{"id":29903,"date":"2025-06-20T15:09:55","date_gmt":"2025-06-20T18:09:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=29903"},"modified":"2025-11-03T19:48:06","modified_gmt":"2025-11-03T22:48:06","slug":"pesquisa-fundamental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/06\/pesquisa-fundamental\/","title":{"rendered":"Pesquisa fundamental."},"content":{"rendered":"<p>Que computadores e depois smartphones s\u00e3o m\u00e1quinas important\u00edssimas para a revolu\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o se discute. A internet ent\u00e3o, vivo dizendo que vai ser o ponto onde historiadores futuros v\u00e3o determinar o come\u00e7o de uma nova era humana. Mas eu quero falar sobre algo que voc\u00ea usa o tempo todo e que talvez seja o grande definidor do avan\u00e7o humano dos \u00faltimos tempos: a pesquisa automatizada.<!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 algo que voc\u00ea, com toda raz\u00e3o, pensa ser diretamente relacionado com o Google, a gigante de tecnologia que se construiu em cima de pesquisas na internet. E embora o Google tenha desenvolvido o sistema mais popular de todos, ele n\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 dos velhos tempos da internet se lembra que havia uma guerra por acessos entre sites de pesquisa. Tecnologias competiam pela maior efici\u00eancia, a do Google nem foi a primeira da sua categoria. Ironicamente, o site ganhou muita relev\u00e2ncia logo depois de ser lan\u00e7ado por ser menos infestado de propagandas e resultados confusos.<\/p>\n<p>O rob\u00f4 do Google saia visitando todos os sites que podia e come\u00e7ava a guardar informa\u00e7\u00f5es sobre cada um deles, especialmente rela\u00e7\u00f5es entre links. Isso garantia que seus primeiros resultados n\u00e3o s\u00f3 tivessem as palavras que voc\u00ea pesquisava, mas tamb\u00e9m que fossem pontos de informa\u00e7\u00e3o referenciados por muitos outros sites. Relev\u00e2ncia por popularidade naquele tema.<\/p>\n<p>E depois que o povo da internet pegou o h\u00e1bito do Google, os pr\u00f3prios sites come\u00e7aram a se organizar para serem mais leg\u00edveis para a ferramenta. Uma coisa refor\u00e7a a outra e acabamos com aquele ponto central da informa\u00e7\u00e3o online. Hoje o Google j\u00e1 come\u00e7a a mudar sua forma de funcionar, implementando intelig\u00eancia artificial para ler e resumir os principais resultados, pulando at\u00e9 mesmo a etapa de clicar num link depois da pesquisa.<\/p>\n<p>Mas na base de tudo isso, a ideia mais poderosa da era da informa\u00e7\u00e3o: indexa\u00e7\u00e3o. Seja no sistema cl\u00e1ssico de procurar palavras no site e contar quantos outros sites acham aquele resultado relevante, seja no novo paradigma de colocar uma IA para ler e resumir esses resultados, existe algo em comum. Algu\u00e9m n\u00e3o humano leu o que estava escrito antes de um humano precisar daquela informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso mundo da informa\u00e7\u00e3o na ponta dos dedos \u00e9 baseado em computadores que analisam tudo antes da gente precisar. N\u00e3o tem atalho: algu\u00e9m (ou algo) precisa seguir todos aqueles par\u00e1grafos dos sites ou livros at\u00e9 achar a palavra que voc\u00ea pediu. A economia de tempo de ter basicamente toda nossa produ\u00e7\u00e3o intelectual pr\u00e9-lida por n\u00f3s \u00e9 o que permite a humanidade ser como \u00e9 agora.<\/p>\n<p>Mesmo que tiv\u00e9ssemos grandes bibliotecas por boa parte dos \u00faltimos s\u00e9culos, no m\u00e1ximo elas tinham alguns livros com c\u00f3digos e temas para acelerar um pouco sua pesquisa. Se voc\u00ea n\u00e3o conhecesse algu\u00e9m que j\u00e1 tivesse lido o livro antes, tinha que fazer todo o processo do zero. Basicamente, na parte de buscar conhecimento, cada pesquisador precisava inventar a roda para usar a carro\u00e7a. Aprender e usar conhecimento de livros, manuais e similares era muito demorado. E com o risco recorrente de simplesmente n\u00e3o achar o que voc\u00ea queria. Seja por azar de ler o livro errado, seja por simplesmente n\u00e3o ter aquele conte\u00fado onde voc\u00ea estava.