{"id":20733,"date":"2022-11-25T14:00:01","date_gmt":"2022-11-25T17:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=20733"},"modified":"2022-11-25T14:00:01","modified_gmt":"2022-11-25T17:00:01","slug":"compra-inconsciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2022\/11\/compra-inconsciente\/","title":{"rendered":"Compra inconsciente."},"content":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 Black Friday, data comercial importada dos EUA sem muita l\u00f3gica cultural, mas que caiu como uma luva na mentalidade de consumo brasileira. H\u00e1 alguns anos j\u00e1 estamos vendo novembro bater dezembro no n\u00famero de vendas para muitas empresas, e tudo sugere que esse ano seja a mesma coisa. Black Friday \u00e9 o novo Natal. Mas, por que deu t\u00e3o certo?<!--more--><\/p>\n<p>Publicit\u00e1rios, equipes de marketing e vendas ainda t\u00eam empregos porque o ser humano n\u00e3o \u00e9 muito previs\u00edvel na hora de trocar seus recursos por produtos e servi\u00e7os. Ou, num portugu\u00eas menos enrolado: as pessoas s\u00e3o bem malucas na hora de gastar seu dinheiro.<\/p>\n<p>Num mundo ideal, as pessoas s\u00f3 comprariam coisas de acordo com suas necessidades, e sempre a melhor op\u00e7\u00e3o entre custo e benef\u00edcio. Mas \u00e9 claro que isso n\u00e3o acontece, afinal, basta olhar ao seu redor para enxergar v\u00e1rias coisas que voc\u00ea n\u00e3o precisa. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o tenha l\u00e1 muita renda dispon\u00edvel, pode ter certeza de que consome produtos e servi\u00e7os que n\u00e3o fazem sentido de verdade. At\u00e9 mendigo gasta o pouco dinheiro que consegue com bebida&#8230;<\/p>\n<p>Eu poderia puxar esse texto para um \u00e2ngulo pol\u00edtico, analisando os males da sociedade consumista moderna, mas&#8230; n\u00e3o \u00e9 uma novidade, n\u00e9? No fundo, todos sabemos que dentro das nossas possibilidades e necessidades, exageramos no consumo. E boa parte das pessoas deve saber tamb\u00e9m que a enxurrada de coisas \u201cbaratas\u201d que aparecem nas lojas, sites e aplicativos por a\u00ed s\u00e3o resultado de explora\u00e7\u00e3o de pessoas miser\u00e1veis. Se todo mundo recebesse sal\u00e1rios justos, pagasse impostos e tomasse cuidado com seguran\u00e7a e qualidade, os pre\u00e7os de tudo explodiriam al\u00e9m da capacidade de compra de 90% da humanidade.<\/p>\n<p>Dito isso, o que faz uma pessoa consumir? Como manter esse sistema de consumo funcionando? Bom, na publicidade trabalhamos com a ideia de impacto e ativa\u00e7\u00e3o: entende-se que a imensa maioria das decis\u00f5es de compra s\u00e3o realizadas no \u00faltimo segundo. Quando voc\u00ea est\u00e1 diante de uma prateleira ou p\u00e1gina de produtos na internet, seu c\u00e9rebro pega todas as informa\u00e7\u00f5es relacionadas ao consumo e condensa numa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de leil\u00e3o em tempo real dentro da sua cabe\u00e7a, todas suas mem\u00f3rias sobre o produto ou servi\u00e7o s\u00e3o ativadas, as informa\u00e7\u00f5es sobre o que voc\u00ea est\u00e1 vendo s\u00e3o analisadas, e at\u00e9 onde n\u00f3s que trabalhamos na \u00e1rea entendemos, a pessoa joga um dado dentro da cabe\u00e7a para decidir se vai comprar ou n\u00e3o. Claro que n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio de verdade, mas \u00e9 praticamente imposs\u00edvel prever exatamente o que uma pessoa vai fazer diante da op\u00e7\u00e3o de compra. Muita coisa acontece dentro da mente humana, boa parte vem do inconsciente.<\/p>\n<p>Se a marca fez um bom trabalho, aumenta a probabilidade de ser escolhida. Se a loja fez um bom trabalho, aumenta a probabilidade de voc\u00ea comprar alguma coisa. Nunca \u00e9 certeza, mas \u00e9 um jogo de aumentar porcentagens at\u00e9 que a m\u00e9dia seja lucrativa. S\u00f3 que como todos podemos ver tamb\u00e9m, um monte de marcas e lojas bem vagabundas conseguem vender bem em datas como a Black Friday. Por que isso acontece?