{"id":29706,"date":"2025-06-06T15:43:07","date_gmt":"2025-06-06T18:43:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=29706"},"modified":"2025-11-03T19:56:24","modified_gmt":"2025-11-03T22:56:24","slug":"armadilha-malthusiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/06\/armadilha-malthusiana\/","title":{"rendered":"Armadilha Malthusiana"},"content":{"rendered":"<p>A teoria malthusiana pregava que dado aumento suficiente da popula\u00e7\u00e3o, a nossa capacidade de produzir comida ficaria para tr\u00e1s, criando caos social. Ou seja, nossa prosperidade eventualmente levaria a uma armadilha. A teoria assustou gente por muitas d\u00e9cadas&#8230; at\u00e9 que percebemos um erro fundamental: prosperidade continuada reduz o crescimento populacional. A armadilha era outra.<!--more--><\/p>\n<p>Thomas Malthus, o respons\u00e1vel pela teoria, nasceu em 1776 na Inglaterra. Do seu ponto de vista hist\u00f3rico, n\u00e3o era uma m\u00e1 ideia. As pessoas realmente tinham muitos filhos, e o cidad\u00e3o m\u00e9dio estava muito mais exposto a ficar sem comida do dia para a noite. A presun\u00e7\u00e3o era baseada na natureza, porque animais realmente se multiplicam at\u00e9 o colapso da fonte de alimento. \u00c9 uma ferramenta de equil\u00edbrio populacional que simplesmente funciona.<\/p>\n<p>Agora parece \u00f3bvio que n\u00e3o \u00e9 bem assim que funciona com humanos, mas tinha sua l\u00f3gica. O lado feio dessa hist\u00f3ria \u00e9 que a partir da teoria malthusiana, muita gente enxergou a necessidade de tratar os mais pobres como gado. E com uma preocupa\u00e7\u00e3o nobre sobre sustentabilidade da esp\u00e9cie e da sociedade para proteger o pensamento. Precis\u00e1vamos controlar o n\u00famero de pobres numa sociedade porque eventualmente eles morreriam de forma horr\u00edvel quando acabasse a comida.<\/p>\n<p>E desde que essa ideia se popularizou, passamos quase dois s\u00e9culos acreditando que havia algo realmente justo em tentativas de controle populacional. Precis\u00e1vamos pensar na armadilha malthusiana e evitar excessos de pessoas pouco produtivas. E chame de pessoas pouco produtivas ou parasitas todos que voc\u00ea n\u00e3o gostar, porque o ser humano n\u00e3o perde uma chance de pintar de ouro seus preconceitos pessoais.<\/p>\n<p>Hoje, em 2025, aposto que se voc\u00ea falar sobre a ideia da teoria malthusiana para a maioria das pessoas desse mundo, a tend\u00eancia \u00e9 concordarem. \u00c9 intuitivo assim. J\u00e1 \u00e9 algo que ficou para tr\u00e1s na imensa maioria dos pesquisadores e especialistas nas \u00e1reas humanit\u00e1rias, mas nunca deixou o imagin\u00e1rio popular. At\u00e9 porque n\u00e3o precisou de Malthus para essa ideia surgir na nossa mente, ele s\u00f3 formalizou a teoria.<\/p>\n<p>O primeiro ponto deste texto \u00e9 falar sobre a teoria e porque \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil acreditar nela. Se o seu pasto alimenta 100 vacas, colocar 200 vai fazer todas ficarem com fome. No segundo que voc\u00ea fica sabendo ou \u00e9 relembrado sobre a teoria malthusiana, a tend\u00eancia \u00e9 que voc\u00ea concorde na hora. Faz sentido.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 falar sobre como estamos vendo na pr\u00e1tica que a armadilha n\u00e3o era essa, n\u00e3o com seres humanos. O aumento da popula\u00e7\u00e3o humana funciona de forma diferente, porque conseguimos aumentar nossa produtividade por pessoa. O gado no pasto costuma manter sua m\u00e9dia de consumo e retorno gera\u00e7\u00e3o por gera\u00e7\u00e3o, o ser humano consegue retornar cada vez mais pelo consumo a cada avan\u00e7o geracional. Isso vale para o noruegu\u00eas rico e para o indiano pobre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, mesmo que nossa popula\u00e7\u00e3o dobre a cada cinquenta anos, se a nossa produtividade for duas vezes e meia maior nesse mesmo tempo, ainda estamos no positivo com espa\u00e7o para mais gente. E do come\u00e7o da Era Industrial at\u00e9 agora, nossa produtividade est\u00e1 ganhando de goleada do nosso aumento populacional. Malthus n\u00e3o previu (e provavelmente nem tinha como prever) esse salto espetacular de retorno sobre investimento do ser humano em t\u00e3o pouco tempo.