{"id":23230,"date":"2024-05-29T12:36:11","date_gmt":"2024-05-29T15:36:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=23230"},"modified":"2024-05-29T12:36:23","modified_gmt":"2024-05-29T15:36:23","slug":"o-dia-seguinte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2024\/05\/o-dia-seguinte\/","title":{"rendered":"O dia seguinte."},"content":{"rendered":"<p>A humanidade sempre passa por ciclos de calmaria e surtos revolucion\u00e1rios. Nossas estruturas sociais com certeza n\u00e3o s\u00e3o feitas para durar. Em tempos de polariza\u00e7\u00e3o ao redor do mundo, talvez seja interessante explorar a ideia de que existe vida depois da revolu\u00e7\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o importa a natureza ideol\u00f3gica da sua revolu\u00e7\u00e3o, ela ainda tem que lidar com o fato de que depois de tudo, o mundo continua girando. As pessoas ainda v\u00e3o precisar se alimentar, ter problemas de sa\u00fade, querer seguran\u00e7a, abrigo&#8230; e fazer todo tipo de coisa horr\u00edvel que j\u00e1 faziam antes.<\/p>\n<p>Na trag\u00e9dia do Rio Grande do Sul vimos como tinha gente assaltando volunt\u00e1rios de barco, como abusos continuaram acontecendo nos abrigos, como pol\u00edticos tiraram vantagem do povo que perdeu tudo, apareceu at\u00e9 um cidad\u00e3o vendendo \u00e1gua doada. Por mais grave que seja a situa\u00e7\u00e3o, o ser humano n\u00e3o deixa de ser humano. O que, \u00e9 claro, compreende toda a parte bonita e louv\u00e1vel de quem parou tudo o que estava fazendo para ir ajudar, \u00e0s vezes arriscando a vida para tal.<\/p>\n<p>O ponto aqui \u00e9 sobre o dia seguinte. Ideais revolucion\u00e1rios tem esse problema recorrente de imaginar um mundo melhor pela troca da ideologia dominante, mas sem entender muito bem como as coisas v\u00e3o funcionar na pr\u00e1tica. O cotidiano p\u00f3s-revolucion\u00e1rio tem o p\u00e9ssimo h\u00e1bito de acabar muito parecido com o pr\u00e9. Mudam as moscas, ou para ser mais claro, mudam os l\u00edderes.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer \u201cderrubar tudo o que est\u00e1 a\u00ed\u201d, eu n\u00e3o te culpo. O Brasil \u00e9 imensamente corrupto, cheio de prioridades distorcidas. Eu tamb\u00e9m quero uma mudan\u00e7a, mas primeiro eu tento imaginar o dia seguinte. O que a mudan\u00e7a que voc\u00ea tem em mente significa para a vida das pessoas, na pr\u00e1tica? Como sua nova realidade pode substituir o que j\u00e1 fazemos?<\/p>\n<p>Porque aqui tem uma p\u00edlula vermelha, preta ou roxa com bolinhas verdes: as coisas n\u00e3o s\u00e3o como s\u00e3o \u00e0 toa. O ser humano se acomoda em situa\u00e7\u00f5es que fazem algum sentido para ele, mesmo que numa an\u00e1lise mais complexa voc\u00ea ache um absurdo. Pessoas vivem em relacionamentos abusivos, s\u00e3o exploradas sabendo que s\u00e3o exploradas, ficam com medo de mudar, acham alguma desculpa para se convencer que est\u00e3o fazendo o melhor que podem.<\/p>\n<p>Mas ao mesmo tempo, podemos pensar que nessa disfuncionalidade toda, o ser humano m\u00e9dio tem acesso a coisas que nossos antepassados jamais sonhariam. Mesmo em partes pobres do mundo, o acesso a alimenta\u00e7\u00e3o, saneamento b\u00e1sico, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumenta. Novamente, nada contra voc\u00ea querer que isso aconte\u00e7a mais r\u00e1pido, eu tamb\u00e9m quero, mas num mundo muito do imperfeito, a qualidade de vida m\u00e9dia das pessoas aumenta. Pode-se argumentar que o estresse est\u00e1 aumentando, mas \u00e9 claro que nos acomodamos numa situa\u00e7\u00e3o que pelo menos parece melhorar.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o verdadeiro desafio de qualquer revolu\u00e7\u00e3o: depois que a descarga de dopamina por virar tudo do avesso acontecer, quem garante que n\u00e3o vamos assentar novamente num sistema que j\u00e1 conhecemos? Mesmo as revolu\u00e7\u00f5es comunistas acabaram com uma classe dominante tendo muito mais recursos que o cidad\u00e3o m\u00e9dio. Porque no dia seguinte que o proletariado corta a cabe\u00e7a da burguesia, algu\u00e9m tem que organizar o povo, porque o povo vai querer organiza\u00e7\u00e3o. E com isso fatalmente as estruturas de poder come\u00e7am a renascer com novos rostos, e muitas vezes com os velhos que ainda est\u00e3o vivos, experi\u00eancia conta nessas horas.