{"id":21100,"date":"2023-02-02T12:06:50","date_gmt":"2023-02-02T15:06:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21100"},"modified":"2023-02-02T12:06:50","modified_gmt":"2023-02-02T15:06:50","slug":"evidencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/02\/evidencias\/","title":{"rendered":"Evid\u00eancias."},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de polariza\u00e7\u00e3o extrema, ainda existem alguns poucos basti\u00f5es da unidade no Brasil, e \u00e9 sobre um deles que vamos falar hoje. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 branco, negro, azul, verde ou incolor. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 cat\u00f3lico, ateu ou budista. N\u00e3o importa em quem voc\u00ea votou ou em quem voc\u00ea n\u00e3o votou. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 hetero, gay, n\u00e3o-bin\u00e1rio ou se identifica com o g\u00eanero canino. Nada disso importa, existe um fator que une todo o Brasil, e, por isso, merece nossa aten\u00e7\u00e3o. Desfavor Explica: Evid\u00eancias.<!--more--><\/p>\n<p>Essa m\u00fasica nasceu em 1990 e virou um cl\u00e1ssico que dura at\u00e9 os dias de hoje. Pesquisas indicam que ela \u00e9 uma das m\u00fasicas mais citadas por brasileiros de todas as idades quando perguntam sobre uma can\u00e7\u00e3o que, quando ouvida, fica na sua mente. Tamb\u00e9m \u00e9 a m\u00fasica mais cantada em karaok\u00eas do pa\u00eds. \u201cMas Sally, como algu\u00e9m pode afirmar isso?\u201d. N\u00e3o sei, querido leitor, desconhe\u00e7o a metodologia, mas de acordo com uma pesquisa feita pela Karaoke World Championships Brasil em 2017, Evid\u00eancias foi a faixa mais executada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do m\u00e9rito de ficar mais de 30 anos em alta e de ser conhecida por todo brasileiro (ao menos uma vez voc\u00ea j\u00e1 escutou essa m\u00fasica), ela ainda trilhou seu caminho para a nova realidade: \u00e9 usada at\u00e9 como trilha sonora de Memes. J\u00e1 foi regravada por diferentes cantores brasileiros e tamb\u00e9m estrangeiros, tem vers\u00f5es dela em v\u00e1rios idiomas, inclusive japon\u00eas (para quem tiver curiosidade, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DWwVQv-ltmk\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">est\u00e1 aqui<\/a>) <\/p>\n<p>A m\u00fasica foi composta por Jose Augusto e Paulo S\u00e9rgio Valle, no final da d\u00e9cada de 80, mas s\u00f3 virou hit nacional quando foi gravada por Jos\u00e9 Lima Sobrinho e Durval de Lima, popularmente conhecidos como Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3. Quem tem um pouco mais de idade, como eu, deve lembrar do Jos\u00e9 Augusto tamb\u00e9m como cantor, ele teve v\u00e1rias m\u00fasicas de sucesso, como \u201cAguenta cora\u00e7\u00e3o\u201d (tema de abertura da novela \u201cBarriga de Aluguel\u201d).<\/p>\n<p>Quando a m\u00fasica foi apresentada pela primeira vez a executivos da ind\u00fastria musical, n\u00e3o foi bem recebida. Eles diziam que a m\u00fasica tinha uma letra muito complicada e n\u00e3o tinha a menor chance de fazer sucesso. <\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do padr\u00e3o, Evid\u00eancias n\u00e3o \u00e9 composta de meia d\u00fazia de versos sobre amor n\u00e3o correspondido e\/ou chifre e um refr\u00e3o que se repete 457 vezes. Ela conta uma hist\u00f3ria, em uma crescente passional com um final aberto cheio de esperan\u00e7a. Come\u00e7a lenta, sobe a um pico de passionalidade aos berros e se acalma novamente. <\/p>\n<p>Sem querer carimbar meu passaporte para o inferno, mas, foi a mesma coisa que disseram \u00e0 banda Queen quando apresentaram \u201cBohemian Rhapsody\u201d: \u00e9 muito longa, foge do padr\u00e3o, tem oscila\u00e7\u00f5es que o p\u00fablico n\u00e3o vai entender. Ou muda, ou n\u00e3o ser\u00e1 gravada. Felizmente, em ambos os casos, os autores bateram o p\u00e9 e disseram que n\u00e3o mudariam.