{"id":26610,"date":"2025-02-25T12:57:12","date_gmt":"2025-02-25T15:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=26610"},"modified":"2025-11-18T19:32:00","modified_gmt":"2025-11-18T22:32:00","slug":"insanidade-temporaria-do-viajante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/02\/insanidade-temporaria-do-viajante\/","title":{"rendered":"Insanidade Tempor\u00e1ria do Viajante"},"content":{"rendered":"<p>Existe um fen\u00f4meno fascinante que pude perceber tanto no meu povo, como no povo de voc\u00eas: um surto de falta de educa\u00e7\u00e3o quando saem de f\u00e9rias. \u00c9 assustadoramente comum ver brasileiros e argentinos passando vergonha quando viajam a descanso. Se transformam, parecem possu\u00eddos, se tornam pessoas odiosas. Eu chamo de Insanidade Tempor\u00e1ria do Viajante, mas \u00e9 apenas um nome que eu dei.<!--more--><\/p>\n<p>E n\u00e3o estou falando de diferen\u00e7as culturais que fazem a pessoa parecer sem educa\u00e7\u00e3o. Estou falando de falta de educa\u00e7\u00e3o genu\u00edna. Estou falando de pessoas em tese bem-educadas, que provavelmente n\u00e3o fariam nada daquilo em suas casas, em seus bairros, sob olhar dos seus vizinhos, mas se transformam em monstros sem no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de conviv\u00eancia e civilidade quando viajam.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 por desconhecer as normas. S\u00e3o pessoas que sabem muito bem que n\u00e3o se deve falar aos berros, que n\u00e3o se devem roubar objetos e que n\u00e3o se deve urinar no ch\u00e3o. Ainda assim, o fazem quando est\u00e3o longe da sua casa. N\u00e3o sei que disritmia cerebral \u00e9 essa que ataca o viajante, mas \u00e9 feio demais.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho a menor ideia das raz\u00f5es que levam a isso, e, francamente, se a psicologia e z\u00e9 ningu\u00e9m, a arriscar um palpite. Quero apenas falar das faltas de educa\u00e7\u00e3o mais recorrentes para que voc\u00ea, leitor, se policie e se corrija caso sofra desse surto quando se afastar de casa.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar falando do mal-educado arrogante. Aquele turista que se acha o ser mais importante do planeta e n\u00e3o admite se contrariado, trata mal os outros e reage pior ainda quando algu\u00e9m tenta lhe colocar limites.<\/p>\n<p>J\u00e1 vi pessoas respeitosas em seu habitat natural que, basta subir em um avi\u00e3o, come\u00e7am a se incomodar e se ofender com restri\u00e7\u00f5es e ordens da tripula\u00e7\u00e3o. Parecem achar um desaforo que lhe coloquem regras. N\u00e3o sei se \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a por estar pagando caro uma passagem e a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que quando se paga tanto dinheiro voc\u00ea pode fazer o que quiser ou se \u00e9 algum tipo de efeito f\u00edsico da altitude. O ponto \u00e9: cada vez mais comum ver uma pessoa supostamente s\u00e3 despirocando em um avi\u00e3o.<\/p>\n<p>E essa s\u00edndrome de grandeza e import\u00e2ncia pode continuar quando chegam ao seu destino. Exigem ser atendidos imediatamente, n\u00e3o admitem fazer filas e chegam ao absurdo de n\u00e3o aprender o idioma local, falando apenas o seu, e reclamar que os nativos locais n\u00e3o o compreendem, taxando-os de burros ou coisa pior. E ai de quem repreender, chamar a aten\u00e7\u00e3o ou reclamar, esses turistas costumam ficar superagressivos.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante irracional pensar que todo um pa\u00eds deve aprender o seu idioma assim, caso um dia Vossa Majestade decida visit\u00e1-los por 15 dias, as pessoas podem melhor atend\u00ea-lo. N\u00e3o acredito que uma pessoa minimamente adequada \u00e0 sociedade pense assim. Mas, vira alguma chave no c\u00e9rebro e as demandas absurdas se instauram.