{"id":21228,"date":"2023-03-04T14:26:46","date_gmt":"2023-03-04T17:26:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21228"},"modified":"2025-11-18T16:36:50","modified_gmt":"2025-11-18T19:36:50","slug":"escravo-meu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/03\/escravo-meu\/","title":{"rendered":"Escravo meu."},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-card uk-card-body uk-card-default\">\n<p>Os 207 homens que foram resgatados em Bento Gon\u00e7alves, na Serra do Rio Grande do Sul, em condi\u00e7\u00f5es de trabalho escravo, relataram em depoimentos ao Ministro do Trabalho e Emprego (MTE) situa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o, c\u00e1rcere privado e agiotagem. Conforme os auditores fiscais do trabalho que ouviram os homens, os relat\u00f3rios &#8220;detalharam os sinais cl\u00e1ssicos de trabalho escravo&#8221;, entre eles, o endividamento, que come\u00e7ou quando o grupo saiu da Bahia. <a class=\"uk-button uk-button-text\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2023\/02\/23\/empresario-e-preso-por-manter-150-trabalhadores-em-condicoes-analogas-a-escravidao-em-bento-goncalves-diz-policia.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">LINK<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>O mundo moderno, em tese, \u00e9 totalmente contra a escravid\u00e3o. Em tese. <strong>Desfavor da Semana<\/strong>.<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SALLY<\/span><\/h4>\n<p>Quando li a indignante not\u00edcia, cometi o erro de ir nos coment\u00e1rio da mat\u00e9ria. Para minha surpresa, tinha v\u00e1rios leitores contestando as acusa\u00e7\u00f5es com o argumento de que \u201celes recebiam, n\u00e3o era trabalho escravo\u201d. Come\u00e7o o texto com isso para mostrar o tamanho do buraco: muita gente nem sequer acha crime o que aconteceu.<\/p>\n<p>Obviamente, em 2023 seria bem improv\u00e1vel que uma empresa brasileira consiga manter o \u201ctrabalho escravo cl\u00e1ssico\u201d, com pessoas acorrentadas, sem pagamento e chibatadas. Por isso existe o termo \u201ctrabalho an\u00e1logo a escravid\u00e3o\u201d, para casos em que, apesar de existir pagamento, a pessoa \u00e9 privada de sua liberdade de alguma forma, algo t\u00e3o grave quanto trabalho escravo cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o do que faziam com essas pessoas \u00e9 nauseante, o que me d\u00e1 certeza de que a m\u00eddia brasileira explorou cada detalhes, n\u00e3o sendo necess\u00e1rio que eu repita as atrocidades aqui. Qualquer grande portal de not\u00edcias deve te dizer exatamente o que aconteceu, portanto, nada de fetiche pela viol\u00eancia, vamos aos desfavores.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 a sociedade brutalizada na qual voc\u00eas vivem, seja por pessoas que se sentem confort\u00e1veis para fazer uma coisa dessas, seja por pessoas que sequer acham que isso se enquadre como trabalho escravo. Fica muito dif\u00edcil conseguir qualquer progresso quando se parte de um atraso t\u00e3o grande. E, acreditem, muitas das pessoas que est\u00e3o se indignando, querem apenas sua estrelinha de bom cidad\u00e3o: se n\u00e3o fosse t\u00e3o socialmente reprov\u00e1vel, ser\u00e1 que, ainda assim, essas pessoas criticariam?<\/p>\n<p>E mesmo quem critica de verdade tamb\u00e9m pisa na bola. Quem est\u00e1 indignado de verdade (e se indignaria mesmo que n\u00e3o fosse algo socialmente reprovado) dificilmente se porta de acordo com essa indigna\u00e7\u00e3o e consome marcas que sabidamente utilizam trabalho an\u00e1logo a escravid\u00e3o, como Apple, Nike, Zara e muitas outras. Tudo bem que escravizar algu\u00e9m \u00e9 mais reprov\u00e1vel do que comprar coisa fruto de trabalho escravo, mas quem compra est\u00e1 longe de poder dar li\u00e7\u00e3o de moral no tom em que est\u00e3o dando.