<\/p>\n<p>Quem viu potencial na m\u00fasica pela primeira vez foi o compositor Michael Sullivan, respons\u00e1vel por boa parte das m\u00fasicas \u201cchicletes\u201d brasileiras (por exemplo, \u201cDeslizes\u201d do Fagner). Ele insistiu para que seu irm\u00e3o, Leonardo Sullivan, grave a m\u00fasica. Evid\u00eancias chegou a ser gravada, mas, gra\u00e7as \u00e0 falta de coopera\u00e7\u00e3o da gravadora, ela n\u00e3o foi divulgada.<\/p>\n<p>Acreditando no potencial da m\u00fasica, os compositores perceberam que seria necess\u00e1rio um nome de peso para brigar por ela. Gravaram uma vers\u00e3o dela em fita cassete e enviaram para diversos artistas, certos de que algu\u00e9m compraria a briga de lan\u00e7\u00e1-la. E de fato aconteceu. Em outubro de 1990, Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3 escutaram, gostaram e decidiram que ela estaria em seu pr\u00f3ximo \u00e1lbum, chamado \u201cCowboys do Asfalto\u201d. Em dezembro do mesmo ano a m\u00fasica j\u00e1 era um enorme sucesso.<\/p>\n<p>Muitas m\u00fasicas fizeram sucesso, mas dificilmente como Evid\u00eancias. V\u00e1 em qualquer festa, em qualquer evento (que n\u00e3o seja de garotada com menos de 20 anos), coloque a m\u00fasica para tocar e, do nada, abaixe o volume, no meio da m\u00fasica. Eu duvido que as pessoas n\u00e3o continuem cantando. \u00c9 quase que uma urg\u00eancia cerebral prosseguir.<\/p>\n<p>Existem \u201cexperi\u00eancias\u201d documentadas do poder magn\u00e9tico de Evid\u00eancias. N\u00e3o \u00e9 nada cient\u00edfico, \u00e9 apenas resultado da iniciativa de curiosos, mas, ainda assim, tem seu valor: pessoas que, em diversas situa\u00e7\u00f5es, come\u00e7aram a cantar a m\u00fasica e todos os que estavam \u00e0 sua volta, come\u00e7aram a cantar junto, sem que isso lhes fosse expressamente pedido. No vag\u00e3o de um trem, na fila do banco, nos Correios e at\u00e9 em hospital. <\/p>\n<p>Se voc\u00ea conhece algum dono de karaok\u00ea, pode perguntar a ele o efeito que a m\u00fasica provoca. Normalmente, n\u00e3o \u00e9 permitido cantar a mesma m\u00fasica seguida, para que as apresenta\u00e7\u00f5es n\u00e3o fiquem cansativas. Por isso, se a pessoa que cantou antes de voc\u00ea cantou Evid\u00eancias, voc\u00ea ter\u00e1 que escolher outra m\u00fasica ou passar a vez. N\u00e3o raro h\u00e1 briga para ver quem vai cantar a m\u00fasica e uma fila de espera de pessoas que s\u00f3 querem cantar essa m\u00fasica, mas tem que aguardar quem cante outras para poder subir no palco.