{"id":22681,"date":"2024-01-23T12:06:28","date_gmt":"2024-01-23T15:06:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=22681"},"modified":"2024-01-23T12:06:28","modified_gmt":"2024-01-23T15:06:28","slug":"fast-food","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2024\/01\/fast-food\/","title":{"rendered":"Fast Food"},"content":{"rendered":"<p>Ontem eu comi em uma famosa rede de fast food, aquela do palha\u00e7o. N\u00e3o foi legal. N\u00e3o foi bacana. E a pior parte \u00e9: de uns anos para c\u00e1, nunca \u00e9 legal o que acontece depois, mas passa um tempo, eu esque\u00e7o, e como novamente. O lado bom \u00e9 que, como dizia Ariano Suassuna, \u201ctudo que \u00e9 ruim de passar, \u00e9 bom de contar\u201d, ent\u00e3o, ao menos, meu desgra\u00e7amento talvez te divirta no dia de hoje ou at\u00e9 te sirva como aprendizado para n\u00e3o cometer o mesmo erro.<!--more--><\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 jovem (e para fins digestivos eu considero jovem a pessoa com menos de 30 anos), provavelmente voc\u00ea vai achar estranho o que vai ler. Mas, n\u00e3o se engane, seu dia vai chegar. Considere este texto como uma distra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como um alerta: coma feito um animal hoje, aproveite, pois um dia essa f\u00e1cil digest\u00e3o vai acabar.<\/p>\n<p>Normalmente eu n\u00e3o como fast food. Para que eu cometa esse descalabro \u00e9 preciso que uma s\u00e9rie de fatores se alinhem, criando uma \u201ctempestade perfeita\u201d. Foi o que aconteceu ontem. <\/p>\n<p>Fui ao m\u00e9dico para meu checkup anual. O m\u00e9dico demorou a me atender. Comecei a sentir fome. Ao lado do m\u00e9dico estava o fast food e o cheiro de comida estava chegando at\u00e9 mim, o que me fez mentalizar o que estariam preparando. Eu sabia que tinha bacon, eu sentia claramente o cheiro de bacon e eu amo bacon. <\/p>\n<p>Entediada na sala de espera, abri o site do fast food no celular, curiosa para saber que cheiro maravilhoso era aquele. <\/p>\n<p>As fotos&#8230; ah as fotos&#8230; Eu sei que n\u00e3o s\u00e3o fotos de comida real e que quando voc\u00ea pede chega um hamburguer mais murcho que peito de orangotango amamentando, mas meu c\u00e9rebro come\u00e7ou a surtar. O m\u00e9dico demorou muito para me atender, mas quando finalmente me atendeu, me disse que estava tudo bem. Sa\u00ed do consult\u00f3rio feliz.<\/p>\n<p>Pude observar que havia um certo tr\u00e2nsito para voltar para casa, algo bem incomum na cidade onde vivo. Fome + certeza de sa\u00fade em dia + previs\u00e3o de demora para chegar em casa + est\u00edmulos visuais e olfativos que fisgaram o c\u00e9rebro. Obviamente entrei na porra da lanchonete. <\/p>\n<p>O que n\u00e3o seria um problema, por si s\u00f3. Para uma pessoa centrada, decente e de posse de suas faculdades mentais, seria s\u00f3 um almo\u00e7o. Mas n\u00e3o para mim. N\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3o. Mal entrei come\u00e7ou uma pane mental, que leva a uma sequ\u00eancia de p\u00e9ssimas escolhas. <\/p>\n<p>Meu primeiro pensamento foi: \u201cn\u00e3o preciso de um combo, at\u00e9 porque, n\u00e3o bebo refrigerante, seria um desperd\u00edcio\u201d. Entrei determinada a comer s\u00f3 o hamburguer. Mas uma pessoa com fome acaba com seu discernimento muito afetado para se agarrar a boas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando vi que o pre\u00e7o do combo era quase o mesmo do sanduiche puro, a gula falou mais alto, travestida de economista: \u201cse \u00e9 para pagar o mesmo, ent\u00e3o pede o combo, porra\u201d. Aquela mentalidade muito errada de querer tudo que \u201cse tem direito\u201d. \u00c9 gula pura, disfar\u00e7ada de custo\/benef\u00edcio, que, diga-se de passagem, n\u00e3o compensa: teria sido melhor para mim permitir que eles tenham um pouco mais de lucro e ter pedido s\u00f3 o sandu\u00edche. <\/p>\n<p>\u201cSe eu n\u00e3o aguentar a batata, n\u00e3o como, simples assim\u201d, pensei eu, idiota que sou. Quem \u00e9 o ser humano que gosta de batata frita e consegue deixar batata frita no prato?  