<\/p>\n<p>Temos ainda a pessoa que perde a no\u00e7\u00e3o de certo e errado. Ela furta coisas, ela alimenta animais onde n\u00e3o pode, ela tira foto onde \u00e9 proibido, ela mete a m\u00e3o em obras de arte. Por estar longe do seu pa\u00eds, ela se sente em uma terra sem lei. Ao contr\u00e1rio do anterior, n\u00e3o \u00e9 por arrog\u00e2ncia. Ela n\u00e3o pensa na proibi\u00e7\u00e3o e diz \u201cEu sou mais importante que o resto, eu n\u00e3o vou me sujeitar a isso\u201d. Ela pensa na proibi\u00e7\u00e3o e diz \u201cIsso \u00e9 besteira\u201d e quebra a regra.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a pessoa perdesse o par\u00e2metro de certo e errado. Essa linha fica nublada e ela n\u00e3o v\u00ea problema em fazer nada do que faz. N\u00e3o \u00e9 uma escolha infringir a lei, as normas ou as regras de civilidade, a pessoa simplesmente n\u00e3o consegue ver o qu\u00e3o errado \u00e9 o que ela est\u00e1 fazendo. \u00c9 como se ao desligar o modo \u201ctrabalho\u201d por causa das f\u00e9rias, tamb\u00e9m desligasse o modo \u201ccumprimento de normas\u201d.<\/p>\n<p>Esta semana vi uma not\u00edcia sobre um infeliz que resolveu tomar banho na Fontana di Trevi em Roma. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9, <a href=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/1024\/branded_mundo\/3866\/live\/91f330f0-c160-11ef-a964-0721b998793b.jpg\" target=\"_blank\">clica nesta foto<\/a>. \u00c9 uma fonte repleta de esculturas de valor incalcul\u00e1vel, enorme, que vive cheia de gente tirando foto. Imagina o grau de confus\u00e3o mental que uma pessoa tem que ter para ver isso e achar que ela, s\u00f3 ela, \u00e9 merecedora de entrar na \u00e1gua?<\/p>\n<p>Mesmo sem m\u00e1s-inten\u00e7\u00f5es, esse tipo de turista pode ser muito destrutivo. Imagina o que aconteceria se cada turista pegasse uma plantinha do lugar que visita. A pessoa acha que \u00e9 ok s\u00f3 ela fazer, perde a no\u00e7\u00e3o de coletividade, de respeito, de adequa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 tor\u00e7o para que esse devaneio passe antes dessas pessoas embarcarem de volta para suas casas, pois aeroportos, controles de fronteiras e Pol\u00edcia Federal n\u00e3o ligam a m\u00ednima para sua insanidade tempor\u00e1ria. J\u00e1 vi gente saindo algemada por tentar embarcar uma mudinha de planta que queria levar para o seu pa\u00eds. Uma hora o limite chega.<\/p>\n<p>Temos ainda o tipo que n\u00e3o destr\u00f3i nada, mas se comporta sem limites. Tira a roupa, canta alto, bota o p\u00e9 na mesa, bebe at\u00e9 cair. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o fariam isso em suas casas, mas parece que todo e qualquer senso de repress\u00e3o fica em seu pa\u00eds natal.<\/p>\n<p>Gritam, fazem piada com a apar\u00eancia f\u00edsica dos outros, beliscam a comida do prato dos outros, se comportam como verdadeiros lun\u00e1ticos. N\u00e3o parece haver grada\u00e7\u00e3o entre relaxar e se soltar um pouco por estar de f\u00e9rias e se comportar como um completo maluco sem regras. <\/p>\n<p>O mais triste \u00e9 que geralmente n\u00e3o s\u00e3o muito bons nas coisas que decidem fazer. Os que pior cantam s\u00e3o os que sobem em um palco e arrancam o microfone da m\u00e3o do vocalista da banda que cantava m\u00fasica ao vivo. Os que pior dan\u00e7am s\u00e3o os que puxam pessoas aleat\u00f3rias para dan\u00e7ar. O semancol entra em coma e a pessoa perde qualquer sendo m\u00ednimo de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos ainda o turista destemido, aquele que perde completamente o senso de perigo. Ele n\u00e3o d\u00e1 vexame nem importuna os outros, como os anteriores, mas seu psicol\u00f3gico parece bloquear qualquer instinto de autopreserva\u00e7\u00e3o e a pessoa perder a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 perigoso e do que n\u00e3o \u00e9. Eu n\u00e3o acho que a pessoa queira desafiar a morte, ela realmente acha que nada vai acontecer.