{"id":22072,"date":"2023-09-15T14:59:43","date_gmt":"2023-09-15T17:59:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=22072"},"modified":"2023-09-15T14:59:43","modified_gmt":"2023-09-15T17:59:43","slug":"os-finos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/09\/os-finos\/","title":{"rendered":"Os Finos."},"content":{"rendered":"<p>A pesada porta de metal range, teimosa contra o esfor\u00e7o do Servidor. Uma, duas, tr\u00eas ombradas s\u00e3o necess\u00e1rias para finalmente abrir uma fresta. Pelo canto da vis\u00e3o, o homem v\u00ea a luz do dia refletindo nas paredes internas, talvez pela primeira vez em d\u00e9cadas. O cheiro \u00e9 terr\u00edvel, um misto de mofo e suor que transforma sua express\u00e3o de esfor\u00e7o em genu\u00edno horror. Com mais alguns empurr\u00f5es, a porta cede e o ambiente se ilumina. Sentado numa cadeira manchada e carcomida, conectado a uma s\u00e9rie de fios e tubos, um Fino.<!--more--><\/p>\n<p>A figura esquel\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 mais reconhec\u00edvel como homem ou mulher, os longos cabelos s\u00e3o ralos, acinzentados. A face emaciada parcialmente escondida por \u00f3culos de realidade virtual. Pele p\u00e1lida e osso aparente. O Fino veste um macac\u00e3o folgado, desbotado e cheio de fluidos corporais ressecados. A \u00fanica indica\u00e7\u00e3o de vida vem da luz verde do sistema de manuten\u00e7\u00e3o corporal, lutando bravamente contra o tempo para oferecer nutrientes, vitaminas e esteroides para um ser humano que n\u00e3o deveria estar vivo h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>O Servidor se aproxima, atento aos insetos que correm pelo ch\u00e3o. Com um gesto, faz com que as luzes se acendam. O visor do Fino clareia, e seus olhos se fecham imediatamente, incomodados pela luz natural. O Servidor abana a m\u00e3o diante da figura sentada, buscando uma rea\u00e7\u00e3o. Uma voz s\u00f4frega responde, mas sem formar nenhuma senten\u00e7a coerente.<\/p>\n<p>O invasor ri. O homem, bem alto, de pele morena e m\u00fasculos aparentes, \u00e9 o exato oposto do habitante daquele apartamento do setor dos Finos. Cabelos muito curtos e v\u00e1rias cicatrizes formam seu rosto. Com um sorriso debochado, ele anda pelo local, analisando os objetos cobertos de p\u00f3 e teias de aranha que complementam o ambiente. Fotos, decora\u00e7\u00f5es e v\u00e1rias outras mem\u00f3rias de tempos antigos, quando os Finos ainda dominavam o mundo.<\/p>\n<p>\u201cEu sou o Carlos, mas todo mundo me chama de Carl\u00e3o. Voc\u00ea tem um nome normal ou \u00e9 que nem os outros Finos?\u201d<\/p>\n<p>\u201cJiiju&#8230;\u201d \u2013 responde a pessoa sentada.<\/p>\n<p>\u201cFala direito, homem! Ou mulher&#8230; voc\u00eas s\u00e3o todos meio&#8230;\u201d \u2013 Carl\u00e3o segura uma est\u00e1tua de uma figura com seis bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cJei-Ju.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9 que nem os outros. Esse aqui \u00e9 o seu deus?\u201d \u2013 o homem chega diante de Jei-Ju e mostra a est\u00e1tua.<\/p>\n<p>\u201cEu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Carl\u00e3o joga a est\u00e1tua no ch\u00e3o, que se espatifa em in\u00fameros peda\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cDeus s\u00f3 tem um, e \u00e9 Jesus.\u201d<\/p>\n<p>Jei-ju faz uma men\u00e7\u00e3o de se mover da cadeira, mas logo sente a pesada m\u00e3o de Carl\u00e3o no seu peito.<\/p>\n<p>\u201cFica a\u00ed, Juju. Est\u00e1 com pressa?\u201d<\/p>\n<p>O p\u00e1lido ser movimenta a m\u00e3o lentamente em dire\u00e7\u00e3o ao bra\u00e7o da sua cadeira, e come\u00e7a a apertar um bot\u00e3o escondido. Carl\u00e3o percebe o movimento e sorri.<\/p>\n<p>\u201cSabe o que eu era at\u00e9 ontem, Juju? Pol\u00edcia. Eu prendi muita gente que invadiu casa de Fino. Era pena de morte, sabia? Roubar de Fino era pena de morte, Juju. Eu fiz um monte de gente morrer por sua causa.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9&#8230; verdade&#8230; ent\u00e3o?\u201d \u2013 Jei-Ju fala com dificuldade.<\/p>\n<p>\u201cVerdade verdadeira. Ontem a gente trocou de presidente. Um dos nossos, o cara era militar, bravo demais. Matou mais de cem na guerra. E a primeira coisa que ele fez? Fez voc\u00ea ser s\u00f3 mais um, Fino. Acabou.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea&#8230; quer&#8230; dinheiro?\u201d<\/p>\n<p>\u201cDinheiro seu, Juju? Hahahaha. Seu dinheiro n\u00e3o vale nada. S\u00f3 compra coisa de mentira no seu mundinho. Ningu\u00e9m aqui fora \u00e9 obrigado a aceitar. O que vale bastante \u00e9 essa sua cadeira a\u00ed. Um hospital inteiro para manter voc\u00ea vivo, vale uma nota. Vou ter que limpar essas manchas, mas eu estou acostumado a trabalhar.