Batata frita, assim como pipoca, \u00e9 um alimento trai\u00e7oeiro, pois vem parcelada. <\/p>\n<p>Se viesse uma \u00fanica batata gigante no prato, a gente olharia, dimensionaria o real tamanho e diria \u201cn\u00e3o d\u00e1, \u00e9 muita coisa\u201d. Mas n\u00e3o. A batata frita vem em pedacinhos, o que te permite atentar contra o seu organismo comendo uma e, mesmo cheio, continuar, no esquema de esperar vagar um mil\u00e9simo de espa\u00e7o para enfiar outra goela abaixo. Alimentos parcelados s\u00e3o trai\u00e7oeiros, s\u00e3o um convite para excessos.<\/p>\n<p>Outra escolha errada foi o sandu\u00edche. O hamburguer que eu queria j\u00e1 era uma m\u00e1 escolha, por ser basicamente o menos saud\u00e1vel do local. Em minha defesa, come\u00e7o dizendo que esse hamburguer \u00e9 uma novidade, portanto, algo que eu nunca tinha provado, a gula recebeu mais uma oportunidade de se apresentar, travestida de ineditismo: me auto enganei com a justificativa de \u201cexperimentar algo novo\u201d. <\/p>\n<p>Tinha coisa nova menos nociva? Tinha. Um monte. Mas vem aquele diabinho na orelha e fala \u201cvai comer em fast food e se preocupar em pedir um que tenha carne branca, hip\u00f3crita?\u201d. Esse racioc\u00ednio equivocad\u00edssimo de \u201cquem t\u00e1 na chuva \u00e9 para se molhar\u201d escalou e me fez tomar a terceira m\u00e1 decis\u00e3o da escolha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de escolher algo que tinha basicamente p\u00e3o, carne, queijo, bacon e toneladas de gordura, eu precisava optar pelo tamanho. Tinha a vers\u00e3o com um andar (uma carne) e ia crescendo, at\u00e9 chegar na vers\u00e3o de quatro andares (quatro carnes, quatro queijos, quatro bacons). Voc\u00eas sabem onde eu quero chegar, certo? <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico ou proporcional uma pessoa de um metro e meio fazer uma refei\u00e7\u00e3o que alimentaria a jaula de um felino no zool\u00f3gico, mas na hora me veio aquele racioc\u00ednio falacioso de tirar o m\u00e1ximo de proveito da experi\u00eancia: \u201cvoc\u00ea nunca come fast food, provavelmente s\u00f3 vai comer uma vez este ano, ent\u00e3o aproveita e pede o maior, para n\u00e3o passar vontade\u201d. Querido leitor, eu n\u00e3o teria passado vontade nem se pedisse o de uma carne. Gula \u00e9 uma merda. Nunca decida uma refei\u00e7\u00e3o quando est\u00e1 faminto.<\/p>\n<p>Paguei, com aquela falsa sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar sendo passada para tr\u00e1s pois estava levando a batata frita e a bebida de que tinha direito por aquele valor, sendo que a bebida, no caso era \u00e1gua, olha que deprimente, e fui para a fila para retirar o sandu\u00edche. <\/p>\n<p>Uma coisa interessante sobre as m\u00e1s decis\u00f5es que eu sinto (n\u00e3o sei se \u00e9 universal) \u00e9 que, depois de tomadas, meu c\u00e9rebro d\u00e1 uns flashes de aviso, umas red flags, uns alertas no estilo \u201cser\u00e1 que essa foi realmente uma boa escolha?\u201d e eu os silencio com um \u201cagora est\u00e1 feito\u201d, como se fosse uma coisa irrevers\u00edvel, quando na verdade, n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha nada \u201cfeito\u201d. Eu poderia cancelar o pedido. Eu poderia pegar o pedido e n\u00e3o com\u00ea-lo. Eu poderia fazer embaixadinhas com o hamburguer ou botar um tutu rosa nele e dizer que \u00e9 meu filho. O c\u00e9u \u00e9 o limite para o que eu poderia ter feito, n\u00e3o tinha \u201cagora est\u00e1 feito\u201d. S\u00f3 tem \u201cagora est\u00e1 feito\u201d quando voc\u00ea mata algu\u00e9m, todo o resto pode ser contornado. Mas eu calei a boca do meu c\u00e9rebro, como se estiv\u00e9ssemos diante de uma situa\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel; \u201cj\u00e1 pagou, j\u00e1 pediu, agora est\u00e1 feito\u201d. Ot\u00e1ria.