{"id":19894,"date":"2022-05-06T14:44:10","date_gmt":"2022-05-06T17:44:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19894"},"modified":"2022-05-06T14:44:10","modified_gmt":"2022-05-06T17:44:10","slug":"universo-probabilistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/05\/universo-probabilistico\/","title":{"rendered":"Universo probabil\u00edstico."},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo a ci\u00eancia j\u00e1 conhece o el\u00e9tron. A \u201cpart\u00edcula\u201d de carga negativa que orbita o n\u00facleo do \u00e1tomo j\u00e1 foi provada in\u00fameras vezes, e \u00e9 at\u00e9 utilizada em microsc\u00f3pios especiais para fazer imagens de objetos pequenos demais para os outros tipos dispon\u00edveis. Que o el\u00e9tron est\u00e1 l\u00e1, est\u00e1. O problema \u00e9 dizer onde exatamente.<!--more--><\/p>\n<p>Sally j\u00e1 escreveu aqui sobre o experimento da fenda dupla, onde feixes de el\u00e9trons s\u00e3o jogados contra uma parede com duas fendas at\u00e9 chegar num sensor. Eu nem vou entrar na insanidade que \u00e9 a diferen\u00e7a entre os resultados de acordo com algu\u00e9m estar observando ou n\u00e3o, nem precisa: o simples fato dos el\u00e9trons acabarem no sensor num padr\u00e3o diferente das fendas na parede j\u00e1 \u00e9 pira\u00e7\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p>Esse famoso experimento sugere que o el\u00e9tron \u00e9 ao mesmo tempo uma part\u00edcula e uma onda, porque \u00e0s vezes simplesmente ignora barreiras no seu caminho, como se pudesse \u201cdesviar\u201d da realidade ao seu bel prazer. \u00c9 claro que a verdade t\u00e9cnica do processo \u00e9 muito mais complicada do que um mero resumo num blog que fala sobre cus e pol\u00edticos (ou seja, cus), mas \u00e9 importante ressaltar que depois de mais de um s\u00e9culo de experimentos com equipamentos car\u00edssimos e milhares das melhores mentes da humanidade no processo, a conclus\u00e3o \u00e9 que nessa escala do universo, n\u00e3o temos \u201cresolu\u00e7\u00e3o\u201d para enxergar o que acontece.<\/p>\n<p>Por isso, trabalhamos com probabilidades. Na pr\u00e1tica, o el\u00e9tron circundando o n\u00facleo do \u00e1tomo n\u00e3o \u00e9 visto como uma bolinha bem-comportada fazendo uma \u00f3rbita, tal qual a Terra ao redor do Sol; na verdade, o el\u00e9tron \u00e9 tratado como uma esp\u00e9cie de nuvem de probabilidades. Ele pode estar em qualquer posi\u00e7\u00e3o ao redor do \u00e1tomo a qualquer momento. A porcaria n\u00e3o para de se mexer, e virtualmente qualquer coisa no universo consegue interagir com ele. O simples fato de observar um el\u00e9tron significa que voc\u00ea mexeu com ele. Voc\u00ea sabe onde ele estava no momento da intera\u00e7\u00e3o, mas depois disso, n\u00e3o tem mais como prever.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m com uma mente mais matem\u00e1tica poderia dizer: basta calcular quanto a observa\u00e7\u00e3o mexeu com ele e prever para onde ele vai, certo? Errado. Em tese seria poss\u00edvel, na pr\u00e1tica, tem incont\u00e1veis outras nuvens de el\u00e9trons nas imedia\u00e7\u00f5es, e tudo pode acontecer quando um interage com o outro. \u00c9 mais ou menos como tentar acompanhar uma gota de \u00e1gua jogada no oceano. Depois que caiu l\u00e1, n\u00e3o d\u00e1 mais pra saber o que \u00e9 o qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil fazer an\u00e1lises precisas na bagun\u00e7a que \u00e9 a nossa realidade. Quanto maior o zoom que voc\u00ea d\u00e1 nas coisas, maior \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de caos absoluto. Por exemplo, para captar um neutrino, uma das part\u00edculas mais min\u00fasculas e leves do universo, precisa coloca o sensor debaixo de toneladas de terra para come\u00e7ar a ter uma chance. O neutrino \u00e9 t\u00e3o chato de capturar, que sistemas que custam milh\u00f5es e milh\u00f5es de d\u00f3lares ficam felizes quando percebem 10 por ano. Levante o dedo indicador na frente do seu rosto: no \u00faltimo segundo, passaram 100 bilh\u00f5es de neutrinos pela sua unha. Conseguem sentir o drama que \u00e9 capturar apenas algumas dezenas com sistemas supercomplexos?<\/p>\n<p>Quando as coisas s\u00e3o pequenas assim, a l\u00f3gica de ver e interagir com as coisas vai mudando, entramos num universo probabil\u00edstico. N\u00e3o tem como saber tudo o que est\u00e1 acontecendo, porque mesmo o sensor mais delicado que somos capazes de fazer ainda \u00e9 uma monstruosidade perto dessa escala. \u00c9 mais ou menos como tentar mover um gr\u00e3o de areia numa praia com uma escavadeira. Voc\u00ea vai acabar mexendo com bilh\u00f5es de outros gr\u00e3os ao mesmo tempo. O melhor que voc\u00ea pode dizer depois \u00e9 que tem certeza de que aquele gr\u00e3o foi mexido.<\/p>\n<p>E dadas nossas limita\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que fazemos com a ci\u00eancia atual. Tem uma escala onde temos algum controle das coisas, mas ela acaba bem antes mesmo de chegarmos nos \u00e1tomos. Aceleradores de part\u00edculas &#8211; com sua precis\u00e3o monstruosa e quil\u00f4metros de tubos calibrados pelos melhores sistemas e cientistas que a humanidade tem a oferecer &#8211; s\u00e3o capazes de jogar um monte de part\u00edculas umas contra as outras e torcer para elas se chocarem. Fazem isso com o suficiente para a probabilidade chegar perto de 100%, mas mesmo que pequena, a chance delas n\u00e3o se tocarem sempre existe.<\/p>\n<p>Somos dinossauros tentando montar um quebra-cabe\u00e7a. N\u00e3o temos c\u00e9rebro ou habilidade para manipular a mat\u00e9ria\/energia em escalas min\u00fasculas assim. E isso n\u00e3o \u00e9 para tirar sarro da ci\u00eancia, muito pelo contr\u00e1rio, o que j\u00e1 temos hoje \u00e9 mais ou menos como ver um gorila montando um rel\u00f3gio su\u00ed\u00e7o com todas aquelas pecinhas min\u00fasculas. \u00c9 de cair o queixo. S\u00e9rio, a gente bate muito na humanidade aqui, mas n\u00e3o podemos esquecer que nessa caminhada de poucos mil\u00eanios descemos das \u00e1rvores para mapear o universo das maiores gal\u00e1xias \u00e0s menores subdivis\u00f5es da mat\u00e9ria. N\u00e3o \u00e9 de se reclamar.<\/p>\n<p>Eu trago esse tema porque uma das maiores barreiras ao avan\u00e7o tecnol\u00f3gico humano est\u00e1 justamente na limita\u00e7\u00e3o que o microuniverso nos imp\u00f5e. Nosso pensamento \u00e9 bin\u00e1rio, n\u00e3o qu\u00e2ntico. Calma, eu n\u00e3o vou ir para nada relacionado com autoajuda: quando falo de pensamento bin\u00e1rio e qu\u00e2ntico, estou falando sobre como a verdade para n\u00f3s \u00e9 feita de afirma\u00e7\u00f5es positivas ou negativas. Tudo o que voc\u00ea entende sobre o mundo pode ser reduzido a uma s\u00e9rie de