{"id":24028,"date":"2024-11-15T15:39:53","date_gmt":"2024-11-15T18:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=24028"},"modified":"2024-11-15T15:39:53","modified_gmt":"2024-11-15T18:39:53","slug":"escala-0x7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2024\/11\/escala-0x7\/","title":{"rendered":"Escala 0x7"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 que escala de trabalho est\u00e1 na boca do povo, pode ser interessante pensar sobre como o trabalho deve mudar no futuro. Come\u00e7amos um processo irrevers\u00edvel de trocar esfor\u00e7o humano por ferramentas e m\u00e1quinas&#8230; h\u00e1 uns 2 milh\u00f5es e meio de anos atr\u00e1s.<!--more--><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a data estimada da produ\u00e7\u00e3o das primeiras ferramentas pelos nossos ancestrais. No minuto que um de nossos antepassados resolveu arrancar lascas de uma pedra para deix\u00e1-la afiada, come\u00e7ou a era da m\u00e1quinas. Essas pedras trabalhadas s\u00e3o o registro mais antigo de manipula\u00e7\u00e3o do ambiente para criar ferramentas, mas \u00e9 prov\u00e1vel que estiv\u00e9ssemos usando fibras vegetais e madeira muito antes disso. \u00c9 que ao contr\u00e1rio das pedras, esses materiais degradam e desaparecem rapidamente.<\/p>\n<p>Claro que desde ent\u00e3o a gama de ferramentas e m\u00e1quinas que usamos cresceu imensamente, feitas com materiais mais eficientes e em n\u00edveis de complexidade incr\u00edveis como o computador ou celular que voc\u00ea usa para ler este texto. Eu come\u00e7o por esse \u00e2ngulo porque substitui\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7o de macacos como n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 uma novidade, n\u00e3o \u00e9 algo da era dos rob\u00f4s e da intelig\u00eancia artificial, \u00e9 o padr\u00e3o h\u00e1 mais tempo do que a hist\u00f3ria escrita.<\/p>\n<p>A fric\u00e7\u00e3o entre oferta e demanda sempre esteve l\u00e1, a gente pode at\u00e9 puxar exemplos recentes de profiss\u00f5es que desapareceram por causa dos computadores (\u201ccomputador\u201d era literalmente o nome da profiss\u00e3o que a m\u00e1quina substituiu) e da internet, mas o processo se repete a cada avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. A arma de fogo acabou com soldados especializados em arco-e-flecha, a eletricidade acabou com os acendedores de lampi\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Toda substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em uma vantagem que a ferramenta ou a m\u00e1quina entregam al\u00e9m da capacidade do ser humano. Quase sempre \u00e9 sobre velocidade, padr\u00e3o de qualidade ou custo de produ\u00e7\u00e3o. Se algo aparece para substituir um trabalho humano, assim que ele fica melhor nos tr\u00eas quesitos, a profiss\u00e3o praticamente desaparece.<\/p>\n<p>O meu ponto aqui \u00e9 que n\u00e3o parece existir algum trabalho humano imune \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o. Desde o trabalho mais bra\u00e7al ao mais intelectual, o objeto criado para uma fun\u00e7\u00e3o sempre vai ser melhor que um ser generalista como o humano. Se voc\u00ea precisa apertar parafusos, n\u00e3o precisa desenvolver uma maravilha da engenharia como a m\u00e3o humana, n\u00e3o? O ser humano existe para sobreviver, n\u00e3o para trabalhar. Somos uma cole\u00e7\u00e3o de partes e conceitos baseados em redund\u00e2ncia e adaptabilidade, n\u00e3o uma para realizar apenas uma fun\u00e7\u00e3o muito bem.<\/p>\n<p>E o que vale para a m\u00e3o, vale para o c\u00e9rebro: se voc\u00ea quer diagnosticar doen\u00e7as, precisa mesmo de uma pessoa inteira no trabalho? A parte da pessoa que est\u00e1 pensando no valor do d\u00f3lar ou no decote da enfermeira n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o nenhuma com a fun\u00e7\u00e3o de analisar padr\u00f5es de sintomas e fazer uma previs\u00e3o correta sobre a causa do problema de sa\u00fade no paciente.<\/p>\n<p>Somos todos muito substitu\u00edveis em nossas fun\u00e7\u00f5es, n\u00e3o porque nos falta esfor\u00e7o ou aprendizado (embora falte em muita gente), mas porque n\u00e3o somos uma ferramenta ou uma m\u00e1quina desenvolvidas para aquela fun\u00e7\u00e3o. O rob\u00f4 da f\u00e1brica sempre vai ser melhor em colocar uma pe\u00e7a do que um humano. Pode at\u00e9 ter resultados parecidos com algu\u00e9m muito competente e experiente, mas pode manter esse n\u00edvel por meses sem parar.