<\/p>\n<p>Evid\u00eancias deveria ser o hino nacional do Brasil, pois a m\u00fasica mora no cora\u00e7\u00e3o de todo brasileiro, goste voc\u00ea ou n\u00e3o de sertanejo. Por sinal, essa sugest\u00e3o j\u00e1 viralizou em redes sociais v\u00e1rias vezes. Eu quero ver jogador de futebol n\u00e3o saber cantar o hino se for Evid\u00eancias. O est\u00e1dio vem abaixo, todo mundo vai cantar, aos berros. Ali\u00e1s, eu proponho que cada vez que tocarem o hino todo mundo cante Evid\u00eancias em seu lugar, at\u00e9 se convencerem que \u00e9 preciso fazer essa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O que faz de Evid\u00eancias uma m\u00fasica atemporal e que gruda na mente? Bem, a ci\u00eancia explica, ao menos em parte, esse fen\u00f4meno. Existe um nome cient\u00edfico para m\u00fasicas que grudam na sua cabe\u00e7a: \u201cs\u00edndrome da can\u00e7\u00e3o presa\u201d (ainda que no dia a dia a gente chame de \u201cearworm\u201d ou \u201cverme de ouvido\u201d).<\/p>\n<p>Tirando fatores pessoais (por exemplo, determinada m\u00fasica estar vinculada a alguma lembran\u00e7a feliz da sua vida), tem outros ingredientes universais que podem fazer uma m\u00fasica grudar na sua mente. E isso acontece com mais frequ\u00eancia do que a gente imagina! Estudos estimam que cerca de 98% da popula\u00e7\u00e3o ocidental sofre este efeito (e provavelmente a oriental tamb\u00e9m, j\u00e1 que Evid\u00eancias foi gravada em japon\u00eas).<\/p>\n<p>\u201cMas Sally, como esses estudos conseguem medir isso?\u201d. N\u00e3o tenho a menor ideia, s\u00f3 posso indicar os dados: de acordo com os Anais da 10\u00aa Confer\u00eancia Internacional sobre Percep\u00e7\u00e3o Musical e Cogni\u00e7\u00e3o, mais de 90% das pessoas ficam com uma m\u00fasica pegajosa na cabe\u00e7a pelo menos uma vez por semana. Voc\u00ea j\u00e1 ficou com a sua esta semana? \u201cEu precisoooo aceitar que n\u00e3o d\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1 maaaaais&#8230; para separar as nooooossas vidaaaaas&#8230; E nessa loucuraaaa&#8230; de dizer que n\u00e3o te queroooo\u201d.<\/p>\n<p>Certas caracter\u00edsticas da m\u00fasica tornam ela atraente para o c\u00e9rebro, goste voc\u00ea ou n\u00e3o do cantor ou do estilo. Existe uma mem\u00f3ria ancestral em todo ser humano de vincular m\u00fasica a aprendizado, pois durante muito tempo, quando ainda n\u00e3o existia a escrita (ou quando ela n\u00e3o era acess\u00edvel \u00e0 maioria das pessoas), o conhecimento era passado na forma de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Pode reparar que muitos professores recorrem \u00e0 m\u00fasica para ajudar os alunos a memorizarem informa\u00e7\u00e3o. Mesmo pessoas comuns podem fazer isso, criando musiquinhas para se lembrar de senhas e coisas do tipo. \u00c9 um atalho cerebral, fica mais f\u00e1cil de decorar se for com m\u00fasica. <\/p>\n<p>O efeito colateral \u00e9 que eventualmente certas m\u00fasicas ficar\u00e3o na sua cabe\u00e7a e n\u00e3o sair\u00e3o de l\u00e1 por nada, j\u00e1 que o c\u00e9rebro \u00e9 altamente propenso a memorizar informa\u00e7\u00f5es cantadas. Mesmo que a melodia n\u00e3o te atormente, voc\u00ea vai lembrar da letra por d\u00e9cadas. Quem aqui n\u00e3o sabe uma letra de m\u00fasica antiga de cor e salteado? Certamente quem tem a minha faixa et\u00e1ria lembra de ao menos uma letra da d\u00e9cada de 80\/90.