{"id":23512,"date":"2024-07-26T14:02:49","date_gmt":"2024-07-26T17:02:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=23512"},"modified":"2024-07-26T14:02:49","modified_gmt":"2024-07-26T17:02:49","slug":"quando-e-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2024\/07\/quando-e-voce\/","title":{"rendered":"Quando \u00e9 voc\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>Muito nos perguntamos quem somos, mas raramente pensamos sobre quando somos. O tempo passa para todo mundo, muita coisa acontece ao nosso redor todos os dias, meses, anos&#8230; ser\u00e1 que faz sentido pensarmos sobre quem somos numa realidade que nunca fica parada?<!--more--><\/p>\n<p>\u00c0s vezes eu me pego pensando em escolhas que fiz no passado, que trouxeram bons ou maus resultados. Especialmente nas que deram errado, para ser honesto. Fico me perguntando o porqu\u00ea das decis\u00f5es ruins, o que eu estava pensando, qual era o contexto, se eu poderia ter feito diferente.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o costuma ser uma forma saud\u00e1vel de levar a vida. O passado \u00e9 o passado, imut\u00e1vel at\u00e9 que alguma lei da f\u00edsica seja violada. Pode pensar o quanto quiser, pode achar mil solu\u00e7\u00f5es diferentes para os problemas antigos&#8230; e nada vai mudar. Aconteceu. Existe m\u00e9rito em saber observar o que voc\u00ea j\u00e1 fez e tirar li\u00e7\u00f5es disso, mas nada pode mudar o que j\u00e1 foi feito. Viver no passado \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o viver no presente.<\/p>\n<p>Algo que me ajuda a evitar essas sess\u00f5es de remoer o passado \u00e9 entender que o conceito de quem voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 existe agora. Quem voc\u00ea era n\u00e3o existe mais. \u00c9 mais f\u00e1cil acreditar que faria agora a mesma coisa que fez um m\u00eas atr\u00e1s, mas as coisas come\u00e7am a ficar muito mais nebulosas quanto mais longe voc\u00ea volta.<\/p>\n<p>Quando na sua mem\u00f3ria ainda era voc\u00ea agindo? A mente que voc\u00ea tem agora pode ser transplantada para at\u00e9 quando com resultados parecidos? Se voc\u00ea que est\u00e1 lendo agora \u201cca\u00edsse\u201d na sua vida de um ano atr\u00e1s, faria algo diferente? E se mudarmos para cinco anos? Dez?<\/p>\n<p>\u00c9 mais dif\u00edcil imaginar o contexto, porque eu n\u00e3o estou falando de o que voc\u00ea faria conhecendo o futuro, no que investiria ou apostaria para ganhar dinheiro, com quem ficaria conhecendo melhor a pessoa do que conhecia na \u00e9poca&#8230; eu estou falando sobre o estado mental e a vis\u00e3o de mundo que voc\u00ea tem agora na vida de um corpo mais jovem.<\/p>\n<p>T\u00eam coisas que valorizamos de forma diferente com o passar dos anos. T\u00eam aprendizados que mudam nossa forma de ver as coisas. Em dez anos, eu acredito ser uma pessoa fundamentalmente diferente da que era no passado. Quando eu tomei decis\u00f5es boas ou ruins num passado distante, eu n\u00e3o acredito mais que era&#8230; eu.<\/p>\n<p>Era um ser humano que eventualmente chegaria ao meu estado mental atual, mas \u00e9 muito dif\u00edcil acreditar que depois de tanto tempo eu pensaria da mesma forma que pensei uma d\u00e9cada atr\u00e1s. Na verdade, eu acredito que nem consigo lembrar do passado ao ponto de entender o que estava pensando no passado.<\/p>\n<p>Porque a resposta sobre quem voc\u00ea \u00e9 muda a cada momento. A gente at\u00e9 tem algumas coisas que acredita e repete por comodidade, mas \u00e0s vezes dentro do mesmo dia podemos ser um \u201cquem\u201d diferente. Talvez nada muito dram\u00e1tico, mas \u00e0s vezes um caf\u00e9 j\u00e1 muda sua percep\u00e7\u00e3o de mundo. O tempo todo estamos mexendo com quem somos.