<\/p>\n<p>Vimos recentemente como um Estado falido como o Haiti achou alguma forma de organiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das gangues. Depois de algum tempo, algu\u00e9m vai pensar que precisa de um hospital, algu\u00e9m para gerenciar o dinheiro, para gerenciar pessoas em grupos menores&#8230; todo caos termina em alguma forma de organiza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 a\u00ed que percebemos como n\u00e3o existem muitas f\u00f3rmulas novas de montar uma sociedade.<\/p>\n<p>Pelo menos n\u00e3o t\u00e3o testadas como as que j\u00e1 estamos acostumados. \u00c9 uma esp\u00e9cie de entropia social: as pessoas tendem a um estado de menor gasto de energia para viver, n\u00e3o tem mais volta o aprendizado sobre organiza\u00e7\u00e3o social e divis\u00e3o de tarefas para especialistas. Voc\u00ea pode chacoalhar o sistema, mas ele vai assentar de formas bem parecidas.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que eu vejo um problema s\u00e9rio sobre a polariza\u00e7\u00e3o t\u00edpica dos nossos tempos: planos e mais planos de como chacoalhar o sistema, mas pouca ou nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com o dia seguinte. O povo da esquerda continua achando que o ser humano \u00e9 o bom selvagem que s\u00f3 faz coisa errada por causa do sistema, o povo da direita acha que s\u00f3 falta um l\u00edder forte para controlar o pior da humanidade&#8230; e os dois n\u00e3o lidam com o fato de que somos tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>E que no dia seguinte da revolu\u00e7\u00e3o, precisamos saber quem \u00e9 respons\u00e1vel pelo que, precisamos saber onde colocar nossa energia, precisamos definir pol\u00edticas sociais que lidem com pessoas com as mais diferentes necessidades&#8230; vai ter abusador ca\u00e7ando crian\u00e7a depois da revolu\u00e7\u00e3o de esquerda, vai ter crian\u00e7a doente que precisa de rem\u00e9dio car\u00edssimo depois da revolu\u00e7\u00e3o de direita. Ningu\u00e9m consegue eliminar todos os problemas inc\u00f4modos para a ideologia da vez, n\u00e3o importa qu\u00e3o enorme seja sua revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me considero centrista por odiar tudo o que esquerda e direita dizem, concordo com v\u00e1rios pontos que mencionam, mas como eles entregam pouca ou nenhuma ideia sobre o que fazer no dia seguinte, parecem ideologias vazias. No dia seguinte, ou voc\u00ea pensa com uma cabe\u00e7a centrista, ou sai correndo com todos os defeitos do radicalismo at\u00e9 o povo come\u00e7ar a sofrer de novo. Ou os l\u00edderes em quest\u00e3o montam uma ditadura muito eficiente, ou acabam engolidos pela pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem o dia seguinte, vamos para autoritarismo ou caos revolucion\u00e1rio, de novo. N\u00e3o adianta mudar s\u00f3 quem est\u00e1 no poder, tem que mudar o poder. E para mudar o que configura poder para n\u00f3s, vai ter que ter uma ideia melhor do que as que j\u00e1 estamos aplicando. N\u00e3o s\u00f3 uma ideia melhor, como uma com a qual as pessoas consigam conviver. Nem mesmo os d\u00e9spotas mais assassinos conseguiram matar todos os dissidentes.<\/p>\n<p>E tem todo um mundo ao nosso redor. Sua revolu\u00e7\u00e3o vai acabar selecionando grupos distintos de aliados e advers\u00e1rios. Voc\u00ea tem um plano para lidar com as novas rela\u00e7\u00f5es internacionais? Ou vai ser que nem o PCO que diz que vai dar calote na d\u00edvida assim que assumir o poder? O povo mais radical de direita quer cortar rela\u00e7\u00f5es com a ditadura comunista da China. O que fazer sem o maior parceiro comercial? E os interesses das pessoas que vivem no seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se fosse f\u00e1cil cortar umas cabe\u00e7as e resolver os problemas sociais, j\u00e1 teria funcionado. Cortamos muitas cabe\u00e7as nessa jornada at\u00e9 a Era Moderna. Complicado usar guilhotinas se seu advers\u00e1rio \u00e9 uma hidra. Cortou uma, aparecem duas no lugar. As pessoas esquecem que depois da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a monarquia voltou com outro t\u00edtulo nas m\u00e3os de Napole\u00e3o Bonaparte. Teve que ser derrubada de novo. E de novo.