{"id":24705,"date":"2025-01-10T13:01:14","date_gmt":"2025-01-10T16:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=24705"},"modified":"2025-11-03T23:00:41","modified_gmt":"2025-11-04T02:00:41","slug":"emergencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/01\/emergencia\/","title":{"rendered":"Emerg\u00eancia."},"content":{"rendered":"<p>Julia descansava na sala dos m\u00e9dicos, como era seu costume em tardes pregui\u00e7osas de ver\u00e3o. O ar-condicionado n\u00e3o funcionava, mas a janela trazia uma brisa reconfortante. Com os p\u00e9s descal\u00e7os por cima da mesa de centro, finalmente tinha tempo para ver o presente deixado por um paciente agradecido pela manh\u00e3. O diminuto pote estava estranhamente bem embalado, com uma camada refor\u00e7ada de filme pl\u00e1stico. Depois de algum esfor\u00e7o, descobre o motivo. Um peda\u00e7o de queijo. Seus olhos brilham instantaneamente; mal se lembra do gosto, mas as mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia a fazem salivar imediatamente.<!--more--><\/p>\n<p>Ela olha para os lados para confirmar que est\u00e1 sozinha e parte para seu pr\u00eamio. Pouco antes de tocar a iguaria, escuta seu nome sendo gritado da sala de emerg\u00eancia. Ela larga tudo onde est\u00e1 e dispara em dire\u00e7\u00e3o ao problema. O corredor at\u00e9 a ala de destino est\u00e1 lotado de lixo, para variar. Julia j\u00e1 reclamara muitas vezes com a equipe, dizendo que uma hora ou outra algu\u00e9m vai escorregar e se machucar.<\/p>\n<p>Uma das enfermeiras aponta a dire\u00e7\u00e3o: numa das macas, um garoto de no m\u00e1ximo 10 anos de idade est\u00e1 extremamente p\u00e1lido, rosto inchado feito um bal\u00e3o. O jovem est\u00e1 nu sobre a maca, sendo atendido por tr\u00eas enfermeiras que se esfor\u00e7am para resfriar o corpo com compressas geladas. Julia chega at\u00e9 o rapaz e pergunta quanto tempo ele est\u00e1 assim. Uma mulher pr\u00f3xima se adianta: diz que \u00e9 seu filho e come\u00e7ou a ficar assim uma hora atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Julia j\u00e1 viu a cena in\u00fameras vezes. Choque anafil\u00e1tico. Crian\u00e7as s\u00e3o mais vulner\u00e1veis. O corpo rejeita com for\u00e7a as bact\u00e9rias injet\u00e1veis. Por melhor que seja a tecnologia, a natureza \u00e9 teimosa e ainda quer as originais. O v\u00edrus deve acabar vencendo a batalha, infelizmente, mas de nada adianta agora se o corpo falhar depois de uma rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica poderosa.<\/p>\n<p>Ela aponta para as inje\u00e7\u00f5es de adrenalina, a enfermeira mais pr\u00f3xima pega uma delas, lambe os dedos, esfrega na agulha para tirar o p\u00f3 e entrega para Julia, que injeta diretamente no acesso do bra\u00e7o. Ela tem que chutar a medida de acordo com o tamanho do garoto, parando a inje\u00e7\u00e3o mais ou menos no meio do caminho. Ela devolve a inje\u00e7\u00e3o para a enfermeira, que coloca de volta em cima do m\u00f3vel ao lado da cama.<\/p>\n<p>Ela prescreve um coquetel de antial\u00e9rgicos e se volta para a m\u00e3e, que observa calmamente. Julia pergunta quantas vezes isso j\u00e1 aconteceu, a mulher responde que j\u00e1 perdeu as contas. O menino simplesmente n\u00e3o parece ser compat\u00edvel com as bact\u00e9rias dispon\u00edveis. Diz que viu que na Nig\u00e9ria parece que tem uma varia\u00e7\u00e3o menos al\u00e9rgica, mas que o governo n\u00e3o oferece ainda. Julia responde com um aceno de cabe\u00e7a desanimado.<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 havia pedido estoques de bact\u00e9rias injet\u00e1veis de diversos outros pa\u00edses, fizera seu doutorado nas variedades amaz\u00f4nicas, e sabia que pelo excesso de uso, alguns pacientes s\u00f3 respondiam \u00e0s africanas ou do sul asi\u00e1tico. O governo em Bel\u00e9m dizia que estava providenciando, mas j\u00e1 estava sem esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Julia toca o ombro da m\u00e3e da crian\u00e7a e se afasta. Quando se formou em medicina, tudo era diferente. Num mundo com bact\u00e9rias naturais, aprendeu li\u00e7\u00f5es e li\u00e7\u00f5es sobre profilaxia, mas quase nada sobre como cultivar bact\u00e9rias. Vinte anos atr\u00e1s, algu\u00e9m, provavelmente os chineses, liberou um v\u00edrus ca\u00e7ador de bact\u00e9rias extremamente eficaz. Vinte anos atr\u00e1s, a vida na Terra era poss\u00edvel al\u00e9m de ambientes extremamente quentes e \u00famidos.<\/p>\n<p>Viu mais de 90% da humanidade perecer de desnutri\u00e7\u00e3o, sem flora estomacal ou intestinal. Viu quase todas as esp\u00e9cies falharem em se adaptar, com apenas uma minoria de bact\u00e9rias especializadas sobrevivendo. Bact\u00e9rias de ouro, modificadas em laborat\u00f3rio para realizar as fun\u00e7\u00f5es das que utiliz\u00e1vamos para processar e absorver nutrientes. O problema \u00e9 que s\u00f3 se reproduziam com efici\u00eancia em ambientes extremamente isolados do v\u00edrus, que de t\u00e3o proeminente se tornou apenas o v\u00edrus no linguajar popular.