{"id":21962,"date":"2023-08-23T13:37:14","date_gmt":"2023-08-23T16:37:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=21962"},"modified":"2025-11-17T12:14:24","modified_gmt":"2025-11-17T15:14:24","slug":"doacao-de-orgaos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/08\/doacao-de-orgaos\/","title":{"rendered":"Doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os."},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 falamos sobre o assunto antes, mas agora que ele se popularizou, achamos produtivo retomar o tema. O apresentador Faust\u00e3o est\u00e1 entre a vida e a morte esperando um transplante de cora\u00e7\u00e3o e esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de muita gente atualmente no Brasil: vidas que poderiam ser salvas, mas que se v\u00e3o por n\u00e3o receberem um \u00f3rg\u00e3o a tempo. <!--more--><\/p>\n<p>O motivo? O brasileiro n\u00e3o quer doar \u00f3rg\u00e3os, com base em argumentos sem qualquer fundamento. E estamos aqui justamente para tentar desmistificar as principais causas de recusa na doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os. Ent\u00e3o, este \u00e9 um dos poucos textos nossos que eu desejaria que tenha algum alcance: se este texto convencer uma pessoa que seja, j\u00e1 ter\u00e1 alguma utilidade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o estamos falando apenas do medo de ser doador em vida, mesmo ap\u00f3s a morte, ainda existe muita resist\u00eancia. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Transplante de \u00d3rg\u00e3os (ABTO), 43% das fam\u00edlias recusaram a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de seus parentes ap\u00f3s morte encef\u00e1lica comprovada.<\/p>\n<p>Tem muito mito, mentira e burrice permeando as falas sobre doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os no Brasil. Por isso, resolvemos aprofundar o assunto e rebater os principais argumentos que as pessoas utilizam para n\u00e3o doar ou para n\u00e3o autorizar a doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o pensem que \u00e9 uma quest\u00e3o de escolaridade, cultura ou classe social. A resist\u00eancia vem de cima, de pol\u00edticos, do Judici\u00e1rio, de pessoas que det\u00e9m algum poder.<\/p>\n<p>Nos distantes tempos em que eu ainda acreditava no Brasil, morava no pa\u00eds e trabalhava para o Poder P\u00fablico, apresentei a reda\u00e7\u00e3o de dois projetos de lei envolvendo doa\u00e7\u00e3o. Obviamente ignoraram solenemente, mas, os compartilho aqui com voc\u00eas, pois vai que a sociedade melhora, muda, evolu\u00ed e isso pode ser debatido? Lembrando que qualquer pessoa do povo pode pleitear mudan\u00e7as na lei, portanto, voc\u00eas t\u00eam esse poder.<\/p>\n<p>Em um dos projetos, todas as pessoas seriam doadoras automaticamente e, apenas quem n\u00e3o quisesse doar, teria que fazer um tr\u00e2mite em cart\u00f3rio (similar ao que se fazia quando se escolhia ser cremado) especificando que n\u00e3o seria doador. Eu parti do princ\u00edpio que muita gente n\u00e3o doava por n\u00e3o saber como se fazia essa autoriza\u00e7\u00e3o, por pregui\u00e7a de fazer ou pelo eterno protelar (por ser uma coisa sem prazo, a pessoa vai deixando para depois).<\/p>\n<p>Assim, colocando a todos automaticamente como doadores, voc\u00ea n\u00e3o obriga todo mundo a doar, quem n\u00e3o quiser doar que fa\u00e7a essa ressalva, mas certamente incentiva todo mundo a doar \u00f3rg\u00e3os ao n\u00e3o dificultar o processo.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, um tanto mais revoltada, ap\u00f3s anos no funcionalismo p\u00fablico vendo coisas das quais at\u00e9 o diabo duvida, apresentei outro com uma reda\u00e7\u00e3o mais pesada: ter\u00e1 prioridade na fila para receber \u00f3rg\u00e3os, em casos de igual urg\u00eancia, quem for doador.