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a com sistemas computadorizados de pesquisa atrav\u00e9s de palavras-chave criadas por humanos. A velocidade com a qual uma m\u00e1quina consegue passar por uma lista de livros e devolver apenas os registrados com o tema que voc\u00ea quer bate virtualmente todos os bibliotec\u00e1rios do mundo. Talvez um ou outro especialmente experiente com mem\u00f3ria acima da m\u00e9dia conseguisse equilibrar o jogo, mas \u00e9 \u00f3bvio que na m\u00e9dia a m\u00e1quina seria melhor.<\/p>\n<p>S\u00f3 que fica mais poderoso: com mais computadores, mais poderosos, come\u00e7am a surgir algoritmos ainda mais r\u00e1pidos que guardam ainda mais informa\u00e7\u00f5es criadas por humanos. N\u00e3o s\u00f3 os livros s\u00e3o encontrados por temas, como pessoas que leram o livro podem colocar mais informa\u00e7\u00f5es sobre eles no banco de dados e deixar que a m\u00e1quina ache rela\u00e7\u00f5es entre elas para colocar na frente livros com mais palavras certas, mais palavras relacionadas, e melhor ainda: mais utiliza\u00e7\u00f5es por pessoas pesquisando a mesma coisa. Sim, a alma do Google estava a\u00ed.<\/p>\n<p>E quando livros come\u00e7am a ser digitalizados por impressionantes tecnologias que transformam fotos das p\u00e1ginas em texto digital, j\u00e1 temos as sementes da internet plantadas. Computadores come\u00e7am a se conversar \u00e0 dist\u00e2ncia, e pesquisas feitas num lugar come\u00e7am a mostrar livros que est\u00e3o em outros.<\/p>\n<p>Quando a internet ganha popularidade, todo esse conhecimento sobre indexa\u00e7\u00e3o de conte\u00fados e algoritmos de relev\u00e2ncia come\u00e7a a ser utilizado na produ\u00e7\u00e3o de novos materiais e na digitaliza\u00e7\u00e3o de antigos. N\u00e3o s\u00f3 voc\u00ea encontra o livro ou site onde est\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o, mas como o conte\u00fado foi lido e transformado numa vers\u00e3o resumida (para m\u00e1quinas), umas das coisas mais dif\u00edceis da nossa hist\u00f3ria fica f\u00e1cil.<\/p>\n<p>E pode parecer que eu estou falando s\u00f3 de pesquisas acad\u00eamicas, mas como sabemos, essa ideia se espalhou de tal forma que virou como consumimos a maioria da informa\u00e7\u00e3o hoje. Voc\u00ea pesquisa qualquer d\u00favida numa ferramenta automatizada, e vers\u00f5es adaptadas desses algoritmos de pesquisa movem as redes sociais, ditando o conte\u00fado que voc\u00ea consome.<\/p>\n<p>Tudo funciona como funciona porque nossa tecnologia de pesquisa \u00e9 muito r\u00e1pida e muito eficiente. Pode parecer algo comum hoje, mas a ideia de ter uma caixa onde voc\u00ea digita algo ou um sistema que entende o que voc\u00ea diz e acha a agulha no palheiro em fra\u00e7\u00f5es impercept\u00edveis de tempo \u00e9 o que faz o mundo de hoje ser o mundo de hoje.<\/p>\n<p>E o pr\u00f3ximo passo, que \u00e9 a IA, tem muito dessa l\u00f3gica de pesquisar conte\u00fado. Ela ainda pesquisa no seu treinamento o que queremos e devolve um resultado. \u00c9 que na sua programa\u00e7\u00e3o existe a capacidade de montar um argumento compreens\u00edvel para humanos. N\u00e3o deixa de ser uma otimiza\u00e7\u00e3o de banco de dados em cima da primeira otimiza\u00e7\u00e3o de banco de dados que deu in\u00edcio \u00e0 Era da Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 diferente antes de depois da caixa de pesquisa. O jeito como nos comunicamos, as ideias que temos, as opini\u00f5es e atitudes das pessoas&#8230; tudo extremamente influenciado pela informa\u00e7\u00e3o que chega at\u00e9 a gente, e de como ela chega. Pronta, filtrada, espec\u00edfica. Quanta gente n\u00e3o tem ideias ou desiste delas em segundos por causa da facilidade de ser impactado pelo que outros humanos est\u00e3o fazendo?