<\/p>\n<p>As principais caracter\u00edsticas de uma m\u00fasica que fazem com que ela grude na sua cabe\u00e7a s\u00e3o: 1) notas com dura\u00e7\u00f5es mais longas, mas intervalos de tom menores (o que torna a m\u00fasica mais f\u00e1cil de cantar); 2) um mix de previsibilidade (o suficiente para voc\u00ea antever o que vem) com imprevisibilidade (que n\u00e3o seja uma completa monotonia, que tenha uma crescente para aumentar a empolga\u00e7\u00e3o); 3) a melodia \u00e9 peculiar, permitindo uma r\u00e1pida e f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o da m\u00fasica; 4) Ela conta uma hist\u00f3ria; 5) a hist\u00f3ria que ela conta te gera alguma familiaridade ou identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que Evid\u00eancias preenche os requisitos? Voc\u00ea consegue antever para onde vai a coisa, pois a m\u00fasica vai em uma crescente, al\u00e9m disso a m\u00fasica \u00e9 muito bem pontuada, sinaliza quando vai mudar o tom, o c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 pego de surpresa. Mas, ao mesmo tempo, tem a parte da imprevisibilidade, pois voc\u00ea n\u00e3o sabe o quanto vai crescer e, quebrando um padr\u00e3o, ela n\u00e3o fica s\u00f3 no sofrimento, tem um fim agrad\u00e1vel cheio de esperan\u00e7a que te tira da tens\u00e3o. E, para coroar, ela conta uma hist\u00f3ria em um passeio pelos sentimentos humanos mais universais: medo + amor incontrol\u00e1vel + esperan\u00e7a. Bora analisar mais de perto?<\/p>\n<p>Se voc\u00ea pensar no come\u00e7o da m\u00fasica, \u00e9 quase uma baladinha, em ritmo lento, melanc\u00f3lico: \u201cQuando eu digo que deixei de te amar \/ \u00c9 porque eu te amo \/ Quando eu digo que n\u00e3o quero mais voc\u00ea \/ \u00c9 porque eu te quero\u201d. \u00c9 agrad\u00e1vel, \u00e9 suave. Al\u00e9m disso tem o componente emocional. A pessoa est\u00e1 se abrindo est\u00e1 vulner\u00e1vel, est\u00e1 admitindo algo muito \u00edntimo. Vulnerabilidade e sinceridade s\u00e3o os dois grandes gatilhos que nos dizem que n\u00e3o precisamos temer algu\u00e9m. Voc\u00ea est\u00e1 em um ambiente seguro, tem uma pessoa que, assim como voc\u00ea, tamb\u00e9m tem suas inseguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Depois, come\u00e7a uma pequena crescente: \u201cEu tenho medo de te dar meu cora\u00e7\u00e3o \/ E confessar que eu estou em tuas m\u00e3os \/ Mas n\u00e3o posso imaginar o que vai ser de mim \/ Se eu te perder um dia\u201d. A crescente, tanto musical quanto na letra, ati\u00e7a o c\u00e9rebro. H\u00e1 um dilema. A pessoa tem medo, mas por outro lado se ela n\u00e3o falar a verdade, pode perder algu\u00e9m muito importante. Provavelmente todos n\u00f3s j\u00e1 nos sentimos assim um dia, ent\u00e3o, al\u00e9m de tudo existe a identifica\u00e7\u00e3o com um tema universal. <\/p>\n<p>Pronto, neste ponto seu c\u00e9rebro j\u00e1 est\u00e1 preso. A porra da m\u00fasica te ganha nos primeiros dez segundos! O que vai acontecer? O que a pessoa vai decidir nesse dilema? Agora o c\u00e9rebro que saber. Ele v\u00ea uma crescente e quer descobrir onde vai parar.<\/p>\n<p>A crescente continua: \u201cEu me afasto e me defendo de voc\u00ea \/ Mas depois me entrego \/ Fa\u00e7o tipo, falo coisas que eu n\u00e3o sou \/ Mas depois eu nego\u201d. O conflito aumenta. Sa\u00edmos do campo da cogita\u00e7\u00e3o e partimos para o campo da a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 apenas um medo de fazer, agora a pessoa se defende e depois se entrega, se contradiz, fala, faz. Quem nunca?