{"id":23178,"date":"2024-05-17T13:53:37","date_gmt":"2024-05-17T16:53:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=23178"},"modified":"2024-05-17T13:53:37","modified_gmt":"2024-05-17T16:53:37","slug":"viagem-complicada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2024\/05\/viagem-complicada\/","title":{"rendered":"Viagem complicada."},"content":{"rendered":"<p>Grandes objetos geram grandes impactos. Um asteroide gigantesco com certeza causaria uma pancada monstruosa, seja num planeta ou numa nave voando livre pelo espa\u00e7o. Mas existe outra forma de gerar colis\u00f5es violentas: velocidade. E isso \u00e9 uma p\u00e9ssima not\u00edcia para nossas pretens\u00f5es de viajar pelo espa\u00e7o.<!--more--><\/p>\n<p>Em tese, \u00e9 imposs\u00edvel passar da velocidade da luz. A matem\u00e1tica e os experimentos gerados pela f\u00edsica demonstram que algo ao redor de um bilh\u00e3o de quil\u00f4metros por hora \u00e9 o limite. Mas isso s\u00f3 acontece em condi\u00e7\u00f5es ideais: essa velocidade s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7ada pela luz (e outras frequ\u00eancias eletromagn\u00e9ticas) num v\u00e1cuo perfeito.<\/p>\n<p>Apesar de parecer muita coisa, nas medidas do universo, na verdade \u00e9 bem lento. Na velocidade da luz, demoraria mais de 4 anos para chegar na estrela mais pr\u00f3xima. Imagina s\u00f3, o veloc\u00edmetro da sua nave dizendo que voc\u00ea est\u00e1 passando de um bilh\u00e3o de quil\u00f4metros por hora, e mesmo assim a dura\u00e7\u00e3o da viagem para a estrela mais pr\u00f3xima \u00e9 calculada em anos!<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quiser chegar na gal\u00e1xia vizinha de Andr\u00f4meda, \u00e9 bom trazer um livro ou um trilh\u00e3o deles para passar o tempo: na velocidade da luz, s\u00e3o mais de dois milh\u00f5es e meio de anos para chegar. Um dos melhores argumentos para explicar por que n\u00e3o vemos aliens por todos os lados \u00e9 que a maioria das viagens pelo espa\u00e7o s\u00e3o muito longas, talvez longas demais.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, a f\u00edsica tem outro problema para resolver: os tempos que eu mencionei s\u00e3o baseados na velocidade da luz. N\u00f3s n\u00e3o somos luz. N\u00f3s temos massa. A luz chega na velocidade que chega porque n\u00e3o tem isso. Uma nave espacial e um gr\u00e3o de poeira tem massa demais para chegar nessa velocidade, porque qualquer massa \u00e9 suficiente para impossibilitar acelera\u00e7\u00e3o at\u00e9 a velocidade da luz.<\/p>\n<p>Quanto mais voc\u00ea acelera algo com massa, mais energia \u00e9 necess\u00e1ria para continuar acelerando. Chega uma hora que para passar da velocidade da luz, voc\u00ea precisaria empurrar um objeto com energia infinita. Salvo alguma solu\u00e7\u00e3o \u201cm\u00e1gica\u201d no futuro, nosso limite m\u00e1ximo de velocidade vai estar abaixo da velocidade da luz. Provavelmente muito abaixo.<\/p>\n<p>A NASA j\u00e1 conseguiu acelerar uma sonda espacial a mais de 630 mil quil\u00f4metros por hora. Um pouco abaixo do bilh\u00e3o da velocidade da luz, n\u00e3o? Quanto maior o objeto, mais energia \u00e9 necess\u00e1ria para acelerar. No espa\u00e7o existe a vantagem de n\u00e3o ter quase nada para atrapalhar a acelera\u00e7\u00e3o, mas o problema de precisar de mais e mais energia para continuar o processo continua valendo.<\/p>\n<p>Estimativas otimistas sobre a tecnologia humana, conhecida e te\u00f3rica, sugerem que estaremos muito bem se conseguirmos chegar a 10% da velocidade da luz com qualquer uma de nossas naves. O que faria a viagem at\u00e9 a estrela mais pr\u00f3xima (Proxima Centauri) durar pelo menos 40 anos. E esse valor ainda n\u00e3o \u00e9 realista: voc\u00ea n\u00e3o come\u00e7a nem termina a viagem com 10% da velocidade da luz, precisa acelerar at\u00e9 ela e depois, caso voc\u00ea queira parar na destina\u00e7\u00e3o, precisa desacelerar.