{"id":21123,"date":"2023-02-05T15:02:36","date_gmt":"2023-02-05T18:02:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21123"},"modified":"2023-02-05T15:02:36","modified_gmt":"2023-02-05T18:02:36","slug":"efeito-multiplicador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/02\/efeito-multiplicador\/","title":{"rendered":"Efeito multiplicador."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-default uk-card-body\"><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a>.<\/div>\n<h3>Esporte de verdade? Sim, Esporte de verdade.<\/h3>\n<p>(Disclaimer: tamb\u00e9m fui v\u00edtima da n\u00e9voa mental, logo o texto pode n\u00e3o sair com a qualidade que o blog exige)<\/p>\n<p>\u201cAna Moser, j\u00e1 come\u00e7ou dizendo que os e-sports, as competi\u00e7\u00f5es baseadas em videogames, n\u00e3o poderiam ser consideradas esportes\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 bom ter como ministra algu\u00e9m que foi atleta e que dedicou a vida \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios do esporte. O problema \u00e9 que, enquanto os videogames cresciam no Brasil nos anos 90, a aten\u00e7\u00e3o dela estava focada na carreira dentro das quadras. <\/p>\n<p>O pior \u00e9 que, sem ter nunca sido atleta, pensava igual. At\u00e9 que comecei a participar de um esporte, junto com outros pais, e perceber os m\u00faltiplos benef\u00edcios que praticar qualquer coisa com o devido incentivo traz.<!--more--><\/p>\n<p><strong>E-Sports n\u00e3o ser esporte<\/strong><\/p>\n<p>Como havia comentado antes, haveria um bom motivo por tr\u00e1s da Ministra n\u00e3o considerar o e-sport um esporte. No caso, a primeira coisa em que pensei foi no Bolsa Atleta.<\/p>\n<p>Ser um esportista de primeira linha requer muita dedica\u00e7\u00e3o e tempo, e tudo isso fica complicado quando essa rotina inclui tamb\u00e9m a necessidade de trabalhar para arcar com os gastos de um treinamento de alta performance.<\/p>\n<p>Com o objetivo de garantir condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para atletas de alto rendimento que obt\u00eam bons resultados em competi\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais, o governo federal mant\u00e9m, desde 2005, um dos maiores programas de patroc\u00ednio individual de atletas do mundo: o Bolsa Atleta.<\/p>\n<p>O programa garante condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que se dediquem, com exclusividade e tranquilidade, ao treinamento e a competi\u00e7\u00f5es locais, sul-americanas, pan-americanas, mundiais, ol\u00edmpicas e paral\u00edmpicas.<\/p>\n<p>S\u00e3o eleg\u00edveis, prioritariamente, atletas de alto rendimento praticantes de esportes que comp\u00f5em os programas dos Jogos Ol\u00edmpicos e dos Jogos Paral\u00edmpicos. De forma n\u00e3o priorit\u00e1ria, o benef\u00edcio pode ser estendido a atletas de modalidades n\u00e3o ol\u00edmpicas.<\/p>\n<p>Diante do que a Bolsa Atleta significa e pode proporcionar, \u00e9 compreens\u00edvel que a Ministra do Esporte tenha cravado que competi\u00e7\u00f5es baseadas em videogames n\u00e3o possam ser consideradas como esporte. Abriria um precedente que, muito provavelmente, o or\u00e7amento do Minist\u00e9rio n\u00e3o teria como atender, tanto que d\u00e1 prioridade para esportes (para)ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>E, diante de pessoas que torcem o nariz para videogames, ficaria dif\u00edcil defender diante do p\u00fablico pagar 12 parcelas do teto de R$ 15.000 (n\u00e3o sei se o valor est\u00e1 maior agora) a, digamos, um nerd que tenha enormes chances de ganhar o e-sports numa Olimp\u00edada, da mesma forma que a Rebecca Andrade. Sem falar que, quando um time disputa um campeonato internacional, a viagem \u00e9 bancada, e atleta at\u00e9 recebe um pequeno valor para se manter durante o torneio.<\/p>\n<p>Nesse contexto, qual seriam os argumentos para n\u00e3o considerar o e-sports uma atividade esportiva? Depender de uma ferramenta? Se for assim, skate e surf n\u00e3o deveriam ser considerados esportes, ou indo mais fundo, qualquer outro esporte que dependa de alguma coisa para acontecer, como t\u00eanis, tiro esportivo, vela, hipismo. <\/p>\n<p>Uma atividade que depende totalmente do intelecto? E o Arco e Flecha? Tiro esportivo???<\/p>\n<p>Prop\u00f3sito? Tem prop\u00f3sito mais discut\u00edvel do que a Marcha Atl\u00e9tica?  <\/p>\n<p>O fato do atleta ficar o tempo todo sentado? Ora, no frigir dos ovos, no hipismo, o cavaleiro ou amazona conduz um cavalo.   <\/p>\n<p><strong>Benef\u00edcio Social<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEsporte \u00e9 pol\u00edtica p\u00fablica. Milh\u00f5es de jovens est\u00e3o sendo impactados por e-sports enquanto voc\u00ea l\u00ea este texto, o mercado vai crescer e crescer. Triste que o governo esteja parado no tempo e n\u00e3o perceba a oportunidade. \u00c9 melhor do que n\u00e3o fazer esporte nenhum, com certeza\u201d.<\/p>\n<p>Essa frase muito feliz do Somir me fez lembrar que Ana Moser, ao se tornar Ministra do Esporte, disse que a base da nova gest\u00e3o seria integrar o esporte com educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Nessas horas, espero que a Ministra esteja sendo bem assessorada para perceber o efeito multiplicador que o esporte pode proporcionar, ainda mais para crian\u00e7as carentes. <\/p>\n<p>N\u00e3o precisa ser um esporte profissional e estruturado como futebol, v\u00f4lei ou basquete. Tem muito esporte amador no Brasil que j\u00e1 permite dar uma no\u00e7\u00e3o dessa multiplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um exemplo pessoal \u00e9 o beisebol\/softbol (modalidade modificada do beisebol, mais praticada hoje por meninas). Embora seja um esporte ainda amador, no qual os t\u00e9cnicos, assistentes t\u00e9cnicos, \u00e1rbitros, anotadores de s\u00famula, dirigentes, s\u00e3o praticamente os pr\u00f3prios pais dos atletas, j\u00e1 se percebe uma cadeia de atividade que gira em torno do esporte: personal trainers que d\u00e3o treinos espec\u00edficos para atletas, pessoas que vendem equipamentos para o esporte (outras que vendem luvas, tacos, equipamento de prote\u00e7\u00e3o aos \u00e1rbitros), outras que confeccionam uniformes, gente que ministra cursos para \u00e1rbitros. <\/p>\n<p>Sem falar que movimenta outros setores de economia necess\u00e1rios para que o esporte aconte\u00e7a: fretamento de \u00f4nibus para viagens, ag\u00eancia de turismo para torneios no exterior, setor hoteleiro das cidades que s\u00e3o sedes desses campeonatos, e por a\u00ed vai. Para terem uma dimens\u00e3o de valores, os clubes mais ricos chegam a movimentar cada um cerca de R$ 1 milh\u00e3o de reais para bancar suas categorias em campeonatos oficiais e amistosos ao longo do ano. <\/p>\n<p>No entanto, havia uma limita\u00e7\u00e3o na expans\u00e3o do esporte para al\u00e9m da col\u00f4nia japonesa (e da renda que exige para sua pr\u00e1tica), o que limitava o poder da multiplica\u00e7\u00e3o do esporte.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o melhorou a partir de 2006, com a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). Alguns clubes do interior de SP e do Paran\u00e1, sem o poderio econ\u00f4mico de outros clubes, se valeram dos mecanismos da LIE (mentira?) para garantir a sobreviv\u00eancia do esporte na sua regi\u00e3o. Esses mecanismos envolvem receber recursos de isen\u00e7\u00e3o de impostos de empresas e de pessoas f\u00edsicas, com a contrapartida de que haja atletas carentes na equipe. Tem time no interior de S\u00e3o Paulo que chega a limitar a seletiva anual para atletas, tamanha a procura (no feminino, lembro que em um ano, limitaram a seletiva a 50 atletas num dos times). Al\u00e9m disso, para ajudar, as prefeituras dessas cidades cedem \u00f4nibus para transportar essas crian\u00e7as para os torneios. Com isso, esses times j\u00e1 come\u00e7am a contratar t\u00e9cnicos CLTistas, assim como comiss\u00f5es t\u00e9cnicas, nutricionistas, etc.<\/p>\n<p>Para as crian\u00e7as carentes, a pr\u00e1tica do esporte traz uma oportunidade sem igual em termos de educa\u00e7\u00e3o. Primeiro, abre o horizonte para crian\u00e7as que dificilmente sairiam de casa, da sua cidade. Aprendem pelo esporte valores que nem sempre est\u00e3o em casa, at\u00e9 porque nem sempre os pais est\u00e3o em casa mesmo nos finais de semana (pensem em quem trabalha em um shopping por exemplo, pessoas que dormem no emprego, ou quem trabalha em v\u00e1rios aplicativos para pagar as contas). <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, no beisebol\/softbol, se o time da atleta chegar at\u00e9 em 3\u00ba lugar em um campeonato nacional, cada atleta tem o direito a receber (a partir das categorias maiores), a Bolsa Atleta, como foi explicado antes. No caso, 12 parcelas de um sal\u00e1rio m\u00ednimo cada atleta, que tem o dinheiro depositado em uma conta diretamente no seu nome. Pena que, no caso do beisebol\/softbol, o esporte s\u00f3 foi ol\u00edmpico em quatro edi\u00e7\u00f5es (a \u00faltima em T\u00f3quio). Assim, para Paris 2024, o esporte deixa de ser prioridade e n\u00e3o sei ainda se os atletas continuar\u00e3o a receber essa Bolsa. E a\u00ed ter\u00edamos que esperar Los Angeles 2028 para o esporte ser ol\u00edmpico de novo e voltar a ter prioridade pelas regras atuais da Bolsa.