{"id":22513,"date":"2023-12-27T14:59:27","date_gmt":"2023-12-27T17:59:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=22513"},"modified":"2023-12-27T14:59:33","modified_gmt":"2023-12-27T17:59:33","slug":"bolhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2023\/12\/bolhas\/","title":{"rendered":"Bolhas?"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente fala sobre como os algoritmos da internet criam uma bolha de confirma\u00e7\u00e3o nas pessoas. \u00c9 a teoria mais aceita sobre como a era da informa\u00e7\u00e3o criou um ambiente polarizado que se repete em v\u00e1rias culturas diferentes ao redor do globo. Eu mesmo j\u00e1 falei disso v\u00e1rias vezes aqui, mas tem algo que podemos estar deixando passar nessa an\u00e1lise&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>O quanto a internet realmente impactou na cria\u00e7\u00e3o dessas bolhas? Sim, a rede mundial de computadores permite um influxo intermin\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es, e os sistemas de entrega dessas informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 s\u00e3o dominados por intelig\u00eancias artificiais que selecionam conte\u00fado para voc\u00ea com base em coisas que voc\u00ea se interessou anteriormente. Mas, isso pode n\u00e3o ser toda essa mudan\u00e7a de paradigma que imaginamos.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo pessoas como eu que pegaram um pouco do mundo desconectado podem ter dificuldade de imaginar como as coisas eram antes desse tsunami de informa\u00e7\u00e3o 24 horas por dia. O passar do tempo nos deixa acostumados com as coisas como s\u00e3o, e a mem\u00f3ria pode pregar pe\u00e7as enquanto tenta ver o passado pela lente do presente.<\/p>\n<p>Se eu me esfor\u00e7ar um pouco, consigo me lembrar de um mundo com mais bolhas de confirma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o menos. Durante toda minha inf\u00e2ncia e quase toda adolesc\u00eancia, eu n\u00e3o fui exposto a pensamentos muito diferentes dos que j\u00e1 tinha em casa e na escola. Lembro que aos 14 anos de idade, fiquei olhando chocado duas mulheres se beijando num show de m\u00fasica eletr\u00f4nica: em tese eu sabia que isso existia, mas simplesmente n\u00e3o acontecia ao meu redor na vida de jovem do interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha mal\u00edcia, julgamento, nenhuma rea\u00e7\u00e3o emocional sobre as mo\u00e7as, era s\u00f3 uma pequena cabe\u00e7a explodindo vendo o que nunca tinha visto. Tanto que eu lembro at\u00e9 hoje, n\u00e3o delas nem de nada visual da cena, s\u00f3 da situa\u00e7\u00e3o. Era minha bolha sendo furada pelo mundo real.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 via e ouvia informa\u00e7\u00f5es totalmente condizentes com a minha vida cotidiana, s\u00f3 convivia com pessoas mais ou menos parecidas comigo da minha idade e mais ou menos parecidas com meus pais entre os adultos. A m\u00eddia que consumia (TV, revistas, jornais e r\u00e1dio) n\u00e3o tinha quase nada que quebrasse essa ilus\u00e3o de que o mundo era s\u00f3 aquilo que eu j\u00e1 entendia. Os anos 80 e 90 tinham suas doses de m\u00eddia apelativa, mas na pr\u00e1tica era s\u00f3 uma mulher pelada ou uma cena sangrenta. N\u00e3o era uma surpresa que as pessoas fizessem sexo ou que se matassem. Era uma apela\u00e7\u00e3o conservadora, por assim dizer.<\/p>\n<p>Quem cresceu numa cidade muito grande provavelmente teve mais contato com o \u201cmundo diferente\u201d do que eu, que estava numa cidade grande do interior. Quem viveu numa daquelas cidades bem pequenas provavelmente foi ainda mais fechado na bolha de confirma\u00e7\u00e3o da sua comunidade. O que eu tiro dessa an\u00e1lise \u00e9 que se viver num mundo onde todos concordam com voc\u00ea e que as not\u00edcias chegam mais ou menos dentro da l\u00f3gica de mundo que voc\u00ea j\u00e1 conhece, era para a polariza\u00e7\u00e3o ter come\u00e7ado muito, mas muito antes do que come\u00e7ou.