{"id":19841,"date":"2022-04-22T16:02:11","date_gmt":"2022-04-22T19:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19841"},"modified":"2022-04-22T16:02:23","modified_gmt":"2022-04-22T19:02:23","slug":"alienigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/04\/alienigena\/","title":{"rendered":"Alien\u00edgena."},"content":{"rendered":"<p>Bom dia, classe. Voc\u00eas devem estar se perguntando por que a aula de hoje est\u00e1 acontecendo aqui nessa nave. A tela atr\u00e1s de mim na verdade \u00e9 uma janela. E quando eu desligo a fun\u00e7\u00e3o de monitor dela, voc\u00eas podem ver&#8230; a Terra. O nosso planeta.<!--more--><\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 est\u00e3o na idade de come\u00e7ar a fazer perguntas, e eu estou aqui para explicar o que puder sobre isso. A Terra \u00e9 o nosso planeta, mas n\u00f3s n\u00e3o estamos mais nela, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou menos de um s\u00e9culo atr\u00e1s. At\u00e9 o ano 2023, acredit\u00e1vamos estar sozinhos no universo. Tudo mudou depois da primeira visita. Alguns meses antes, cientistas que moravam ali, na Terra, conseguiram captar uma gigantesca armada de naves espaciais vindo rapidamente em nossa dire\u00e7\u00e3o. Foram meses bem complicados no planeta, o que vamos estudar com mais calma nas pr\u00f3ximas aulas. O que importa hoje \u00e9 dizer que n\u00e3o havia tecnologia na Terra para lidar com aquilo.<\/p>\n<p>Nossos antepassados tentaram entrar em contato diversas vezes, mas as respostas&#8230; elas n\u00e3o faziam sentido. Receb\u00edamos sons que pareciam uma linguagem, mas que ningu\u00e9m era capaz de traduzir. E pra complicar, uma parte dos sons que eles enviavam nem era numa faixa que o ouvido humano conseguia captar. Fizemos esfor\u00e7os por muito tempo para tentar decifrar a comunica\u00e7\u00e3o alien\u00edgena, conseguimos fazer algumas fotos e v\u00eddeos deles no caminho, mas ningu\u00e9m tinha no\u00e7\u00e3o clara de suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acabamos chamando-os de Plocs. V\u00e1rios sons que eles emitiam pareciam com isso, foi um apelido que pegou nas redes sociais da \u00e9poca e acabou se tornando a forma oficial de se referir a eles.<\/p>\n<p>Eram muitas naves, e s\u00f3 sinais sonoros incompreens\u00edveis para nos guiar. As maiores pot\u00eancias militares da \u00e9poca se prepararam da melhor forma que poderiam, apenas torc\u00edamos para que esses visitantes fossem pac\u00edficos. Depois de mais de seis meses de muita ansiedade, as primeiras naves entraram em nossa \u00f3rbita. Est\u00e1vamos com milhares de m\u00edsseis e avi\u00f5es prontos para intercept\u00e1-las. As mensagens de \u00e1udio deles continuavam chegando, cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p>Com o passar dos dias, as naves foram ocupando os c\u00e9us das maiores cidades do planeta. Ningu\u00e9m do planeta queria come\u00e7ar uma guerra que n\u00e3o sabia se seria poss\u00edvel de ganhar, os esfor\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o eram globais, mas infrut\u00edferos. Quatro dias ap\u00f3s a chegada da primeira nave, sobre uma grande cidade chamada Cidade do M\u00e9xico, ali no continente chamado Am\u00e9rica do Norte. Est\u00e3o vendo marcado na tela? Pois ent\u00e3o, o primeiro raio caiu sobre essa cidade.<\/p>\n<p>Era um enorme raio de luz azulada, que descia lentamente da nave at\u00e9 o ch\u00e3o. Algumas pessoas tentaram atirar de volta, mas os ex\u00e9rcitos continuaram esperando. Quando a luz finalmente atingiu uma enorme \u00e1rea da cidade, percebemos que n\u00e3o era algo agressivo. Muito pelo contr\u00e1rio. As primeiras not\u00edcias falavam sobre uma sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa de ser banhado pela luz. Prazer, euforia, paz&#8230; cada pessoa dizia uma coisa, mas todas pareciam gostar muito do que sentiam.<\/p>\n<p>As luzes foram sendo disparadas por todas as outras naves em r\u00e1pida sucess\u00e3o. N\u00e3o causavam nenhum dano \u00e0s estruturas, n\u00e3o eram radioativas, sequer geravam calor onde tocavam. Para todos os efeitos, a humanidade entendeu o contato como benevolente. Enquanto as not\u00edcias giravam o mundo, fomos percebendo todo aquele nervosismo dos meses anteriores virarem uma imensa festa de recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro, o ser humano n\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3. Muitas pessoas ainda desconfiavam ou agiam de forma hostil \u00e0s naves e suas luzes, mas a vis\u00e3o das pessoas sobre os visitantes se tornou muito melhor, rapidamente. Governos, cientistas e curiosos de todos os tipos continuavam se debru\u00e7ando sobre os sons enviados pelos alien\u00edgenas, tentando entender alguma coisa. Al\u00e9m de n\u00e3o termos nenhuma forma de transformar os sons em s\u00edmbolos e al\u00e9m de muitos dos sons s\u00f3 serem compreens\u00edveis para computadores, os sons nem pareciam se repetir o suficiente para formarmos um vocabul\u00e1rio puramente sonoro. \u00c9 como se eles apresentassem palavras novas a cada minuto, impossibilitando at\u00e9 mesmo que tent\u00e1ssemos imitar os sons para buscar algum contato.