{"id":21135,"date":"2023-02-08T13:05:09","date_gmt":"2023-02-08T16:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21135"},"modified":"2023-02-08T13:05:09","modified_gmt":"2023-02-08T16:05:09","slug":"conteudo-original","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/02\/conteudo-original\/","title":{"rendered":"Conte\u00fado original?"},"content":{"rendered":"<p>Vgfyy1 hagh2 jjah999 hp Jasee661? B1fsgp, 8hgak pygfrak7. N\u00e3o entendeu nada? Bom, isso \u00e9 conte\u00fado original. Tenho certeza de que se voc\u00ea fizer uma pesquisa em todo o material produzido pela humanidade at\u00e9 hoje, n\u00e3o vai achar nenhuma sequ\u00eancia exata de letras e n\u00fameros exatamente igual \u00e0s primeiras frases deste texto. Infelizmente, elas tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam nenhuma utilidade.<!--more--><\/p>\n<p>Com as intelig\u00eancia artificias invadindo o campo da criatividade, primeiro com as imagens e agora at\u00e9 mesmo com a linguagem, vamos ter alguns problemas para resolver com direitos autorais, e provavelmente at\u00e9 com o conceito de originalidade. O que \u00e9 um conte\u00fado original que pode ser protegido? Onde a linha entre inspira\u00e7\u00e3o e pl\u00e1gio \u00e9 cruzada?<\/p>\n<p>Legisla\u00e7\u00f5es ao redor do mundo tem respostas diferentes para essas perguntas, e em diferentes graus de precis\u00e3o, encontram alguma forma de definir que tipo de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado pode ser protegida por direitos autorais ou n\u00e3o. Al\u00e9m disso, regulam como o uso desse material criativo pode ser feito por terceiros. Os americanos t\u00eam o conceito de \u201cfair use\u201d, com uma porcentagem do material podendo ser usada at\u00e9 mesmo em projetos com fins lucrativos sem incorrer em direitos autorais, desde que esteja comentando sobre a obra.<\/p>\n<p>Nem faz sentido se aprofundar na legisla\u00e7\u00e3o, porque em cada pa\u00eds ela diz uma coisa. Al\u00e9m disso, em alguns ela \u00e9 levada a s\u00e9rio, em outros tem camel\u00f4s em cada canto vendendo pirataria a c\u00e9u aberto. Mas tem algo que vai atingir todo mundo ao mesmo tempo, independentemente do cen\u00e1rio jur\u00eddico local: intelig\u00eancias artificiais simulando o processo criativo humano.<\/p>\n<p>Porque a\u00ed vamos come\u00e7ar a discutir o que \u00e9 conte\u00fado original em linhas gerais. At\u00e9 a chegada desses sistemas de cria\u00e7\u00e3o digital, o processo criativo era uma caixa preta. A ideia ou express\u00e3o art\u00edstica de uma pessoa n\u00e3o podia ser desconstru\u00edda at\u00e9 achar o que a inspirou. Existem muitos casos bem documentados de cientistas que descobriram a mesma coisa ao mesmo tempo, sem estarem em contato ou sequer se conhecerem. Dou esse contexto porque \u00e9 dif\u00edcil saber o que um ser humano viu ou n\u00e3o viu antes de produzir um conte\u00fado. Existe sim a chance de algo que parece ser copiado na verdade foi fruto de cria\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea.<\/p>\n<p>No caso do computador, o conte\u00fado inicial \u00e9 conhecido. Intelig\u00eancias artificiais generativas como as que produzem imagens e textos fazem seu treinamento em cima de uma base de dados de origens definidas. Mesmo que digam que foi \u201ccoletada da internet\u201d, isso significa que existe um link original para cada pedacinho de informa\u00e7\u00e3o utilizado.