<\/p>\n<p>Chegou o meu pedido. Imediatamente me auto enganei com aquele pat\u00e9tico mantra do \u201cvoc\u00ea merece\u201d, que \u00e9 a gula travestida de autoestima. Olha o pensamento torto: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o bebe, n\u00e3o fuma, n\u00e3o usa drogas, dorme direitinho, se alimenta bem, se exercita&#8230; d\u00e1 um desconto, voc\u00ea merece o direito de comer um fast food, uma vez ao ano\u201d. No fant\u00e1stico mundo de Sally Faminta, querido leitor, comer at\u00e9 passar mal \u00e9 m\u00e9rito.<\/p>\n<p>Como agravante, eu trabalho com publicidade tempo suficiente para saber que o \u201cvoc\u00ea merece\u201d \u00e9 coringa para qualquer cagada que uma pessoa queira fazer. Quando se parte da premissa de que consumir determinado produto \u00e9 m\u00e9rito, fica muito dif\u00edcil deixar de comprar, pois est\u00e1 impl\u00edcito que se voc\u00ea n\u00e3o se permite aquilo, \u00e9 por n\u00e3o ter merecido. <\/p>\n<p>Encher o cu de hamburguer n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com m\u00e9rito, espero que um dia estas palavras reverberem na sua alma se voc\u00ea cair na mesma armadilha que eu. M\u00e9rito \u00e9 n\u00e3o dilatar seu est\u00f4mago a ponto de empurrar o pulm\u00e3o e n\u00e3o conseguir respirar. M\u00e9rito \u00e9 n\u00e3o se fazer mal. M\u00e9rito \u00e9 ter autocontrole.<\/p>\n<p>Peguei minha bandeja com meu enorme sanduiche e fui para uma mesa. J\u00e1 no caminho olhava temerosa para o vulto: \u201cEssa porra \u00e9 grande\u201d. E era. J\u00e1 vi beb\u00eas prematuros menores que meu hamb\u00farguer. Mas me agarrei a uma utopia: \u201ct\u00e1 tudo bem, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 obrigada a comer tudo\u201d. Eu tinha como saber melhor.<\/p>\n<p>O tanto de texto que eu j\u00e1 escrevi aqui falando sobre mecanismo de saciedade, ultraprocessados e esse tipo de coisa me faz ter a certeza de que eu sabia melhor. A composi\u00e7\u00e3o desse tipo de alimento \u00e9 pensada especificamente para gerar compuls\u00e3o, para que o c\u00e9rebro ordene que o corpo coma o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Mas a Sally Faminta n\u00e3o pensa.<\/p>\n<p>No minuto em que voc\u00ea desembrulha a comida, come\u00e7am v\u00e1rias fases da degrada\u00e7\u00e3o que \u00e9 deixar a gula tomar conta de voc\u00ea.<\/p>\n<p>A primeira fase \u00e9 a do deslumbramento. O cheiro, o sandu\u00edche quentinho, os neur\u00f4nios fazendo flash mob com pompons gritando \u201cEla merece! Ela merece!\u201d. Voc\u00ea se sente confiante, feliz e est\u00e1 radiante por ter decidido se dar esse presente. Voc\u00ea olha para a comida como o Gollum olha para o anel. Voc\u00ea mataria se algu\u00e9m se colocasse entre voc\u00ea e o alimento.<\/p>\n<p>A segunda fase \u00e9 o \u00eaxtase. A primeira mordida&#8230; o c\u00e9rebro soltando fogos, as endorfinas dan\u00e7ando macarena. A primeira mordida de um hamburguer de fast food \u00e9 simplesmente deliciosa. A segunda e a terceira tamb\u00e9m, mas a primeira \u00e9 incompar\u00e1vel. At\u00e9 mais ou menos o meio do sandu\u00edche, \u00e9 muito recompensador. Mas da\u00ed em diante, principalmente se for um sandu\u00edche do tamanho de uma bola de futebol, a coisa vai ladeira abaixo.