{"id":226,"date":"2009-03-08T07:00:00","date_gmt":"2009-03-08T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=226"},"modified":"2009-03-08T07:00:00","modified_gmt":"2009-03-08T10:00:00","slug":"desfavor-convidado-consumismo-patologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2009\/03\/desfavor-convidado-consumismo-patologico\/","title":{"rendered":"Desfavor convidado: Consumismo Patol\u00f3gico."},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i363.photobucket.com\/albums\/oo74\/desfavor\/img\/desfavor_convidado.jpg\" \/><br \/><span style=\"border-bottom: 2px solid rgb(0, 0, 0); padding: 5px; background-color: rgb(204, 204, 204); display: block; text-align: center;\">Se voc\u00ea tem um desfavor de texto e quer v\u00ea-lo postado aqui, basta mand\u00e1-lo para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a><br \/>Se n\u00f3s temos coragem de postar nossos textos, imagine s\u00f3 os seus&#8230;<\/span><br \/><span style=\"font-size:130%;\"><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(255, 0, 0);\">CONSUMISMO PATOL\u00d3GICO<\/span><br \/><\/span><br \/>Sou carioca, amiga pessoal da Sally e psic\u00f3loga. Fiz minha tese de mestrado e estou fazendo a de doutorado com o tema consumismo patol\u00f3gico e fui convidada para falar um pouquinho do assunto por aqui, afinal, consumismo patol\u00f3gico \u00e9 um grande desfavor. Autorizei a Sally a editar meu texto caso fosse muito t\u00e9cnico, espero que esteja compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de consumo mudou ao longo das d\u00e9cadas. Inicialmente as pessoas consumiam pelo prazer de ter, de possuir. O prazer da compra estava ligado ao valor que aquele objeto agregava \u00e0 pessoa e a seu patrim\u00f4nio. Mulheres se realizavam consumindo produtos de sua realidade: geladeiras e outros eletrodom\u00e9sticos. Com o passar do tempo, o perfil de consumo da nossa sociedade foi sendo modificado. A mulher entra no mercado de trabalho e seus desejos de consumo sofrem modifica\u00e7\u00f5es. Ela n\u00e3o cobi\u00e7a mais a geladeira, cobi\u00e7a bolsas, sapatos, roupas e j\u00f3ias. Atualmente eu me arrisco a dizer que em mat\u00e9ria de consumo, o homem se afirma pelo carro e pelos eletr\u00f4nicos e a mulher se afirma pela bolsa e pelos sapatos.<\/p>\n<p>Acontece que hoje n\u00e3o se consome mais para ter. A nova moda do consumismo \u00e9 ostentar. N\u00e3o importa mais o ter e sim que os outros pensem que voc\u00ea tenha. Quando estava escrevendo minha tese de mestrado estourou a moda das lojas que alugam bolsas de marca. Fui investigar. Entrevistei donas e usu\u00e1rias e o aluguel custa em m\u00e9dia R$500,00, isso mesmo: quinhentos reais. Por quinhentos reais \u00e9 poss\u00edvel comprar v\u00e1rias bolsas lindas, ent\u00e3o, porque algu\u00e9m gasta quinhentos reais para uma bolsa que vai ter que devolver?<\/p>\n<p>Pela etiqueta. Pelo status de ostentar em uma festa ou em uma entrevista de emprego uma bolsa com a marca Prada, Fendi, e similares. A estas mulheres n\u00e3o interessa possuir estas bolsas, interessa que as outras mulheres &#8212; porque homem n\u00e3o repara nisso &#8212; pensem que elas as possuem. N\u00e3o podem comprar uma bolsa dessas porque custam valores astron\u00f4micos, no entanto, querem que os outros pensem que podem.<\/p>\n<p>O que isso nos conta sobre a sociedade moderna? Essa preocupa\u00e7\u00e3o excessiva em aparentar o que n\u00e3o \u00e9 mais uma busca inocente por aceita\u00e7\u00e3o. Cruzamos essa linha. Mais parece busca pela admira\u00e7\u00e3o e pela inveja alheias. \u00c9 o novo mundo brega, onde todos querem ser celebridade, todos querem glamour, todos querem seus cinco minutos de fama. Ent\u00e3o, para ser o centro das aten\u00e7\u00f5es, para ser invejada, eu alugo uma bolsa cara que nunca poderia pagar e desfilo com ela por alguns dias.