<\/p>\n<p>As pessoas come\u00e7aram a se movimentar do mundo todo para ficar debaixo da luz azul. O di\u00e2metro m\u00e9dio da luz projetada \u00e9 de 50 quil\u00f4metros. Se voc\u00eas olharem para essa imagem aproximada da superf\u00edcie, v\u00e3o perceber que elas ainda est\u00e3o por l\u00e1. S\u00e3o duas mil, trezentas e dezoito naves estacionadas em \u00f3rbita do planeta Terra, projetando essas luzes desde 2023 at\u00e9 hoje, em 2104. Quase toda popula\u00e7\u00e3o que ainda vive no planeta est\u00e1 concentrada nessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o, ainda n\u00e3o conseguimos entender a l\u00edngua deles. O \u00faltimo estudo que temos sugere mais de dezenove quintilh\u00f5es de sons distintos na suposta linguagem desses alien\u00edgenas. S\u00f3 come\u00e7amos a perceber um n\u00edvel maior de repeti\u00e7\u00e3o de sons h\u00e1 duas d\u00e9cadas, no m\u00e1ximo. Estimamos que tenhamos acesso a quase metade do vocabul\u00e1rio desses seres, mas \u00e9 imposs\u00edvel at\u00e9 mesmo para nossos melhores computadores fazer senso da forma como eles se comunicam. Por isso, nos concentramos em suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E desde as luzes azuis, foram v\u00e1rias. Eu percebo que v\u00e1rios de voc\u00eas est\u00e3o se perguntando por que estamos vivendo aqui, fora do planeta, se esses visitantes n\u00e3o estavam tentando nos fazer mal. Pois bem. Os Plocs nunca nos passaram a impress\u00e3o de ter m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es, mas isso n\u00e3o significa que nossa conviv\u00eancia tenha sido&#8230; tranquila.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s as luzes, come\u00e7aram relatos de pequenas naves saindo das maiores em \u00f3rbita e come\u00e7ando a pousar na superf\u00edcie de Terra. A maioria era pequena, n\u00e3o maior que um sat\u00e9lite, e totalmente esf\u00e9ricas. Elas flutuam com uma tecnologia que ainda n\u00e3o conseguimos entender, e se movimentam rapidamente pela atmosfera terrestre. A chegada delas gerou alguma tens\u00e3o, mas nenhuma parecia agressiva contra seres humanos.<\/p>\n<p>Muitas apenas flutuavam sobre \u00e1reas urbanas ou rurais, como se estivessem analisando o planeta e seus habitantes. Parecia l\u00f3gico para o povo da \u00e9poca. Talvez tivessem usado a luz azul para mostrar boas inten\u00e7\u00f5es e agora estava estudando melhor quem estavam visitando. Esse processo durou algumas semanas, com apenas algumas intera\u00e7\u00f5es hostis por parte dos habitantes locais, alguns por ignor\u00e2ncia, outros por crueldade. V\u00e1rias dessas naves foram abatidas por civis e militares, mas nada parecia irritar os visitantes. Respiramos aliviados pela compreens\u00e3o deles.<\/p>\n<p>Mas logo come\u00e7amos a ficar confusos com as a\u00e7\u00f5es seguintes: num espa\u00e7o de quatro horas, as naves se movimentaram rapidamente para a \u00c1frica e todos os cativeiros de&#8230; zebras. Sim, aquele animal que se parecia com um cavalo, mas tinha o corpo coberto de listras brancas e pretas. Os Plocs extinguiram as zebras do planeta com raios laser poderosos. Nesse momento, governos do mundo todo co\u00e7avam a cabe\u00e7a sobre como lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Alguns ambientalistas at\u00e9 tentaram lutar de volta para demonstrar nossa insatisfa\u00e7\u00e3o, mas as naves n\u00e3o se importaram.<\/p>\n<p>Por que as zebras? N\u00e3o sabemos. Ainda n\u00e3o sabemos, 81 anos depois. Depois disso, extinguiram v\u00e1rias outras esp\u00e9cies, inclusive de insetos e bact\u00e9rias, sobre as quais ainda vamos aprender neste semestre. N\u00e3o h\u00e1 nenhum padr\u00e3o claro sobre os motivos de eliminarem essas esp\u00e9cies, cientistas sugerem que estavam eliminando organismos incompat\u00edveis com sua gen\u00e9tica, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o encontramos nenhum elemento gen\u00e9tico comum entre as esp\u00e9cies eliminadas violentamente pelos Plocs.