<\/p>\n<p>Aquele produto baratinho que voc\u00ea compra na Ali Express ou na Shopee tem esse pre\u00e7o t\u00e3o camarada por qual motivo? Voc\u00ea j\u00e1 parou para se perguntar? Se voc\u00ea n\u00e3o sabe a resposta, eu te conto: trabalho an\u00e1logo a escravid\u00e3o, que, nos pa\u00edses de onde vem esses produtos, corre solto. E n\u00e3o \u00e9 um achismo meu, \u00e9 algo de conhecimento p\u00fablico, existem den\u00fancias, existem processos.<\/p>\n<p>Boicotar vin\u00edcola \u00e9 f\u00e1cil, tem trocentas no mundo e vinho n\u00e3o \u00e9 algo primordial para o brasileiro. Eu quero ver boicotar smartphone, boicotar roupa, boicotar eletr\u00f4nicos. Quero ver escolher comprar da Alemanha, dos EUA ou da Su\u00e9cia e pagar 10 vezes mais para n\u00e3o comprar algo feito por trabalho escravo. Quero ver n\u00e3o comprar aquilo que s\u00f3 \u00e9 fabricado em pa\u00edses com trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m faz isso, por um motivo muito simples: \u00e9 muito oneroso. Voc\u00ea teria que abrir m\u00e3o de ter um smartphone, j\u00e1 que certas pe\u00e7as obrigatoriamente v\u00eam desses pa\u00edses. Teria que desistir de ter um carro. Teria que desistir de muitas coisas que s\u00e3o, hoje, instrumento de trabalho de muita gente. Eu entendo que n\u00e3o se possa viver sem eles, pois isso significaria n\u00e3o conseguir trabalhar e n\u00e3o conseguir pagar as contas no final do m\u00eas. Mas n\u00e3o d\u00e1 para ostentar virtude quando voc\u00ea consome regularmente produto de trabalho escravo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos estabelecer uma verdade inconveniente aqui: todos n\u00f3s consumimos, direta ou indiretamente, produtos de trabalho escravo. Quem tem mais consci\u00eancia consome menos, cortando todas as marcas que pode, todas as comprinhas em site oriental, todos os produtos que n\u00e3o s\u00e3o essenciais. Mas, ainda assim, fatalmente consumimos trabalho escravo.<\/p>\n<p>Por isso me surpreende o discurso de falsa superioridade moral que vi vinculado a essa not\u00edcia. A pessoa que critica em tom de superioridade quem consome produto fruto de trabalho escravo \u00e9 t\u00e3o ignorante quando a que diz que n\u00e3o \u00e9 trabalho escravo pois os trabalhadores eram remunerados. Mesmo os virtuosos e cr\u00edticos da situa\u00e7\u00e3o est\u00e3o errados: cuidado com o discurso condenando uma coisa que voc\u00ea tamb\u00e9m faz.<\/p>\n<p>Quer dizer que n\u00e3o devemos criticar? N\u00c3O. Quer dizer que o foco da discuss\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 errado. N\u00e3o \u00e9 sobre esse caso isolado. N\u00e3o \u00e9 deixar de consumir uma marca. \u00c9 hora de pensarmos no modelo de produ\u00e7\u00e3o mundial, na forma como lidamos com consumo e em tantas outras quest\u00f5es maiores. Ou escravid\u00e3o s\u00f3 \u00e9 indignante quando acontece no Brasil?<\/p>\n<p>Obviamente este caso concreto precisa ser investigado e severamente punido, algo que eu acredito que v\u00e1 acontecer, por causa do clamor popular que ele despertou. Mas n\u00e3o d\u00e1 para fazer desse caso a sua cruzada pessoal, como se, resolvendo-o se resolvesse todo o problema do trabalho escravo.