{"id":21173,"date":"2023-02-17T13:53:06","date_gmt":"2023-02-17T16:53:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21173"},"modified":"2023-02-17T13:53:06","modified_gmt":"2023-02-17T16:53:06","slug":"ciencias-e-ciencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/02\/ciencias-e-ciencias\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancias e ci\u00eancias&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 comum voc\u00ea ler aqui no Desfavor que acreditamos na ci\u00eancia. Mas \u00e9 importante explicar melhor essa frase: n\u00f3s acreditamos na ci\u00eancia ao inv\u00e9s de acreditar em religi\u00e3o, supersti\u00e7\u00e3o ou conspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e9, \u00e9 uma escolha consciente que pode ter limites. Porque a ci\u00eancia tem sim seus problemas, como qualquer mecanismo com o objetivo de explicar a imensa complexidade do mundo ao nosso redor. O principal deles \u00e9 achar que todas as ci\u00eancias s\u00e3o iguais&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o. Cada uma est\u00e1 estudando um aspecto da nossa realidade, e o quanto isso pode ser testado e confirmado muda bastante. Vamos come\u00e7ar com uma divis\u00e3o bem simples: \u00e9 relativamente f\u00e1cil dizer que uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica faz mal para o f\u00edgado. Voc\u00ea compara pessoas que ingeriram essa subst\u00e2ncia com pessoas que n\u00e3o ingeriram e olha como ficou o f\u00edgado de cada uma delas. Se voc\u00ea olhar muita gente, vai come\u00e7ar a ter dados bem seguros sobre o resultado m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o \u00e9 nem um pouco f\u00e1cil dizer o quanto uma ideia pode fazer mal para a sa\u00fade mental de uma pessoa. \u00c9 complicado saber o quanto dessa ideia entrou na cabe\u00e7a dela, o quanto ela entendeu ou mesmo o que ela entendeu, e depois \u00e9 virtualmente imposs\u00edvel ter um par\u00e2metro do que aconteceu com a sa\u00fade mental dela depois disso. Pessoas podem reagir de formas muito diferentes, e o que \u00e9 estar mal da cabe\u00e7a ainda depende de como a pessoa se enxerga em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas com as quais convive.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que medicina \u00e9 mais ou menos ci\u00eancia que psicologia, estou apenas dizendo que as duas tem diferen\u00e7as fundamentais no quanto podem ser transformadas em informa\u00e7\u00f5es simples de digerir ou mesmo, reproduzir. Quando a medicina disse que beber muito \u00e1lcool destr\u00f3i o seu f\u00edgado, ela mostrou como os f\u00edgados dos alco\u00f3latras estavam visivelmente destru\u00eddos. Quando a psicologia diz que viver com culpa por tudo trava sua vida, falta uma prova t\u00e3o clara.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, especialistas se debru\u00e7aram sobre um problema e gastaram milhares de horas estudando e pensando, mas s\u00f3 num deles o resultado foi simples o suficiente de transformar numa regra. Quer ter um f\u00edgado saud\u00e1vel? Evite \u00e1lcool e voc\u00ea j\u00e1 vai fazer algo muito eficiente. Quer ter uma mente saud\u00e1vel? Bom, voc\u00ea tem uma hora por semana pelos pr\u00f3ximos cinco anos para tentar resolver isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que ci\u00eancia seja boa ou ruim, \u00e9 que ela \u00e9 muito dependente do que se estuda. Quando eu vejo uma gera\u00e7\u00e3o inteira de \u201cjovens rebeldes\u201d come\u00e7ando a brigar com a ci\u00eancia, eu vejo gente que n\u00e3o entendeu esse elemento b\u00e1sico. Ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o objetivo dela dar respostas imut\u00e1veis e absolutas, \u00e9 tirar as melhores conclus\u00f5es poss\u00edveis em cima dos dados coletados.