uma crise epil\u00e9tica por semana e que n\u00e3o faziam uso de nenhum medicamento.<\/p>\n<p>Muitos volunt\u00e1rios que tomaram placebo pararam de ter crises. Um deles, que a literatura m\u00e9dica chama de \u201cJo\u00e3o\u201d (n\u00e3o sei se \u00e9 o nome real) chamou a aten\u00e7\u00e3o: era um homem que tinha pelo menos tr\u00eas crises epil\u00e9ticas toda semana e, com o placebo, ficou seis meses sem ter nenhuma. A conclus\u00e3o foi a de que dois fatores foram determinantes para esse resultado especialmente surpreendente com ele.<\/p>\n<p>O primeiro foi a confian\u00e7a do paciente. Por ser um homem muito humilde e ver os m\u00e9dicos quase como divindades, acreditando e confiando muito no tratamento, Jo\u00e3o usufruiu de um Efeito Placebo mais potente. O segundo foi a aten\u00e7\u00e3o especial que ele recebeu, como recebe qualquer volunt\u00e1rio desse tipo de estudo. Ao contr\u00e1rio de uma rotina de fila, espera, atendimento desumanizado, Jo\u00e3o recebia muita aten\u00e7\u00e3o, todos perguntavam como ele se sentia, explicavam passo a passo dos procedimentos com calma e o acompanhavam semanalmente. <\/p>\n<p>Quando acabou o teste, os m\u00e9dicos ficaram pesarosos de dizer a verdade a Jo\u00e3o, pois sabiam que se revelado que ele tomou um placebo, as crises provavelmente voltariam. Ent\u00e3o, mesmo ap\u00f3s o fim do estudo, continuaram recebendo Jo\u00e3o e dando o placebo, e Jo\u00e3o continuou muito bem.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, existe um meio-termo nesse dilema de ter que mentir para que o paciente melhore: n\u00e3o importa o caso, com ou sem rem\u00e9dio falso, ter um m\u00e9dico atencioso, amoroso e que dedique bastante tempo a seu paciente sempre ajuda no progn\u00f3stico e tamb\u00e9m gera algum Efeito Placebo.<\/p>\n<p>E falo n\u00e3o apenas com pacientes, mas com os m\u00e9dicos tamb\u00e9m. Voc\u00eas fizeram um juramento de curar pessoas, escutem bem: o tipo de atendimento que voc\u00eas d\u00e3o pode ser a diferen\u00e7a entre curar pessoas ou n\u00e3o. N\u00e3o olhar na cara do paciente, n\u00e3o tocar o paciente, n\u00e3o auscultar, n\u00e3o realizar um exame cl\u00ednico decente, n\u00e3o perder qualquer 15 minutos conversando com o paciente e de fato escutando o que ele tem para dizer pode dificultar ou at\u00e9 impedir sua melhora. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para o leitor: n\u00e3o se conforme com um m\u00e9dico que te atenda \u201cexpress\u201d, que n\u00e3o te escuta, que n\u00e3o faz um exame cl\u00ednico detalhado, que quando voc\u00ea fala n\u00e3o demonstra interesse. E para os m\u00e9dicos: se voc\u00ea faz atendimento em poucos minutos, voc\u00ea \u00e9 um bosta, n\u00e3o importa o grau de estudo que tenha. Vire gente e atenda direito, tenha vergonha nessa cara.<\/p>\n<p>E ainda tem um agravante nessa equa\u00e7\u00e3o com o m\u00e9dico: o Efeito Placebo vale para ambos os lados. Pode fazer uma pessoa se sentir melhor, se sentir sem dor ou at\u00e9 se curar, mas tamb\u00e9m pode fazer com que uma pessoa se sinta pior, aumente sua dor ou at\u00e9 adoecer (quando provoca a piora, passa a se chamar \u201cNocebo\u201d). Tudo depende no que a pessoa est\u00e1 acreditando, ou seja, a expectativa que sua mente tem daquele tratamento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, m\u00e9dicos que \u201cassustam\u201d o paciente com falta de cuidado com as palavras, podem acabar contribuindo para uma piora no seu quadro. Obviamente m\u00e9dicos n\u00e3o devem mentir para pacientes, mas existem diferentes formas de dizer a mesma coisa. Isso deveria ser ensinado em faculdade.<\/p>\n<p>O que o paciente \u00e9 levado a crer \u00e9 t\u00e3o poderoso que um mesmo placebo pode provocar melhora ou piora em pacientes. Um experimento sobre alergia comprovou isso: os volunt\u00e1rios recebiam uma inje\u00e7\u00e3o que desencadearia uma rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica (de verdade, aplicavam histamina) e depois testariam um creme. Foram divididos em dois grupos, mas, ao contr\u00e1rio dos testes padr\u00e3o, onde um grupo recebe medicamento real e outro o placebo, neste, ambos receberam placebo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que foi dito a um grupo que o creme melhorava a alergia e para o outro foi dito que o creme piorava a alergia. Al\u00e9m disso, a forma como os m\u00e9dicos tratavam os pacientes e at\u00e9 o ambiente eram diferentes: para alguns os m\u00e9dicos eram atenciosos e o consult\u00f3rio era organizado e para outros os m\u00e9dicos eram r\u00edspidos, o consult\u00f3rio era uma bagun\u00e7a e falavam coisas confusas.