<\/p>\n<p>Passar\u00edamos a maior parte do tempo fora dessa velocidade, com o p\u00e9 no acelerador ou no freio. Com muita boa vontade, pelo menos metade do tempo assim. Os 40 anos se tornariam uns 80. A velocidade m\u00e9dia cairia bastante. E novamente, eu estou falando sobre um cen\u00e1rio otimista de 10% da velocidade da luz.<\/p>\n<p>Mesmo se tiv\u00e9ssemos uma fonte praticamente m\u00e1gica de energia, o limite continua sendo 99,9% da velocidade da luz, porque chegar nela mesmo exige mais energia que a existente no universo. Sim, mesmo que a bateria da sua nave fosse todo o universo, faltaria energia para chegar nos 100%.<\/p>\n<p>E aqui, come\u00e7amos a nos preocupar muito mais com os resultados de estar numa velocidade relativ\u00edstica, ou seja, uma velocidade t\u00e3o grande que come\u00e7am a acontecer coisas que o Einstein previu. A gente est\u00e1 acostumado com uma realidade onde a luz \u00e9 incomparavelmente mais r\u00e1pida que qualquer um dos nossos sentidos. Tudo fica diferente quanto mais r\u00e1pido vamos, afinal, a pr\u00f3pria luz come\u00e7a a se mover numa velocidade diferente em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ver um universo alucin\u00f3geno onde as cores e as formas ficam totalmente diferentes (nosso c\u00e9rebro aprendeu a entender a realidade sem velocidades relativ\u00edsticas), a energia necess\u00e1ria para te acelerar criaria um potencial de colis\u00f5es espetaculares. Quem j\u00e1 tomou uma bolada sabe: quanto mais r\u00e1pido vem o objeto, mais dolorido ele \u00e9.<\/p>\n<p>Agora, imagine isso com velocidades nos milh\u00f5es de quil\u00f4metros por hora&#8230; nem precisa ser o bilh\u00e3o da velocidade da luz, qualquer fra\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel dela coloca uma energia de impacto gigantesca at\u00e9 em gr\u00e3os de poeira. Se sua nave estiver a 10% da velocidade da luz e encostar numa pedrinha que mal consegue se sentir entre os dedos, basicamente tudo o que encostar vai virar energia pura.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 como tomar uma bomba at\u00f4mica na cara a cada gr\u00e3o de poeira. Esse \u00e9 um problema muito s\u00e9rio para qualquer tentativa de viajar nessas velocidades relativ\u00edsticas. Por mais que o espa\u00e7o seja muito vazio em m\u00e9dia, numa viagem de trilh\u00f5es e trilh\u00f5es de quil\u00f4metros a chance de encontrar qualquer coisinha no caminho \u00e9 bem grande.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, s\u00f3 um aparte: aqueles campos de asteroides de filmes espaciais praticamente n\u00e3o existem na realidade. Se voc\u00ea atravessar um deles, vai ter sorte de sequer ver um. \u00c9 tudo muito grande e espa\u00e7ado. Se voc\u00ea atravessar com menos de 1% da velocidade da luz, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel bater em qualquer coisa grande o suficiente para causar danos.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a velocidade acumula perigos, e acumula r\u00e1pido: cada 1% de velocidade adicionada vai adicionando potencial de impacto mais e mais terr\u00edvel. Se fizermos a supernave que acelera at\u00e9 99,9% da velocidade da luz, ela vai explodir aleatoriamente em basicamente qualquer lugar do universo. Nenhum sistema vai conseguir perceber a tempo, e mesmo se perceber, boa sorte mudando a rota de algo acelerado a quase um bilh\u00e3o de quil\u00f4metros por hora.