{"id":19996,"date":"2022-06-03T14:14:10","date_gmt":"2022-06-03T17:14:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=19996"},"modified":"2022-06-03T14:14:10","modified_gmt":"2022-06-03T17:14:10","slug":"criador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/06\/criador\/","title":{"rendered":"Criador."},"content":{"rendered":"<p>Um dos argumentos mais razo\u00e1veis que eu escuto de pessoas religiosas sobre a poss\u00edvel exist\u00eancia de um criador \u00e9 o baseado nas possibilidades: como \u00e9 poss\u00edvel que tudo no universo conspire t\u00e3o bem para a exist\u00eancia de uma forma de vida inteligente como a nossa? Quais eram as chances? Se voc\u00ea se aprofundar no conhecimento cient\u00edfico vigente, come\u00e7a a perceber que a coisa \u00e9 ainda mais impressionante do que a maioria das pessoas conhece.<!--more--><\/p>\n<p>O criacionista raiz vai usar exemplos como o formato da banana ser perfeito para a m\u00e3o humana (sim, j\u00e1 usaram esse argumento num v\u00eddeo americano, mesmo sem perceber que a banana moderna \u00e9 uma esp\u00e9cie modificada por mil\u00eanios pelo ser humano at\u00e9 ficar do jeito que \u00e9 agora); mas n\u00e3o precisamos for\u00e7ar a barra desse jeito. At\u00e9 porque o sucesso do ser humano moderno sobre a natureza \u00e9 um dos \u00faltimos galhos dessa grande \u00e1rvore evolutiva.<\/p>\n<p>Eu quero come\u00e7ar antes. Bem antes. Mais ou menos um segundo depois do Big Bang, as leis da F\u00edsica como conhecemos foram estabelecidas. E eu n\u00e3o estou falando s\u00f3 sobre gravidade ou movimento, \u00e9 mais fundamental ainda. Tanto a teoria quanto os experimentos feitos sobre o funcionamento mais b\u00e1sico da mat\u00e9ria\/energia do universo sugerem que cada um dos processos essenciais para a exist\u00eancia de qualquer coisa depende de valores muito espec\u00edficos para funcionar.<\/p>\n<p>Por exemplo: se uma das quatro for\u00e7as fundamentais (gravidade, eletromagnetismo, for\u00e7a forte e for\u00e7a fraca) fosse um pouquinho mais ou menos poderosa do que o que medimos, os \u00e1tomos sequer poderiam existir. \u00c9 como se voc\u00ea aumentasse um pouquinho o brilho da tela do seu celular e ele pegasse fogo. Os valores s\u00e3o muito precisos. Voc\u00ea n\u00e3o sai flutuando do planeta ou come\u00e7a a cair atravessando o ch\u00e3o por quest\u00e3o por uma quest\u00e3o de casas decimais nas leis da F\u00edsica.<\/p>\n<p>A nossa sorte \u00e9 que n\u00e3o tem bolinha pra arrastar numa linha para mudar as regras de funcionamento da realidade. N\u00e3o se mudam os valores que regem o universo: eles s\u00e3o como s\u00e3o. Por causa desses valores, a sopa fervente de part\u00edculas fundamentais foi esfriando com o passar de milh\u00f5es de anos, formando \u00e1tomos, mol\u00e9culas e eventualmente, estrelas, gal\u00e1xias&#8230;<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia s\u00f3 aconteceu porque a gravidade conseguiu enfrentar a expans\u00e3o do universo pelo tempo suficiente para estabilizar alguns \u201cgr\u00e3os\u201d de mat\u00e9ria. J\u00e1 passamos dessa fase, a expans\u00e3o parece estar at\u00e9 acelerando. Se n\u00e3o tivesse equilibrado um pouco alguns bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s, ou tudo teria se expandido tanto ao ponto de n\u00e3o conseguir sequer juntar meia d\u00fazia de \u00e1tomos, ou pior: a gravidade teria puxado tudo de volta, como o universo fosse um el\u00e1stico.