<\/p>\n<p>Ainda existe muito trabalho an\u00e1logo a escravid\u00e3o no Brasil. Muito mesmo, muito mais do que as pessoas sup\u00f5em \u2013 e muitos deles perpetrados ou endossados por pol\u00edticos e empres\u00e1rios. Quem est\u00e1 no poder n\u00e3o vai se mexer para acabar com alguns deles. Se o povo n\u00e3o fizer barulho, vai ficar tudo como est\u00e1 e s\u00f3 vai virar den\u00fancia quando for sobre algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 amigo do rei.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse caso \u00e9 apenas um lembrete de algo muito maior que precisa ser olhado. Quem faz text\u00e3o, xinga muito no Twitter ou qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o jogando o problema todo na conta deste caso tamb\u00e9m pratica o desfavor. Tem um pa\u00eds e um mundo para resolver. N\u00e3o adianta matar uma formiga, tem que acabar com o formigueiro.<\/p>\n<p>Repito: olhar para esse caso e pedir por puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 errado, \u00e9 necess\u00e1rio. Errado \u00e9 s\u00f3 olhar para esse caso e s\u00f3 pedir puni\u00e7\u00e3o para este caso e depois esquecer o problema. Isso \u00e9 apenas manifesta\u00e7\u00e3o eg\u00f3ica para conseguir atestado de boa pessoa. Todos n\u00f3s somos parte do problema, qualquer pessoa consciente fala sobre o assunto com vergonha, com pesar, se inserindo no problema e n\u00e3o arrotando virtudes.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para tirar o corpo fora com uma fala simplista como \u201ceu nunca escravizei ningu\u00e9m\u201d. Todos n\u00f3s participamos desse mecanismo, consumindo produtos fruto de trabalho escravo. Se voc\u00ea n\u00e3o estava consciente disso, agora est\u00e1. O que vai fazer a respeito?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que me odeia por agora estar consciente disso, para dizer que se voc\u00ea n\u00e3o viu ent\u00e3o n\u00e3o sabe que \u00e9 trabalho escravo ou ainda para dizer que as crian\u00e7as chinesas gostam de costurar em por\u00f5es: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SOMIR<\/span><\/h4>\n<p>A escravid\u00e3o \u00e9 muito antiga, mais antiga at\u00e9 que a ideia de sal\u00e1rios. Durante a jornada da humanidade rumo ao mundo moderno, diversos sistemas de trabalho n\u00e3o remunerado fizeram parte de grandes e pequenas sociedades. E em graus diferentes de brutalidade tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>De uma certa forma, \u00e9 um alento que a ideia de escravid\u00e3o na cabe\u00e7a do cidad\u00e3o m\u00e9dio em 2023 esteja ligada com a brutalidade da escravid\u00e3o dos africanos trazidos para as Am\u00e9ricas poucos s\u00e9culos atr\u00e1s. Talvez se o conhecimento viesse da forma como os romanos faziam, com alguma forma de mobilidade social, ou mesmo como os africanos faziam no seu pr\u00f3prio continente, usando trabalho como moeda de troca tempor\u00e1ria, n\u00e3o tiv\u00e9ssemos essa rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o primal ao conceito.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma boa coisa que a escravid\u00e3o brasileira, por exemplo, tenha sido baseada em abusos humanit\u00e1rios terr\u00edveis, mas dadas as condi\u00e7\u00f5es, pelo menos \u00e9 para o brasileiro m\u00e9dio imaginar chibatadas e mis\u00e9ria absoluta quando pensa em escravid\u00e3o. Isso gera uma camada de prote\u00e7\u00e3o para quem quiser relativizar a pr\u00e1tica: custa muito caro ser pego escravizando os outros, voc\u00ea \u00e9 comparado com o pior do pior da humanidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 que vendo algumas das rea\u00e7\u00f5es sobre o caso, eu percebi que a vontade das pessoas de pintar a coisa como menos horr\u00edvel