{"id":22324,"date":"2023-11-15T14:35:40","date_gmt":"2023-11-15T17:35:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=22324"},"modified":"2023-11-15T14:35:40","modified_gmt":"2023-11-15T17:35:40","slug":"calor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/11\/calor-2\/","title":{"rendered":"Calor!"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 vivendo uma onda de calor terr\u00edvel. Em cidades famosas pela temperatura elevada como o Rio de Janeiro, chegaram a registrar sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de mais de 58\u00ba! Mas dessa vez o exagero est\u00e1 chegando em basicamente todos os lugares do pa\u00eds. Eu vivi meus primeiros 40\u00ba h\u00e1 pouco tempo. Se este fosse um texto da Sally, ela te ensinaria a se cuidar no calor. Mas \u00e9 um texto meu&#8230; ent\u00e3o vamos falar sobre o que \u00e9 o calor.<!--more--><\/p>\n<p>O universo nunca fica parado, das maiores \u00e0s menores escalas da mat\u00e9ria. A energia liberada pelo Big Bang ainda est\u00e1 presente hoje em dia, e uma grande parte dela se manifesta atrav\u00e9s da energia t\u00e9rmica: a vibra\u00e7\u00e3o das part\u00edculas que formam a mat\u00e9ria \u00e9 o que d\u00e1 a temperatura aos objetos. Quanto mais energia de movimento nessas part\u00edculas, maior o calor.<\/p>\n<p>Se esse movimento parasse, chegar\u00edamos no que se chama de zero absoluto: a menor temperatura poss\u00edvel, e totalmente te\u00f3rica. Todas as part\u00edculas fundamentais estariam paradas de vez num local que chegou ao zero absoluto. N\u00e3o temos nenhuma medi\u00e7\u00e3o desse m\u00ednimo at\u00e9 hoje, e mesmo nos laborat\u00f3rios mais modernos da humanidade, chegamos muito perto, mas nunca exatamente nesse m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Em tese, o zero absoluto \u00e9 imposs\u00edvel, porque sempre sobra alguma coisa movimentando as part\u00edculas de um sistema, mesmo que seja de forma praticamente impercept\u00edvel. Coisas da f\u00edsica qu\u00e2ntica e das incertezas que aparecem nessa escala da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Indo para o outro lado da escala, quando a energia desse movimento das part\u00edculas aumenta, a temperatura aumenta, e at\u00e9 onde sabemos, n\u00e3o existe limite de qu\u00e3o quente alguma coisa pode ser. A superf\u00edcie do Sol alcan\u00e7a alguns milhares de graus Celsius, j\u00e1 o seu interior chega aos milh\u00f5es. Energia suficiente para desmontar e remontar \u00e1tomos, que por sua vez liberam mais energia no processo e mant\u00e9m o calor incr\u00edvel dentro da estrela.<\/p>\n<p>E o Sol \u00e9 fichinha perto das maiores temperaturas j\u00e1 medidas: dentro de um quasar (um buraco negro enorme girando em alta velocidade) bateu mais de 10 trilh\u00f5es de graus! E nem faz diferen\u00e7a a escala que voc\u00ea usa, Celsius, Fahrenheit e Kelvin d\u00e3o basicamente no mesmo quando voc\u00ea come\u00e7a a sair de perto da temperatura normal das coisas na Terra.<\/p>\n<p>E falando nisso, as escalas: a escala mais cient\u00edfica de todas \u00e9 a Kelvin, que coloca o zero no zero absoluto e vai subindo a partir da\u00ed. Faz sentido, tem limite de quanto pode descer, mas n\u00e3o de quanto pode subir. Celsius \u00e9 a mais comum de usar em pa\u00edses que adotam o sistema m\u00e9trico. Vai de 0 a 100 de acordo com estado da mat\u00e9ria da \u00e1gua. 0 s\u00f3lida, 100 gasosa.<\/p>\n<p>Especialmente nos EUA, usa-se a escala Fahrenheit, que \u00e9 baseada em sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica das pessoas em condi\u00e7\u00f5es \u201cseguras\u201d. Ou seja: 0 \u00e9 muito frio, mas poss\u00edvel de sobreviver, 100 \u00e9 muito quente, mas poss\u00edvel de sobreviver. Quando americanos falam sobre temperatura, \u00e9 mais ou menos nessa l\u00f3gica: 0 Fahrenheit \u00e9 -17 em Celsius, 100 Fahrenheit \u00e9 37 em Celsius. \u00c9 bem menos maluca quando voc\u00ea entende por que fizeram isso.