{"id":20623,"date":"2022-10-26T12:27:29","date_gmt":"2022-10-26T15:27:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=20623"},"modified":"2022-10-26T12:27:29","modified_gmt":"2022-10-26T15:27:29","slug":"ontem-e-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/10\/ontem-e-amanha\/","title":{"rendered":"Ontem e amanh\u00e3."},"content":{"rendered":"<p>Hoje vamos colocar as coisas em perspectiva. O v\u00eddeo a seguir \u00e9 um compilado dos melhores\/piores momentos de um Documento Especial da extinta TV Manchete. O tema? Uma nova linha de \u00f4nibus que trazia os pobres at\u00e9 as praias mais chiques do Rio de Janeiro.<!--more--><\/p>\n<style>.embed-container { position: relative; padding-bottom: 56.25%; height: 0; overflow: hidden; max-width: 100%; } .embed-container iframe, .embed-container object, .embed-container embed { position: absolute; top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%; }<\/style>\n<div class='embed-container'><iframe src='https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QShr9GpMOEc' frameborder='0' allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<hr \/>\n<p>A mo\u00e7a reclamando do \u201c\u00f4nibus horroroso que trazia gente horr\u00edvel\u201d \u00e9 meme faz tempo, tanto que acharam ela de novo, que hoje \u00e9 muito mais politicamente correta e se arrepende da entrevista. Ela tinha 19 anos, e se voc\u00ea tem mais de 19, sabe que o que se fala nessa idade n\u00e3o se escreve. O ponto do texto n\u00e3o \u00e9 nem falar sobre pessoas espec\u00edficas, \u00e9 sobre um ponto em comum entre o brasileiro de 1989, data de estreia da reportagem, e o brasileiro de 2022, mais de 30 anos depois.<\/p>\n<p>Preconceito? Pobreza? Falta de no\u00e7\u00e3o? Sim, tudo isso. Mas essa \u00e9 a parte \u00f3bvia da coisa, a parte que n\u00e3o se fala tanto \u00e9 a da ideia de solu\u00e7\u00e3o para problemas que o cidad\u00e3o m\u00e9dio tinha ali e ainda tem hoje: tudo ou nada. O povo mais abastado de Copacabana e afins, ainda intocado pelos filtros que o cidad\u00e3o moderno precisou desenvolver, s\u00f3 via a resposta de tirar aquela gentalha dali.<\/p>\n<p>Sim, eu n\u00e3o sou o primeiro a revisitar a mat\u00e9ria, mas eu tenho a impress\u00e3o de que vou ser um dos poucos, talvez o \u00fanico, que vai ignorar a parte de revisionismo. Usar a r\u00e9gua do presente para analisar o passado \u00e9 uma bobagem que se espalhou pela sociedade moderna. Sim, as pessoas de antigamente n\u00e3o tinham as mesmas sensibilidades que temos agora. Devemos ficar felizes que melhoramos, n\u00e3o ficar sofrendo pelo que n\u00e3o podemos mais mudar.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o ponto do texto \u00e9 olhar para essa gente de 1989 e perceber como tem algo que n\u00e3o foi melhorado: a ideia de que estamos a uma atitude radical de mudar o mundo. Ali\u00e1s, eu poderia argumentar que esse \u00e9 um dos problemas mais comuns da sociedade humana desde que come\u00e7amos a viver juntos.<\/p>\n<p>Em 1989, o problema estava resolvido se os pobres n\u00e3o pudessem mais vir \u00e0 praia. Se ficassem no seu canto, n\u00e3o incomodariam. \u00c9 claro que essa ideia tem um problema s\u00e9rio, afinal, ignorar problema n\u00e3o o faz desaparecer. Colocar muros ao redor do que n\u00e3o gostamos s\u00f3 tira as coisas de vista, mas elas continuam l\u00e1. E eventualmente vamos nos encontrar de novo com o problema ignorado.<\/p>\n<p>Na proximidade da elei\u00e7\u00e3o que vai decidir o destino do pa\u00eds pelos pr\u00f3ximos 4 anos, temos dois grupos bem definidos de pessoas que acreditam ter encontrado a solu\u00e7\u00e3o: votar num candidato para impedir o outro de fazer mal para si e para a na\u00e7\u00e3o em geral. J\u00e1 tem bastante texto aqui falando sobre uma prov\u00e1vel falsa escolha, sobre o comportamento terr\u00edvel das pessoas diante da situa\u00e7\u00e3o&#8230; mas vamos pensar no que acontece depois?