<\/p>\n<p>A bolha com a qual eu lido hoje na internet \u00e9 imensamente maior do que com a qual eu convivia antes dela. Chegam em mim informa\u00e7\u00f5es e ideias impens\u00e1veis para a minha realidade algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s. E se n\u00e3o for a bolha de confirma\u00e7\u00e3o criando a polariza\u00e7\u00e3o? E se for o contato com o diferente? Se voc\u00ea prestar aten\u00e7\u00e3o na parte da popula\u00e7\u00e3o mais miser\u00e1vel, vai perceber que as pessoas sem acesso \u00e0 cultura compartilhada do s\u00e9culo XXI n\u00e3o s\u00e3o exatamente o p\u00fablico que est\u00e1 brigando por causa de Lula e Bolsonaro por a\u00ed.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque, sem tempo, irm\u00e3o. Mesmo que 90% das pessoas do Brasil tenham algum acesso \u00e0 internet, algum \u00e9 diferente de viver conectado. E muito diferente de ser bombardeado por informa\u00e7\u00f5es. Pessoas mais simples mal sabem ler, ent\u00e3o provavelmente est\u00e3o trocando \u00e1udios sobre coisas da vida cotidiana entre si, o plano de internet ou Wi-Fi gr\u00e1tis permitindo. O pobre brasileiro votou um pouco mais Bolsonaro em 2018 e um pouco mais no Lula em 2022, n\u00e3o \u00e9 como se as comunidades mais carentes fossem um campo de batalha ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea prestar aten\u00e7\u00e3o de novo, vai perceber que esses lugares menos impactados pela cultura online est\u00e3o muito mais dentro de bolhas de confirma\u00e7\u00e3o que n\u00f3s com um pouco mais de recursos. S\u00e3o massas de pessoas que pensam mais ou menos parecido, v\u00e3o em igrejas parecidas e tem valores (ou falta de) parecidos; sim, vemos elementos diferenciados nessas comunidades, mas gente \u201cdiferente\u201d sempre existiu nesse mundo e sempre chamou mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para cada coletivo de mulheres trans ecoterroristas da favela de mat\u00e9ria de site lacrador, um milh\u00e3o de pessoas que fazem o que o pastor disse para fazer. O Brasil e diversos pa\u00edses parecidos t\u00eam bolhas de culturas diferentes em grandes cidades, especialmente em locais mais abastados. Um passeio pela Av. Paulista vai te colocar em contato com mais diversidade cultural do que seis meses de viv\u00eancia numa favela nordestina, por exemplo.<\/p>\n<p>A ideia aqui \u00e9 uma bem simples: o diferente nos assusta. Causa rea\u00e7\u00f5es mais viscerais e nos deixa com a sensa\u00e7\u00e3o de perigo iminente. Quanto mais voc\u00ea tem contato com informa\u00e7\u00f5es sobre gente muito diferente de voc\u00ea, maior o esfor\u00e7o que o c\u00e9rebro faz para tentar entender o que acontece e maior o risco de voc\u00ea se sentir amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma conversa que corrobora com a mensagem da lacra\u00e7\u00e3o, porque coloca em xeque a ideia de que diversidade \u00e9 sempre a solu\u00e7\u00e3o; at\u00e9 por isso eu acho que tem um exagero na ideia de que estamos sofrendo por causa de bolhas de confirma\u00e7\u00e3o. O cidad\u00e3o mais propenso a radicalizar dentro do ambiente pol\u00edtico tende a ser aquele que est\u00e1 sendo bombardeado por informa\u00e7\u00f5es sobre o \u201coutro lado\u201d.<\/p>\n<p>A pessoa fica com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o s\u00f3 existem pessoas que enxergam o mundo diferente, como essas pessoas est\u00e3o agindo de forma cada vez mais agressiva para impor suas cren\u00e7as sobre ela. O animal acuado \u00e9 o animal mais perigoso.<\/p>\n<p>Eu tentei fazer um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o: e se eu ignorasse toda informa\u00e7\u00e3o sobre o mundo que n\u00e3o impactasse diretamente na minha \u201cbolha de pessoas\u201d? Quanto de pensamento diferente eu tenho que lidar diariamente? Para a minha surpresa, quase nenhum. Como eu moro no interior eu escuto muito papo bolsonarista, mas na pr\u00e1tica&#8230; n\u00e3o tem nenhuma consequ\u00eancia direta. Eu n\u00e3o tenho que discutir ou lutar contra racismo, misoginia ou homofobia na vida real. As pessoas com as quais eu convivo no m\u00e1ximo falam algumas besteiras preconceituosas, mas eu tamb\u00e9m deixo escapar algumas.