{"id":22040,"date":"2023-09-08T15:33:11","date_gmt":"2023-09-08T18:33:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=22040"},"modified":"2023-09-08T15:33:11","modified_gmt":"2023-09-08T18:33:11","slug":"o-deus-nacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/09\/o-deus-nacao\/","title":{"rendered":"O deus-na\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>Nem tudo \u00e9 reclama\u00e7\u00e3o aqui: foi uma boa coisa ver como o 7 de setembro foi chato neste ano. Nenhum drama, desfiles \u00e0s moscas, povo mais preocupado em tomar sua cervejinha e emendar a folga do que com qualquer senso de unidade nacional. Melhor isso do que o tipo de patriotismo que estava em voga na administra\u00e7\u00e3o passada.<!--more--><\/p>\n<p>A humanidade experimentou v\u00e1rios tipos de organiza\u00e7\u00e3o social, hierarquias e pol\u00edticas p\u00fablicas em sua hist\u00f3ria. Tentando resumir os milhares de anos, podemos enxergar uma tend\u00eancia a consolidar poder. As tribos come\u00e7aram a se unir em cidades, as cidades em reinos e os reinos em grandes imp\u00e9rios. A cada s\u00e9culo, as unidades de poder humanas abarcavam mais e mais pessoas.<\/p>\n<p>Se a uni\u00e3o faz a for\u00e7a, a ideia era unir mais e mais pessoas debaixo dos mesmos l\u00edderes, para ter mais poder financeiro, militar, ideol\u00f3gico&#8230; parece que est\u00e1 no nosso DNA querer fazer parte do grupo mais poderoso. Na natureza n\u00e3o \u00e9 muito comum ver outros seres com essa sede expansionista que o ser humano tem. Sim, existem manadas e col\u00f4nias enormes de outros seres, mas elas normalmente param no limite de um territ\u00f3rio \u201crazo\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o, n\u00f3s nos vemos em grupos praticamente imposs\u00edveis de se organizar de t\u00e3o grandes. S\u00f3 parece certo na cabe\u00e7a do humano ir crescendo e acumulando territ\u00f3rios debaixo da mesma bandeira. A hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de exemplos de imp\u00e9rios que cresceram ao ponto de quebrar sob o pr\u00f3prio peso. Apenas nos \u00faltimos poucos s\u00e9culos que come\u00e7amos a perceber que o mundo tinha \u201cacabado\u201d e que precis\u00e1vamos fazer senso das fronteiras que j\u00e1 existiam.<\/p>\n<p>Eu argumento que a partir do momento que ficou claro que o espa\u00e7o dispon\u00edvel para crescer n\u00e3o estava mais dispon\u00edvel que come\u00e7amos a apontar essa vontade de fazer parte do grupo mais poderoso para dentro das na\u00e7\u00f5es. Depois de ver tantos imp\u00e9rios caindo, ficou mais ou menos claro que o limite razo\u00e1vel de expans\u00e3o era o pa\u00eds. Foi meio que uma dan\u00e7a das cadeiras, quando a m\u00fasica da conquista infinita acabou, alguns acabaram sentados em territ\u00f3rios enormes, outros em bem menores. Claro, como sempre tem uma briga aqui e acol\u00e1 pela posi\u00e7\u00e3o da cerca, mas n\u00e3o tem mais aquela coisa de imp\u00e9rios nascendo e sumindo.<\/p>\n<p>Digo isso porque essa tend\u00eancia de consolida\u00e7\u00e3o criou deuses-na\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de religi\u00e3o pol\u00edtica que alimentou a \u00faltima era de grandes guerras do mundo. Ao inv\u00e9s de fazer as pessoas lutarem por seus reis (por medo ou por dinheiro), as fizeram acreditar que lutavam pelo seu pa\u00eds, suas fam\u00edlias e amigos inclu\u00eddos neles. Foi uma das inven\u00e7\u00f5es mais eficientes na hist\u00f3ria da guerra: criar soldados mais motivados sem expectativa de lucro pelo \u201ctrabalho\u201d de matar o inimigo.