<\/p>\n<p>Se o Bolsonaro ganhar, o povo que votou no Lula n\u00e3o desaparece. Se o Lula ganhar, o povo que votou no Bolsonaro n\u00e3o desaparece. Prevemos meses, talvez anos de polariza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua ap\u00f3s o resultado das elei\u00e7\u00f5es. O problema que eu enxergo aqui \u00e9 que assim como a mo\u00e7a que queria impedir o \u00f4nibus de trazer gente horr\u00edvel para sua praia, a vit\u00f3ria de um candidato ou de outro n\u00e3o muda a raiz do problema. O que fazia os pobres cariocas incomodarem os frequentadores habituais das praias mais chiques n\u00e3o ia deixar de acontecer se eles fossem momentaneamente impedidos de chegarem at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>O que faz a polariza\u00e7\u00e3o atrapalhar o desenvolvimento do pa\u00eds n\u00e3o vai deixar de acontecer se um candidato ganhar. Se colocar um muro chamado Lula ou Bolsonaro na frente dos advers\u00e1rios, eles ainda v\u00e3o estar do outro lado. E pior: voc\u00ea n\u00e3o vai mais estar acompanhando o que acontece. Em 1989, o carioca de elite preferia n\u00e3o lidar com o fato de que a periferia crescia sem parar. Em 2022, ele \u00e9 ref\u00e9m de uma cidade dominada por bandidos armados, alguns com farda, outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>As coisas continuam acontecendo, demos aten\u00e7\u00e3o para elas ou n\u00e3o. Quando eu argumento que \u00e9 importante tentar conversar e achar pontos comuns entre os que se dizem de esquerda e direita do pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 uma expectativa ut\u00f3pica de compreens\u00e3o e paz entre os povos, \u00e9 apenas o bom senso de n\u00e3o deixar o que voc\u00ea considera um problema abandonado num canto.<\/p>\n<p>Sem a influ\u00eancia da esquerda, o conservador vai esquecendo que \u00e9 humano. Sem a influ\u00eancia da direita, o progressista vai esquecendo&#8230; que \u00e9 humano. E dado tempo suficiente, dois povos alien\u00edgenas um para o outro se formam, criando uma dificuldade s\u00e9ria de avan\u00e7ar em qualquer discuss\u00e3o sobre o futuro. A mo\u00e7a do v\u00eddeo recebeu influ\u00eancia \u201cesquerdista\u201d o suficiente para alguns anos depois botar a m\u00e3o na consci\u00eancia e achar errado o que disse. Porque por mais compreens\u00edvel que seja a putez de lidar com gente que n\u00e3o faz as coisas do jeito que voc\u00ea acha certo, tem algo inerentemente errado em tratar o outro como se fosse um bicho que tem que ser tocado da sua conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 trabalhoso tolerar o outro. \u00c9 mais trabalhoso ainda tentar construir algo junto com o outro. Deixa o ser humano fazer s\u00f3 o que quiser e ele provavelmente se fecha numa comunidade de gente que pensa parecido e rejeita qualquer influ\u00eancia externa. Todo tipo de abertura para conviv\u00eancia com pessoas diferentes gerou muita reclama\u00e7\u00e3o durante a hist\u00f3ria. Tinha romano reclamando de imigrante milhares de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa quem ven\u00e7a a elei\u00e7\u00e3o, todos os eleitores do perdedor v\u00e3o estar no mesmo lugar onde sempre estiveram no dia seguinte. Para vencer a batalha, ambos os lados est\u00e3o apelando para mentiras e distor\u00e7\u00f5es que tornam o outro em ser incompreens\u00edvel, o alien\u00edgena que mencionei h\u00e1 alguns par\u00e1grafos. Voc\u00ea vai precisar de lulistas e bolsonaristas para tocar sua vida a partir dali, e n\u00e3o sei o quanto estamos preparados para retomar a vida sem essa disputa.<\/p>\n<p>O modelo americano, que \u00e9 o que parece que estamos tentando imitar faz alguns anos, s\u00f3 permite dois lados diametralmente opostos. E isso est\u00e1 causando problemas s\u00e9rios no pa\u00eds mais rico do mundo. A pol\u00edtica est\u00e1 funcionando cada vez menos, com todo mundo se convencendo que a estrat\u00e9gia \u00e9 brigar o tempo todo. Quase n\u00e3o temos mais iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o entre democratas e republicanos. Quem perde a elei\u00e7\u00e3o sobe o escudo para aguentar os pr\u00f3ximos anos, na expectativa de tomar o poder de volta. A plataforma do candidato \u00e9 desfazer o que o anterior fez, e isso come\u00e7ou a virar um ciclo vicioso.<\/p>\n<p>Lula est\u00e1 pregando desfazer os problemas que o Bolsonaro criou, e se ganhar, Bolsonaro volta em 2026 dizendo que vai desfazer os problemas que Lula criou. Ei, mesmo depois de 4 anos de governo, a proposta de Bolsonaro ainda passa por corrigir o pa\u00eds dos males dos mandatos petistas! \u00c9 uma pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o. O que o outro faz \u00e9 totalmente errado, o que os que votam no outro querem \u00e9 totalmente errado.