<\/p>\n<p>E a\u00ed \u00e9 muito importante perceber a diferen\u00e7a entre os in\u00fameros campos de conhecimento que utilizam o m\u00e9todo cient\u00edfico. Se voc\u00ea colocar tudo no mesmo balaio, vai achar que a confus\u00e3o da f\u00edsica de part\u00edculas tem algo a ver com a ci\u00eancia das vacinas, por exemplo. Sim, os cientistas que estudam a composi\u00e7\u00e3o do universo tiveram que colocar coisas como mat\u00e9ria e energia escura nas suas equa\u00e7\u00f5es para fazer algum senso do que observavam, mas isso \u00e9 um elemento espec\u00edfico do campo de estudo deles. Inclusive, muitos cientistas contempor\u00e2neos discutem esses conceitos e t\u00eam outras ideias de como analisar o universo sem nada \u201cescuro\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo ci\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma ci\u00eancia. O pessoal que desenvolve pontes usa v\u00e1rios c\u00e1lculos baseados na f\u00edsica para definir se uma delas vai cair ou n\u00e3o. Se der errado, a ponte cai e sabemos o que deu errado. J\u00e1 o pessoal que desenvolve modelos sobre a economia usa v\u00e1rios c\u00e1lculos tamb\u00e9m, mas se a economia cair n\u00e3o podemos ter certeza do que aconteceu de verdade. Foi um erro na taxa de juros ou foi a economia de outro pa\u00eds influindo? Quanto mais fatores externos envolvidos, menor o grau de confian\u00e7a das observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o quer dizer que algumas ci\u00eancias s\u00e3o mais f\u00e1ceis de estudar que outras, todas exigem muito esfor\u00e7o para chegar num resultado minimamente decente. \u00c9 que algumas coisas podemos verificar de forma mais simples que outras. Vacinas, por exemplo: o n\u00famero de infectados com uma doen\u00e7a diminuiu muito al\u00e9m do que era esperado se n\u00e3o fiz\u00e9ssemos nada? Ent\u00e3o a vacina est\u00e1 no caminho certo. Voc\u00ea pode olhar os n\u00fameros e tirar conclus\u00f5es muito mais seguras sobre causa e resultado.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos olhar para um elemento espec\u00edfico da ci\u00eancia sendo feita ao redor do mundo e definir que isso \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia em geral. At\u00e9 porque, salvo algum avan\u00e7o consider\u00e1vel nas intelig\u00eancias artificiais, ci\u00eancia \u00e9 feita por seres humanos. E seres humanos t\u00eam muita varia\u00e7\u00e3o. Existem m\u00e9dicos formados que se especializam em neurologia ou em homeopatia&#8230; a pessoa que faz a ci\u00eancia n\u00e3o define o que \u00e9 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O maluco desenvolvendo modelos de terra plana est\u00e1 fazendo ci\u00eancia, mas est\u00e1 fazendo de um jeito maluco ignorando premissas muito bem estabelecidas. Ele n\u00e3o responde por ningu\u00e9m al\u00e9m dele. Numa analogia: sabemos que exerc\u00edcios f\u00edsicos ajudam a perder peso, mas se uma pessoa decidir que vai flexionar o dedo mindinho 500 vezes por dia e n\u00e3o vir nenhuma redu\u00e7\u00e3o no seu peso, n\u00e3o quer dizer que a l\u00f3gica original est\u00e1 errada, s\u00f3 quer dizer que a pessoa seguiu por um caminho bizarro.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que come\u00e7am a entrar cr\u00edticas muito v\u00e1lidas ao campo cient\u00edfico moderno como a crise da reprodutibilidade. Muitos estudos seguem por esses caminhos bizarros para gerar recursos para os cientistas ou para as institui\u00e7\u00f5es que representam. A necessidade de publicar materiais novos passa por cima da utilidade desses materiais. No campo da f\u00edsica de part\u00edculas, por exemplo, vivem aparecendo novas propostas de part\u00edculas fundamentais, e boa parte delas nem eram necess\u00e1rias para expandir o conhecimento na \u00e1rea. Fazem a proposta, analisam resultados de experimentos, n\u00e3o acham nada e inventam outra&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o quer dizer que toda ci\u00eancia \u00e9 um embuste?<\/p>\n<p>N\u00e3o, da mesma forma que um b\u00eabado batendo um carro n\u00e3o quer dizer que devamos proibir o uso de carros, cientistas fazendo coisas erradas por burrice, teimosia ou interesses financeiros nada tem a ver com a ideia de ci\u00eancia em geral. Faz parte do jogo que algumas pessoas fa\u00e7am as coisas do jeito errado. Bons modelos cient\u00edficos da realidade que geram previs\u00f5es confi\u00e1veis s\u00e3o dif\u00edceis de fazer, e eu at\u00e9 acho que para um bando de macacos pelados vindos das cavernas, nossos resultados at\u00e9 aqui s\u00e3o excelentes.