<\/p>\n<p>O resultado foi na seguinte ordem: o que predominou para melhorar ou piorar a rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica foi a expectativa do paciente. O grupo que achava que o creme iria curar a alergia de fato teve muito mais casos de melhora. Por\u00e9m, se constatou que a rela\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico com o paciente \u00e9 quase t\u00e3o importante quanto, pois quando pessoas eram atendidas por m\u00e9dicos rudes, desleixados ou que n\u00e3o lhes davam a devida aten\u00e7\u00e3o elas n\u00e3o acreditavam que poderiam melhorar, mesmo que os m\u00e9dicos lhe digam isso.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 que o tipo de atendimento que um m\u00e9dico te d\u00e1 influencia diretamente ou inconscientemente (ou ambos) na expectativa de cura ou efic\u00e1cia de um rem\u00e9dio. Isso quer dizer que se um m\u00e9dico atende bem, escuta, \u00e9 afetuoso e preocupado e diz que um rem\u00e9dio funciona, a pessoa tende a acreditar com mais convic\u00e7\u00e3o, tornando mais prov\u00e1vel o Efeito Placebo e tamb\u00e9m acentuando sua intensidade. <\/p>\n<p>O Efeito Placebo \u00e9 real, e ele n\u00e3o \u00e9 algo ao qual pessoas ignorantes est\u00e3o sujeitas. Todos n\u00f3s temos c\u00e9rebro, todos n\u00f3s temos mente, portanto, todos n\u00f3s estamos suscet\u00edveis ao efeito placebo. Sofrer efeito placebo n\u00e3o \u00e9 sinal de burrice, \u00e9 sinal de ser humano. O Efeito Placebo funciona inclusive quando n\u00e3o se toma placebo: medicamentos que de fato funcionam podem ter seu efeito potencializado pelo Efeito Placebo e serem ainda mais eficientes do que normalmente seriam quando a pessoa os toma com grande certeza de que eles gerar\u00e3o aquele resultado.<\/p>\n<p>Pode acontecer at\u00e9 o inverso: a pessoa recebe um rem\u00e9dio que comprovadamente funciona, mas suas expectativas de que ele n\u00e3o funcione s\u00e3o t\u00e3o grandes que, de alguma forma bloqueiam o funcionamento do rem\u00e9dio. Parece que, no final das contas, a mente est\u00e1 mais no comando do que a gente imagina.<\/p>\n<p>Um dos casos mais famosos envolvendo Efeito Placebo e Nocebo \u00e9 o caso de um paciente tratado como \u201cWright\u201d (n\u00e3o achei o primeiro nome), nos EUA. Ele tinha c\u00e2ncer terminal, respirava por m\u00e1quinas e implorou para ser inclu\u00eddo como volunt\u00e1rio em um estudo de um novo rem\u00e9dio (krebiozen).  <\/p>\n<p>Entrou no estudo e melhorou tanto que teve alta e foi para casa. Mas, poucas semanas depois, leu uma reportagem dizendo que o estudo do qual ele participou concluiu que o rem\u00e9dio era ineficiente. Em quest\u00e3o de dias estava hospitalizado e respirando por aparelhos novamente, \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos, percebendo o que estava acontecendo, disseram a ele que havia uma nova droga sendo testada e essa sim funcionaria. Deram um novo placebo. Novamente, ele melhorou e foi para casa. Quando ele leu uma mat\u00e9ria desacreditando essa nova droga, em quest\u00e3o de dias foi internado novamente e morreu.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode estar pensando \u201cnossa, que sujeito influenci\u00e1vel\u201d. Todos somos, em maior ou menor grau, dependendo de quem nos fala, de qual alegoria se nos apresenta, de qual contexto a coisa se desenrola. Principalmente quando estamos \u00e0 beira da morte. Sua percep\u00e7\u00e3o \u00e9 outra quando voc\u00ea \u00e9 confrontado com esse tipo de situa\u00e7\u00e3o extrema. E provavelmente, mesmo sem estar \u00e0 beira da morte, todos n\u00f3s alguma vez j\u00e1 vivenciamos o Efeito Placebo sem nem ao menos saber.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tomei um rem\u00e9dio para uma coisa que curou meus sintomas e, dias depois, fui perceber que me enganei e tomei na verdade um rem\u00e9dio para outra coisa. O que fez meus sintomas desaparecerem foi o Efeito Placebo, pois a droga que eu tomei n\u00e3o tratava aqueles sintomas. <\/p>\n<p>Efeito Placebo n\u00e3o \u00e9 ilus\u00e3o da sua cabe\u00e7a, na sua cabe\u00e7a s\u00f3 est\u00e1 a cren\u00e7a de que aquilo funciona, o resto s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es reais do seu corpo. E na verdade, talvez nem precise ser rem\u00e9dio para fazer efeito placebo. Para algumas pessoas, se falar que um Orix\u00e1, um Santo ou um Esp\u00edrito vai cur\u00e1-los, a cura pode acontecer \u2013 de dentro para fora. O Orix\u00e1, Santo ou Esp\u00edrito \u00e9 a alegoria que a pessoa usa para acessar a cura que est\u00e1 dentro dela.