<\/p>\n<p>E isso entra na cabe\u00e7a do povo. Sem muita consci\u00eancia, o brasileiro est\u00e1 aceitando essa mec\u00e2nica pol\u00edtica de correr atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo. Sem a direita, a esquerda s\u00f3 vai dar voltas, sem a esquerda, a direita faz o mesmo. O povo est\u00e1 animado com o prospecto de virar o volante agora, mas n\u00e3o temos um plano de como vamos continuar seguindo em frente depois. Polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 fast-food pol\u00edtico. F\u00e1cil de consumir, mas p\u00e9ssimo para a sa\u00fade futura.<\/p>\n<p>Sim, somos humanos e \u00e9 natural queremos tudo do nosso jeito agora, mas n\u00e3o vivemos mais pelo instinto, n\u00e3o? Os tempos mudaram. A vontade de cancelar a linha de \u00f4nibus que traz as pessoas \u201cerradas\u201d para sua praia n\u00e3o \u00e9 algo inconceb\u00edvel, \u00e9 algo que pensamos por reflexo, mas decidimos que n\u00e3o \u00e9 o melhor caminho depois de pensar um pouco mais. \u00c9 normal querer que a pessoa que defende algo que voc\u00ea considera errado desapare\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 realista. Ela n\u00e3o desaparece. Ela n\u00e3o desaparece nem com ditadura sanguin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ela sempre vai estar l\u00e1, pensando e fazendo coisas que voc\u00ea julga detest\u00e1veis. E quanto menos voc\u00ea tiver contato com ela, menos influ\u00eancia voc\u00ea vai ter no comportamento dela. Os morros criaram sua cultura, que inclusive vazou para o resto da sociedade. Aquela gente \u201chorr\u00edvel\u201d n\u00e3o sumiu, ela se multiplicou e transbordou para cima de todos os lugares da sociedade carioca. N\u00e3o adianta fazer muro, n\u00e3o adianta desumanizar o outro, o outro vai continuar existindo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 de saco cheio do lulista ou do bolsonarista, direito seu, mas eles n\u00e3o v\u00e3o parar enquanto estiverem vivendo numa bolha de gente que pensa igual e tem horror a tolerar o outro. Essa polariza\u00e7\u00e3o vai fermentar e escorrer para a vida de quem quer ou n\u00e3o quer conviver com isso.<\/p>\n<p>Minha vontade \u00e9 dizer que a rede social \u00e9 um \u00f4nibus horroroso cheio de gente horr\u00edvel que veio fazer bagun\u00e7a na minha praia, e que eu preferia que todos ficassem bem longe de mim, mitando ou lacrando no seu canto fedido&#8230; mas n\u00e3o adianta no final das contas. Essas pessoas est\u00e3o a\u00ed, a gente convive com elas, a gente depende delas.<\/p>\n<p>Tem uma voz na minha cabe\u00e7a que sempre diz que escrever esses textos \u00e9 uma bobagem, mas ainda bem que tem outra dizendo que \u00e9 parte de viver em sociedade. Talvez eu ajude algu\u00e9m a organizar as ideias, talvez eu ajude algu\u00e9m a conversar melhor com gente hist\u00e9rica pelo seu candidato preferido. N\u00e3o sei exatamente como isso vai ajudar, mas sei que \u00e9 mais eficiente do que fazer careta e chamar boa parte desse povo de sub-ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 o meu texto eventual dizendo que se voc\u00ea n\u00e3o estiver contaminado pela polariza\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o desistir de vez de mostrar que existem outros caminhos. Vai que? Eles j\u00e1 est\u00e3o na sua praia mesmo, e com o passar dos anos, eu aposto que n\u00e3o vai sobrar muito lugar nesse mundo livre disso. Tomara que os americanos achem uma solu\u00e7\u00e3o para os brasileiros imitarem r\u00e1pido, mas enquanto isso, lembre-se que os malucos de hoje v\u00e3o continuar existindo semana que vem.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu sou isent\u00e3o (com muito orgulho), para dizer que s\u00f3 se eu desenhar, ou mesmo para dizer que amanh\u00e3 \u00e9 problema de amanh\u00e3: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje vamos colocar as coisas em perspectiva. O v\u00eddeo a seguir \u00e9 um compilado dos melhores\/piores momentos de um Documento Especial da extinta TV Manchete. O tema? Uma nova linha de \u00f4nibus que trazia os pobres at\u00e9 as praias mais chiques do Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":20624,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-20623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-flertando-desastre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20623"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20623\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}