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o sermos ilhas, \u00e9 claro que precisamos de alguma consist\u00eancia, mas isso \u00e9 mais para as outras pessoas do que para n\u00f3s mesmos. No fundo no fundo, ser inconsistente, hip\u00f3crita ou vol\u00favel n\u00e3o d\u00f3i fisicamente. Voc\u00ea pode defender uma causa com um discurso raivoso um minuto e falar algo completamente contra isso no outro sem penalidades internas. Sua mente pode ficar confusa com a imagem que voc\u00ea passa para os outros ou com as rea\u00e7\u00f5es de terceiros, mas o problema interno da inconsist\u00eancia? Nenhum.<\/p>\n<p>Porque como voc\u00ea sempre \u00e9 voc\u00ea, n\u00e3o tem problema nenhum no c\u00e9rebro. \u00c9 voc\u00ea chacoalhando uma bandeira ou outra, \u00e9 voc\u00ea sendo bom ou mau, \u00e9 voc\u00ea em qualquer situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea agora. Esse \u00e9 o verdadeiro quando do ser, o momento atual. Numa vis\u00e3o mais purista dessa ideia, eu poderia dizer que o Somir que come\u00e7ou a escrever o texto \u00e9 diferente do que est\u00e1 neste par\u00e1grafo. E isso continua a cada letra.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed entrar\u00edamos numa tecnicalidade que eu considero in\u00fatil, na vida faz mais sentido pensar em linhas borradas: salvo algum acontecimento externo importante ou avan\u00e7o consider\u00e1vel em autoconhecimento, a tend\u00eancia \u00e9 que voc\u00ea seja mais ou menos est\u00e1vel como pessoa por meses, talvez at\u00e9 anos quando est\u00e1 um pouco mais velho.<\/p>\n<p>Mas a partir disso, eu j\u00e1 come\u00e7o a desconfiar seriamente que n\u00e3o estamos falando da mesma pessoa. Eu tenho alguma mem\u00f3ria do que aconteceu no passado, mas n\u00e3o tenho mais o estado mental daquela \u00e9poca para entender o que aconteceu na hora. Mesmo quando voc\u00ea tenta se lembrar do que j\u00e1 aconteceu, est\u00e1 perdidamente contaminado pela vis\u00e3o de mundo que tem agora. N\u00e3o existe mem\u00f3ria pura da decis\u00e3o tomada vinte anos atr\u00e1s, s\u00f3 existe an\u00e1lise de quem voc\u00ea \u00e9 agora sobre o que ficou registrado na mente.<\/p>\n<p>\u00c9 mec\u00e2nico tamb\u00e9m: as liga\u00e7\u00f5es neurais mudaram, a maioria das c\u00e9lulas do seu corpo foram trocadas, viver \u00e9 virar o Navio de Teseu, ter (quase) tudo trocado e manter s\u00f3 o nome em comum. O que voc\u00ea fez no passado gera impactos no presente, mas quem voc\u00ea \u00e9 mudou. De uma certa forma, estamos sempre pagando pelos erros ou apreciando os sucessos de outros. E nem foi uma escolha, as coisas s\u00f3 s\u00e3o assim num universo baseado em mudan\u00e7a com uma seta temporal que s\u00f3 aponta para a frente.<\/p>\n<p>At\u00e9 por isso, eu acho que acredito mais do que na m\u00e9dia em pessoas que dizem que mudaram. Talvez mais do que o que seria seguro, mas para mim faz muito sentido que algu\u00e9m olhe para o passado e n\u00e3o se reconhe\u00e7a. Eu meio que entendo algumas coisas que eu fiz no passado depois de sess\u00f5es oficiais e n\u00e3o oficiais de terapia com outras pessoas, mas dizer que eu consigo me colocar inteiramente na cabe\u00e7a do meu eu do passado? N\u00e3o.<\/p>\n<p>Demorou um bom tempo para eu come\u00e7ar a pensar na diferen\u00e7a entre sofrimento in\u00fatil pelo passado e experi\u00eancia \u00fatil para o presente. Se voc\u00ea n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a achar que s\u00e3o a mesma coisa, porque elas trabalham com mecanismos parecidos de julgar suas mem\u00f3rias. Quando voc\u00ea fez as coisas que est\u00e3o na sua mem\u00f3ria conta, e muito. Porque o quando define o quem. Voc\u00ea ainda tem todas as responsabilidades sociais e pol\u00edticas pelo que fez, mas \u00e9 uma continuidade artificial criada pela nossa necessidade de viver em grupos.<\/p>\n<p>Por motivos t\u00e9cnicos e legais, voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea durante toda sua vida. Mas para a nossa \u201calma\u201d, n\u00e3o h\u00e1 import\u00e2ncia nessa continuidade. Porque ela nem funciona na pr\u00e1tica: voc\u00ea s\u00f3 consegue tomar decis\u00f5es no presente, s\u00f3 tem o estado atual de consci\u00eancia no volante. O que voc\u00ea faz agora n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea teria feito em outro tempo, passado ou futuro. Pode ser parecido, mas nunca igual.