<\/p>\n<p>De alguma forma o ser humano vai perder na compara\u00e7\u00e3o. Pode ser em resposta r\u00e1pida, em for\u00e7a, em precis\u00e3o, em durabilidade, em consist\u00eancia, em capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o&#8230; n\u00e3o existe fun\u00e7\u00e3o garantida enquanto houver tecnologia e criatividade na produ\u00e7\u00e3o de ferramentas e m\u00e1quinas. Foi curioso ver a IA vir direto na jugular dos criativos, muito antes de incomodar o cidad\u00e3o que tem trabalhos \u201crob\u00f3ticos\u201d e repetitivos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma lembran\u00e7a de que o futuro pode ser previs\u00edvel em grandes tend\u00eancias, mas n\u00e3o nos detalhes. O homem das cavernas afiando uma pedra estava come\u00e7ando o processo que desembocou em \u00f3culos de realidade virtual, mas evidente que n\u00e3o tinha sequer condi\u00e7\u00f5es de imaginar isso. Sabemos por milhares de anos experi\u00eancia que a humanidade vai otimizar o humano fora do funcionamento da sociedade.<\/p>\n<p>Porque ningu\u00e9m melhor do que n\u00f3s para saber como somos complicados. N\u00e3o \u00e9 eficiente depender de outras pessoas para suas necessidades. Pessoas quebram de formas que ningu\u00e9m sabe arrumar. A m\u00e1quina humana, de t\u00e3o complexa que \u00e9 para realizar essa infinidade de tarefas, tamb\u00e9m passa muito do limite de compreens\u00e3o do cidad\u00e3o m\u00e9dio quando d\u00e1 algum defeito.<\/p>\n<p>Tudo o que depende de outro ser humano \u00e9 menos previs\u00edvel. A bomba que traz \u00e1gua para o seu encanamento s\u00f3 faz aquilo. Ou ela est\u00e1 funcionando ou n\u00e3o est\u00e1. Podemos montar toda uma estrutura ao redor dela, porque sempre sabemos o que est\u00e1 acontecendo. Mas quando falamos de pol\u00edtica, por exemplo, vai saber o que se passa na cabe\u00e7a do l\u00edder eleito? Ele existe em mil estados paralelos de possibilidades, o que torna o processo frustrante no mundo todo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea pensar direito, vai entender que mesmo nas profiss\u00f5es que parecem mais complicadas de passar para ferramentas e m\u00e1quinas, como enfermeiros e psic\u00f3logos, eventualmente algo focado nisso vai se tornar mais valioso do que uma pessoa. Quando um elemento artificial consegue entregar resultados parecidos, o ser humano volta a ser uma pilha de incertezas; constru\u00eddo para ser h\u00e1bil em tudo, mas mestre em nada.<\/p>\n<p>Meu ponto aqui \u00e9 que substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 algo fundamental na nossa hist\u00f3ria. Cada passo da esp\u00e9cie \u00e9 substituindo esfor\u00e7o humano por esfor\u00e7o mec\u00e2nico. N\u00e3o precisamos contratar uma pessoa inteira para bater um prego, basta um martelo.<\/p>\n<p>At\u00e9 por isso eu continuo acreditando que o ser humano precisa come\u00e7ar a transi\u00e7\u00e3o para uma vida sem trabalho. A sequ\u00eancia l\u00f3gica que come\u00e7amos com as primeiras ferramentas de pedra dita que vamos terminar num mundo onde nos eliminamos do trabalho. Nem sei se isso acaba com o capitalismo, porque ainda vai ter interesse de muita gente de ter mais que o outro, mas a tend\u00eancia \u00e9 a escala 0x7, onde a maioria de n\u00f3s simplesmente n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, nem mesmo para se sustentar.<\/p>\n<p>Pode nem ser uma era de abund\u00e2ncia, onde todo mundo tem o que quiser, pode ser simplesmente uma era de desimport\u00e2ncia: se nossas m\u00e1quinas estiverem fazendo o suficiente e nenhum vil\u00e3o decidir bloquear a luz solar, o mundo tem energia e calorias suficientes para muito mais do que a popula\u00e7\u00e3o atual. E meio que da mesma forma como m\u00e1quinas fizeram o grosso da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no mundo moderno, elas provavelmente v\u00e3o fazer o mesmo com a necessidade de trabalhar.<\/p>\n<p>Sim, eu aposto que vamos ter incont\u00e1veis profiss\u00f5es inventadas para saciar o senso de prop\u00f3sito do ser humano m\u00e9dio, mas salvo um outro ser humano como \u00faltima linha de defesa contra defeitos das m\u00e1quinas, vai ser prop\u00f3sito inventado mesmo.