<\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o t\u00e3o insatisfeitas e vazias que precisam recorrer a esse tipo de transa\u00e7\u00e3o insensata. Porque o olhar do outro sobre n\u00f3s nos preocupa tanto? Somos o que somos e n\u00e3o o que o outro acha que somos. Mas atualmente as pessoas n\u00e3o tem muita certeza do que s\u00e3o e se buscam no olhar do outro. Quando se tem sua identidade condicionada ao olhar do outro, se faz tudo que for poss\u00edvel para conquistar e seduzir esse outro &#8212; n\u00e3o no sentido sexual &#8212; e com isso, se cria um efeito bola de neve onde nos vemos obrigadas a fazer uma constante manuten\u00e7\u00e3o de uma mentira que n\u00e3o somos, mas que queremos vender que somos. Partindo dessa premissa que s\u00f3 conseguimos nos ver pelos olhos dos outros e de que nosso Eu Social \u00e9 mais importando do que o real, consegui entender porque tantas mulheres consomem de forma predat\u00f3ria, gastando mais do que ganham, se tornando o que os advogados chamam de superendividados. Culpar a m\u00eddia seria a sa\u00edda mais f\u00e1cil. Eu n\u00e3o sou mulher de sa\u00eddas f\u00e1cies. Sem d\u00favidas a m\u00eddia tem sua parcela de culpa, empurrando produtos cujo pre\u00e7o real e pre\u00e7o de mercado s\u00e3o absurdamente d\u00edspares &#8212; hoje se paga pela marca e n\u00e3o pela qualidade do produto &#8212; e convencendo mentes mais fracas de que precisam daquilo para serem felizes e completas. Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da m\u00eddia.<\/p>\n<p>Buscar a felicidade em uma compra \u00e9 muito f\u00e1cil e c\u00f4modo. \u00c9 uma fonte imediata. Quando compramos algo que desejamos se inicia uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas no c\u00e9rebro muito similares \u00e0 do usu\u00e1rio de drogas que consome a droga. H\u00e1 libera\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias que d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de prazer. Com este al\u00edvio imediato, poucas pessoas ainda procuram a felicidade da forma convencional: batalhando por uma rela\u00e7\u00e3o afetiva saud\u00e1vel, aproveitando bons momentos com a fam\u00edlia, curtindo seus filhos, batendo um papo com amigos, etc. Por qu\u00ea? Porque essas formas convencionais tem uma demanda de manuten\u00e7\u00e3o muito maior do que uma compra! Levam tempo, esfor\u00e7o e trazem um risco de frustra\u00e7\u00f5es. Cultivar la\u00e7os amorosos e afetivos \u00e9 uma tarefa trabalhosa, \u00e1rdua e muitas vezes dolorosa. Ent\u00e3o, \u00e9 muito mais simples pegar um cart\u00e3o de cr\u00e9dito e comprar aquele vestido.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o bem estar da compra passa pouco tempo depois de realizada a compra. E o c\u00e9rebro pede mais. \u00c9 preciso liberar subst\u00e2ncias de prazer de alguma forma. Vem a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que precisamos daquele sapato. Tudo um truque do nosso c\u00e9rebro para se entorpecer. Claro que fatores externos podem piorar o quadro: pessoas carentes, frustradas, solit\u00e1rias, com baixa auto-estima e outros problemas acabam fazendo das compras seu porto seguro, sua dose garantida de felicidade.<\/p>\n<p>Todas as mulheres que entrevistei me passaram uma impress\u00e3o de futilidade, de vida vazia. N\u00e3o falo de cultura ou de grau de escolaridade, falo da riqueza individual de cada um, da experi\u00eancia de vida, dos valores. Mal comparando, da mesma forma que o homem frustrado afoga as m\u00e1goas na bebida, a mulher frustrada afoga as m\u00e1goas nas compras. \u00c9 uma forma de n\u00e3o ter que lidar com o problema, de varrer a sujeira para debaixo do tapete. As pessoas v\u00edtimas desse consumismo predat\u00f3rio chegam a apresentar sintomas similares aos apresentados pelos viciados em abstin\u00eancia quando n\u00e3o podem comprar. Nos casos extremos as compras n\u00e3o s\u00e3o auto-indulg\u00eancias ou caprichos, s\u00e3o uma necessidade patol\u00f3gica, vulgo doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O mais grave \u00e9 que as pessoas acham inofensivo e estimulam o consumo. \u00c9 engra\u00e7adinho dizer em uma roda de amigas que comprou algo muito caro ou que gastou metade do dinheiro no shopping:<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">&#8211; \u201cAmiga, hoje fiz uma loucura!