<\/p>\n<p>Depois, come\u00e7aram a instalar os cubos. Os cubos s\u00e3o, como o nome diz, cubos s\u00f3lidos de uma liga met\u00e1lica de tit\u00e2nio, platina e algum elemento desconhecido, de quarenta e seis metros e meio de altura e largura. Foram instaladas mais de um milh\u00e3o delas ao redor do planeta, inclusive algumas no fundo dos oceanos. Esses cubos emitem uma leve radia\u00e7\u00e3o, mas nada o suficiente para colocar em risco a sa\u00fade humana ou animal. Eles s\u00e3o extremamente resistentes, mas n\u00e3o invulner\u00e1veis. Descobrimos que causar qualquer dano a um dos cubos faz com que os Plocs substituam por um novo em quest\u00e3o de horas.<\/p>\n<p>A cada quinze horas e quatro minutos, um dos cubos \u00e9 aleatoriamente selecionado e come\u00e7a a emitir uma ilumina\u00e7\u00e3o esverdeada. Qualquer forma de vida que estiver a menos de dois metros e vinte tr\u00eas cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia \u00e9 imediatamente transmutada em chumbo, num formato especial com a menor superf\u00edcie poss\u00edvel. Esses objetos s\u00e3o coletados pela nave mais pr\u00f3xima e levados para a nave m\u00e3e regional. N\u00e3o temos a menor no\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o desses cubos, at\u00e9 porque os alien\u00edgenas nunca tentaram extrair chumbo da nossa superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Menos de um m\u00eas depois da chegada, outro fen\u00f4meno curioso come\u00e7ou a acontecer: as naves come\u00e7aram a se aproximar de seres humanos, quase sempre os mais desprovidos, em comunidades carentes e marginalizadas, e entregar cubos de ouro maci\u00e7o de em m\u00e9dia cinco quilos. Embora isso tenha causado muita alegria em boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, em quest\u00e3o de semanas o valor do ouro desabou. Um desses cubos n\u00e3o vale mais que um parafuso enferrujado hoje em dia.<\/p>\n<p>E para quem estava curioso, \u00e9 por isso que tantas partes da nossa nave s\u00e3o feitas de ouro. Era um material raro na antiguidade, mas temos suprimento basicamente infinito hoje em dia. Os Plocs parecem n\u00e3o entender o conceito de dinheiro ou escassez, assim que o ouro come\u00e7ou a valer menos, fizeram o mesmo com a platina, com diamantes e at\u00e9 mesmo notas de dinheiro. \u00c9 imposs\u00edvel manter qualquer sistema financeiro na Terra por causa disso, assim que qualquer grupo volumoso o suficiente se decide por uma forma de armazenar valor, os Plocs inundam o mercado com ela.<\/p>\n<p>Depois de exatamente vinte anos da sua chegada, os Plocs come\u00e7aram a agir de uma forma ainda mais confusa: alguns sons emitidos passaram a ser punidos com extrema viol\u00eancia f\u00edsica. S\u00e3o combina\u00e7\u00f5es espec\u00edficas mais comuns nas l\u00ednguas germ\u00e2nicas e orientais do que nas de raiz latina. Alguns de voc\u00eas devem ter lido que a l\u00edngua de nossos antepassados era o ingl\u00eas e o mandarim, mas que falamos portugu\u00eas hoje em dia. Falamos porque a l\u00edngua mais popular na \u00e9poca com menos sons pass\u00edveis de puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica pelos Plocs era a l\u00edngua portuguesa falada no Brasil, que voc\u00eas podem ver marcado na tela.<\/p>\n<p>As puni\u00e7\u00f5es s\u00e3o terr\u00edveis, mas nunca fatais. Os Plocs t\u00eam ao seu dispor uma tecnologia m\u00e9dica que consegue recuperar virtualmente qualquer trauma no corpo humano, e a usa logo depois de quebrar ossos e perfurar \u00f3rg\u00e3os de seres humanos que proferiram os sons&#8230; errados. L\u00e1 no planeta a maioria das pessoas deixou de se comunicar por sons para evitar esse risco, mas os primeiros que vieram para as esta\u00e7\u00f5es espaciais mantiveram a l\u00edngua portuguesa viva.<\/p>\n<p>Alguns outros fatores influenciaram nossa fuga do planeta para viver em esta\u00e7\u00f5es espaciais como esta, como os Aut\u00f4matos Violadores e a Genitaliza\u00e7\u00e3o Extrema da fauna, mas esses s\u00e3o assuntos que decidimos ficar a cargo de seus pais explicar, se eles quiserem. O que importa \u00e9 que estamos seguros aqui em cima.<\/p>\n<p>E um dia, vamos entender o que aconteceu e finalmente voltar para casa.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que essa ficou confusa, para dizer que entende os Plocs, ou mesmo para dizer que o aut\u00f4mato violador s\u00f3 d\u00f3i no come\u00e7o: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom dia, classe. 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