{"id":20408,"date":"2022-09-07T13:14:20","date_gmt":"2022-09-07T16:14:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=20408"},"modified":"2022-09-07T13:14:20","modified_gmt":"2022-09-07T16:14:20","slug":"previsibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/09\/previsibilidade\/","title":{"rendered":"Previsibilidade."},"content":{"rendered":"<p>1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 11.<!--more--><\/p>\n<p>A sequ\u00eancia num\u00e9rica acima \u00e9 um tanto estranha, n\u00e3o? Talvez at\u00e9 inc\u00f4moda para alguns de voc\u00eas. Tudo seguia um padr\u00e3o l\u00f3gico at\u00e9 o \u00faltimo elemento. Faltou o n\u00famero 10 para fazer sentido. Agora, se eu tivesse avisado antes que ia escrever uma sequ\u00eancia de n\u00fameros sem usar nenhum zero, n\u00e3o geraria nenhuma surpresa.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 parou para pensar o porqu\u00ea de voc\u00ea esperar o 10 depois do 9 se ningu\u00e9m te disser nada sobre uma sequ\u00eancia de n\u00fameros? Ningu\u00e9m nasce sabendo essa l\u00f3gica sequencial espec\u00edfica. Se por um acaso voc\u00ea crescesse num mundo onde o s\u00edmbolo do 3 e do 4 fossem invertidos, a sequ\u00eancia 1, 2, 4, 3, 5&#8230; seria totalmente natural. Voc\u00ea ainda mostraria tr\u00eas dedos para exemplificar o s\u00edmbolo 4, e quatro dedos para o s\u00edmbolo 3. Tudo continuaria funcionando normalmente, apenas o \u201cdesenho\u201d do n\u00famero que mudaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que dependemos tanto de padr\u00f5es aprendidos: se deixar a mente humana solta, n\u00e3o \u00e9 tanta coisa assim que \u00e9 \u00f3bvia para todo mundo. Cada pessoa tem a capacidade de criar l\u00f3gicas super consistentes com s\u00edmbolos, ideias e sons totalmente diferentes. Os padr\u00f5es s\u00e3o essenciais para a comunica\u00e7\u00e3o entre duas ou mais pessoas seja minimamente pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>E os padr\u00f5es s\u00e3o baseados em previsibilidade: a forma como a intelig\u00eancia funciona neste planeta depende e muito de prever o pr\u00f3ximo item de uma sequ\u00eancia. Humanos, c\u00e3es, golfinhos, polvos, papagaios, formigas e tudo mais que tem um c\u00e9rebro dedicado a receber e processar est\u00edmulos bebem da mesma fonte: reconhecer padr\u00f5es e tentar prever o que vai acontecer.<\/p>\n<p>O ser humano calha de ser o animal mais eficiente nesse processo. N\u00e3o s\u00f3 por poder do c\u00e9rebro, mas pelo conjunto da obra do nosso corpo. Temos imensa habilidade de reconhecer padr\u00f5es e fazer previs\u00f5es, habilidade e for\u00e7a para interagir com boa parte da mat\u00e9ria dispon\u00edvel, e como se n\u00e3o fosse o suficiente, ainda temos a capacidade de agir em conjunto.<\/p>\n<p>Mas a base ainda \u00e9 a mesma: prever o que vai acontecer. Um cachorro analisa o padr\u00e3o de deitar e rolar e o conecta com receber comida. Ele est\u00e1 prevendo que ter\u00e1 uma recompensa quando faz o truque. Intelig\u00eancia \u00e9 uma forma de colocar a mente pelo menos algumas fra\u00e7\u00f5es de segundo no futuro. Dadas as leis deste universo, isso se provou muito eficiente.<\/p>\n<p>Como a f\u00edsica, a qu\u00edmica e a biologia s\u00e3o uma sequ\u00eancia de eventos mais ou menos previs\u00edveis, existe uma boa dose de consist\u00eancia na realidade: se o macaco pelado colocou a m\u00e3o no fogo uma vez e doeu muito, pode apostar que se colocar de novo vai doer de novo. O fogo n\u00e3o deixa de ser extremamente danoso para mat\u00e9ria org\u00e2nica aleatoriamente. As regras s\u00e3o muito est\u00e1veis: se voc\u00ea aprendeu uma vez, a chance de o aprendizado ser v\u00e1lido s\u00e3o muito altas.