<\/p>\n<p>Na verdade, boa parte das not\u00edcias e ideias chocantes para a minha vis\u00e3o das coisas vem de longe. N\u00e3o estou dizendo que est\u00e1 tudo bem e que n\u00e3o tenhamos do que reclamar, \u00e9 claro que temos, mas essa ideia de que \u00e9 a bolha de informa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 concordamos da internet que nos radicaliza tem algo de mal resolvido quando voc\u00ea compara com a vida fora da internet.<\/p>\n<p>Fora da internet, quanto menos voc\u00ea \u00e9 confrontado com o diferente, mais tranquilo voc\u00ea parece ficar. Sociedades homog\u00eaneas costumam ser menos propensas a grandes confrontos, \u00f3bvio, com menos capacidade de evoluir; mas bem mais tranquilas no dia a dia, pelo menos se voc\u00ea for parte da homogeneidade.<\/p>\n<p>A internet nos colocou diante do diferente, e os algoritmos, intencionalmente ou n\u00e3o, tendem a nos passar informa\u00e7\u00f5es que temos mais potencial de prestar aten\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer necessariamente coisas com as quais voc\u00ea j\u00e1 concorda, mas coisas que tem mais potencial de ativar seus neur\u00f4nios. Medo e desgra\u00e7a funcionam bem nesse sentido. Mesmo que todos seus curadores de conte\u00fado tenham uma vis\u00e3o pol\u00edtica parecida com a sua, \u00e9 natural que eles chamem aten\u00e7\u00e3o para a parte ruim do mundo. A parte que demonstra como os que pensam diferente podem ser perigosos.<\/p>\n<p>E \u00e9 verdade, pessoas que pensam muito diferente de voc\u00ea podem ser bem perigosas. Podem, mas n\u00e3o s\u00e3o a maioria, afinal, estamos vivos ainda, n\u00e3o? Fico pensando que se talvez a internet fosse melhor nisso de nos colocar em bolhas de confirma\u00e7\u00e3o, a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica diminuiria. Passar\u00edamos menos tempo recebendo informa\u00e7\u00f5es sobre como nossa vis\u00e3o das coisas \u00e9 contestada e como tem gente querendo fazer tudo diferente do que voc\u00ea acredita.<\/p>\n<p>E isso geraria menos medo. Menos medo geraria menos rea\u00e7\u00f5es agressivas. E menos rea\u00e7\u00f5es agressivas gerariam maior possibilidade de conversa e negocia\u00e7\u00e3o. Uma das melhores t\u00e1ticas para lidar com algu\u00e9m indo contra voc\u00ea \u00e9 achar um ponto em comum. Na bolha da vida real \u00e9 meio que inescap\u00e1vel encontrar um ponto em comum se voc\u00ea quiser, a outra pessoa \u00e9 uma pessoa real e n\u00e3o uma voz perdida na internet.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pelos pr\u00f3ximos dias e semanas, eu vou prestar um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o no que meus algoritmos est\u00e3o tentando me empurrar. Talvez seja mesmo uma ilus\u00e3o que o problema seja muita confirma\u00e7\u00e3o, um problema que combina muito bem com a ideia do politicamente correto de diversidade a qualquer custo, e talvez por isso tenha sido empurrado como a resposta para tudo.<\/p>\n<p>E se quiser fazer esse experimento tamb\u00e9m, conte os resultados aqui. Estou curioso como nossas bolhas da vida real se comparam com as da internet.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o d\u00e1 para confiar em quem \u00e9 capaz de mudar de ideia, para dizer que o Desfavor \u00e9 a sua bolha, ou mesmo para dizer que o que importa \u00e9 estar certo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente fala sobre como os algoritmos da internet criam uma bolha de confirma\u00e7\u00e3o nas pessoas. \u00c9 a teoria mais aceita sobre como a era da informa\u00e7\u00e3o criou um ambiente polarizado que se repete em v\u00e1rias culturas diferentes ao redor do globo. 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