<\/p>\n<p>Como eu mesma j\u00e1 expliquei em muitos textos aqui, o c\u00e9rebro humano, por um mecanismo evolutivo, nos recompensa com um tremendo bem-estar quando consumimos comidas gordurosas, a\u00e7ucaradas ou qualquer coisa que permita que o corpo acumule energia. Isso vem da \u00e9poca na qual o ser humano ca\u00e7ava para comer e precisava botar para dentro o m\u00e1ximo de comida poss\u00edvel, pois n\u00e3o sabia quando seria sua pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por este mecanismo evolutivo, quando comemos algo muito gorduroso ou a\u00e7ucarado, o c\u00e9rebro d\u00e1 uma travada no aviso de saciedade: \u201cn\u00e3o avisa n\u00e3o, deixa ela comer, pois isso \u00e9 bom para a gente, vamos estocar combust\u00edvel, aumenta nossas chances de sobreviver\u201d. Por isso \u00e9 muito mais f\u00e1cil comer fast food at\u00e9 passar mal do que comer br\u00f3colis at\u00e9 passar mal. Com br\u00f3colis, d\u00e1 cinco minutos e seu c\u00e9rebro levanta uma plaquinha de \u201cchega dessa merda\u201d.<\/p>\n<p>Senso bem sincera aqui, se eu tivesse vergonha na cara, eu tinha parado no meio do sandu\u00edche, pois j\u00e1 estava mais do que saciada. Mas dava para continuar, ent\u00e3o, eu continuei.<\/p>\n<p>E da metade para frente se entra na terceira fase, a da cogita\u00e7\u00e3o. A gente come\u00e7a a ponderar, a ensaiar um olhar racional. \u201cEsse tro\u00e7o \u00e9 meio gorduroso, n\u00e9?\u201d. \u201cTalvez n\u00e3o tenha sido uma boa ideia pedir essa vers\u00e3o maior\u201d. Mas cabe, pois o c\u00e9rebro desligou o alarme da saciedade. Como cabe, a gente vai comendo. <\/p>\n<p>\u201cQuando eu n\u00e3o aguentar mais eu paro\u201d, pensou a idiota. O aviso de saciedade, nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, demora em m\u00e9dia 20 minutos para chegar, ou seja, quando a gente n\u00e3o aguenta mais \u00e9 por j\u00e1 estar saciado faz tempo e ter comido por 20 minutos por cima de um est\u00f4mago j\u00e1 cheio. E eu sabia disso. Mas me recusei a parar enquanto n\u00e3o estivesse completamente afrontada, enojada e entupida.<\/p>\n<p>A\u00ed vem a quarta fase, a repugn\u00e2ncia, que geralmente aflora no \u00faltimo quarto do lanche. A gente percebe o quanto o tro\u00e7o \u00e9 pesado. N\u00e3o sente mais aquela alegria das primeiras mordidas. O bot\u00e3o da cal\u00e7a j\u00e1 experimenta alguma compress\u00e3o. O suor tem uma oleosidade especial e um leve cheiro a carne. Mas cabe, pois o c\u00e9rebro suprimiu o aviso de saciedade. Ent\u00e3o, a maior parte das pessoas, inclusive esta idiota que vos fala, continua.<\/p>\n<p>Eu cheguei a largar o peda\u00e7o e alguns palitos de batata frita decretando que n\u00e3o dava mais. Mas d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3ozinha de fracasso. N\u00e3o deveria, mas d\u00e1. \u201cMais tarde vou me arrepender, s\u00f3 venho aqui uma vez por ano e n\u00e3o vou comer? Ainda n\u00e3o me sinto completamente saciada, ainda d\u00e1\u201d. As m\u00e3os tr\u00eamulas retomam o sandu\u00edche, j\u00e1 meio frio e um pensamento intrusivo de \u201cfalta t\u00e3o pouquinho, e se voc\u00ea colocasse tudo na boca?\u201d come\u00e7a a rondar.<\/p>\n<p>Mesmo que precise de um pequeno intervalo para abrir um mil\u00edmetro de espa\u00e7o no est\u00f4mago, a gente acaba terminando essa merda. Mais ainda se voc\u00ea acompanha com refrigerante, que d\u00e1 uma forcinha no processo. Por\u00e9m, como eu disse, o meu lanche estava acompanhado por \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quando terminei o hamburguer e as batatas, em poucos minutos aquela bomba de s\u00f3dio come\u00e7ou a desidratar as minhas entranhas. Olhei para a minha garrafa de \u00e1gua, intocada. A sede causada pela comida somada \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de \u201cn\u00e3o vou largar o tro\u00e7o aqui, sem abrir, j\u00e1 que paguei por esta \u00e1gua, vou beber\u201d me fez abrir a garrafa e beber seu conte\u00fado, talvez de forma meio r\u00e1pida e abrupta, pois a comida realmente me deixou sedenta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 legal a mistura \u00e1gua com p\u00e3o. Minha av\u00f3 sempre me contava que ela matava os coelhos que ela criava dando muita aveia para eles comerem e depois deixando livre acesso \u00e0 \u00e1gua &#8211; e eles bebiam at\u00e9 suas entranhas explodirem. Eu nunca soube se isso era verdade ou n\u00e3o (provavelmente ela matava com uma porrada na nuca, como todo faziam, mas n\u00e3o queria relatar viol\u00eancia para uma crian\u00e7a), mas ontem eu me senti um dos coelhos da minha av\u00f3.