<\/p>\n<p>Racionalmente, culpa n\u00e3o faz sentido. O que pouco importa para o sentimento, mas conseguir se distanciar desses \u201ceus\u201d em outros per\u00edodos de tempo e perceber eles como fotos que s\u00f3 captam a luz daquele momento \u00e9 um bom caminho para sentir algo mais saud\u00e1vel ao inv\u00e9s de culpa. Qual sentimento? N\u00e3o sei. Cada caso \u00e9 um caso. Mas se voc\u00ea estivesse pensando em outra pessoa fazendo a mesma coisa, o que sentiria?<\/p>\n<p>Porque pela ideia expressa neste texto, pode-se argumentar que era outra pessoa fazendo a mesma coisa. E quanto mais tempo se passa, maior a dist\u00e2ncia entre voc\u00ea e&#8230; voc\u00ea. O clima social parece ir na dire\u00e7\u00e3o oposta dessa ideia, com o conceito de cancelamento entrando de vez na nossa mente e nosso vocabul\u00e1rio, at\u00e9 por isso pode ser mais dif\u00edcil fazer essa an\u00e1lise mais desconectada do seu passado.<\/p>\n<p>E entender uma verdade dif\u00edcil: pessoas mudam. N\u00e3o quer dizer que mudam para melhor, n\u00e3o quer dizer que mudam naquilo que voc\u00ea n\u00e3o gosta nelas, mas mudam sim. \u00c9 uma inevitabilidade. Tem gente at\u00e9 que muda para algo que voc\u00ea gosta mais e depois de um tempo \u201cdesmuda\u201d para incomodar de novo. \u00c9 entropia no final das contas.<\/p>\n<p>Eu sou bem c\u00e9tico sobre a quest\u00e3o de ess\u00eancia da pessoa ser boa ou ruim (muito al\u00e9m do bom selvagem), rela\u00e7\u00f5es que v\u00e3o bem acontecem entre duas ou mais pessoas que se influenciam, que regulam umas as mudan\u00e7as nas outras. A mudan\u00e7a vai acontecer, a pessoa vai mudar quem \u00e9 de acordo com \u201cquando \u00e9\u201d, e quem voc\u00ea mant\u00e9m por perto por gosto normalmente muda dentro do que voc\u00ea tolera, mesmo que n\u00e3o te agrade.<\/p>\n<p>A pessoa que voc\u00ea era no passado n\u00e3o existe mais, as pessoas com as quais voc\u00ea conviveu no passado n\u00e3o existem mais. Todos eram quem eram quando eram. Longe de mim vir aqui te encher o saco sobre perdoar, esquecer, seguir em frente e tudo mais, mas n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1 ideia reavaliar pessoas depois de um tempo. Talvez tenha algo l\u00e1 que come\u00e7ou a valer a pena, talvez algu\u00e9m que voc\u00ea acha que valha&#8230; n\u00e3o valha mais.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a \u00e9 constante, muitas vezes temos ilus\u00e3o de continuidade pelas diferen\u00e7as entre cada ponto da nossa mem\u00f3ria serem pequenas o suficiente para serem ignoradas pelo c\u00e9rebro (que lembrando: apaga informa\u00e7\u00e3o sem d\u00f3 se n\u00e3o for obrigado a registrar).<\/p>\n<p>Mais ou menos como muitas imagens est\u00e1ticas passando rapidamente geram ilus\u00e3o de movimento. Continuam sendo quadros est\u00e1ticos do v\u00eddeo. Cada um diferente do outro. E alguns deles s\u00e3o t\u00e3o diferentes do que voc\u00ea est\u00e1 vendo agora que nem parecem ser do mesmo filme. Ent\u00e3o por que a gente fica procurando furo no roteiro deles? Se voc\u00ea sente que o seu \u201cquando era\u201d \u00e9 diferente do seu \u201cquem \u00e9\u201d, \u00e9 normal, \u00e9 esperado.<\/p>\n<p>Melhor do que viver enganado. E sabe-se l\u00e1 o que o Somir do futuro vai achar deste texto, mas tamb\u00e9m, ele que se vire, esse estranho&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que sexta-feira \u00e9 dia de tema leve, para dizer que ficou com sono antes de ter crise existencial, ou mesmo para dizer que sente saudade do que ainda n\u00e3o vivemos: <a href=\"#respond\">comente<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito nos perguntamos quem somos, mas raramente pensamos sobre quando somos. 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