<\/p>\n<p>Receber todo mundo quer, n\u00e9? Ent\u00e3o t\u00e1, vai receber primeiro quem doa. Na verdade, minha vontade era escrever que s\u00f3 recebe quem for doador, mas isso seria t\u00e3o inconstitucional que tive que me controlar.<\/p>\n<p>Se o primeiro projeto, que era muito mais light, foi jogado na lixeira, esse deve ter sido incinerado.<\/p>\n<p>O que me foi dito \u00e0 \u00e9poca \u00e9 que esse assunto era \u201cdelicado\u201d e o brasileiro tinha \u201cmedo\u201d de doar \u00f3rg\u00e3os. Medo pelos mais diferentes motivos, mas os principais eram: 1) que atentem contra sua vida para pegar \u00f3rg\u00e3os; 2) quest\u00f5es religiosas; 3) por apego; 4) que desliguem aparelhos com a pessoa ainda viva na pressa de pegar os \u00f3rg\u00e3os e 5) que surja um mercado paralelo no qual se venderiam \u00f3rg\u00e3os. Vamos falar um pouco sobre cada um desses?<\/p>\n<p>O medo mais comum do brasileiro \u00e9 que ele, t\u00e3o importante, seja morto para retirarem seus \u00f3rg\u00e3os caso seja um doador.<\/p>\n<p>Veja bem, eu sou a primeira a te dizer que o Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds seguro e que, por isso, optei por sair do pa\u00eds. Por\u00e9m, contudo, entretanto, n\u00e3o podemos defecar na l\u00f3gica. Pense comigo: se algu\u00e9m quer tanto um \u00f3rg\u00e3o a ponto de estar disposto a cometer um dos crimes mais graves do C\u00f3digo Penal (homic\u00eddio, matar voc\u00ea para roubar os seus \u00f3rg\u00e3os), essa pessoa certamente n\u00e3o vai se importar em violar a lei e tirar \u00f3rg\u00e3os de quem n\u00e3o \u00e9 doador.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 disposto a matar, e nesse caso espec\u00edfico, poderia pegar a pena m\u00e1xima que um ser humano pode cumprir no Brasil (30 anos), n\u00e3o est\u00e1 se importando nem um pouquinho e tomar \u00f3rg\u00e3os de quem n\u00e3o \u00e9 doador: vai pegar de quem for compat\u00edvel, seja a pessoa doadora ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>E, queira voc\u00ea ou n\u00e3o, seu tipo sangu\u00edneo (um dos fatores para avaliar a compatibilidade) est\u00e1 em bancos de dados p\u00fablicos, portanto, quem tem todo o aparato para perseguir e matar algu\u00e9m tamb\u00e9m pode conseguir essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o te assustar, tanto \u00e9 que n\u00e3o existem relatos (verdadeiros) recorrentes de pessoas mortas para remo\u00e7\u00e3o de seus \u00f3rg\u00e3os no Brasil. Isso simplesmente n\u00e3o acontece por um motivo: n\u00e3o adianta nada ter um \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o do que \u00e9 necess\u00e1rio para se realizar um transplante. \u00c9 preciso preparar o paciente (\u00e0s vezes com meses de anteced\u00eancia), \u00e9 preciso um centro cir\u00fargico muito bem equipado, \u00e9 preciso uma equipe altamente qualificada para realizar o transplante e fazer um longo acompanhamento rigoroso do paciente pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Um \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma bolsa, que voc\u00ea arranca de algu\u00e9m e revende. Um \u00f3rg\u00e3o precisa ser acondicionado de forma muito precisa e tem vida \u00fatil muito curta. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel que um \u201cladr\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os\u201d consiga preencher todos os requisitos e ainda consiga um hospital e uma equipe m\u00e9dica que tope realizar um transplante nessas condi\u00e7\u00f5es. Quase que certeza que o \u00f3rg\u00e3o vai perecer em suas m\u00e3os e se tornar invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel que roubem um \u00f3rg\u00e3o? N\u00e3o. \u00c9 muito, mas muito dif\u00edcil, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. O ponto \u00e9: algu\u00e9m que move montanhas e consegue viabilizar um transplante de um \u00f3rg\u00e3o roubado certamente n\u00e3o vai se preocupar se a pessoa da qual roubou o \u00f3rg\u00e3o \u00e9 ou n\u00e3o doador, ela simplesmente vai fazer a morte parecer um desaparecimento e sumir com o corpo, sem que nunca saibam que ele teve um \u00f3rg\u00e3o removido. Ou voc\u00eas acham que bandido vai procurar no seu RG e dizer \u201cok, este \u00e9 doador, podemos roubar os \u00f3rg\u00e3os dele!\u201d?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse pensamento de que se voc\u00ea for doador pode virar v\u00edtima de um roubo de \u00f3rg\u00e3os e que, por ser doador, podem atentar contra a sua vida, \u00e9 uma lenda urbana que, de t\u00e3o repetida, acabou entrando na cabe\u00e7a das pessoas. Se voc\u00ea realmente pensar sobre o assunto de forma racional, ver\u00e1 que n\u00e3o faz o menor sentido.<\/p>\n<p>Provavelmente n\u00e3o vamos conseguir desfazer essa \u201ccerteza\u201d na cabe\u00e7a dos mais idosos, mas, por tudo que h\u00e1 de mais sagrado, se voc\u00ea \u00e9 jovem e acredita em uma coisa dessas, desculpa, mas voc\u00ea est\u00e1 se comportando como um idiota. Por favor, n\u00e3o se comporte como um idiota. N\u00e3o se valha de uma mentira que \u00e9 nociva para a sociedade para se sentir especial, detentor de um conhecimento\/percep\u00e7\u00e3o que a maioria n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Outra justificativa seriam quest\u00f5es religiosas. Temos as mais diferentes alegorias para a ideia de que doar seus \u00f3rg\u00e3os e salvar a vida de outra pessoa deixaria Deus triste e te mandaria para o inferno ou algo equivalente.<\/p>\n<p>Meus amigos, vamos ser muito sinceros aqui: \u00e9 s\u00e9rio que voc\u00ea acredita em um Deus que n\u00e3o quer que voc\u00ea salve outra vida e prefere que seus \u00f3rg\u00e3os sejam enterrados e comidos por vermes a sete palmos do ch\u00e3o?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o faz o menor sentido. Eu entendo buscar algum conforto em religi\u00e3o, mas, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 para aceitar cegamente tudo que te empurram. Sacerdotes religiosos s\u00e3o seres humanos e, como tal, falhos. Podem interpretar mal, pode se enganar, podem errar. Al\u00e9m disso, vamos combinar, ningu\u00e9m aqui casa virgem, deixa de usar anticoncepcional ou segue qualquer religi\u00e3o ao p\u00e9 da letra, certo?<\/p>\n<p>Mas mesmo que siga&#8230; Voc\u00ea acha mesmo que um Deus que, em qualquer religi\u00e3o que se estude, \u00e9 amor, \u00e9 compaix\u00e3o e quer o melhor para seus filhos iria impedir que uma pessoa que j\u00e1 morreu doe seus \u00f3rg\u00e3os e salve v\u00e1rias vidas? Jura que voc\u00ea acha que existe alguma hip\u00f3tese de um ser magn\u00e2nimo, onisciente, onipresente, onipotente dizer: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, Jefferson, deixe aquela crian\u00e7a morrer, voc\u00ea n\u00e3o pode doar seus \u00f3rg\u00e3os para ela\u201d?<\/p>\n<p>Vou repetir aqui o que j\u00e1 disse um milh\u00e3o de vezes: voc\u00ea n\u00e3o precisa de intermedi\u00e1rios para falar com Deus. Voc\u00ea tem uma b\u00fassola interna que te guia para o melhor caminho. Joga no lixo todas as cren\u00e7as, todos os dogmas, todas as doutrinas do \u201cmundo\u201d e faz uma reflex\u00e3o interior, silenciosa sobre se faz sentido Deus ficar chateado com uma pessoa que n\u00e3o precisa mais dos seus \u00f3rg\u00e3os salvar outras vidas doando.