\u201d.<\/span><\/p>\n<p>Deveria ser vergonhoso perder o controle desta forma, no entanto, \u00e9 socialmente aceito. Aceito e estimulado. N\u00e3o adianta lutar contra, esses s\u00e3o os novos valores e eles j\u00e1 est\u00e3o criando ra\u00edzes na atual sociedade. As chamadas Ind\u00fastrias do Luxo faturam milh\u00f5es todos os anos. A Daslu compra vestidinhos de oito d\u00f3lares feitos com a m\u00e3o de obra escrava de crian\u00e7as asi\u00e1ticas, coloca a etiqueta deles e vende por R$800,00 e as pessoas compram, para mostrar para as mulheres que as cercam que usam uma roupa da Daslu.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o? Conversando com a Sally &#8212; como \u00e9 bom ter amigas n\u00e3o-consumistas que ainda cultivam o c\u00e9rebro e sabem conversar &#8212; chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o. Por mais que tratem estas mulheres que sofrem de consumismo patol\u00f3gico como doentes &#8212; que o s\u00e3o &#8212; ameniza-se o sintoma mas n\u00e3o se alcan\u00e7a a raiz do problema, que s\u00f3 poderia ser alcan\u00e7ada com um tratamento psicol\u00f3gico profundo ao qual elas n\u00e3o est\u00e3o dispostas a se submeter e mesmo que estivessem, n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de aprofundar, pois s\u00e3o, por sua ess\u00eancia, pessoas f\u00fateis e superficiais, que n\u00e3o sabem ou n\u00e3o conseguem aprofundar nada em suas vidas.<\/p>\n<p>Vamos todos refletir por cinco minutos que valores s\u00e3o esses que andamos cultivando. Vamos tentar passar isso para nossos filhos. Que sociedade \u00e9 essa de apar\u00eancias que estamos criando? De supermodelos, de bolsas no valor de um carro, de rela\u00e7\u00f5es afetivas prec\u00e1rias e superficiais, onde voc\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea tem. A verdadeira riqueza do s\u00e9culo XXI n\u00e3o ser\u00e1 o dinheiro, os bens e nem tampouco a informa\u00e7\u00e3o &#8212; banalizada pela internet &#8212; e sim o poder de adapta\u00e7\u00e3o a um mundo em constantes mudan\u00e7as e quebras de paradigma. Quem for criativo e souber se adaptar sobreviver\u00e1, os demais, ficar\u00e3o obsoletos. Devemos investir mais em n\u00f3s mesmas, como pessoas, e menos nas compras.<\/p>\n<p>Termino o texto com uma frase da Sally, em resposta \u00e0s minhas sugest\u00f5es de tratamento:<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">&#8211; \u201cElas n\u00e3o querem ser tratadas nem curadas e \u00e9 melhor que n\u00e3o sejam mesmo, porque mulheres assim n\u00e3o v\u00e3o conseguir achar felicidade em mais nada, se voc\u00ea tirar as compras, elas ser\u00e3o infelizes. O melhor que voc\u00ea faz por elas \u00e9 arrumar um marido rico para cada uma!\u201d<\/span><\/p>\n<p>Ser\u00e1?<br \/><span style=\"font-size:130%;\"><br \/><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(255, 0, 0); font-style: italic;\">Odalisca da Comunidade CF VIP<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea tem um desfavor de texto e quer v\u00ea-lo postado aqui, basta mand\u00e1-lo para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.comSe\">desfavor@desfavor.comSe<\/a> n\u00f3s temos coragem de postar nossos textos, imagine s\u00f3 os seus&#8230;CONSUMISMO PATOL\u00d3GICOSou carioca, amiga pessoal da Sally e psic\u00f3loga. 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