perguntas cujas respostas s\u00e3o sim ou n\u00e3o. Essa \u00e9 a l\u00f3gica do mundo macro: as coisas est\u00e3o ligadas ou desligadas, quentes ou frias, existem ou n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E por mais que sempre exista mais o que estudar e refinar, talvez estejamos chegando no fim do que \u00e9 poss\u00edvel entender de verdade com essa mente bin\u00e1ria. No mundo da f\u00edsica qu\u00e2ntica, come\u00e7amos a falar sobre superposi\u00e7\u00f5es, sim e n\u00e3o ao mesmo tempo. Sim, o el\u00e9tron est\u00e1 naquela nuvem de possibilidades; mas n\u00e3o, n\u00e3o podemos te dizer onde. O gato vivo e morto ao mesmo tempo na caixa de Schr\u00f6dinger.<\/p>\n<p>E isso nada tem a ver com m\u00e1gica, \u00e9 uma quest\u00e3o de probabilidades. Se voc\u00ea joga uma moeda para cima, ela tem duas probabilidades, cara ou coroa (ela pode cair de p\u00e9 tamb\u00e9m, mas \u00e9 t\u00e3o raro que ningu\u00e9m pensa nisso), o experimento come\u00e7a com um conjunto conhecido de resultados. Quando voc\u00ea olha para o que aconteceu com a moeda, s\u00f3 tem dois caminhos para seguir na mente, caminhos previs\u00edveis antes mesmo de jogar a moeda pra cima.<\/p>\n<p>J\u00e1 no mundo qu\u00e2ntico, n\u00e3o \u00e9 que alguma coisa sobrenatural aconte\u00e7a, \u00e9 que antes de fazer o experimento, n\u00e3o d\u00e1 para estabelecer uma lista de resultados poss\u00edveis. Um mero el\u00e9tron pode estar em incont\u00e1veis lugares do espa\u00e7o em qualquer momento, ent\u00e3o n\u00e3o tem como comparar o resultado da visualiza\u00e7\u00e3o dele com uma lista pr\u00e9via. O el\u00e9tron interage com outras coisas ao seu redor, ele emite e absorve f\u00f3tons o tempo todo, ele bate com outras coisas que n\u00e3o estava no \u00e1tomo, ele pode ser perturbado por virtualmente qualquer coisa no universo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para prever onde um el\u00e9tron vai estar daqui a um segundo, voc\u00ea precisa saber tudo sobre o que interage com ele e processar a informa\u00e7\u00e3o em menos de um segundo. Entendem o problema? Um computador que seja capaz de pegar e processar toda a informa\u00e7\u00e3o do universo tem que simular o movimento do el\u00e9tron mais r\u00e1pido do que o el\u00e9tron se move naturalmente. S\u00f3 que o computador vai precisar calcular isso com&#8230; el\u00e9trons, de um jeito ou de outro. A natureza tem sua velocidade, e n\u00e3o se importa com o que queremos ou n\u00e3o. Como tudo parece estar conectado, tudo se influencia.<\/p>\n<p>E isso significa que entendimento perfeito, at\u00e9 onde sabemos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pelas leis da f\u00edsica. A mentalidade bin\u00e1ria de sim ou n\u00e3o provavelmente n\u00e3o vai conseguir nos levar muito longe dentro das menores escalas da mat\u00e9ria. O ser humano vai ter que aprender a dar palpites cada vez melhores, e come\u00e7ar a construir toda sua realidade ao redor desses palpites (educados), em camadas de probabilidades que v\u00e3o se acumulando com o passar de s\u00e9culos e mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Talvez o ser humano do ano 3.000 sequer pense como n\u00f3s pensamos agora. Imagine s\u00f3 se toda sua tecnologia se baseia na manipula\u00e7\u00e3o de probabilidades? Teremos que ensinar crian\u00e7as de forma diferente, teremos