<\/p>\n<p>Consulte voc\u00ea mesmo a Deus, em sil\u00eancio, em ora\u00e7\u00e3o, em medita\u00e7\u00e3o e pe\u00e7a uma resposta. Eu duvido que o seu Deus, seja ele qual for, se oponha a um gesto nobre como esse.<\/p>\n<p>Outro fator, que influencia muito as fam\u00edlias que recusam doa\u00e7\u00e3o: a quest\u00e3o do apego. Vivemos em uma sociedade na qual o corpo \u00e9 muito importante. O corpo recebe mais import\u00e2ncia do que merece, inclusive depois de morto.<\/p>\n<p>E n\u00e3o estou fazendo um discurso Body Positive, voc\u00eas sabem, eu acho que tem sim que cuidar do corpo. N\u00e3o \u00e9 sobre isso. \u00c9 sobre a fun\u00e7\u00e3o do corpo. O corpo n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, \u00e9 um meio. \u00c9 um meio para voc\u00ea viver, realizar, criar. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 seu corpo. Sua ess\u00eancia transcende o seu corpo. Voc\u00ea \u00e9 aquilo que deixa para o mundo, a forma como marca as pessoas, o impacto que gera.<\/p>\n<p>\u00c9 como se o corpo fosse um carro e voc\u00ea o motorista. Voc\u00ea precisa do seu carro para ir trabalhar, para fazer tarefas importantes como comprar comida, rem\u00e9dios, etc. N\u00e3o d\u00e1 para deixar seu carro todo cacarecado, disfuncional, pois ele \u00e9 o seu meio de transporte para realizar suas tarefas, seus prop\u00f3sitos e ter uma vida funcional. Tem que cuidar bem do carro, pois ele te transportar\u00e1 pelo resto da sua vida.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 para dizer que voc\u00ea \u00e9 o seu carro. N\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea, e seu carro \u00e9 o seu carro. Ter um apego doentio ao carro ao ponto de se misturar com ele \u00e9 uma grande confus\u00e3o mental que precisa ser desfeita.<\/p>\n<p>Se uma pessoa morre, teria algum problema em deixar o carro para quem precise dele? Os filhos, a esposa, o marido, os pais? N\u00e3o. N\u00e3o teria qualquer problema e provavelmente a pessoa falecida ficaria bem feliz de ver que seu carro est\u00e1 ajudando algu\u00e9m. Faria sentido enterrar o carro e deix\u00e1-lo oxidar debaixo da terra? N\u00e3o, n\u00e9? Pois \u00e9, o mesmo vale para o corpo.<\/p>\n<p>Eu entendo a dor da perda, eu perdi a pessoa que mais amava no mundo, minha m\u00e3e, minha parceira de vida, minha primeira e talvez \u00faltima experi\u00eancia com amor incondicional, minha mais leal companheira e amiga. A gente fica muito mal mesmo, \u00e9 normal. E, quando a gente fica muito mal, a gente fica transtornado, confuso, irracional. Por isso eu quero ter essa conversa com voc\u00ea agora, enquanto voc\u00ea ainda est\u00e1 racional, j\u00e1 que no Brasil o consentimento da fam\u00edlia exerce um papel crucial na doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Quando uma pessoa amada falece a gente tende a se apegar ao corpo dela, como se o corpo fosse a pessoa. N\u00e3o \u00e9. A pessoa se foi. Como tudo que resta \u00e9 o corpo, d\u00f3i se desapegar dele. \u00c9 a \u00fanica\/\u00faltima lembran\u00e7a da pessoa amada. Muitas vezes quando uma pessoa amada se vai n\u00e3o estamos prontos para dizer adeus, por isso nos apegamos a um corpo sem vida. Se apegar ao corpo \u00e9 nega\u00e7\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o querer deixar ir, \u00e9 n\u00e3o aceitar o que aconteceu.