<\/p>\n<p>Os cientistas antigos que acreditam em miasma &#8211; basicamente a ideia de que \u201car ruim\u201d faz mal para a sa\u00fade &#8211; n\u00e3o estavam corretos, mas estavam seguindo por uma linha que nos fez perceber as in\u00fameras amea\u00e7as invis\u00edveis em v\u00edrus, bact\u00e9rias e afins. A conclus\u00e3o sobre o miasma n\u00e3o foi boa, mas em linhas gerais tinha algo evoluindo ali. Isso j\u00e1 aconteceu in\u00fameras vezes e vai acontecer in\u00fameras mais.<\/p>\n<p>Alguns campos v\u00e3o bater cabe\u00e7a por mais tempo, outros j\u00e1 est\u00e3o bem mais pr\u00f3ximos de um bom modelo de realidade, e tudo isso \u00e9 normal. Tudo isso \u00e9 ci\u00eancia. Acreditar na ci\u00eancia \u00e9 acreditar que \u00e9 poss\u00edvel extrair informa\u00e7\u00f5es do ambiente e apresentar ideias coerentes sobre elas. \u00c9 entender que n\u00e3o existe nada t\u00e3o escuro que n\u00e3o possa ser iluminado (talvez buracos negros).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que consenso \u00e9 t\u00e3o importante no campo cient\u00edfico: quanto mais gente estuda uma coisa e chega na mesma conclus\u00e3o, mais segura \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o extra\u00edda. Nunca podemos depender de s\u00f3 um campo de estudos ou de um grupo espec\u00edfico de pessoas. Um m\u00e9dico formado falando de homeopatia n\u00e3o \u00e9 a medicina. Um f\u00edsico picareta forjando resultados para ganhar dinheiro n\u00e3o \u00e9 a f\u00edsica. E nem mesmo a boa vontade de uma pessoa fazendo ci\u00eancia resolve o problema, quantas vezes na vida n\u00e3o nos esfor\u00e7amos muito para fazer algo errado e\/ou in\u00fatil?<\/p>\n<p>Os resultados importam. A capacidade de um modelo prever resultados importa. O grau de complexidade da ci\u00eancia importa. \u00c9 dif\u00edcil mesmo, e justamente por ser dif\u00edcil que a ci\u00eancia ganha de goleada de outras formas de entender a realidade. Se tivesse alguma coisa f\u00e1cil na compreens\u00e3o da realidade e na capacidade de fazer previs\u00f5es confi\u00e1veis sobre o futuro, j\u00e1 ter\u00edamos feito. O \u00fanico mecanismo que temos atualmente para desbravar a complexidade do universo \u00e9 a ci\u00eancia, mesmo que ela tenha muitas partes confusas e mal resolvidas.<\/p>\n<p>E sim, alguns campos de conhecimento v\u00e3o parecer mais naturais e l\u00f3gicos para voc\u00ea do que outros. F\u00edsica qu\u00e2ntica \u00e9 cem vezes pior de entender quando voc\u00ea se aprofunda: sim, fica mais confusa e come\u00e7a a bater de frente com tudo o que os leigos no tema dizem. Psicologia \u00e9 um inferno de padronizar, porque o c\u00e9rebro \u00e9 um emaranhado de bilh\u00f5es de neur\u00f4nios que s\u00e3o influenciados at\u00e9 pelo intestino. Algumas ci\u00eancias s\u00e3o osso duro de roer, mas isso n\u00e3o \u00e9 sobre a ideia de ci\u00eancia em geral, \u00e9 sobre aquele tema, naquele contexto.<\/p>\n<p>Se for para tratar ci\u00eancia de forma unificada, que se trate como o que a unifica: estudos de informa\u00e7\u00f5es coletadas da realidade, estudos que \u00e0s vezes d\u00e3o certo, \u00e0s vezes d\u00e3o errado. Nisso podemos acreditar. N\u00e3o num cientista ou numa hip\u00f3tese espec\u00edfica.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil mesmo. N\u00e3o quer dizer que tenha algo errado se for dif\u00edcil.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que agora n\u00e3o vai acreditar em mais nada, para dizer que agora se sente livre por n\u00e3o entender nada, ou mesmo para dizer que \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do texto de criatividade inteligente (de certa forma \u00e9: estude antes de inventar): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 comum voc\u00ea ler aqui no Desfavor que acreditamos na ci\u00eancia. Mas \u00e9 importante explicar melhor essa frase: n\u00f3s acreditamos na ci\u00eancia ao inv\u00e9s de acreditar em religi\u00e3o, supersti\u00e7\u00e3o ou conspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e9, \u00e9 uma escolha consciente que pode ter limites. 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