<\/p>\n<p>Tanto que para a maioria dos seres vivos nesse mundo, boa parte do conjunto de instru\u00e7\u00f5es para se manter vivo vem do instinto: comportamentos internalizados. O instinto da maioria dos bichos \u00e9 dar no p\u00e9 quando sentem dor. Pode escrever isso no seu DNA sem medo: se doeu h\u00e1 10 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, tem tudo para doer hoje. E se sair de perto da fonte de dor \u00e9 o que te mant\u00e9m vivo para se reproduzir, \u00e9 essa a regra que vai ficar marcada. As leis universais s\u00e3o est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando olhamos para o espa\u00e7o, quanto mais distante o objeto observado, mais antigo ele \u00e9. Nossos melhores telesc\u00f3pios conseguem observar coisas do jeito que eram dez ou mais bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s. E tudo parece seguir as mesmas leis da f\u00edsica que temos agora: independentemente da dist\u00e2ncia ou de quanto tempo no passado. Some-se a isso nossos estudos sobre as menores escalas da mat\u00e9ria: por mais que existam v\u00e1rios elementos complicados de entender na f\u00edsica qu\u00e2ntica, a coer\u00eancia \u00e9 imensa. Mesmo com toda a ideia de imprevisibilidade dentro dos \u00e1tomos, o resultado deles na mat\u00e9ria vis\u00edvel \u00e9 consistente. <\/p>\n<p>Essa estabilidade gerou a no\u00e7\u00e3o de previsibilidade. E \u00e9 a previsibilidade que permite toda a complexidade que vemos ao nosso redor: seu corpo \u00e9 uma m\u00e1quina que depende da reatividade do oxig\u00eanio para funcionar. Foram bilh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o \u201cconfiando cegamente\u201d que respirar oxig\u00eanio geraria energia para as c\u00e9lulas funcionarem. O corpo humano foi constru\u00eddo pedacinho por pedacinho prevendo que as regras da natureza nunca mudariam. At\u00e9 agora deu muito certo confiar nisso.<\/p>\n<p>Pensamos em padr\u00f5es e tentamos prever o pr\u00f3ximo passo porque a natureza nos permitiu isso. Vivemos numa realidade previs\u00edvel. Mas \u00e9 claro, isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o cometamos erros nessas previs\u00f5es. Eu diria at\u00e9 que boa parte da experi\u00eancia de vida de um ser humano \u00e9 baseada em errar terrivelmente suas previs\u00f5es. Porque quanto mais complexos s\u00e3o os padr\u00f5es que voc\u00ea quer prever, maior a chance de erro. Maior a chance de voc\u00ea n\u00e3o perceber um ou mais elementos da sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>E como demonstrado logo no come\u00e7o deste texto, a gente tamb\u00e9m aprende muitos padr\u00f5es por conveni\u00eancia social. A realidade pode ser muito est\u00e1vel, mas quando tem tantas partes em movimento como num c\u00e9rebro humano, come\u00e7a a ficar imposs\u00edvel fazer previs\u00f5es perfeitas. Vamos nos acostumando a \u201cdecorar\u201d sequ\u00eancias que j\u00e1 foram estudadas por outros antes de n\u00f3s para n\u00e3o ter que ficar reinventado a roda todos os dias.<\/p>\n<p>Ou seja: a n\u00e3o ser que voc\u00ea tenha experi\u00eancia direta com o assunto, voc\u00ea provavelmente est\u00e1 imitando a previs\u00e3o de outra pessoa. Novamente, olhe para o ser humano e olhe para uma capivara, por exemplo: o nosso sistema de previs\u00f5es compartilhadas \u00e9 muito \u00fatil, fez a gente ir mais longe que qualquer outro animal deste planeta \u00e9 sequer capaz de imaginar.<\/p>\n<p>Terceirizar previs\u00f5es foi uma excelente ideia. A gente ganhou uma esp\u00e9cie de instinto em tempo real. N\u00e3o precisa chegar no seu DNA para funcionar, basta ter contato com outros seres humanos. Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa forma de dividir previs\u00f5es. Outros animais fazem isso, \u00e9 claro, mas n\u00e3o na velocidade estonteante que o ser humano \u00e9 capaz de fazer. Em pouqu\u00edssimo tempo fomos da teoria da energia nuclear para a informa\u00e7\u00e3o extremamente confi\u00e1vel de que n\u00e3o devemos ficar perto de material radioativo. N\u00e3o precisou de uma extin\u00e7\u00e3o em massa para selecionar os indiv\u00edduos que fugiam de radia\u00e7\u00e3o (at\u00e9 porque ela \u00e9 invis\u00edvel), bastou uma meia d\u00fazia de cientistas morrendo terrivelmente para confirmarmos essa previs\u00e3o e compartilh\u00e1-la com o resto da humanidade.<\/p>\n<p><em>\u201cTem algum ponto no seu texto, Somir?\u201d<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o necessariamente. Mas se voc\u00ea quiser algo para mastigar depois, considere o que \u00e9 a ci\u00eancia: um sistema muito bem bolado para gerar previs\u00f5es. A ci\u00eancia analisa padr\u00f5es da forma mais precisa poss\u00edvel e a partir deles, desenvolve previs\u00f5es que precisam ser confirmadas por mais an\u00e1lises. Quando encontramos essa sequ\u00eancia, temos uma Teoria. Com letra mai\u00fascula mesmo, porque no jarg\u00e3o cient\u00edfico Teoria \u00e9 algo muito mais s\u00e9rio e confi\u00e1vel que no linguajar popular. Uma Teoria \u00e9 algo que vem depois de muito estudo e mais importante: depois de confirmarem v\u00e1rias vezes as previs\u00f5es que ela fez.