<\/p>\n<p>E falando em sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, durante um tempo o universo todo foi bem agrad\u00e1vel para a maioria de n\u00f3s: depois do Big Bang, a temperatura geral do universo era alt\u00edssima, com n\u00fameros que nem fazem sentido para a f\u00edsica. Quanto mais se expandia, mais esfriava. Hoje o espa\u00e7o tem uma temperatura m\u00e9dia de 2 graus Kelvin, ou algo pr\u00f3ximo de 270 negativos em Celsius. Volte v\u00e1rios bilh\u00f5es de anos, para os prim\u00f3rdios da exist\u00eancia, e voc\u00ea provavelmente conseguiria ficar confort\u00e1vel mesmo fora de um planeta. Durante um tempo, o espa\u00e7o \u201cvazio\u201d esteve na sua temperatura favorita. Claro, com doses instantaneamente letais de radia\u00e7\u00e3o e nenhum oxig\u00eanio, mas temperatura? Tranquilo, tranquilo.<\/p>\n<p>Tanto que pode-se estimar que a vida come\u00e7ou naquela \u00e9poca, porque em todos os lugares havia condi\u00e7\u00f5es de \u00e1gua l\u00edquida e seres unicelulares costumam gostar de uma \u00e1gua morna. \u00c9 toda uma viagem imaginar se dava para evoluir muito naquelas condi\u00e7\u00f5es, mas imposs\u00edvel n\u00e3o era. A vida pode ter se criado l\u00e1 no comecinho do universo e ter viajado por diversos lugares at\u00e9 cair aqui na Terra.<\/p>\n<p>Com o passar dos bilh\u00f5es de anos, o espa\u00e7o se expandiu tanto que o movimento das part\u00edculas ficou mais dif\u00edcil de ser transmitido para as outras. O v\u00e1cuo \u00e9 o melhor isolador de temperatura: calor precisa de \u201ccoisas encostando\u201d para ser transmitido. \u00c9 por isso que existem aqueles copos de isolamento t\u00e9rmico com um vazio entre o l\u00edquido e o exterior: o calor n\u00e3o entra nem sai se n\u00e3o tiver por onde ser transmitido.<\/p>\n<p>O universo maior cria mais espa\u00e7o entre as coisas, complicando a transmiss\u00e3o de calor. At\u00e9 por isso um dos grandes desafios de conquistar o espa\u00e7o \u00e9 o que fazer com o calor: a gente precisa de muita energia para fazer as coisas funcionarem como esperamos, mas no espa\u00e7o n\u00e3o tem para onde jogar o calor que essa energia gera. Um motor de uma nave espacial tem muitas dificuldades de n\u00e3o sobreaquecer, porque mandar calor para o v\u00e1cuo n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que seja trivial eliminar calor aqui na Terra: o ar \u00e9 capaz de transmitir calor, mas n\u00e3o \u00e9 muito eficiente. Como j\u00e1 vimos, quanto menos densidade, menos a capacidade de passar calor de um lado para o outro. Por isso muitos computadores modernos usam \u00e1gua para refrigerar as pe\u00e7as: a \u00e1gua \u00e9 bem mais eficiente por ser bem mais densa que o ar.<\/p>\n<p>Melhor do que isso, s\u00f3 um metal muito denso e com muita \u00e1rea exposta para transmitir o calor. Panelas s\u00e3o feitas de metal por causa disso: o calor da chama passa de um lado para o outro com facilidade. Somando essas duas ideias, chegamos ao ar-condicionado: ele funciona porque transfere o calor do ambiente para outro com muita efici\u00eancia. Tem um l\u00edquido especial dentro dos seus tubos met\u00e1licos que coleta calor e o empurra para outro lugar (por isso todo ar-condicionado tem uma parte apontada para fora do ambiente, que \u00e9 onde o calor vai ser jogado). Tem todo um lance de press\u00e3o no l\u00edquido para acelerar o processo, mas isso j\u00e1 foge ao escopo deste texto.