<\/p>\n<p>O quanto da sua vis\u00e3o de mundo n\u00e3o \u00e9 influenciada pelos algoritmos que pesquisam por voc\u00ea? E nem \u00e9 uma cr\u00edtica ludita, reclamando de tecnologia, \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o: a nossa realidade \u00e9 diferente por causa desses sistemas. O que voc\u00ea sabe acaba influenciado pelo que \u00e9 mais f\u00e1cil de pesquisar pelas m\u00e1quinas, as redes sociais e at\u00e9 mesmo jornalistas empurram conte\u00fado para n\u00f3s por causa da forma como a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 indexada. O que \u00e9 mais popular \u00e9 mais popular por interesse genu\u00edno ou porque \u00e9 mais eficiente para m\u00e1quinas pesquisarem?<\/p>\n<p>Explico: d\u00e1 trabalho pegar um texto como este e usar como resposta para uma pesquisa. Trabalho para o sistema de pesquisa, para a IA e at\u00e9 mesmo para a pessoa que vai ler. Como disse antes, essas coisas acumulam: quanto mais simples de entender e transformar em linguagem de m\u00e1quina, mais vai ser visto e mais vai ser indexado como relevante.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de quantidade de caracteres, \u00e9 a facilidade de transformar uma ideia em palavras-chaves ou vetores num\u00e9ricos para a IA. Quanto mais polarizada e simplificada a ideia, maior o potencial de marcar mais pontos no ranque de relev\u00e2ncia, porque as palavras s\u00e3o mais direcionadas e as rea\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o mais potentes. Os sistemas de pesquisa sempre entendem melhor quem \u00e9 mais direto e mais focado, e isso pode estar poluindo os resultados que as pessoas encontram, criando um refor\u00e7o de relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Sim, existe uma corrida por cliques e aten\u00e7\u00e3o na internet, mas ser\u00e1 que n\u00e3o tem um elemento \u201cmec\u00e2nico\u201d na base de tudo isso mexendo com nossas prioridades? Meio como se a informa\u00e7\u00e3o estivesse numa linha de produ\u00e7\u00e3o industrial: o que \u00e9 mais f\u00e1cil de ser feito pelos rob\u00f4s tem a maior tend\u00eancia de acabar no produto final. O que at\u00e9 pode ser agrad\u00e1vel para o consumidor final, mas que n\u00e3o funciona bem nessa linha de produ\u00e7\u00e3o&#8230; acaba cortado por efici\u00eancia e lucratividade.<\/p>\n<p>Muito se fala sobre como algoritmos acabam definido conte\u00fados mais apelativos porque o ser humano s\u00f3 quer isso. Mas n\u00e3o podemos ignorar a quest\u00e3o t\u00e9cnica, porque a forma como lidamos com informa\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 definida por elementos t\u00e9cnicos de indexa\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Produzimos coisa demais, era imposs\u00edvel saber tudo na antiguidade, \u00e9 ainda mais imposs\u00edvel hoje.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00e3o eficiente para ser pesquisada \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o que a maioria de n\u00f3s temos acesso. Influenciamos o que \u00e9 mais popular ou tornamos popular o que funciona melhor para sistemas de pesquisa automatizada?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Talvez a verdade esteja num meio termo. Nossos interesses ainda s\u00e3o muito primais, sexo e medo vendem. Mas eles podem ser manipulados por outro interesse primal: facilidade. Ainda bem que a tecnologia existe, porque o mundo era bem mais chato para pessoas sedentas por informa\u00e7\u00e3o, mas eu duvido que ela venha de gra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que computadores e depois smartphones s\u00e3o m\u00e1quinas important\u00edssimas para a revolu\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o se discute. A internet ent\u00e3o, vivo dizendo que vai ser o ponto onde historiadores futuros v\u00e3o determinar o come\u00e7o de uma nova era humana. 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