<\/p>\n<p>Existem ideias de colocar escudos na frente da nave, feitos de algum material te\u00f3rico que aguente o tranco ou um campo magn\u00e9tico poderoso que desvie esse tipo de detrito sem transferir o impacto para o corpo dela. Eu acredito que uma humanidade capaz de acelerar nessa velocidade vai bolar alguma solu\u00e7\u00e3o, mas vai depender de tecnologias que ainda n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n<p>E seja como for, salvo alguma quebra de paradigma consider\u00e1vel eliminando o limite de velocidade atual, h\u00e1 muito o que se questionar sobre a viabilidade de colonizar o espa\u00e7o nessa velocidade. Considerando uma vida humana m\u00e9dia de uns 100 anos no futuro, ainda sim as pessoas que sa\u00edrem da Terra para a viagem n\u00e3o v\u00e3o chegar vivas no destino. E por mais que saibamos o valor de investir em vantagens futuras, ser\u00e1 que as pessoas v\u00e3o fazer planos para 200, 400&#8230; 1.000 anos no futuro?<\/p>\n<p>Colonizar o Sistema Solar faz mais sentido: mesmo que com a tecnologia atual demore alguns anos para chegar nos recantos mais distantes da nossa vizinhan\u00e7a, ainda vai ter gente chegando viva no destino. E as pessoas que investirem nisso podem ver algum retorno, nem que seja para os filhos. Muito por isso que eu levanto essa possibilidade de mesmo que aliens existam, a maioria provavelmente n\u00e3o consegue ou n\u00e3o v\u00ea vantagem em fazer viagens t\u00e3o longas assim.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o for uma consci\u00eancia digital, passa de todos os limites razo\u00e1veis de manuten\u00e7\u00e3o de vida no v\u00e1cuo espacial. E mesmo que voc\u00ea j\u00e1 seja um conjunto de zeros e uns, a entropia n\u00e3o desliga s\u00f3 porque voc\u00ea quer: armazenamento de dados e manuten\u00e7\u00e3o de sistemas ficam exponencialmente mais complexos com o passar de s\u00e9culos e mil\u00eanios. Pe\u00e7as falham, precisam ser substitu\u00eddas, energia pode variar, mem\u00f3rias podem ser corrompidas por part\u00edculas espaciais&#8230;<\/p>\n<p>Existe um argumento s\u00f3lido para estarmos isolados por limites universais de praticidade de coloniza\u00e7\u00e3o espacial. Eu considero ONVIs extraterrestres e aliens na Terra na mesma categoria de fantasmas e deuses atualmente porque \u00e9 muito improv\u00e1vel que as regras do universo sejam quebradas. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 muito mais torcida do que l\u00f3gica nesse ponto do nosso conhecimento.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se enganem, d\u00e1 para ter um futuro brilhante pelos pr\u00f3ximos bilh\u00f5es de anos mesmo no nosso pedacinho de universo. A p\u00f3s-vida digital pode n\u00e3o se importar de fazer planos que duram centenas de milhares de anos para ter resultados, mas ter\u00edamos que mudar todos os paradigmas humanos, e resolver alguns problemas t\u00e9cnicos consider\u00e1veis. O futuro permite tudo, inclusive nada.<\/p>\n<p>Estamos t\u00e3o no come\u00e7o da hist\u00f3ria do universo (previs\u00e3o de durar incont\u00e1veis trilh\u00f5es de anos), apenas poucos bilh\u00f5es de anos, que quase toda a hist\u00f3ria est\u00e1 para frente. J\u00e1 disse antes, mas repito a analogia: se o universo fosse uma pessoa, nem teria dado o primeiro choro depois de nascer. Todos os limites e problemas descritos aqui podem acabar vencidos dado tempo suficiente, mas honestamente, talvez n\u00e3o tenha dado tempo ainda de vencer a barreira da luz, da energia infinita para acelerar massa at\u00e9 ela, e o que me chamou aten\u00e7\u00e3o para escrever este texto: a partir de velocidades contadas em porcentagens da velocidade da luz, voc\u00ea pode tomar uma pancada do tamanho do meteoro que extinguiu os dinossauros com uma pedrinha de gelo min\u00fascula batendo na sua nave.<\/p>\n<p>O universo n\u00e3o \u00e9 para amadores.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que preferia drama do que nerdice, para dizer que eles est\u00e3o entre n\u00f3s, ou mesmo para dizer que \u00e9 uma vers\u00e3o hardcore do mosquito no para-brisa: <a href=\"#respond\">comente<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandes objetos geram grandes impactos. 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