<\/p>\n<p>Como eu disse, \u00e9 uma quest\u00e3o de aumentar porcentagens. A Black Friday come\u00e7a no Brasil como um dia de grandes promo\u00e7\u00f5es, coisa que todo mundo gosta, mas foi se transformando numa data de consumo com o passar dos anos. Do que eu entendo dos EUA, por l\u00e1 ainda \u00e9 data de promo\u00e7\u00f5es, porque o povo consome o ano inteiro, \u00e9 parte da cultura deles e \u00e9 claro, tem muito mais dinheiro sobrando por l\u00e1. J\u00e1 no Brasil, com o dinheiro mais curto e o medo de ser passado para tr\u00e1s, \u00e9 mais natural que se crie um per\u00edodo \u201cideal\u201d de compras no imagin\u00e1rio popular. Como se fosse a hora mais segura de comprar.<\/p>\n<p>E essa data de consumo aumenta probabilidades, o brasileiro pergunta para o outro o que ele quer comprar ou o que comprou na Black Friday. N\u00e3o se comprou algo que precisava ou se achou um desconto muito especial. Isso quer dizer que o povo est\u00e1 condicionado: da metade para o final de novembro a probabilidade de fazer uma venda aumenta consideravelmente.<\/p>\n<p>Inclusive isso explica por que mesmo com muitos descontos falsos (vulgo o dobro do pre\u00e7o pela metade do pre\u00e7o), as vendas s\u00e3o imensas: primeiro porque ningu\u00e9m \u00e9 imune \u00e0 publicidade e segundo porque as pessoas est\u00e3o condicionadas a comprar nessa \u00e9poca do ano.<\/p>\n<p>Eu compro muita coisa na Black Friday, mas eu j\u00e1 aprendi como fazer: s\u00f3 compro coisas que eu sei quanto custam. Se \u00e9 a primeira vez que voc\u00ea est\u00e1 vendo um produto e o pre\u00e7o, \u00e9 muito dif\u00edcil saber se \u00e9 uma boa oportunidade. E como a \u00e9poca contamina sua mente com a ideia de que \u00e9 um per\u00edodo vantajoso para comprar, \u00e9 muito prov\u00e1vel que voc\u00ea compre algo pelo pre\u00e7o \u201cnormal\u201d s\u00f3 porque se sente bem com a ideia de ter levado vantagem.<\/p>\n<p>E eu coloquei normal entre aspas porque \u00e9 muito prov\u00e1vel que os mesmos descontos vistos na Black Friday tenham acontecido nos meses anteriores. Uma coisa que eu percebi &#8211; pelo menos no mercado de pe\u00e7as para computador &#8211; \u00e9 a tend\u00eancia de dar os mesmos descontos da Black Friday nos meses anteriores. A ideia \u00e9 brilhante: a pessoa gasta antes e pode se recapitalizar para comprar de novo no final de novembro. As datas especiais como 11 de novembro da AliExpress n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 para roubar vendas das outras lojas, s\u00e3o para gerar mais um ciclo de compras, possivelmente dobrando o consumo das pessoas no per\u00edodo.<\/p>\n<p>O mercado funciona aceitando a incerteza sobre o impulso de compra do ser humano, tentando ganhar no volume de oportunidades de compra. A marca e a loja jogam muitos dados na esperan\u00e7a de que alguns deles v\u00e3o cair com a combina\u00e7\u00e3o desejada.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um texto para te criticar ou elogiar por comprar coisas, \u00e9 apenas algo para deixar na mente: o consumismo n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea liga ou desliga na cabe\u00e7a, \u00e9 uma forma de funcionamento da sociedade moderna, e as pessoas que vivem de te fazer comprar coisas (\u00fateis ou n\u00e3o) v\u00e3o tentar te pegar n\u00e3o com uma imagem de rede social falando de um desconto, mas pelo ambiente gerado ao seu redor. O desejo de compra que o brasileiro desenvolveu na Black Friday \u00e9 prova disso: mesmo com uma maioria de descontos porcaria e de golpes para todos os lados, funcionou. Funcionou para te fazer pensar em comprar alguma coisa nessa data, mesmo que n\u00e3o tenha nada de especial nela se pararmos para pensar.<\/p>\n<p>E se isso aumentar a sua probabilidade de comprar, na m\u00e9dia se torna muito lucrativo. Cuidado com o que vai comprar, ou se j\u00e1 comprou: pense se n\u00e3o vale a pena cancelar. A data mexe com todos n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que vai comprar o plano plus do Desfavor, para dizer que o maior desconto \u00e9 n\u00e3o comprar, ou mesmo para nos contar a pior merda que comprou: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 Black Friday, data comercial importada dos EUA sem muita l\u00f3gica cultural, mas que caiu como uma luva na mentalidade de consumo brasileira. H\u00e1 alguns anos j\u00e1 estamos vendo novembro bater dezembro no n\u00famero de vendas para muitas empresas, e tudo sugere que esse ano seja a mesma coisa. 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