<\/p>\n<p>A\u00ed vai mergulhar com tubar\u00f5es, pula se penhasco em dire\u00e7\u00e3o ao mar sem saber se tem pedras debaixo d&#8217;\u00e1gua, vai fazer tour por favela, experimenta um comprimido que um completo estranho deu a ele em uma festa. Salvo uma grande sorte, isso acaba no necrot\u00e9rio, no hospital ou na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a pessoa que n\u00e3o segue as instru\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a em um saf\u00e1ri e estica a m\u00e3o para encostar em um predador. \u00c9 a pessoa que quer escalar uma montanha muito acima da sua capacidade f\u00edsica do dia para a noite. \u00c9 a pessoa que fica torrando 10 horas ao sol sem passar protetor solar ou se hidratar corretamente. \u00c9 a pessoa que n\u00e3o coloca colete salva-vidas em um barco pois ela sabe nadar. Parece que ao desligar o senso de responsabilidade profissional d\u00e1 um bug no c\u00e9rebro e ele desliga qualquer senso de responsabilidade.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro tinha muito desse tipo. Turista que se mete a nadar no mar do Rio de Janeiro, a menos que seja um ex\u00edmio nadador, est\u00e1 com parte do c\u00e9rebro comprometida. Temporada de f\u00e9rias o helic\u00f3ptero de salvamento trabalha o dia todo pescando os idiotas irrespons\u00e1veis com aquela redinha. S\u00e3o recebidos com aplausos debochados na areia.<\/p>\n<p>Agora falemos do Turista Instagram, aquele cujo \u00fanico prop\u00f3sito parece ser conseguir fotos e v\u00eddeos instagram\u00e1veis do local. Ele n\u00e3o parece querer viver a experi\u00eancia, conhecer a cultura ou se divertir, sua meta \u00e9 coletar material que fique bonito em fotos e v\u00eddeos. E, para isso, meus queridos, ele pode se tornar todos os outros acima.<\/p>\n<p>Pode ter um surto de raiva se algum lugar o pro\u00edbe de filmar ou tirar foto. Pode se colocar em risco por uma foto perfeita (toda semana a gente v\u00ea um caso assim!), pode desrespeitar pessoas e cultura e fazer todo tipo de atrocidade. Se sua viagem n\u00e3o culminar em belas fotos e v\u00eddeos, ela n\u00e3o ter\u00e1 valido nada.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 vi pessoas em restaurante que decidiram n\u00e3o escolher prato pelo sabor e sim pela est\u00e9tica, perguntando ao gar\u00e7om qual ficaria mais bonito em uma foto. J\u00e1 vi gente pendurada de penhasco, de trem, de janela de hotel para conseguir uma \u201cboa\u201d foto para redes sociais. <\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas que fazem Story de tudo que fazem, n\u00e3o tem um minuto de quietude para vivenciar aquilo. Assistem a show, p\u00f4r do sol ou o que quer que seja pelas lentes do celular. O importante \u00e9 documentar do jeito certo para ganhar muitos likes, a viagem em si acaba se tornando secund\u00e1ria. N\u00e3o s\u00e3o viajantes, s\u00e3o coletores de material audiovisual. Meus p\u00easames para quem viaja com esse tipo de turista chato e f\u00fatil.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m o turista sexual, aquele que faz da sua viagem uma empreitada para fazer sexo. Conhecer lugares, culturas e comidas \u00e9 secund\u00e1rio, ele mira em sexo o tempo todo e tem orgulho disso. Pode ser com funcion\u00e1rio do hotel, com nativo local ou com outro turista, n\u00e3o importa, a prioridade \u00e9 sexo.<\/p>\n<p>E fazem quest\u00e3o de dizer ao mundo que querem sexo, que s\u00f3 pensam em sexo, que sexo \u00e9 muito importante e indispens\u00e1vel para que uma viagem seja boa. \u00c9 quase uma obsess\u00e3o. A pessoa acha bonito ser monotem\u00e1tica. Homem se acha muito macho e pegador e mulher acha que esse postura pseudo-ninfoman\u00edaca \u00e9 muito sexy aos olhos dos homens. N\u00e3o e n\u00e3o. Todos fazem papel de idiotas.