\u201d<\/p>\n<p>Carl\u00e3o come\u00e7a a dar a volta na cadeira, Jei-ju faz um esfor\u00e7o descomunal e se joga dela, cabos ainda presos ao corpo. Alguns se partem, outros n\u00e3o. Para o azar de ambos, um dos que se parte \u00e9 do sistema de excre\u00e7\u00e3o. O vazamento \u00e9 imediato, o l\u00edquido escuro escorre por todos os lados.<\/p>\n<p>\u201cQue nojo! Eu ia colocar um balde antes de tirar o seu tubo! Voc\u00eas n\u00e3o conseguem fazer nada direito? Se voc\u00ea quebrou alguma coisa eu vou te jogar daqui de cima!\u201d<\/p>\n<p>Carl\u00e3o tapa o nariz e luta contra o reflexo de v\u00f4mito enquanto tateia pelo corpo de Jei-Ju para desconectar todos os terminais ainda presos ao Fino. Uma s\u00e9rie de palavr\u00f5es acompanha todo o processo. Jei-Ju respira com dificuldade, sua tentativa de rastejar at\u00e9 a porta impossibilitada pela fraqueza.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e dizia que quem n\u00e3o come fica doente. Olha como voc\u00ea ficou. Parece uma lombriga se debatendo. Valeu a pena ser assim, Juju?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o fiz&#8230; eu n\u00e3o fiz nada pra&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o fez nada, n\u00e9? Eu cresci ouvindo que tinha que trabalhar para voc\u00ea. Que tinha que ser forte para fazer tudo o que os Finos precisavam e conseguir ganhar a vida. Mas n\u00e3o. Eu n\u00e3o precisava. O presidente que estava certo. A gente n\u00e3o depende de voc\u00eas, voc\u00eas dependem da gente.\u201d<\/p>\n<p>Jei-Ju come\u00e7a a fazer uma express\u00e3o de dor.<\/p>\n<p>\u201cSem as suas drogas voc\u00ea sofre, n\u00e9? Minha m\u00e3e trabalhou a vida toda fazendo essas coisas para voc\u00eas. Morreu pobre. Queria ser Fina, a coitada. Queria que eu fosse tamb\u00e9m. Fino n\u00e3o sofre, Fino n\u00e3o apanha, Fino n\u00e3o passa fome&#8230; mas o que ela nunca entendeu \u00e9 que Fino tamb\u00e9m n\u00e3o tem for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu nasci assim&#8230;\u201d \u2013 Jei-Ju tenta parecer mais simp\u00e1tico(a).<\/p>\n<p>\u201cEu sei, eles me contaram na escola. Eu fui o primeiro que foi na escola, da minha fam\u00edlia inteira. E fui escondido, porque o seu governo n\u00e3o permitia.\u201d<\/p>\n<p>Carl\u00e3o se volta para os equipamentos ao redor da cadeira, come\u00e7ando o processo de desmonte. Enquanto isso, continua falando:<\/p>\n<p>\u201cTodo mundo queria ser magro, bonito, mas n\u00e3o queria esfor\u00e7o. A\u00ed, voc\u00eas come\u00e7aram a tomar rem\u00e9dio atr\u00e1s de rem\u00e9dio. Todo mundo sedent\u00e1rio, todo mundo entupido de drogas para fazer o corpo funcionar. Fazer for\u00e7a virou coisa de pobre, depois de miser\u00e1vel, depois de todo tipo de lixo que voc\u00eas n\u00e3o queriam na sociedade. O lixo virou Servidor, e nenhum de voc\u00eas conseguia mais fazer o que n\u00f3s consegu\u00edamos, ficaram fracos, parecendo esqueletos. Era quest\u00e3o de tempo.\u201d<\/p>\n<p>Jei-ju respira com dificuldade, esticando a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de uma pequena mesa no canto da sala, onde algumas caixas de rem\u00e9dio residiam.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sou assassino, mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou aqui para te salvar. Se a natureza quiser que voc\u00ea sobreviva, ela vai te dar a for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Carl\u00e3o usa a mangueira que fornecia \u00e1gua ao equipamento de suporte de vida de Jei-Ju para lavar as pr\u00f3prias botas. Tamb\u00e9m tira o excesso de material biol\u00f3gico das m\u00e1quinas que come\u00e7a a empilhar perto da porta. Ele olha mais uma vez para o moribundo e talvez num gesto de miseric\u00f3rdia, ajuda a tornar Jei-Ju mais apresent\u00e1vel para quem quer tivesse o trabalho de retirar o corpo dali.<\/p>\n<p>Com certeza n\u00e3o seria ele, afinal, o pr\u00e9dio dos Finos ainda tinha milhares de apartamentos com equipamentos caros e ningu\u00e9m capaz de proteg\u00ea-los. Ele j\u00e1 ouvia o frenesi de outros Servidores se aproximando para terminar de esvaziar aquele local.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que prefere os Grossos, para dizer que sente cheiro de lacra\u00e7\u00e3o (\u00e9 o tubo do Juju que vazou), ou mesmo para dizer que n\u00e3o esperava a volta do Carl\u00e3o: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pesada porta de metal range, teimosa contra o esfor\u00e7o do Servidor. Uma, duas, tr\u00eas ombradas s\u00e3o necess\u00e1rias para finalmente abrir uma fresta. 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