<\/p>\n<p>Continuamos na crescente e chegamos ao ponto alto da m\u00fasica, aquele topo da montanha russa antes do carrinho despencar e liberar a adrenalina toda: \u201cMas a verdade \u00e9 que eu sou louco por voc\u00ea \/ E tenho medo de pensar em te perder \/ Eu preciso aceitar que n\u00e3o d\u00e1 mais \/ Pra separar as nossas vidas\u201d. Pronto, a pessoa se decidiu. E depois da decis\u00e3o, depois do \u201cnossas vidas\u201d, uma marca\u00e7\u00e3o da bateria sela a constata\u00e7\u00e3o (ou de instrumentos de sopro, dependendo da vers\u00e3o), separando a fase balada da nova fase passional que vai come\u00e7ar. \u00c9 isso, n\u00e3o d\u00e1 mais para separar as nossas vidas. Corre pro abra\u00e7o.<\/p>\n<p>A\u00ed come\u00e7a a segunda parte da m\u00fasica, passional, onde todo mundo lava a alma, saindo da musicalidade da baladinha lenta para o total descontrole aos berros. N\u00e3o sobra um cabelo do topete do Chit\u00e3o no lugar: \u201cE nessa loucura de dizer que n\u00e3o te quero \/ Vou negando as apar\u00eancias \/ Disfar\u00e7ando as evid\u00eancias \/ Mas pra que viver fingindo \/Se eu n\u00e3o posso enganar meu cora\u00e7\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>Aqui \u00e9 pura constata\u00e7\u00e3o: n\u00e3o faz sentido ficar fingindo, n\u00e3o d\u00e1 mais para enganar o cora\u00e7\u00e3o. Pode reparar que basta cantarolar a primeira frase deste trecho, \u201cE nessa loucura\u201d que vai ter um descompensado ao seu lado (como eu) para continuar a cantar. E no final desse trecho, tem o primeiro grande marco da m\u00fasica. Uma frase que pontua o primeiro grande cl\u00edmax. O berro \u201cEu sei que te amo\u201d. <\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o for completamente morto por dentro, nessa parte fecha os olhos e berra. \u00c9 a coroa\u00e7\u00e3o de toda a luta desde a primeira frase. O amor venceu o medo. Acabaram os escudos, o fingimento, a pessoa est\u00e1 berrando que ama, estabelecendo uma nova crescente. \u00c9 isso, a pessoa se decidiu: admitiu que ama. A partir de agora, toda a m\u00fasica se desenrola dessa premissa: o medo venceu o amor, a pessoa declarou seu amor.<\/p>\n<p>Daqui para frente, a pessoa j\u00e1 decidiu o que fazer, j\u00e1 assumiu o que sente e est\u00e1 segura disso: Chega de mentiras \/ De negar o meu desejo \/ Eu te quero mais que tudo \/ Eu preciso do teu beijo \/ Eu entrego a minha vida \/ Pra voc\u00ea fazer o que quiser de mim\u201d. Pronto, a vida foi entregue para a pessoa fazer o que quiser. A pessoa desabafou por completo, marcando o fim da parte passional. A\u00ed vem o segundo grande marco, que, assim como o primeiro, deve ser cantado de olhos fechados e aos berros: \u201cs\u00f3 quero ouvir voc\u00ea dizer que sim\u201d.  <\/p>\n<p>Esse segundo grande marco nos tira da parte passional para a terceira fase da m\u00fasica: a pessoa assumiu o que sente, desistiu de fazer joguinhos ou de sentir medo. Agora que ela colocou as cartas na mesa, ela espera ser correspondida. A terceira fase \u00e9 esperan\u00e7a pura. N\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica de sofrimento, \u00e9 uma m\u00fasica de liberta\u00e7\u00e3o e de final aberto, que fica pendente de uma resposta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nessa terceira parte, acabou o conflito, a pessoa decidiu e comunicou a decis\u00e3o. O que impera \u00e9 a esperan\u00e7a de ser algo correspondido: \u201cDiz que \u00e9 verdade, que tem saudade \/ Que ainda voc\u00ea pensa muito em mim \/ Diz que \u00e9 verdade, que tem saudade \/ Que ainda voc\u00ea quer viver pra mim\u201d. <\/p>\n<p>O curioso \u00e9 a m\u00fasica, na grava\u00e7\u00e3o original, come\u00e7a com a vers\u00e3o instrumental desse trecho, dessa terceira parte. Isso \u00e9 uma forma de fazer com que o c\u00e9rebro se familiarize com a melodia que est\u00e1 por vir. Um pequeno spoiler do que est\u00e1 por vir, o suficiente para te deixar curioso, mas n\u00e3o para entregar qual ser\u00e1 o final.