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea vende para o pov\u00e3o que a briga entre l\u00edderes de dois territ\u00f3rios por algum motivo \u00e9 deles tamb\u00e9m, voc\u00ea pode investir apenas em armas e recursos b\u00e1sicos para o seu ex\u00e9rcito. Roma teve in\u00fameros problemas com seus soldados profissionais basicamente se sindicalizando para exigir mais dinheiro pelo trabalho de tocar as guerras de seus pol\u00edticos. Atualmente, deixar de lutar por achar que o Estado n\u00e3o est\u00e1 te pagando o suficiente \u00e9 trai\u00e7\u00e3o e pode ser punido com a morte.<\/p>\n<p>A estrutura militar antiga era&#8230; capitalista demais. A grande sacada daqueles que estavam no poder foi investir em propaganda para fazer da sua na\u00e7\u00e3o um deus do povo. Algu\u00e9m que deve ser adorado e defendido. E a palavra desse deus calha de ser a palavra dos seus l\u00edderes pol\u00edticos. N\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia muito \u00fatil?<\/p>\n<p>E como diz o ditado popular: para quem est\u00e1 se afogando, jacar\u00e9 \u00e9 tronco. Considerando que boa parte da popula\u00e7\u00e3o humana passou de ter nenhum direito a ter alguns poucos direitos com o advento das na\u00e7\u00f5es, por um tempo eu realmente acredito que o deus-na\u00e7\u00e3o era milagroso. Foi algo que disse no texto sobre o comunismo tamb\u00e9m, se est\u00e1 todo mundo muito mal, qualquer coisinha que voc\u00ea faz de melhor parece interven\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>O deus-na\u00e7\u00e3o se enfiou no meio das cren\u00e7as pol\u00edticas e at\u00e9 mesmo religiosas das pessoas. \u00c9 um deus caprichoso, mas poderoso. E da mesma forma que as religi\u00f5es mais populares passaram de polite\u00edsmo para monote\u00edsmo, a ideia de consolidar poder e sempre acreditar que o deus mais poderoso \u00e9 justamente o seu combinou bem com a nossa forma de pensar.<\/p>\n<p>Cria-se a ilus\u00e3o de que o que a na\u00e7\u00e3o faz \u00e9 de alguma forma relacionado com os seus objetivos e interesses, afinal, voc\u00ea \u00e9 parte integrante dessa divindade, n\u00e3o? Quando voc\u00ea balan\u00e7a a bandeira do deus-na\u00e7\u00e3o, est\u00e1 se fortalecendo. Mais f\u00e9 significa mais poder. E nada de ficar duvidando dos sacerdotes do deus-na\u00e7\u00e3o que est\u00e3o realmente ditando as regras, \u00e9 trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m das c\u00f4micas ideias e atitudes dos patriotas brasileiros durante o governo Bolsonaro, me preocupava a catarse coletiva das grandes reuni\u00f5es p\u00fablicas, o show de horrores de milh\u00f5es de pessoas esperando um golpe de Estado para glorificar o deus-na\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica eu sabia que eram muito incompetentes para transformar o sistema de governo brasileiro, mas \u00e9 o tipo de coisa que vai se acumulando at\u00e9 exibir os sintomas mais perigosos de fanatismo religioso.<\/p>\n<p>\u00c9 uma boa not\u00edcia que o brasileiro m\u00e9dio tenha tido um 7 de setembro ateu-na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quer dizer que estamos livres de aventuras autorit\u00e1rias, sabemos bem quem est\u00e1 no poder, mas nossos pol\u00edticos gostam mesmo \u00e9 de sombra e \u00e1gua-fresca: se o pov\u00e3o n\u00e3o estiver pressionando por um sacrif\u00edcio de sangue da democracia para eles continuarem sugando nossos recursos, eles n\u00e3o v\u00e3o se mexer.