<\/p>\n<p>Que eu nem sei qual \u00e9&#8230; o calor est\u00e1 mexendo com o meu c\u00e9rebro. Talvez seja o momento de vir para o corpo humano: nossos corpos t\u00eam uma temperatura ideal de funcionamento, perto dos 36\u00ba. E isso independe da temperatura externa: somos animais de sangue quente cujo metabolismo n\u00e3o gosta de varia\u00e7\u00f5es. Por sorte, s\u00f3 de estarmos vivos j\u00e1 produzimos muito calor. O processo constante de gerar energia atrav\u00e9s de processos qu\u00edmicos dentro das c\u00e9lulas e at\u00e9 mesmo a fric\u00e7\u00e3o entre c\u00e9lulas j\u00e1 garante que estamos sempre criando nosso pr\u00f3prio calor.<\/p>\n<p>Mas como tudo na vida, precisamos de modera\u00e7\u00e3o. Quando seu corpo esfria muito, come\u00e7a a falhar primeiro por um desespero do c\u00e9rebro para manter quentes as partes essenciais, e depois pela simples realidade mec\u00e2nica de que objetos perdendo calor para o ambiente deixam de estar no estado l\u00edquido. Somos 75% \u00e1gua, e \u00e1gua congelada n\u00e3o vive.<\/p>\n<p>O que nos importa hoje \u00e9 o lado do calor: quando a temperatura m\u00e9dia do seu corpo come\u00e7a a subir, ele come\u00e7a a falhar tamb\u00e9m. Moleza e dificuldade de pensar s\u00e3o comuns (o que explica o Brasil) porque as rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas das quais dependemos n\u00e3o funcionam mais do jeito esperado, e no desespero de esfriar o corpo, seu c\u00e9rebro manda a sua \u00e1gua para a pele, para ser evaporada e ligar o seu ar-condicionado natural.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 essencial se hidratar nessas ondas de calor: \u00e1gua \u00e9 um dos recursos mais \u00fateis que seu organismo tem para trocar calor com o ambiente, e ele vai querer usar o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Calor \u00e9 uma praga para acumular, e quanto mais ele se acumula num sistema, mais complicado \u00e9 tirar ele de l\u00e1. Esse movimento das part\u00edculas \u00e9 basicamente a \u00faltima etapa da transforma\u00e7\u00e3o da energia: depois dele n\u00e3o tem mais no que transformar, ent\u00e3o ela fica l\u00e1 at\u00e9 ter outro lugar para jogar ela fora.<\/p>\n<p>Calor \u00e9 o lixo da natureza. O Sol \u00e9 uma metr\u00f3pole mandando trilh\u00f5es de caminh\u00f5es de lixo para n\u00f3s todos os dias, conseguimos reciclar uma parte (plantas e a vida em geral dependem desse lixo), conseguimos repassar outra para o espa\u00e7o, mas a verdade \u00e9 que o Sol vai jogar mais e mais lixo aqui at\u00e9 o planeta ser inabit\u00e1vel. E n\u00e3o estou falando da expans\u00e3o f\u00edsica do Sol at\u00e9 a Terra em 5 bilh\u00f5es de anos, o calor que a nossa estrela emite vai ficar forte demais para termos \u00e1gua em forma l\u00edquida em no m\u00e1ximo 500 milh\u00f5es de anos. J\u00e1 vi estimativas que a vida como conhecemos na Terra n\u00e3o dura mais que 100 milh\u00f5es de anos com o aumento da emiss\u00e3o de calor da nossa estrela.<\/p>\n<p><em>\u201cSomir, tecnicamente n\u00e3o \u00e9 calor, \u00e9&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p>Eu sei, mas tecnicamente n\u00e3o explica as coisas. Quer saber a parte cient\u00edfica aprofundada? Pesquisa a parte cient\u00edfica aprofundada.<\/p>\n<p>E eu j\u00e1 estou ficando bravo com um leitor imagin\u00e1rio, acho que \u00e9 hora de terminar este texto altamente influenciado por calor que eu nunca senti na vida antes. Acho que o resumo de tudo \u00e9 que calor \u00e9 um lixo. Sim, \u00e9 uma conclus\u00e3o que faz sentido para mim agora.<\/p>\n<p>Agora licen\u00e7a que eu vou dormir dentro da geladeira.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que foi meu pior texto, para dizer que foi meu melhor texto, ou mesmo para dizer que n\u00e3o tem capacidade de decidir o que aconteceu por estar morrendo de calor tamb\u00e9m: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 vivendo uma onda de calor terr\u00edvel. Em cidades famosas pela temperatura elevada como o Rio de Janeiro, chegaram a registrar sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de mais de 58\u00ba! 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