do que realmente \u00e9 continua forte. Talvez t\u00e3o forte quanto foi em civiliza\u00e7\u00f5es muito mais antigas. O grande diferencial do s\u00e9culo XXI num pa\u00eds democr\u00e1tico como o Brasil \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 mais toler\u00e1vel ser pego escravizando algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 aquela velha hist\u00f3ria de querer controlar uma sociedade por medo de puni\u00e7\u00e3o: funciona com ressalvas. Se a ideia do crime em quest\u00e3o n\u00e3o estiver internalizada, vira uma quest\u00e3o de calcular custo e benef\u00edcio. Quem n\u00e3o mata s\u00f3 porque tem medo de ser preso n\u00e3o \u00e9 uma pessoa segura de se ter por perto. Afinal, se ela achar que pode escapar impune, n\u00e3o tem mais nenhuma trava de seguran\u00e7a dentro da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 a minha cr\u00edtica fundamental \u00e0 religi\u00e3o: quando um religioso descobre que sou ateu e me pergunta por que eu n\u00e3o saio matando e estuprando por a\u00ed, eu fico chocado (e \u00e0s vezes assustado) com o que se passa na cabe\u00e7a dela para sequer fazer essa pergunta. Ser\u00e1 que ela s\u00f3 n\u00e3o mata e estupra porque acha que tem um ser m\u00e1gico nos c\u00e9us pronto para puni-la?<\/p>\n<p>O que me faz voltar para o ponto da escravid\u00e3o. Sim, \u00e9 consenso entre o nosso povo que \u00e9 errado escravizar o outro, mas ser\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 porque na cabe\u00e7a deles isso significa que o escravocrata est\u00e1 ferindo diretamente o escravo? Ser\u00e1 que a ideia central de que um ser humano tem direitos fundamentais e escraviz\u00e1-lo \u00e9 uma forma terr\u00edvel de tortura psicol\u00f3gica tamb\u00e9m? Que \u00e9 feito por gan\u00e2ncia psicop\u00e1tica?<\/p>\n<p>A imagem do escravo n\u00e3o pode ser s\u00f3 a do negro trazido da \u00c1frica sendo espancado s\u00e9culos atr\u00e1s. Se um povo for limitado o suficiente para achar que essa \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o exata que configura escravid\u00e3o, qualquer varia\u00e7\u00e3o pode fazer a pessoa achar que podemos relativizar. At\u00e9 a ideia de um sal\u00e1rio de mentira, como \u00e9 o padr\u00e3o da escravid\u00e3o moderna, passa por baixo do radar. Ser\u00e1 que essa hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul s\u00f3 ganhou tantos holofotes por causa das descri\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia f\u00edsica?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que somos t\u00e3o contra a escravid\u00e3o assim? Ou ser\u00e1 que precisamos de uma cena t\u00e3o horrenda como a da not\u00edcia em quest\u00e3o para achar que passou do limite? O limite come\u00e7a e termina no trabalho escravo. Escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia f\u00edsica contra uma pessoa explorada, \u00e9 explorar o trabalho da pessoa sem que ela tenha compensa\u00e7\u00e3o ou mesmo que tenha capacidade de entender que a compensa\u00e7\u00e3o \u00e9 mentirosa. Quando voc\u00ea exige um plano de fuga corajoso para escapar de uma fazenda, \u00e9 escravid\u00e3o. Mesmo os que n\u00e3o apanharam estavam sofrendo um abuso terr\u00edvel.<\/p>\n<p>A parte da viol\u00eancia \u00e9 algo que se soma ao crime fundamental de escravizar outro ser humano. \u00c9 o erro ao quadrado. Gente que n\u00e3o \u00e9 compensada de forma justa pelo trabalho est\u00e1 sendo escravizada, mas de forma socialmente aceit\u00e1vel. Socialmente aceit\u00e1vel porque como Sally bem disse, nossa economia depende de trabalho escravo. J\u00e1 estamos usando rob\u00f4s, mas eles s\u00e3o de carne e osso. Os pre\u00e7os de praticamente tudo o que consumimos diariamente s\u00e3o deflacionados por pessoas que trabalham para continuar passando fome.