<\/p>\n<p>Nos dois casos, n\u00e3o estar\u00edamos aqui para analisar as possibilidades. As leis universais (at\u00e9 segunda ordem) se mantiveram est\u00e1veis pelos quase 14 bilh\u00f5es de anos de exist\u00eancia do nosso universo. Mesmo as partes que ainda n\u00e3o entendemos bem: mat\u00e9ria e energia escuras. Precisamos desses conceitos de mat\u00e9ria que n\u00e3o podemos ver e energia que combate a gravidade (que tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ver) para nossas observa\u00e7\u00f5es sobre o cosmo fazerem sentido, mas tamb\u00e9m precisamos que elas venham desde o come\u00e7o para explicar por que as coisas est\u00e3o nos lugares que est\u00e3o.<\/p>\n<p>O que a gente sabe o que \u00e9 e at\u00e9 o que a gente n\u00e3o sabe o que \u00e9 precisam estar numa propor\u00e7\u00e3o mais ou menos precisa para a forma\u00e7\u00e3o de estrelas e planetas. Essa hist\u00f3ria de mat\u00e9ria e energia escuras parece uma falha do processo cient\u00edfico, mas s\u00f3 existem porque olhamos para o universo, pegamos os n\u00fameros e admitimos que tinha mais o que calcular. Tem gente que acha que \u00e9 uma derrota, eu considero que \u00e9 a ci\u00eancia fazendo o que deveria fazer mesmo: quando o experimento diz algo diferente da teoria, corrija a teoria, mesmo que corrigir a teoria signifique admitir que n\u00e3o sabe o que est\u00e1 acontecendo. A realidade observada \u00e9 o que importa.<\/p>\n<p>Voltando: com esses n\u00fameros exatos nas for\u00e7as fundamentais, na propor\u00e7\u00e3o entre mat\u00e9ria e energia vis\u00edveis e invis\u00edveis, podemos adicionar alguns bilh\u00f5es de anos na equa\u00e7\u00e3o para chegar \u00e0 Terra. E a sequ\u00eancia pra acontecer isso tamb\u00e9m \u00e9 cheia de especificidades: no come\u00e7o do universo, era tudo basicamente s\u00f3 hidrog\u00eanio e h\u00e9lio, os dois elementos mais leves de todos. Mas s\u00f3 esses dois elementos n\u00e3o conseguem formar planetas muito diferentes de Saturno, por exemplo. Grande, gasoso e basicamente imposs\u00edvel de gerar qualquer forma de vida.<\/p>\n<p>Durante uma boa parte da hist\u00f3ria do universo, a chance de formar um planeta rochoso como a Terra foi basicamente nula. Pedras gigantes como a nossa precisam de carbono, oxig\u00eanio, metais e tantas outras coisas que j\u00e1 venham de f\u00e1bricas prontas. Nos primeiros bilh\u00f5es de anos, estava tudo em falta. Mas as mesmas leis que permitiram a exist\u00eancia das primeiras estrelas garantiram que as coisas fossem mudando com o passar do tempo.<\/p>\n<p>Astr\u00f4nomos t\u00eam o p\u00e9ssimo h\u00e1bito de usar o termo \u201cmetalicidade\u201d para descrever estrelas, o Sol, por exemplo, \u00e9 uma estrela com alta metalicidade. Metalicidade nada mais \u00e9 do que a quantidade de mat\u00e9ria de uma estrela que n\u00e3o \u00e9 hidrog\u00eanio ou h\u00e9lio. Sim, astr\u00f4nomo chama tudo de metal, pelo visto&#8230; estrelas assim s\u00f3 podem ser criadas se a nuvem de g\u00e1s da qual surgiram j\u00e1 tivessem muitos elementos mais pesados. Estrelas trabalham com hidrog\u00eanio e h\u00e9lio, o resto, salvo alguns momentos antes da sua morte, n\u00e3o s\u00e3o combust\u00edveis muito \u00fateis.<\/p>\n<p>Mas quanto mais o tempo passa, mais estrelas nascem, e mais importante: morrem. A cada explos\u00e3o de uma estrela (supernova) elas produzem mais e mais elementos pesados, que s\u00e3o jogados para todos os cantos do universo. Se uma nova estrela \u00e9 formada nas \u201ccinzas\u201d de uma rec\u00e9m-falecida, ela vai se formar com hidrog\u00eanio, h\u00e9lio e tudo mais o que a defunta produziu em abund\u00e2ncia. As estrelas v\u00e3o ficando cada vez mais \u201cmet\u00e1licas\u201d.