<\/p>\n<p>Inclusive j\u00e1 testaram placebo de curandeirismo. O m\u00e9dico alem\u00e3o Edzard Ernst fez um experimento expondo pacientes com dores cr\u00f4nicas a curandeiros \u2013 metade eram curandeiros reais e a outra metade eram atores simulando ser curandeiros, mas os pacientes achavam que todos eram curandeiros. O resultado? Os atores foram mais bem sucedidos reduzindo a dor dos pacientes, provavelmente por encenarem rituais mais&#8230; enf\u00e1ticos. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 vergonha sofrer do Efeito Placebo. Todo ser humano tem esse potencial. Vergonha \u00e9 brigar com ele em vez de tirar o que ele tem de positivo: a percep\u00e7\u00e3o do poder que sua mente pode ter.<\/p>\n<p>Hoje, sabemos que para que o Efeito Placebo opere em sua m\u00e1xima pot\u00eancia, tr\u00eas fatores s\u00e3o necess\u00e1rios: 1) o paciente precisa ter uma grande vontade de se curar; 2) o paciente precisa ter total confian\u00e7a que a subst\u00e2ncia ou terapia que est\u00e1 fazendo tem poder curativo; 3) o paciente precisa confiar em quem o atende e indica essa terapia.<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha escutado algo sobre \u201co poder curativo da f\u00e9\u201d. \u00c9 outra forma de falar do Efeito Placebo, revestido de uma alegoria religiosa. Quem cura \u00e9 a mente, atribuam a isso a alegoria que quiserem e, se est\u00e3o tentando ajudar algu\u00e9m, atribuam a alegoria que essa pessoa vai abra\u00e7ar melhor. \u00d3bvio que ningu\u00e9m deve deixar de fazer o tratamento m\u00e9dico indicado, mas acreditar em uma cura aleg\u00f3rica em conjunto pode ajudar.<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00f5es comprovadamente podem desencadear rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, ningu\u00e9m com um m\u00ednimo de conhecimento cient\u00edfico vai negar isso. A capacidade de cura n\u00e3o \u00e9 apenas externa, ela \u00e9 interna tamb\u00e9m. Ainda n\u00e3o se entende bem como esse mecanismo funciona, mas a ci\u00eancia n\u00e3o nega que ele exista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, este texto n\u00e3o \u00e9 para te induzir a dar p\u00edlula de a\u00e7\u00facar a quem est\u00e1 doente na esperan\u00e7a de que a pessoa se cure, \u00e9 para que voc\u00ea reflita que tem um potencial de conseguir uma cura para qualquer coisa dentro de voc\u00ea. Pessoas como Somir e eu nunca poder\u00e3o se beneficiar do efeito placebo, pois somos muito c\u00e9ticos, mas podemos nos beneficiar do princ\u00edpio geral: a mente tem poder, inclusive de cura.<\/p>\n<p>Se o saber que a terapia n\u00e3o funciona anula o Efeito Placebo, o que acontece se a gente reverte isso e passa a acreditar que a terapia era s\u00f3 uma alegoria, a cura vem da mente, e esta sim tem comprovado poder curativo? Se for uma mente treinada, com for\u00e7a para desencadear esse processo, talvez voc\u00ea consiga resultados surpreendentes.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para reclamar que escrevi o dobro do limite de p\u00e1ginas, para mostrar sua mediocridade e falta de compreens\u00e3o e dizer que estamos pregando curandeirismo (sempre tem um) ou ainda para dizer que est\u00e1 pensando como prejudicar algu\u00e9m com efeito Nocebo: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um rem\u00e9dio simulado, uma subst\u00e2ncia ou interven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem efeito direto em doen\u00e7as, mas, que mesmo assim, faz o paciente melhorar. Tratado por muitos como sin\u00f4nimo de ignor\u00e2ncia ou pouca intelig\u00eancia, ele pode afetar a todos n\u00f3s, pois a mente de qualquer pessoa \u00e9 capaz de se sobrepor ao f\u00edsico, ao corpo e ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-19722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-explica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19722\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}