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o assim em seu pa\u00eds natal. Por algum motivo o c\u00e9rebro abra\u00e7a a cren\u00e7a de que sem sexo n\u00e3o h\u00e1 divers\u00e3o e a pessoa foca nisso. E muitas vezes a pessoa cruza algumas linhas para conseguir o que quer, com comportamentos libidinosos que podem ser, na melhor das hip\u00f3teses, ofensivos e na pior crimes.<\/p>\n<p>Por fim, temos o turista que odeia o hotel. \u00c9 o turista que se comporta bem na cidade que visita, mas quando chega no hotel vira o ser mais mal-educado, golpista e abusado do planeta. Ele parece ressentido por estar pagando aquele hotel e est\u00e1 disposto a reaver seu dinheiro, seja dando extra trabalho, seja com bens.<\/p>\n<p>Ele limpa a bunda com a toalha branca, pega comida do caf\u00e9 da manh\u00e3 e guarda em saquinhos, deixa o quarto um lixo e faz todo tipo de atrocidade pois ele \u201cest\u00e1 pagando\u201d e vai fazer valer ao m\u00e1ximo o seu dinheiro. Parece que esquece que nesse hotel trabalham pessoas, que s\u00e3o filhas de algu\u00e9m, que s\u00e3o m\u00e3e de algu\u00e9m, que s\u00e3o seres humanos que n\u00e3o tem por que subir em escada para pegar a camisinha que ele jogou no lustre.<\/p>\n<p>Essa ideia de se exceder por \u201cestar pagando\u201d \u00e9 uma mentalidade muito ruim. Se estou pagando pelo buf\u00ea vou comer at\u00e9 passar mal. Se estou pagando pela limpeza do quarto vou fazer a maior bagun\u00e7a poss\u00edvel. Se estou pagando pela piscina vou usar ela o m\u00e1ximo que puder. Em vez de se preocupar em curtir a viagem e fazer o que tem vontade, a pessoa parece focada em dar preju\u00edzo ao hotel.<\/p>\n<p>E \u00e0s vezes d\u00e1. Leva tudo que pode quando vai embora. O que \u00e9 brinde e o que n\u00e3o \u00e9. Potinho de shampoo e condicionador \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o. J\u00e1 vi gente levar roup\u00e3o, toalha e at\u00e9 l\u00e2mpada que tirou do abajur. Uma vergonha. Ningu\u00e9m colocou uma arma na cabe\u00e7a da pessoa e a obrigou a pagar aquele hotel, se ela achou caro, poderia ir a outro. Ir ao hotel e ficar tentando recuperar o dinheiro levando itens \u00e9 o c\u00famulo da pobreza de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Certamente existem muitos outros tipos de turistas inconvenientes, e vamos adorar ouvir mais sobre eles nos coment\u00e1rios, mas, n\u00e3o importa quantos existam, a mensagem deste texto \u00e9: n\u00e3o seja um deles. <\/p>\n<p>Quando estiver viajando e resolver fazer algo, se pergunte se voc\u00ea faria isso na sua casa, no seu bairro, na frente dos seus amigos, vizinhos, familiares. \u00c9 algo que voc\u00ea encorajaria seus filhos a fazerem? \u00c9 algo que voc\u00ea acharia aceit\u00e1vel se um turista fizesse na frente da sua fam\u00edlia? Se a resposta a qualquer dessas proposi\u00e7\u00f5es for \u201cn\u00e3o\u201d, sufoca a vontade e n\u00e3o fa\u00e7a. Voc\u00ea est\u00e1 tomado pela insanidade tempor\u00e1ria do viajante, lute contra ela.<\/p>\n<p>Suponho que todos n\u00f3s estejamos sujeitos a essa Insanidade Tempor\u00e1ria do Viajante, que nos faz perder algo dos padr\u00f5es, do bom-senso e da educa\u00e7\u00e3o. Mas, somos racionais e podemos nos observar e ajustar nosso comportamento para ser turistas agrad\u00e1veis, educados e civilizados.<\/p>\n<p>Reparem em voc\u00eas mesmos quando viajarem. Sejamos melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um fen\u00f4meno fascinante que pude perceber tanto no meu povo, como no povo de voc\u00eas: um surto de falta de educa\u00e7\u00e3o quando saem de f\u00e9rias. \u00c9 assustadoramente comum ver brasileiros e argentinos passando vergonha quando viajam a descanso. Se transformam, parecem possu\u00eddos, se tornam pessoas odiosas. 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