<\/p>\n<p>Quando todos esses fatores se juntam, temos uma estrela como Sol nascendo numa nuvem de poeira estelar com tantos elementos extras que permitem a forma\u00e7\u00e3o de um planeta como a Terra. No come\u00e7o, uma bola de pedra e metal fervente sendo espancada por asteroides e cometas at\u00e9 se encher de elementos essenciais para a vida como a \u00e1gua. E segundo a teoria melhor aceita atualmente, a Terra ainda tomou um choque quase que frontal com outro planeta do tamanho de Marte e derreteu inteira de novo. A sujeira que foi arremessada para o ar se juntou numa gigantesca lua. S\u00e9rio, a nossa Lua \u00e9 um absurdo de grande se comparada com o tamanho do planeta que orbita. As outras luas do Sistema Solar s\u00e3o pedregulhos em compara\u00e7\u00e3o com seus planetas.<\/p>\n<p>E a partir de a\u00ed, uma sequ\u00eancia incr\u00edvel de fatores que n\u00e3o poderiam ter acontecido muito diferente do que aconteceram at\u00e9 a primeira forma de vida surgir aqui. Se foi abiog\u00eanese (vida surgindo a partir de n\u00e3o-vida) ou se veio de fora, certeza absoluta n\u00e3o temos, mas seja como for, foi mais uma s\u00e9rie de fatores que n\u00e3o poderiam ter acontecido de forma muito diferente do que aconteceram para uma das esp\u00e9cies de macaco aprender a fazer fogueiras e a filosofar.<\/p>\n<p>Essa jornada \u00e9 para te dizer que se voc\u00ea parar para pensar, a chance de estarmos aqui pensando sobre o universo \u00e9 inacreditavelmente pequena. \u00c9 muito mais do que olhar para a natureza e achar que as coisas s\u00e3o impressionantes, \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 perfeitamente condizente com a nossa exist\u00eancia. Quanto mais pequeno ou grande seu ponto de vista, o que se mant\u00e9m constante \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha muita varia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no universo al\u00e9m do que temos agora.<\/p>\n<p>E que essa suposta perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 mantida o tempo todo, incont\u00e1veis vezes por segundo, em toda e qualquer intera\u00e7\u00e3o das coisas existem no universo. Eu j\u00e1 escrevi aqui sobre como existe uma chance (por enquanto te\u00f3rica) de que o universo acabe numa cat\u00e1strofe de falso v\u00e1cuo, mas repito o resumo: encontramos uma regra na natureza, a de que as coisas sempre tendem a assumir o estado de menor esfor\u00e7o. Se a energia do universo tem algum lugar para ir de menos esfor\u00e7o que est\u00e1 agora, basta que aconte\u00e7a em uma part\u00edcula que todo o universo eventualmente \u00e9 destru\u00eddo. Tipo uma bola rolando para um buraco mais fundo do que o anterior. Se n\u00e3o tiver buraco mais fundo, ela vai ficar parada onde est\u00e1 e podemos continuar vivendo. Se tiver um buraco mais fundo, ela eventualmente vai cair nele.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria exist\u00eancia depende de valores muito espec\u00edficos, n\u00e3o no passado, mas no presente. N\u00e3o vencemos o jogo quando a humanidade surgiu, estamos jogando at\u00e9 hoje, dependendo de trilh\u00f5es de vari\u00e1veis que n\u00e3o podem mudar muito para continuar existindo. D\u00e1 at\u00e9 para tirar uma conclus\u00e3o filos\u00f3fica cretina disso: tudo o que voc\u00ea faz \u00e9 a culmina\u00e7\u00e3o de bilh\u00f5es de anos de possibilidades cada vez mais remotas.