<\/p>\n<p>O que aconteceu ainda mais fora da previs\u00e3o foi que popula\u00e7\u00f5es que aumentaram sua produtividade come\u00e7aram a se reproduzir menos. N\u00e3o importa o pa\u00eds: aumenta qualidade de vida, as pessoas come\u00e7am a ter menos filhos. Aumenta a educa\u00e7\u00e3o, esse valor fica ainda menor. Depois que taxas de natalidade come\u00e7aram a desabar em todos os pa\u00edses ricos e logo depois naqueles considerados em desenvolvimento, ficou \u00f3bvio.<\/p>\n<p>A produtividade do pobre era o filho. \u00c9 assim que se gera valor na sua vida quando outras fontes est\u00e3o limitadas. Aumenta a sua fam\u00edlia para gerar mais poder e capacidade de gera\u00e7\u00e3o de recursos. E faz ainda mais considerando a terr\u00edvel taxa de perda de crian\u00e7as em locais subdesenvolvidos.<\/p>\n<p>Um aparte: sempre quando voc\u00ea v\u00ea que a expectativa de vida no passado era de 30 ou 40 anos, \u00e9 importante lembrar que esses n\u00fameros s\u00e3o baseados em mortalidade infantil alt\u00edssima. Quem chegava \u00e0 vida adulta vivia bem mais que isso, nunca faltou velho da humanidade, \u00e9 que da m\u00e9dia das pessoas que nasciam, 1 chegava aos 60 para cada 10 que morriam antes dos 5. Isso que joga a m\u00e9dia para baixo: mortalidade infantil.<\/p>\n<p>O aumento de qualidade de vida primeiro impacta a quantidade de crian\u00e7as que sobrevivem, tirando o incentivo dos pais de ficar adicionando mais e mais pessoas na fam\u00edlia. E considerando o quanto o ser humano atual \u00e9 produtivo, uma pessoa a mais na fam\u00edlia hoje j\u00e1 entrega valor suficiente para compensar umas tr\u00eas ou quatro de s\u00e9culos anteriores.<\/p>\n<p>A armadilha ent\u00e3o \u00e9 outra: voc\u00ea aumenta tanto o valor produzido por cada ser humano que precisamos de menos para chegar nos mesmos resultados. Mas se tivermos menos, a demanda por produtividade cai. Sim, eu sei que parece absurdo falar de pouca gente num mundo com mais de 8 bilh\u00f5es previsto para bater 10 em poucas d\u00e9cadas, mas mesmo os pa\u00edses mais populosos j\u00e1 est\u00e3o chegando ou passando da fase de crescimento.<\/p>\n<p>Imaginamos um mundo de dezenas de bilh\u00f5es pedindo por mais e mais efici\u00eancia para gerar mais e bilh\u00f5es. Esse mundo n\u00e3o faz sentido. N\u00e3o porque os recursos v\u00e3o acabar, porque estamos vendo na pr\u00e1tica como a sociedade n\u00e3o se importa de verdade em conserva\u00e7\u00e3o ambiental, mas porque estamos chegando num auge de produtividade tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s poderia entregar mais no trabalho, \u00e9 claro, mas me parece que n\u00e3o estamos precisando tanto assim. Tenha em vista como uma das profiss\u00f5es mais desejadas por jovens \u00e9 ser influencer. Existe algo maior por tr\u00e1s da profus\u00e3o de profiss\u00f5es que pouco produzem na vida pr\u00e1tica: redu\u00e7\u00e3o de demanda. Vai come\u00e7ar devagar, porque o grupo elevado de idosos ainda vai consumir bastante, mas eventualmente o n\u00famero de pessoas diminui, e com IA e automatiza\u00e7\u00e3o comendo soltas, a produtividade por cabe\u00e7a vai subir de novo.<\/p>\n<p>E a\u00ed a armadilha malthusiana reversa: se continuarmos t\u00e3o produtivos, o valor do grupo humano diminui. Voc\u00ea simplesmente precisa de menos pessoas para fazerem as mesmas coisas. Eu argumento que estamos tendo menos filhos tamb\u00e9m porque filhos valem mais individualmente. Voc\u00ea vai fazendo as mesmas coisas com menos gente, e com menos gente voc\u00ea n\u00e3o precisa mais fazer tantas coisas&#8230; um ciclo que pode se repetir seguidas vezes at\u00e9 a pr\u00f3pria ideia de economia de escala come\u00e7ar a ruir.<\/p>\n<p>Muitas das coisas das quais gostamos ou mesmo dependemos s\u00f3 funciona por causa de uma demanda imensa. Produzir em escala baixa pre\u00e7os e coloca diversos produtos e servi\u00e7os dentro do poder aquisitivo do cidad\u00e3o. Se existe um equil\u00edbrio entre n\u00famero de pessoas consumindo e o custo desses produtos, uma humanidade que encolhe e se sente menos pressionada por produtividade pode quebrar todos eles.