<\/p>\n<p>E, por fim, em termos de oportunidade mesmo, a pr\u00e1tica do beisebol\/softbol traz uma possibilidade da crian\u00e7a carente conseguir uma bolsa de estudos e\/ou jogar em um time profissional fora (o softbol \u00e9 ainda amador no mundo). Temos olheiros aqui tamb\u00e9m. Quase sempre ou\u00e7o de amigos e familiares no esporte not\u00edcias de uma menina carente que conseguiu uma bolsa de estudos numa escola ou faculdade nos EUA, Australia, Canad\u00e1. E, hoje em dia, os meninos que s\u00e3o contratados para jogar beisebol nos EUA j\u00e1 incluem cl\u00e1usulas para assegurar bolsa integral em faculdades americanas, caso seguro caso a carreira de atleta n\u00e3o decole.  <\/p>\n<p>Por essas e outras que todos os pais envolvidos no esporte se dedicam integralmente ao esporte 24\/7 para criar novas possibilidades para todos os envolvidos, e criar oportunidades para quem queira se dedicar ao esporte, quem sabe de forma integral um dia. De forma amadora. Ainda.  <\/p>\n<p><strong>Os benef\u00edcios para o e-sports<\/strong><\/p>\n<p>Agora imaginem se todos esses benef\u00edcios fossem direcionados para o e-sports, tanto da Bolsa Atleta quanto da LIE. Aqui quase dou um Ctrl+C e Ctrl+V nos argumentos finais do Somir.<\/p>\n<p>Com gente passando fome e traficante aliciando jovens nas comunidades, aliados a um sistema educacional que apenas agora est\u00e1 parando de piorar (ainda ruim), se for comparar caminho complicado e tortuoso, melhor que seja pela pr\u00e1tica do e-sports, pois ao menos vai selecionar aqueles que tem melhores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e mentais de alcan\u00e7ar os resultados necess\u00e1rios para come\u00e7ar a ser considerado na cena profissional, dentro ou fora do esporte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o precisa de muito equipamento para colocar um monte de jovens para treinar, e nem espa\u00e7o (tem clubes que s\u00e3o tentados a vender um campo de beisebol aqui e ali, ou uma sede inteira, para fazer caixa). E, o principal, sem d\u00favida a disciplina e a esperan\u00e7a de fazer algo a mais da vida podem vir sim desses jogos. E n\u00e3o apenas para os atletas, mas para suas fam\u00edlias. <\/p>\n<p>Nesse sentido, muitos dos pais amadores no beisebol\/softbol s\u00e3o pais gratos pelo que o esporte proporcionou a seus filhos. Tem pais que ficaram vi\u00favos e agradecem \u00e0 rede de solidariedade no esporte que ajuda a criar seus filhos, evitando que se desviassem no caminho (h\u00e1 muito mais confian\u00e7a em deixar um filho\/a dormir na casa de amigos do esporte, do que com pais da escola).<\/p>\n<p>Por fim, compartilho da tristeza do Somir pelo fato do Pa\u00eds n\u00e3o perceber a oportunidade de fazer o e-sports um caso de sucesso, tal qual foi como o desenvolvimento do esporte paraol\u00edmpico aqui (fico impressionada toda vez que passo em frente ao complexo paraol\u00edmpico aqui no come\u00e7o da Rodovia dos Imigrantes). <\/p>\n<p>Sem falar do potencial econ\u00f4mico que o e-sports traria ao Pa\u00eds, incentivando a cria\u00e7\u00e3o de um ecossistema ao redor da pr\u00e1tica do esporte. <\/p>\n<p>Pena n\u00e3o ser economista para poder mensurar esse impacto, mas posso dizer que seria melhor concentrar recursos em uma aposta espec\u00edfica do que ficarmos nos objetivos generalistas da Ministra. Lembrem-se do quanto Israel cresceu em apostar nas Start-ups, permitindo derrotar a infla\u00e7\u00e3o e os terroristas sem deixar de crescer economicamente. <\/p>\n<p><strong>Ass: Suellen<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a>. Esporte de verdade? Sim, Esporte de verdade. 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