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea come um sandu\u00edche maior que o seu p\u00e9 e depois bebe meio litro de \u00e1gua, o p\u00e3o vai inchar no seu est\u00f4mago. E isso aconteceu concomitantemente quando o aviso tardio de saciedade chegou. O c\u00e9rebro mandou um \u201cfoi mal, atrasei, mas aviso que voc\u00ea est\u00e1 saciada h\u00e1 20 minutos\u201d e eu, em resposta, bebi meio litro d&#8217;\u00e1gua, inchando o que j\u00e1 estava comprimido. O c\u00e9rebro me respondeu com a quinta fase: o colapso.<\/p>\n<p>O colapso&#8230; ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsico. Claro, tem a sensa\u00e7\u00e3o de incha\u00e7o, a n\u00e1usea, a indigest\u00e3o, o sono repentino fruto da mar\u00e9 alcalina. Mas tamb\u00e9m tem o aspecto moral. \u201cOlha o que eu fiz, eu devo desgostar muito de mim mesma para fazer uma porra dessas, precisava comer feito um animal? Eu n\u00e3o tenho controle, que situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel, que situa\u00e7\u00e3o degradante, eu j\u00e1 tenho idade para fazer melhor\u201d e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Eu precisava voltar para casa, pois isso foi no almo\u00e7o e eu tinha um dia de trabalho pela frente. Mas minha \u00fanica vontade era deitar a cabe\u00e7a na mesa e dormir, em parte pela mar\u00e9 alcalina, em parte para n\u00e3o ter que vivenciar o desconforto que infligi a mim mesma.<\/p>\n<p>Em um esfor\u00e7o enorme, levantei e comecei a andar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta com a mesma mobilidade do Stay-Puft dos Ca\u00e7a-fantasmas. Eu tinha a impress\u00e3o que a cada passo que dava o copo das mesas vizinhas tremia, tipo T-Rex do Jurassic Park. O suor continuava. A ressaca f\u00edsica e a ressaca moral se fundiam em um misto de mal-estar e vergonha. <\/p>\n<p>Transpirando como um chafariz, nauseada e com dificuldades para respirar, cheguei em casa e me sentei na frente do computador. Passei a tarde toda batendo cabe\u00e7a e lendo o mesmo par\u00e1grafo dez vezes sem conseguir me concentrar. O suor com odor a carne se intensificou. A cal\u00e7a n\u00e3o fechava mais. Passei o resto do dia sem comer mais nada. \u00c0 noite me arrastei at\u00e9 a cama, n\u00e3o sem antes tomar um omeprazol, pois a azia era certa, e dormi feito uma jiboia que comeu um carneiro.<\/p>\n<p>Estou no dia 2 e ainda sem conseguir comer nada. Completamente saciada, 24h ap\u00f3s o sandu\u00edche. Isso n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel. Eu espero que ter escrito este texto me ajude a fixar a informa\u00e7\u00e3o de que eu n\u00e3o devo comer em fast food, muito menos em quantidades industriais. E espero que de alguma forma te relembre isso tamb\u00e9m, se voc\u00ea, assim como eu, de tempos em tempos comete esses atentados contra si mesmo.<\/p>\n<p>Se amem. Se respeitem. Se cuidem. N\u00e3o comam at\u00e9 ficar nesse estado deplor\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que est\u00e1 rindo da minha desgra\u00e7a, para dizer que se identifica ou ainda para dizer que agora meus exames de sangue n\u00e3o devem mais estar t\u00e3o bons: comente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem eu comi em uma famosa rede de fast food, aquela do palha\u00e7o. N\u00e3o foi legal. N\u00e3o foi bacana. E a pior parte \u00e9: de uns anos para c\u00e1, nunca \u00e9 legal o que acontece depois, mas passa um tempo, eu esque\u00e7o, e como novamente. 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