<\/p>\n<p>\u201cMas Sally, depois do seu texto vou ficar cantando essa m\u00fasica o dia inteiro, voc\u00ea acha isso certo?\u201d. N\u00e3o, querido leito, n\u00e3o \u00e9 certo, por isso eu vou terminar com dicas de como tirar um verme de ouvido do seu ouvido. <\/p>\n<p>Quanto mais voc\u00ea tentar se livrar da m\u00fasica, mais ela vai grudar. \u00c9 um processo mental conhecido como \u201cteoria do processo ir\u00f4nico\u201d. O caminho \u00e9 outro. N\u00e3o lute contra a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Para poucas pessoas, ajuda escutar a m\u00fasica. Isso s\u00f3 funciona quando voc\u00ea fica preso em um trecho e o c\u00e9rebro sente uma sensa\u00e7\u00e3o de incompletude. Geralmente, escutar a m\u00fasica n\u00e3o funciona.  O que sim pode ajudar \u00e9 escutar outras m\u00fasicas, de prefer\u00eancia aquelas que voc\u00ea gosta e tenha algum v\u00ednculo emocional associado. Inclusive cantar essa outra m\u00fasica em voz alta pode ser ainda mais eficaz do que escut\u00e1-la. <\/p>\n<p>Outra possibilidade \u00e9 ocupar a \u00e1rea do seu c\u00e9rebro que est\u00e1 obcecada com a m\u00fasica com outras tarefas. O verme de ouvido nada mais \u00e9 do que seu c\u00e9rebro cantando, ent\u00e3o, se voc\u00ea der uma tarefa para ele, ele vai ter que parar de cantar: fa\u00e7a palavras cruzadas, sudoku, leia um livro, monte um quebra-cabe\u00e7a, jogue um jogo, qualquer jogo, mesmo que seja s\u00f3 um joguinho de celular. O que quer que prenda sua aten\u00e7\u00e3o e te obrigue a algum racioc\u00ednio vale.<\/p>\n<p>Por fim, um \u00faltimo recurso \u00e9 mastigar chiclete. Sim, mastigar chiclete. Quando uma m\u00fasica est\u00e1 na sua cabe\u00e7a, o c\u00e9rebro usa muitos dos mecanismos que usaria para se preparar para cantar. Ent\u00e3o, se voc\u00ea est\u00e1 mascando chiclete, acaba usando esses mesmos sistemas para planejar os movimentos da sua mand\u00edbula, tirando a aten\u00e7\u00e3o do canto e da m\u00fasica. <\/p>\n<p>Se n\u00e3o conseguir tirar ela da cabe\u00e7a, cante! Certamente algu\u00e9m que est\u00e1 perto de voc\u00ea vai acompanhar.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer seu dinheiro de volta, para dizer que n\u00e9voa mental n\u00e3o justifica falar sobre um tema desses ou ainda para me xingar pois vai passar a semana toda cantando Evid\u00eancias: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de polariza\u00e7\u00e3o extrema, ainda existem alguns poucos basti\u00f5es da unidade no Brasil, e \u00e9 sobre um deles que vamos falar hoje. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 branco, negro, azul, verde ou incolor. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 cat\u00f3lico, ateu ou budista. N\u00e3o importa em quem voc\u00ea votou ou em quem voc\u00ea n\u00e3o votou. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21101,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-21100","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-explica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21100"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21100\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}