<\/p>\n<p>Pensando por outro \u00e2ngulo, para visualizar melhor meu ponto: se a humanidade tivesse 8 bilh\u00f5es de pessoas uns dois s\u00e9culos atr\u00e1s, teria trabalho de sobra para todo mundo. Voc\u00ea estaria recebendo vinte cartas por dia com propostas de emprego (ou escravizado se n\u00e3o fosse de fam\u00edlia rica), porque para acomodar tanta gente com pouca tecnologia, precisa de muita m\u00e3o de obra. S\u00f3 existe fric\u00e7\u00e3o entre oferta e demanda de trabalho humano porque as m\u00e1quinas tiraram bilh\u00f5es de empregos poss\u00edveis nesse tempo.<\/p>\n<p>E v\u00e3o tirar mais. Ainda somos a melhor m\u00e1quina conhecida para fun\u00e7\u00f5es generalistas, mas quanto menos espa\u00e7o sobrar para um ser que consegue fazer de tudo um pouco, menos demanda pela sua&#8230; exist\u00eancia. \u00c9 objetivamente melhor ter um trator do que ter dez funcion\u00e1rios numa fazenda. Por isso que tanta gente saiu do ambiente rural e veio para as cidades. N\u00e3o tem demanda por gente l\u00e1. E francamente, cada vez menos nas cidades tamb\u00e9m. Isso vai precisar de resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o vejo como escapar dessa conversa: o que voc\u00ea vai fazer quando n\u00e3o precisarem mais de voc\u00ea? Porque essa \u00e9 a pergunta do futuro. Com tanto da nossa mente dedicado \u00e0 quest\u00e3o de sermos necess\u00e1rios num grupo, faz muito sentido ir preparando o pov\u00e3o para n\u00e3o ter o que fazer. A tecnologia s\u00f3 para em caso de desastre como um meteoro ou uma tempestade solar imensa. Extrapolando o futuro a partir do nosso presente, \u00e9 mais do que necess\u00e1rio achar um jeito de reduzir jornadas de trabalho sem pedir nada em troca, nem mesmo efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Porque efici\u00eancia sobe com nossos substitutos em ferramentas e m\u00e1quinas. Isso vai acontecer, com ou sem esfor\u00e7o do cidad\u00e3o m\u00e9dio. A produtividade do funcion\u00e1rio pregui\u00e7oso do s\u00e9culo XXI \u00e9 maior do que o mais esfor\u00e7ado dos esfor\u00e7ados em s\u00e9culos anteriores. O uga-buga que quebrou a primeira pedra para fazer um machado de m\u00e3o j\u00e1 resolveu o problema da produtividade milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, s\u00f3 estamos continuando o processo.<\/p>\n<p>Temos que resolver o problema da utilidade das pessoas num mundo em que nem elas precisam mais do pr\u00f3prio trabalho. E eu acho que isso passa muito por aceitar nossa inutilidade como uma vit\u00f3ria. A mentalidade \u201cLinkedIn\u201d de se matar pela empresa n\u00e3o \u00e9 o caminho, porque ela presume que o ser humano vai se tornar mais importante com o passar dos anos, e n\u00e3o vai. Talvez alguns que estejam lendo este texto j\u00e1 vivam o suficiente para ver o mundo come\u00e7ando essa transi\u00e7\u00e3o para a aceita\u00e7\u00e3o da inutilidade.<\/p>\n<p>Tem algo maior por tr\u00e1s dessas ondas de discuss\u00e3o sobre quanto trabalhamos hoje em dia, uma percep\u00e7\u00e3o talvez at\u00e9 inconsciente que a hora est\u00e1 chegando. Que estamos ficando bons demais em passar nossas tarefas para m\u00e1quinas e ferramentas, e sem nenhum plano B para a humanidade sen\u00e3o uns 10 bilh\u00f5es de influencers&#8230;<\/p>\n<p>Eu acredito que quem estiver mais preparado para ter uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o trabalha vai sair na frente. E infelizmente, prepara\u00e7\u00e3o intelectual e educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os caminhos mais eficientes para isso. Eu n\u00e3o quero nem imaginar o brasileiro m\u00e9dio sem nada para fazer&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o texto foi pregui\u00e7oso, para dizer que os ricos n\u00e3o v\u00e3o deixar (eles v\u00e3o continuar sendo ricos e n\u00e3o v\u00e3o precisar mais de voc\u00ea), ou mesmo para dizer agora entende que \u00e9 uma pessoa do futuro que nasceu no tempo errado: <a href=\"#respond\">comente<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 que escala de trabalho est\u00e1 na boca do povo, pode ser interessante pensar sobre como o trabalho deve mudar no futuro. 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