que expurgar o conceito de certeza da mente das pessoas, porque certezas ser\u00e3o sin\u00f4nimo de mau uso das probabilidades. O ser humano do futuro pode ser literalmente incompreens\u00edvel para n\u00f3s. Ser\u00e1 que palavras d\u00e3o conta de comunicar probabilidades? Ser\u00e1 que eles v\u00e3o ter os mesmos n\u00fameros que n\u00f3s? O mundo bin\u00e1rio tem alta probabilidade de ficar obsoleto nos pr\u00f3ximos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o consigo me imaginar num mundo onde certezas s\u00e3o coisas do passado. Mesmo com todos os avan\u00e7os da f\u00edsica, a ideia de probabilidades que usamos \u00e9 uma forma de manter os c\u00e1lculos bin\u00e1rios poss\u00edveis. N\u00e3o sabemos onde o el\u00e9tron vai estar, mas de acordo com o avan\u00e7o de um sistema com v\u00e1rios, podemos entender o que aconteceu. E usando essa l\u00f3gica do que j\u00e1 foi analisado, prever o futuro. Existem previs\u00f5es matem\u00e1ticas maravilhosas na ci\u00eancia, coisa que foi pensada cinquenta anos antes de termos a tecnologia para fazer o experimento, e que na hora H acertou com 99,9999% de precis\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente ainda consegue \u201cdomar\u201d a realidade qu\u00e2ntica dentro de uma l\u00f3gica bin\u00e1ria limitada da mente humana, mas quanto menor a escala das coisas com as quais lidamos, menos esse sistema de pensamento funciona. Sem abra\u00e7ar a incerteza, n\u00e3o sei at\u00e9 onde podemos ir. O computador qu\u00e2ntico j\u00e1 funciona, e para algumas coisas \u00e9 mais r\u00e1pido que o bin\u00e1rio (sim, essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre os dois, o bin\u00e1rio usa sim ou n\u00e3o, o qu\u00e2ntico usa probabilidades), mas ainda est\u00e1 resolvendo quest\u00f5es que as nossas mentes prop\u00f5em.<\/p>\n<p>Mentes bin\u00e1rias. E a minha mente bin\u00e1ria acredita que temos mais um n\u00edvel de intelig\u00eancia para alcan\u00e7ar, n\u00e3o sei se ele sai naturalmente ou se vamos precisar de m\u00e1quinas para isso, mas eu tenho (quase) certeza que ningu\u00e9m ainda conseguiu ativar seu pensamento qu\u00e2ntico, sem certezas, abra\u00e7ando as nuvens de probabilidade da realidade. E tamb\u00e9m acho que \u00e9 esse pensamento que vai mudar o futuro da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Estou tentando aqui, vai que consigo? Mas n\u00e3o custa nada voc\u00ea tentar tamb\u00e9m. Pra onde voc\u00ea vai quando sua mente n\u00e3o pensa em sim ou n\u00e3o? O que acontece se a gente n\u00e3o tiver certeza de mais nada?<\/p>\n<p>O tempo dir\u00e1. Provavelmente.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer um pouco do que eu usei, para dizer que \u00e9 autoajuda que n\u00e3o ajuda (a melhor), ou mesmo para dizer que seu coach qu\u00e2ntico aumentou o pre\u00e7o pelo princ\u00edpio da incerteza inflacion\u00e1ria: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo a ci\u00eancia j\u00e1 conhece o el\u00e9tron. A \u201cpart\u00edcula\u201d de carga negativa que orbita o n\u00facleo do \u00e1tomo j\u00e1 foi provada in\u00fameras vezes, e \u00e9 at\u00e9 utilizada em microsc\u00f3pios especiais para fazer imagens de objetos pequenos demais para os outros tipos dispon\u00edveis. Que o el\u00e9tron est\u00e1 l\u00e1, est\u00e1. 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