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o argumento falacioso que aquelas empresas usando escravos s\u00e3o menos ruins porque a economia mundial usa escravid\u00e3o tamb\u00e9m. Est\u00e3o todos errados, e quem usa viol\u00eancia f\u00edsica cometeu crimes a mais. Muito me preocupa que o cidad\u00e3o m\u00e9dio ainda tenha algum conceito de \u201cescravid\u00e3o do bem\u201d, de ter alguns limites imagin\u00e1rios sobre o que configura explorar outro ser humano e se sentir bem quando se beneficia disso.<\/p>\n<p>Como disse no come\u00e7o, escravid\u00e3o \u00e9 muito antiga, muito arraigada na mente do ser humano, e eu temo que se os escravocratas dos s\u00e9culos passados tivessem sido menos violentos, as pessoas hoje em dia fossem ainda mais neutras sobre toda a ideia. Escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre negros, brancos, amarelos ou vermelhos&#8230; n\u00e3o \u00e9 sobre violentar ou prender o escravo. \u00c9 sobre desumanizar. Existem muitas formas de transformar gente em gado, nem todas s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvias. Nossa sociedade foi constru\u00edda por escravos, nossa sociedade ainda depende de escravos.<\/p>\n<p>Parece que estamos apenas esperando a tecnologia entregar m\u00e3o de obra parecida (mais barata e\/ou com menos problemas legais) com rob\u00f4s para finalmente deixar esse cap\u00edtulo da nossa hist\u00f3ria para tr\u00e1s. Acho pouco. Acho bem pouco.<\/p>\n<p>Se este texto servir para uma coisa, que seja para espalhar a ideia de que escravid\u00e3o \u00e9 muito \u201cmenos\u201d do que a viol\u00eancia e a crueldade absurdas expressadas na not\u00edcia mais popular da semana. Ela come\u00e7a bem antes, ela destr\u00f3i vidas e fam\u00edlias debaixo dos nossos narizes, narizes que por sinal s\u00e3o subornados pelos pre\u00e7os baratos que a escravid\u00e3o menos \u00f3bvia permite.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos relativizar escravid\u00e3o. Fazemos isso h\u00e1 mil\u00eanios sem sucesso. Tento viver com um pouco menos pagando um pouco mais para evitar produtos que dependam de escravid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um sistema perfeito, eu com certeza consumo coisas que dependem dessa pr\u00e1tica horr\u00edvel sem nem imaginar, mas \u00e9 um come\u00e7o. \u00c9 alguma coisa. Qualquer forma de aboli\u00e7\u00e3o final de escravid\u00e3o vai ter que passar pelo consumidor final, e infelizmente, muita gente sequer pode viver sem os pre\u00e7os criados por ela&#8230; complicado de resolver, de verdade.<\/p>\n<p>Mas desistir e fingir que n\u00e3o \u00e9 com voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 a resposta. A hist\u00f3ria est\u00e1 a\u00ed para comprovar.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que cada um com seus problemas, para dizer que olhou para seu trabalho e s\u00f3 falta a chibata mesmo, ou mesmo para dizer que o texto da Sally foi mais limpinho: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os 207 homens que foram resgatados em Bento Gon\u00e7alves, na Serra do Rio Grande do Sul, em condi\u00e7\u00f5es de trabalho escravo, relataram em depoimentos ao Ministro do Trabalho e Emprego (MTE) situa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o, c\u00e1rcere privado e agiotagem. 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