<\/p>\n<p>A vida s\u00f3 era poss\u00edvel com inje\u00e7\u00f5es regulares de bact\u00e9rias. E nem todos os seres humanos eram compat\u00edveis. Alguns organismos simplesmente rejeitavam a carga bacteriana usada para recuperar as capacidades de alimenta\u00e7\u00e3o do ser humano. Para isso, precisavam tentar esp\u00e9cies diferentes criadas em outros grandes centros populacionais. Mas com o colapso do com\u00e9rcio internacional, menos e menos cargas atravessavam os oceanos.<\/p>\n<p>Todo dia a mesma cena, in\u00fameras vezes. Alergias violentas causadas por bact\u00e9rias injet\u00e1veis. Sem bact\u00e9rias para enfrentar, o nosso sistema imunol\u00f3gico se tornara um monstro incontrol\u00e1vel. Nenhum v\u00edrus ou qualquer parasita se criava no corpo humano, nenhuma infec\u00e7\u00e3o bacteriana era capaz de fazer mal para algu\u00e9m por mais que alguns minutos. Doen\u00e7as causadas por insetos? Seriam um problema se tiv\u00e9ssemos insetos. A maioria desapareceu. Semana passada, Julia e duas enfermeiras passaram tr\u00eas horas tentando salvar uma barata que aparecera no hospital. O pequeno milagre da natureza desapareceu no meio do lixo, num final decepcionante.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o do m\u00e9dico se resumia a tratar acidentes e alergias. Tanto que a maioria dos hospitais n\u00e3o precisavam mais deles. Eram um luxo, formados em tempos diferentes e relegados a segundo plano em prol de enfermeiros e enfermeiras mais especializados nas \u00fanicas causas de morte ainda poss\u00edveis. Apenas emerg\u00eancias como o Novo Hospital de Manaus ainda trabalhavam com pessoas como ela.<\/p>\n<p>O menino passava bem. Segundo a m\u00e3e, ele sempre se recuperava, mas era s\u00f3 quest\u00e3o de tempo at\u00e9 ela voltar com o jovem nos bra\u00e7os depois da pr\u00f3xima inje\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias. Julia volta at\u00e9 a sala onde deixara o pequeno peda\u00e7o de queijo, provavelmente feito com leite armazenado por d\u00e9cadas e decomposto por bact\u00e9rias que deveriam valer milh\u00f5es, se ainda estivessem vivas.<\/p>\n<p>O pote pl\u00e1stico estava vazio. Algu\u00e9m havia chegado antes dela. Julia, enfurecida com uma oportunidade que provavelmente nunca mais teria na vida, come\u00e7a a abordar enfermeira por enfermeira. Num mundo praticamente sem cheiros naturais, as pessoas se esfor\u00e7am muito para ter qualquer odor corporal, ficando meses sem tomar banhos. Mas n\u00e3o importa o quanto tentassem cultivar esses cheiros para atrair parceiros, eles sempre foram dependentes de bact\u00e9rias. O h\u00e1lito de quem comeu um peda\u00e7o de queijo seria reconhec\u00edvel do outro lado da rua.<\/p>\n<p>Julia exige que cada uma das suas colegas de trabalho abra a boca e chega bem perto para sentir o cheiro. Imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer a culpada. As outras jovens do local nem sabiam que cheiro era aquele, mas Julia, do alto dos seus sessenta anos de idade, uma das pessoas mais velhas do mundo, Julia sabia muito bem o que estava procurando. E \u00e9 claro, achou.<\/p>\n<p>A jovem, chamada Vanessa, come\u00e7ara no trabalho h\u00e1 poucos meses. Ela disse que n\u00e3o sabia o que era, mas o cheiro era de enlouquecer. Com l\u00e1grimas nos olhos, dizia que n\u00e3o sabia que era algo t\u00e3o raro. Julia respira fundo, a f\u00faria nos olhos se torna compreens\u00e3o. Ela se lembra de como essas crian\u00e7as sofreram. Vanessa tinha o qu\u00ea? 19 anos de idade. Ela nunca sequer viu uma vaca, quanto mais leite ou queijo.<\/p>\n<p>Cresceu com inje\u00e7\u00f5es dolorosas direto na barriga, num planeta moribundo cuja expectativa de vida ca\u00edra para pouco mais de 40 anos de idade. Um mundo est\u00e9ril que n\u00e3o ligava mais para beleza, poesia ou qualquer um desses objetivos nobres de antigamente. Para ela, um peda\u00e7o de queijo era uma mem\u00f3ria feliz, para Vanessa era uma experi\u00eancia religiosa&#8230;<\/p>\n<p>Julia se acalma, abra\u00e7a a jovem e diz que est\u00e1 tudo bem. Ela chora copiosamente no seu ombro. Mais um dia no inferno. Mais um dia esperando pela natureza se curar. Julia afasta a cabe\u00e7a para olhar nos olhos de Vanessa e diz que j\u00e1 que est\u00e1 feito, ela deveria pegar o resto do dia de folga e fazer uma surpresa para o namorado. Vanessa ri, enxugando as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>A enfermeira aceita o mimo. Julia pensa em voltar para a sala de descanso, mas escuta seu nome sendo chamado mais uma vez. O dia continua na emerg\u00eancia, sabe-se l\u00e1 quantos mais ela ter\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julia descansava na sala dos m\u00e9dicos, como era seu costume em tardes pregui\u00e7osas de ver\u00e3o. O ar-condicionado n\u00e3o funcionava, mas a janela trazia uma brisa reconfortante. Com os p\u00e9s descal\u00e7os por cima da mesa de centro, finalmente tinha tempo para ver o presente deixado por um paciente agradecido pela manh\u00e3. 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