<\/p>\n<p>Foram alguns ideais, que na base da teimosia sem fim, que criaram o tipo de estrutura democr\u00e1tica moderna. E eu at\u00e9 argumentaria que foi mais resultado das novidades do capitalismo industrial que realmente deu corpo para essa ideia que temos hoje. Dava mais dinheiro soltar um pouco mais a coleira do povo. Quando o sistema se acomodou em algo que parecia lucrativo para as partes, a sociedade viu os avan\u00e7os que viu.<\/p>\n<p>E agora, mantendo que com muita raz\u00e3o, as pessoas est\u00e3o irritadas com um sistema que patina para entregar evolu\u00e7\u00e3o compat\u00edvel no s\u00e9culo XXI, come\u00e7a a demonstrar ideais revolucion\u00e1rios de novo. Eu argumento que o \u00faltimo grande salto que demos tinha algo al\u00e9m de vontade revolucion\u00e1ria: tinha uma base tecnol\u00f3gica e econ\u00f4mica que fazia sentido para quem vivia naquele tempo. Talvez at\u00e9 sem querer, tinha um dia seguinte na revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem revolu\u00e7\u00e3o temos um avan\u00e7o lento baseado no aprendizado de mil\u00eanios sobre o que mais ou menos funciona. Se n\u00e3o tivermos outra forma de organizar a sociedade para nos acomodarmos novamente, as revolu\u00e7\u00f5es pensadas por radicais de esquerda e direita est\u00e3o fadadas a involuir para o que j\u00e1 t\u00ednhamos antes, com outras alegorias e talvez alguns nomes diferentes entre os privilegiados.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00f5es que se sustentam n\u00e3o s\u00e3o ideol\u00f3gicas, s\u00e3o org\u00e2nicas. Porque elas j\u00e1 come\u00e7am com um objetivo do que fazer no dia seguinte, de como continuar a vida em sociedade com algo que n\u00e3o seja \u201crepetir o que j\u00e1 deu errado mil vezes no passado com outros l\u00edderes\u201d. Vai revolucionar o qu\u00ea se o plano \u00e9 bater em quem n\u00e3o concorda com voc\u00ea? Acha que n\u00e3o tentaram isso milh\u00f5es de vezes antes? Que o mundo come\u00e7ou ontem e que ningu\u00e9m pensou que \u201cse eu mandasse em todo mundo daria certo\u201d?<\/p>\n<p>Porque j\u00e1 pensaram e j\u00e1 tentaram. N\u00e3o deu. Primeiro porque uma pessoa ou uma ideologia n\u00e3o resolvem todos os problemas, e segundo porque nunca vai existir concord\u00e2ncia plena. At\u00e9 povos oprimidos se \u201cvingam\u201d produzindo pouco. De alguma forma, boa parte da humanidade concordou com a ideia de ir para as cidades e desenvolver esse tipo de capitalismo que define o mundo moderno. N\u00e3o quer dizer que foi a melhor ideia poss\u00edvel, mas de alguma forma as pessoas toparam.<\/p>\n<p>N\u00e3o era grandes coisas, mas era um dia seguinte. Qual \u00e9 o dia seguinte que faria com que as pessoas se assentassem numa nova realidade? Quem tiver essa resposta provavelmente vai ter a pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o de sucesso. Porque se for para mudar o mundo com pronome neutro ou com mais gente armada, francamente, n\u00e3o tem a menor chance de gerar mudan\u00e7a generalizada no longo prazo.<\/p>\n<p>J\u00e1 falei e vou repetir: ou tem tecnologia para mudar o mundo, ou \u00e9 s\u00f3 trocar um imbecil poderoso por outro. No dia seguinte, continuam sendo imbecis.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu estou ficando velho, para dizer que a revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 tiktokada, ou mesmo para dizer que a sua revolu\u00e7\u00e3o tem um plano diferente: <a href=\"#respond\">comente<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade sempre passa por ciclos de calmaria e surtos revolucion\u00e1rios. Nossas estruturas sociais com certeza n\u00e3o s\u00e3o feitas para durar. Em tempos de polariza\u00e7\u00e3o ao redor do mundo, talvez seja interessante explorar a ideia de que existe vida depois da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":23231,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-23230","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-flertando-desastre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23230\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}