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea pede para o computador desenhar o Mickey no estilo do Picasso, pode achar na base de dados original dele onde foi que ele pegou imagens do Mickey e das pinturas do Picasso. Inclusive saber exatamente quais foram essas imagens. A constru\u00e7\u00e3o final da imagem \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original, mas sabemos exatamente o que foi usado nela. \u00c9 com base nisso que v\u00e1rios artistas ent\u00e3o se unindo para gerar uma legisla\u00e7\u00e3o sobre o uso de suas obras no desenvolvimento de arte por intelig\u00eancia artificial. N\u00e3o s\u00f3 a m\u00e1quina pode criar coisas nos estilos que eles usam, como tamb\u00e9m podem criar coisas novas quase id\u00eanticas ao que eles fariam.<\/p>\n<p>J\u00e1 era um problema com as imagens, mas quando o ChatGPT entra na jogada, a coisa come\u00e7a a ficar ainda mais complexa: humanos tem uma certa facilidade para perceber semelhan\u00e7as entre imagens, a percep\u00e7\u00e3o de um estilo vem quase que por instinto, nossos c\u00e9rebros se amarram em reconhecer padr\u00f5es. Agora, com ideias e estilos de escrita?<\/p>\n<p>Se a intelig\u00eancia artificial escreve um texto usando fontes aleat\u00f3rias da internet, ela est\u00e1 plagiando ou ela est\u00e1 produzindo conte\u00fado como um ser humano qualquer? Lembrando que n\u00e3o estamos falando s\u00f3 de livros, a tecnologia para transformar em \u00e1udio j\u00e1 est\u00e1 madura e a dos v\u00eddeos est\u00e1 chegando rapidamente. Produzir um texto pode significar um discurso ou mesmo um roteiro de filme. Concatenar palavras e gerar significados com elas \u00e9 algo que afeta todos os pontos da nossa cultura.<\/p>\n<p>O dia que um computador criar um desenho \u201cperfeito\u201d do Mickey Mouse e colocar num canal de YouTube, vamos ter alguma facilidade de reconhecer que existe sim uma lei que defende os direitos da Disney sobre sua personagem. Mas se o computador for instru\u00eddo a chamar o rato de Melec\u00e3o e pintar ele de verde, pode manter basicamente o mesmo roteiro e estilo visual sem estar diante de uma infra\u00e7\u00e3o de direitos alheios.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o poder de criar ideias ao inv\u00e9s de simplesmente imagens. Se a gente barrar a intelig\u00eancia artificial de fazer obras derivativas de ideias existentes, estamos barrando o conceito de obras derivativas de ideias existentes. E a\u00ed, cria\u00e7\u00e3o se torna ilegal. Porque n\u00e3o tem para onde escapar, nem o ser humano \u00e9 uma ilha, ele \u00e9 impactado por conte\u00fados de outras pessoas a vida toda, e ele transforma essas inspira\u00e7\u00f5es em algo considerado novo.<\/p>\n<p>Mantendo o combo de exemplos anterior, vamos considerar Picasso: sem a guerra civil espanhola e o bombardeio da cidade de Guernica, ele n\u00e3o teria a inspira\u00e7\u00e3o para pintar a obra hom\u00f4nima. A ideia de sofrimento e terror n\u00e3o foi criada por ele, ele poderia ter direitos sobre a forma como transformou essas ideias em uma pintura, mas n\u00e3o sobre qualquer conceito expressado nela. At\u00e9 porque entrar\u00edamos numa sequ\u00eancia insana que terminaria com os direitos autorais sendo disputados pelos soldados que lutaram na guerra.<\/p>\n<p>Ideias n\u00e3o s\u00e3o protegidas, aplica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas delas sim. Isso acontece porque ideias todo mundo pode ter, basta ter uma capacidade b\u00e1sica de pensamento. E nem precisa ir muito fundo nessa coisa de pensamento, uma ideia \u00e9 basicamente o choque de dois conceitos dentro do c\u00e9rebro. A relatividade pensada por Einstein e a realiza\u00e7\u00e3o que uma pedra machuca se jogada com for\u00e7a pelo Uga h\u00e1 cinquenta mil anos atr\u00e1s s\u00e3o ideias.