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea come\u00e7ou a pensar na \u201cpregui\u00e7a\u201d do zoomer como um sintoma dessa armadilha, somos dois. \u00c9 bem poss\u00edvel que mesmo que inconscientemente, a profus\u00e3o de influencers e diversos outros empregos menos presos numa realidade produtiva j\u00e1 estejam mostrando um mundo que depende menos do trabalho deles. Especialmente em sociedades mais bem resolvidas como as de pa\u00edses ricos e m\u00e9dios (como o Brasil).<\/p>\n<p>Menos emprego em f\u00e1brica e em fazenda mexe com a percep\u00e7\u00e3o das pessoas sobre a urg\u00eancia da sua contribui\u00e7\u00e3o para a sociedade. Se estamos entrando na armadilha de resolver tanto a quest\u00e3o dos recursos para o cidad\u00e3o m\u00e9dio (temos comida para o mundo todo n\u00e3o passar fome, os problemas s\u00e3o log\u00edsticos e sociopol\u00edticos, n\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o) que ele mesmo deixa de se importar com escassez.<\/p>\n<p>E a\u00ed, o \u00edmpeto de gerar valor com esfor\u00e7o e com filhos fica menor. Eu sei que pode parecer uma vis\u00e3o reducionista fazendo as for\u00e7as de mercado definirem tudo, mas eu estou falando sobre algo que est\u00e1 no fundo da mente de todo mundo que n\u00e3o est\u00e1 literalmente passando fome. Em poucas d\u00e9cadas, a oferta cresceu tanto que n\u00e3o tem como n\u00e3o se sentir um pouco perdido sobre o que fazer dessa vida. Parece que j\u00e1 tem gente em todos os lugares que pensamos da economia, que o mercado est\u00e1 resolvido.<\/p>\n<p>Essa ideia de estarmos acima da linha necess\u00e1ria de produtividade pode n\u00e3o ser bem articulada pela maioria das pessoas, mas eu acho que ela \u00e9 sentida. De alguma forma, as pessoas sabem que podem produzir muito mais que em qualquer outra era da nossa hist\u00f3ria, mas que ao mesmo tempo sua contribui\u00e7\u00e3o individual \u00e9 menos importante.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de um colapso baseado em excesso de gente disputando os mesmos recursos, temos um excesso de recursos que n\u00e3o consegue ser utilizado por essa gente. Igualdade ajudaria muito nessa parte, tem recursos demais presos na m\u00e3o de pouca gente. Mas isso \u00e9 \u00f3bvio, todo pa\u00eds que premia esfor\u00e7o com recursos tende a se dar muito bem. O que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio \u00e9 que podemos estar vendo gera\u00e7\u00f5es sabotarem a produtividade mundial por pura necessidade de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Porque para escapar da armadilha malthusiana, o ser humano produziu muito mais recursos do que produziu pessoas. Mas ao escapar dela, o recurso humano se desvalorizou. Em tese, bastaria ser meio incompetente por um tempo para deixar a popula\u00e7\u00e3o voltar a nos pressionar, mas o movimento de trabalhar menos (produzindo muito) e ter menos filhos j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, e de forma irrevers\u00edvel em v\u00e1rios pa\u00edses. Menos humanos que se consideram menos importantes.<\/p>\n<p>Como escapar dessa nova armadilha? Bom, a minha expectativa \u00e9 que seja que nem a malthusiana: uma previs\u00e3o furada de algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 enxergando algo \u00f3bvio do ser humano. Dedos cruzados, porque colapso populacional j\u00e1 come\u00e7a a acontecer durante nossas vidas em v\u00e1rios lugares do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teoria malthusiana pregava que dado aumento suficiente da popula\u00e7\u00e3o, a nossa capacidade de produzir comida ficaria para tr\u00e1s, criando caos social. Ou seja, nossa prosperidade eventualmente levaria a uma armadilha. A teoria assustou gente por muitas d\u00e9cadas&#8230; at\u00e9 que percebemos um erro fundamental: prosperidade continuada reduz o crescimento populacional. 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