<\/p>\n<p>Ainda bem que o ex\u00e9rcito e o bolsonarismo decepcionaram uma grande parcela dos brasileiros, porque isso baixa a fervura do fanatismo em rela\u00e7\u00e3o ao deus-na\u00e7\u00e3o tupiniquim. Ainda temos fi\u00e9is inabal\u00e1veis, \u00e9 claro, mas eles perdem a camuflagem de grandes eventos p\u00fablicos como as marchas para o golpe dos anos passados na mesma data. O pessoal de verde e amarelo nas ruas queria muito mais uma ditadura do que seus supostos l\u00edderes. Quando aqueles que diziam falar em nome do deus-na\u00e7\u00e3o mostraram as verdadeiras cores (corruptos de meia-tigela que n\u00e3o sabem apagar um e-mail), o patriota-m\u00e9dio teve sua f\u00e9 enfraquecida ao ponto de arranjar mais o que fazer da vida. Sobraram as velhas carolas do deus-na\u00e7\u00e3o, literalmente. Elas v\u00e3o continuar frequentando a igreja porque a f\u00e9 virou parte de sua identidade.<\/p>\n<p>Lula, muito mais capitalista que seu antecessor, sabe que os parasitas n\u00e3o precisam de revolu\u00e7\u00f5es para continuar se alimentando. Assim como Bolsonaro, n\u00e3o reclamaria se o poder absoluto ca\u00edsse no seu colo, mas sua turma est\u00e1 contente o suficiente com a senha do cart\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea sabe que o pa\u00eds tem um problema quando voltar aos erros do passado \u00e9 melhor do que os erros mais recentes.<\/p>\n<p>O deus-na\u00e7\u00e3o absoluto era um caminho furado, algo que foi tentado pela direita e pela esquerda sem sucesso (de longo prazo) no \u00faltimo s\u00e9culo. A fun\u00e7\u00e3o dessa religi\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 muito clara dentro do campo militar, foi um sucesso tremendo e aumentou demais a resili\u00eancia dos governantes a amea\u00e7as externas, mas a vantagem para mais ou menos a\u00ed. Tentar transferir o deus-na\u00e7\u00e3o para controlar o povo dentro do seu pa\u00eds s\u00f3 cria regimes tir\u00e2nicos dos mais incompetentes. Se Hitler e Stalin falharam com todos os recursos que tinham, n\u00e3o vai ser um Bolsonaro ou Trump que v\u00e3o conseguir.<\/p>\n<p>O deus-na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma entidade violenta e impulsiva, ele une pessoas diante de uma amea\u00e7a que vem de fora (e faz pessoas se matarem por brigas entre l\u00edderes), ele deveria ser eliminado de vez da nossa sociedade, mas eu n\u00e3o tenho esperan\u00e7as sobre isso no curto prazo. O que \u00e9 mais poss\u00edvel \u00e9 controlar sua f\u00faria destrutiva apontada para dentro de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>E toda vez que um desfile de 7 de setembro \u00e9 chato e te faz desligar a TV na hora do jornal, \u00e9 um resultado positivo. Quero sim ver o brasileiro se unir para resolver seus problemas, mas n\u00e3o para rezar de forma fervorosa por uma divindade insana dessas. Se for para adorar o deus-na\u00e7\u00e3o, prefiro o povo bem alienado&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que \u00e9 muito pra cabe\u00e7a, para dizer que vai emendar hoje, ou mesmo para dizer que est\u00e1 com saudades dos Des Contos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem tudo \u00e9 reclama\u00e7\u00e3o aqui: foi uma boa coisa ver como o 7 de setembro foi chato neste ano. Nenhum drama, desfiles \u00e0s moscas, povo mais preocupado em tomar sua cervejinha e emendar a folga do que com qualquer senso de unidade nacional. 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