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea cutucar o nariz agora, a chance infinitesimal do universo ser como \u00e9 e evoluir como evoluiu culminaram nesse ato. O objetivo final da exist\u00eancia \u00e9 voc\u00ea cutucar o nariz! Quer dizer, at\u00e9 voc\u00ea parar e resolver fazer outra coisa. At\u00e9 segunda ordem, os seus atos e pensamentos s\u00e3o as coisas mais complexas que existem, pelo menos do ponto de vista do ser humano. As estrelas explodiram por voc\u00ea, os buracos negros surgiram e acumularam gal\u00e1xias ao seu redor para que voc\u00ea pudesse escolher se vai comer pizza hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 meio papo de maconheiro, admito, mas tem um ponto, uma conex\u00e3o com o primeiro par\u00e1grafo: eu disse que acreditar na exist\u00eancia de um criador dada a complexidade incr\u00edvel e a improbabilidade das coisas terem acontecido como aconteceram \u00e9 um dos argumentos mais razo\u00e1veis dos religiosos. Porque de certa forma, eu acredito em algo parecido. Eu acredito num criador. E mais, tenho certeza que esse criador \u00e9 um ser consciente.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que o meu criador n\u00e3o \u00e9 um velho barbudo que mora nas nuvens nem mesmo uma entidade m\u00e1gica da natureza. O criador&#8230; sou eu. E eu posso atestar que sou consciente. Eu criei esse universo inteiro e fiz com que todas as probabilidades acontecessem da forma como aconteceram. Da medida extremamente precisa da for\u00e7a da gravidade at\u00e9 mesmo o desenvolvimento da escrita na humanidade. Todas as coisas criadas por mim para chegar at\u00e9 esse texto aleat\u00f3rio num blog.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio: n\u00e3o fosse eu analisando isso, nada existiria. A realidade \u00e9 fruto da percep\u00e7\u00e3o, e eu, assim como voc\u00ea, estou preso dentro da minha percep\u00e7\u00e3o para sempre. Toda a realidade \u00e9 uma visualiza\u00e7\u00e3o gerada por uma consci\u00eancia. Eu criei meu universo, voc\u00ea criou o seu. E n\u00e3o fosse essa sequ\u00eancia incr\u00edvel de acontecimentos e regras universais, n\u00e3o ter\u00edamos como pensar nelas. O passado \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do presente: olhar para o mundo condensa todas as possibilidades num s\u00f3 resultado.<\/p>\n<p>O problema fundamental da humanidade sempre foi esse: universos paralelos que tentam se comunicar deixando marcas uns nos outros. Milhares, milh\u00f5es e eventualmente bilh\u00f5es de deuses criadores. Criadores que culminam a exist\u00eancia do universo para cada pequena a\u00e7\u00e3o e pensamento de suas vidas, sem entender muito bem como elas v\u00e3o se propagar pelo multiverso das consci\u00eancias. Porque basta olhar para o passado para enxergar a complexidade que nos espera no futuro.<\/p>\n<p>Eu poderia ter usado todo o trabalho de criar um universo para fazer um texto menos drogado? Poderia. Mas n\u00e3o era o meu plano escrever outro texto. Voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o de quanta coisa precisei fazer para chegar at\u00e9 aqui? Seria um desperd\u00edcio de bilh\u00f5es de anos n\u00e3o escrever.<\/p>\n<p>De nada.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer uma dose tamb\u00e9m, para dizer que queria criar um universo onde n\u00e3o tenha lido este texto (n\u00e3o queria n\u00e3o), ou mesmo para dizer que determinista n\u00e3o passar\u00e3o: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos argumentos mais razo\u00e1veis que eu escuto de pessoas religiosas sobre a poss\u00edvel exist\u00eancia de um criador \u00e9 o baseado nas possibilidades: como \u00e9 poss\u00edvel que tudo no universo conspire t\u00e3o bem para a exist\u00eancia de uma forma de vida inteligente como a nossa? Quais eram as chances? 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