<\/p>\n<p>Eu entendo o processo, eu vivi o processo. Mas tamb\u00e9m entendo que \u00e9 poss\u00edvel tomar consci\u00eancia dele e transcend\u00ea-lo, ao compreender que o dano que voc\u00ea causa se apegando ao corpo (uma escolha in\u00fatil que s\u00f3 gera sofrimento) \u00e9 enorme: gra\u00e7as a esse mecanismo pouco saud\u00e1vel e trai\u00e7oeiro voc\u00ea pode deixar de salvar v\u00e1rias vidas. Eu sei que fica bem dif\u00edcil se importar com isso em um momento de dor, por isso te pe\u00e7o que reflita sobre isso agora, que voc\u00ea est\u00e1 \u201cs\u00f3brio\u201d e n\u00e3o embriagado pela dor.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei quantos de voc\u00eas viram uma morte, em tempo real. \u00c9 claro, \u00e9 cristalino o momento em que a vida deixa o corpo, se voc\u00ea conseguir alguma sanidade mental na hora, percebe claramente o segundo em que a pessoa deixou de estar ali. O corpo inerte causa at\u00e9 estranhamento. Parece um boneco, parece irreal. Por mais que a gente ame absurdamente quem habitava aquele corpo, ele est\u00e1 vazio agora, a pessoa n\u00e3o est\u00e1 mais ali. N\u00e3o se apegue a esse corpo e permita que outras pessoas n\u00e3o tenham que passar pela dor profunda que voc\u00ea est\u00e1 experienciando com essa perda: concorde com a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o para salvar outras vidas.<\/p>\n<p>Tenha essa grandeza, eu tenho certeza de que a pessoa que se foi gostaria de poder salvar outras vidas. Acredite, qualquer perda \u00e9 menos sofrida quando voc\u00ea consegue gerar algo de bom com ela.<\/p>\n<p>Outra preocupa\u00e7\u00e3o comum \u00e9 achar que se um dia voc\u00ea ficar \u201cligado em aparelhos\u201d podem deslig\u00e1-los e apressar\/for\u00e7ar a sua morte para pegar os seus \u00f3rg\u00e3os. Falando assim parece f\u00e1cil, mas isso \u00e9 algo extremamente dif\u00edcil de acontecer. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 puxar uma tomada, \u00e9 bem mais complexo.<\/p>\n<p>Todos os protocolos necess\u00e1rios para que se constate a morte encef\u00e1lica de algu\u00e9m, para que se desliguem os aparelhos e se fa\u00e7a a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os (processo no qual a fam\u00edlia do falecido tem participa\u00e7\u00e3o) s\u00e3o excessivamente burocr\u00e1ticos e controlados por diversas pessoas, portanto, seria altamente improv\u00e1vel que se \u201cdesplugue\u201d algu\u00e9m que tem uma chance real de acordar.<\/p>\n<p>E aqui vale o mesmo racioc\u00ednio que usamos para o roubo de \u00f3rg\u00e3os (afinal, n\u00e3o deixa de ser um homic\u00eddio tamb\u00e9m): quem tem poder para cometer um abuso de tal tamanho pode faz\u00ea-lo contra qualquer um, doador ou n\u00e3o doador. Pode perfeitamente abrir a pessoa que n\u00e3o \u00e9 doadora, remover o \u00f3rg\u00e3o e fam\u00edlia nunca vai saber \u2013 e se souber, podem arrumar uma justificativa m\u00e9dica no prontu\u00e1rio para uma eventual \u201ccirurgia\u201d na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, saiba: via de regra n\u00e3o acontece, pois existe um controle enorme e muitas pessoas envolvidas. Mas, se voc\u00ea acha que meia d\u00fazia de m\u00e9dicos, meia d\u00fazia de enfermeiras, sua fam\u00edlia e m\u00e9dicos legistas todos juntos em conluio fariam isso com voc\u00ea, sinto lhe informar que quem tem poder suficiente para tal, o faz com qualquer pessoa, doadora ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre o \u00faltimo temor, que isso cause o surgimento de um mercado paralelo de \u00f3rg\u00e3os, \u00e9 justamente o contr\u00e1rio: se mais gente doar, todo mundo que precisa receber, a necessidade de um mercado paralelo desaparece ou reduz significativamente. Como j\u00e1 explicamos, o \u00f3rg\u00e3o em si \u00e9 s\u00f3 uma pequena parte do processo, e, sozinho, n\u00e3o resolve nada.