<\/p>\n<p>Todo mundo tem direito de ter ideias. N\u00e3o se regula conex\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es dentro de um c\u00e9rebro porque nem temos como fazer isso (ditadores j\u00e1 teriam feito se fosse poss\u00edvel), sem conhecimento perfeito sobre todas as informa\u00e7\u00f5es recebidas por uma pessoa, \u00e9 imposs\u00edvel saber de onde veio uma ideia. A n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que quando ela coloque essa ideia em pr\u00e1tica ela gere um resultado id\u00eantico a outra coisa que j\u00e1 existe. E mesmo assim, em d\u00favida, pr\u00f3-r\u00e9u: ningu\u00e9m pode garantir que a pessoa n\u00e3o bolou aquilo sem nunca ter visto o que se diz que ela copiou.<\/p>\n<p>S\u00f3 podemos olhar o resultado dessas ideias e tentar definir quem fez primeiro, porque quem pensou primeiro&#8230; n\u00e3o vamos saber, nunca. Estamos todos de acordo que n\u00e3o tem como regular ideias, apenas o resultado delas?<\/p>\n<p>Se a intelig\u00eancia artificial entregar um resultado que nos pare\u00e7a uma c\u00f3pia de algo j\u00e1 existente, nossas leis j\u00e1 funcionam. N\u00e3o era sobre a ideia, era sobre a explora\u00e7\u00e3o (comercial ou n\u00e3o) de alguma cria\u00e7\u00e3o. Quem chega primeiro tem o direito.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que como a intelig\u00eancia artificial usa um processo (que at\u00e9 onde sabemos) \u00e9 parecido com o nosso, o de conectar informa\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias para desenvolver um novo material, por pura probabilidade ela n\u00e3o vai produzir conte\u00fado id\u00eantico aos j\u00e1 existentes. A chance do ChatGPT escrever exatamente a mesma sequ\u00eancia de letras que voc\u00ea escreveu \u00e9 de uma em um daqueles n\u00fameros incont\u00e1veis. Mesmo que o que voc\u00ea tenha escrito antes fizesse parte do material de estudo do computador.<\/p>\n<p>Para correr atr\u00e1s dos direitos autorais nesse universo de conte\u00fado criado por m\u00e1quinas, vamos ter que rever esse conceito b\u00e1sico de n\u00e3o proteger ideias. Porque o que as m\u00e1quinas est\u00e3o fazendo \u00e9 literalmente a mesma coisa que fazemos, mesmo que usem mecanismos diferentes. O c\u00e9rebro humano \u00e9 melhor em focar num resultado esperado e limitar ideias completamente sem sentido, mas estamos todos buscando a mesma coisa: ideias coerentes que possam ser compreendidas por outros seres humanos.<\/p>\n<p>Para impedir que o computador fa\u00e7a isso, temos que nos impedir de fazer isso. Eu n\u00e3o consigo pensar em nenhum jeito de proteger direitos autorais de obras derivativas criadas por m\u00e1quinas no futuro. Em todos os cen\u00e1rios imaginados, basta mudar algumas letras ou pixels para deixar de ser uma c\u00f3pia. Pode proibir o uso do Mickey, mas o Mackey e\/ou o Mockey v\u00e3o acabar escapando uma hora ou outra. O conceito de um camundongo falante n\u00e3o pode ser protegido, \u00e9 s\u00f3 uma ideia.<\/p>\n<p>O que muita gente n\u00e3o percebe \u00e9 que um dos principais protetores de propriedades intelectuais \u00e9 a dificuldade de imita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para fazer um filme quase igual aos Vingadores sem gastar centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares, ent\u00e3o nem vale o risco. Agora, se a sua m\u00e1quina puder criar um filme completo no estilo dos Vingadores em algumas horas, voc\u00ea pode soltar dois ou tr\u00eas por dia e deixar para a Disney o \u00f4nus de provar que voc\u00ea est\u00e1 infringindo seus direitos autorais.