<\/p>\n<p>Porque a\u00ed que est\u00e1 a gra\u00e7a da coisa: a previs\u00e3o. Tem muita coisa na ci\u00eancia que \u00e9 pura especula\u00e7\u00e3o, exerc\u00edcios intelectuais muito interessantes, mas que n\u00e3o conseguem resolver a parte da previsibilidade. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia vai construir um foguete e colocar gente dentro baseado numa ideia que nunca gerou confirma\u00e7\u00e3o de suas previs\u00f5es. Na verdade, essa \u00e9 a regra do jogo: preveja e confirme. Previu e confirmou v\u00e1rias vezes? Siga em frente no mundo real.<\/p>\n<p>Previu e n\u00e3o confirmou? Oras, de volta ao estudo, caro cientista. Resultado negativo \u00e9 um resultado mesmo assim. Informa\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, s\u00f3 n\u00e3o era a informa\u00e7\u00e3o esperada. Quando eu digo que \u00e9 um sistema muito bem bolado para gerar previs\u00f5es, eu estou querendo dizer que o m\u00e9todo cient\u00edfico vai muito al\u00e9m de gente com jaleco branco dentro de um laborat\u00f3rio: \u00e9 um sistema de pensamento muito bem adaptado \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>As regras da natureza s\u00e3o est\u00e1veis, mesmo as que n\u00e3o compreendemos ainda. Se os quarks dentro do \u00e1tomo variassem seu modo de funcionar aleatoriamente a cada minuto, nada do conhecemos existiria. Nem mesmo a gente para conhecer qualquer coisa. Na verdade, tudo o que nos cerca depende dessa estabilidade imensa. Mude uma vari\u00e1vel e o universo explode (ou implode, sei l\u00e1).<\/p>\n<p>O jogo \u00e9 esse: previs\u00f5es bem-feitas baseadas em informa\u00e7\u00f5es bem estudadas. O resto \u00e9 chute, \u00e9 pensamento supersticioso. E com base nos \u00faltimos s\u00e9culos do desenvolvimento humano, j\u00e1 podemos prever que o pensamento cient\u00edfico bateu o pensamento m\u00e1gico no campo das previs\u00f5es. O que as pessoas supersticiosas preveem tem uma taxa de acerto basicamente igual ao aleat\u00f3rio. O que as pessoas cient\u00edficas preveem vai passando dessa faixa aos poucos at\u00e9 chegar em fatores de confian\u00e7a alt\u00edssimos, suficientes para apostar sua vida neles.<\/p>\n<p>O pensamento cient\u00edfico garante que seu teto n\u00e3o desabe, que sua comida n\u00e3o te envenene, que seus rem\u00e9dios curem doen\u00e7as&#8230; n\u00e3o porque seres humanos superiores o desenvolveram, mas porque obedece \u00e0s regas universais de estabilidade. Analise e preveja, confirme se a previs\u00e3o deu certo e s\u00f3 a\u00ed ensine os outros a prever a mesma coisa. Funciona porque a realidade \u00e9 literalmente essa. N\u00e3o \u00e9 escolha, \u00e9 inescap\u00e1vel. A gente \u00e9 feito para prever o que vai acontecer, a gente existe porque as previs\u00f5es s\u00e3o consistentes, e a gente evoluiu de m\u00e3os dadas com a qualidade dessas previs\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como o cientista s\u00e9rio respeita muito mais a \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d do que o supersticioso. Um aceita as regras que lhe foram impostas e faz o melhor poss\u00edvel com elas, outro fica sonhando em quebrar todas elas de acordo com seus desejos pessoais. Se eu fosse um deus criador, eu acho que me sentiria muito mais respeitado e reverenciado por um cientista do que por qualquer fiel berrando em igreja&#8230; o pensamento religioso e\/ou supersticioso \u00e9 muito mais rebelde e ingrato com um Criador do que o cient\u00edfico.<\/p>\n<p>O nosso mecanismo para lidar com a realidade \u00e9 an\u00e1lise de padr\u00f5es e previs\u00f5es. N\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o. Nunca tivemos.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para me chamar de determinista sorrateiro, para dizer que previu que meu texto seria chato, ou mesmo para dizer que hoje \u00e9 feriado e vai descansar: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 11.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":20409,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-20408","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-somir-surtado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20408\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}