<\/p>\n<p>Eu sei que em diversos aspectos o Brasil \u00e9 terra de ningu\u00e9m, sem lei e sem fiscaliza\u00e7\u00e3o, mas no caso de transplante de \u00f3rg\u00e3os, a complexidade do procedimento e tudo que \u00e9 necess\u00e1rio para que ele se realize acaba funcionando como uma regula\u00e7\u00e3o: \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, t\u00e3o complexo, envolve tantas pessoas e tantos fatores que \u00e9 quase imposs\u00edvel de fraudar.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem como equacionar um transplante de \u00f3rg\u00e3o com tantas barreiras, com tanta complexidade e com tantos requisitos. Ent\u00e3o, fiquem tranquilos e desencanem de teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Pode doar sem medo. Eu, que sou a pessoa mais desconfiada e cautelosa, estou assinando embaixo: pode doar sem medo.<\/p>\n<p>E, sem querer pisar no calo de ningu\u00e9m, n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto esses motivos s\u00e3o realmente os motivos reais, ou s\u00e3o respostas prontas que se propagam no tempo e s\u00e3o repetidas sem pensar.<\/p>\n<p>\u00c9 que quando a gente pensa em doa\u00e7\u00e3o de medula, por exemplo, que pode ser feita em vida sem qualquer preju\u00edzo ao doador (e pode salvar vidas), os n\u00fameros tamb\u00e9m s\u00e3o baix\u00edssimos.<\/p>\n<p>\u00c9 um procedimento muito mais simples do que doar um \u00f3rg\u00e3o e sua medula fica em um banco de informa\u00e7\u00f5es, dispon\u00edvel, caso um dia algu\u00e9m compat\u00edvel com voc\u00ea precise. Ainda assim, as pessoas n\u00e3o o fazem. Ser\u00e1 que \u00e9 mesmo o medo de ser v\u00edtima de criminosos que freia a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o no Brasil?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o objetivo deste texto, al\u00e9m de desmentir esse bando de informa\u00e7\u00e3o falsa, rid\u00edcula e conspirat\u00f3ria, \u00e9 relembrar a todos voc\u00eas que voc\u00eas podem evitar mortes, inclusive em vida. N\u00e3o precisa morrer para salvar a vida de algu\u00e9m, seja doando medula, seja autorizando a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de um parente falecido.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a, n\u00e3o apenas por ser bom para todos n\u00f3s (em algum momento todos podemos precisar) mas tamb\u00e9m por ser bom fazer o bem.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu n\u00e3o conhe\u00e7o \u201ca verdade\u201d (vai pro inferno maluco do caralho), para dizer que se o Faust\u00e3o tiver morrido este texto vai parecer um tremendo bait (quando eu escrevi, ele estava vivo) ou ainda para dizer que quer um texto ensinando como doar seu corpo para a ci\u00eancia: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 falamos sobre o assunto antes, mas agora que ele se popularizou, achamos produtivo retomar o tema. O apresentador Faust\u00e3o est\u00e1 entre a vida e a morte esperando um transplante de cora\u00e7\u00e3o e esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de muita gente atualmente no Brasil: vidas que poderiam ser salvas, mas que se v\u00e3o por n\u00e3o receberem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21963,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-21962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-bonus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21962"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21962\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37981,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21962\/revisions\/37981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}