<\/p>\n<p>Se estiverem saindo mil filmes praticamente iguais aos Vingadores, com o Hork e o Capit\u00e3o Eslov\u00eania como protagonistas, todos os dias&#8230; s\u00f3 uma intelig\u00eancia artificial teria condi\u00e7\u00f5es de lutar contra isso. A\u00ed estamos falando de sistemas automatizados de an\u00e1lise e aplica\u00e7\u00e3o de leis, sem contato humano. N\u00e3o nos vejo colocando as leis nas m\u00e3os de m\u00e1quinas t\u00e3o cedo. Os direitos autorais provavelmente v\u00e3o ruir como conceito bem antes disso.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o legal mais do que uma quest\u00e3o tecnol\u00f3gica. Ainda parece que existe algum senso de controle porque a velocidade de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado automatizado \u00e9 baixa o suficiente para as pessoas terem a ilus\u00e3o que isso pode ser controlado. Estamos falando de talvez em uma ou duas d\u00e9cadas termos filmes longa metragem criados apenas para voc\u00ea, com uma hist\u00f3ria que voc\u00ea j\u00e1 deu indica\u00e7\u00f5es de gostar e v\u00e1rias cenas de produtos que o anunciante pagando por ele quer te vender. E no pacote plus, as atrizes est\u00e3o todas peladas. Tudo bem, elas n\u00e3o existem, embora sejam muito parecidas com mulheres que voc\u00ea indicou achar atraentes no seu hist\u00f3rico, sejam elas famosas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Direitos autorais s\u00e3o uma rolha segurando um vulc\u00e3o prestes a explodir. N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor se isso vai ser melhor ou pior, estou apenas dizendo que quem est\u00e1 preocupado com o tema precisa achar solu\u00e7\u00f5es alternativas, e r\u00e1pido. Conte\u00fado derivativo \u00e9 o futuro, as redes sociais s\u00e3o basicamente isso e se tornaram famosas como se tornaram.<\/p>\n<p>O direito de posse de uma produ\u00e7\u00e3o intelectual faz sentido num mundo onde s\u00f3 algumas pessoas podem fazer algo parecido, mas quando uma m\u00e1quina faz dez mil vers\u00f5es por minuto da sua especialidade? E quanto mais dez mil delas est\u00e3o produzindo ao mesmo tempo? M\u00e1quinas tem ideias sim, e numa quantidade absurdamente maior que a gente. Muitas delas n\u00e3o prestam, especialmente as originais, afinal, as minhas primeiras frases s\u00e3o originais, mas n\u00e3o servem para nada a n\u00e3o ser neste texto.<\/p>\n<p>O futuro tem toda a cara de ser o territ\u00f3rio de quem sabe transformar ideias em fun\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. O \u201ccara das ideias\u201d vai se tornar obsoleto numa velocidade absurda nos pr\u00f3ximos anos. O que se faz a partir delas \u00e9 que conta, isso ainda n\u00e3o \u00e9 o campo das intelig\u00eancias artificiais. Ainda.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que isso problema de voc\u00ea do futuro, para dizer que eu j\u00e1 devo estar treinando a minha para escrever estes textos, ou mesmo para dizer que as primeiras frases do texto eram mais simples coerentes que o resto: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vgfyy1 hagh2 jjah999 hp Jasee661? B1fsgp, 8hgak pygfrak7. N\u00e3o entendeu nada? Bom, isso \u00e9 conte\u00fado original. Tenho certeza de que se voc\u00ea fizer uma pesquisa em todo o material produzido pela humanidade at\u00e9 hoje, n\u00e3o vai achar nenhuma sequ\u00eancia exata de letras e n\u00fameros exatamente igual \u00e0s primeiras frases deste texto. 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