{"id":30589,"date":"2025-07-07T14:31:49","date_gmt":"2025-07-07T17:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=30589"},"modified":"2025-11-03T19:30:48","modified_gmt":"2025-11-03T22:30:48","slug":"extrapolando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/07\/extrapolando\/","title":{"rendered":"Extrapolando."},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7a mais uma Semana Nerd na Rep\u00fablica Impopular do Desfavor, e em tempos de Intelig\u00eancia Artificial, resolvemos especular loucamente, ou como se diz no jarg\u00e3o do setor: alucinar. Come\u00e7amos com uma discuss\u00e3o sobre at\u00e9 onde essa tecnologia pode ir, n\u00e3o na m\u00e1quina, mas no ser humano. Os impopulares fazem seus c\u00e1lculos.<\/p>\n<p><strong>Tema de hoje: voc\u00ea acha que teremos uma escalada do virtual de forma desenfreada a ponto de desnaturar por completo as rela\u00e7\u00f5es humanas ou vai acontecer um ponto de ruptura?<\/strong><!--more--><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SOMIR<\/span><\/h4>\n<p>Sim. O erro mais comum na futurologia \u00e9 considerar que as pessoas v\u00e3o ter a mesma moral que temos agora. Moral \u00e9 um termo mais relacionado com costumes de um povo, usam muito para falar sobre certo ou errado, mas o conceito mesmo \u00e9 o que as pessoas de um determinado local e tempo consideram aceit\u00e1vel ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Isl\u00e2ndia, o moral \u00e9 evitar qualquer tratamento diferente entre homens e mulheres. Na Ar\u00e1bia Saudita, o moral \u00e9 n\u00e3o deixar mulher sair de casa sozinha. Tem a ver com as leis, mas normalmente s\u00e3o ideias que permeiam a sociedade com ou sem obriga\u00e7\u00e3o definida pelo Estado.<\/p>\n<p>E \u00e9 por causa disso que quando eu tento extrapolar o futuro, eu penso primeiro em como a moral de um povo vai mudar junto com a tecnologia e\/ou os problemas do tempo. Se voc\u00ea pegar o ser humano m\u00e9dio agora e jogar ele numa sociedade lotada de intelig\u00eancias artificiais e op\u00e7\u00f5es \u201cinfinitas\u201d de entretenimento virtual, muita gente vai rejeitar a artificialidade.<\/p>\n<p>Por princ\u00edpio ou por limita\u00e7\u00e3o mesmo. A maioria das pessoas se confunde f\u00e1cil com coisas eletr\u00f4nicas, aplicativos s\u00e3o pensados para funcionar at\u00e9 com um chimpanz\u00e9 na frente da tela. Vai ser confuso para o ser humano atual. E mais: o ser humano atual, de uma forma ou de outra, tem experi\u00eancias reais para balancear e comparar.<\/p>\n<p>Agora, o que precisamos entender nessa discuss\u00e3o \u00e9 que enquanto a tecnologia avan\u00e7a, as pessoas v\u00e3o mudando a sua moral. O que voc\u00ea pode achar dist\u00f3pico e at\u00e9 mesmo pat\u00e9tico hoje pela desconex\u00e3o com outros seres humanos vai ser s\u00f3 mais um dia para essa pessoa do futuro.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que foi formado como pessoa numa sociedade com mais op\u00e7\u00f5es artificiais de relacionamentos vai ver as coisas diferente. E a cada gera\u00e7\u00e3o isso avan\u00e7a mais um pouco. Se algu\u00e9m da Idade M\u00e9dia ca\u00edsse no nosso mundo do come\u00e7o do S\u00e9culo XXI, nos acharia uns incompetentes que nem sabem produzir a pr\u00f3pria comida. Seres fracos e pat\u00e9ticos que parecem que v\u00e3o morrer se sentirem um cheirinho estranho.<\/p>\n<p>Eu acredito que a sociedade vai escalar para uma moral que n\u00e3o diferencia mais o real do virtual. \u00c9 uma tend\u00eancia hist\u00f3rica que as pessoas se tornem mais abstratas no pensamento e menos proficientes no mundo real. Vamos criando tecnologias que nos colocam em ber\u00e7os cada vez mais dourados e que eliminam sacrif\u00edcios que nossos antepassados faziam.<\/p>\n<p>E socializa\u00e7\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o constante altamente influenciado por tecnologia. Cada revolu\u00e7\u00e3o muda a forma como convivemos, mesmo que a maioria dos nossos desejos e medos ainda sejam baseados nos instintos que herdamos dos homens das cavernas. O ser humano n\u00e3o precisa mudar fundamentalmente para viver em um mundo guiado por intelig\u00eancias artificiais e realidades virtuais. Agora voc\u00ea acha estranho cobrir uma necessidade primal de pertencimento com um programa de computador, mas a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre voc\u00ea agora.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre quem j\u00e1 vai nascer num mundo acostumado a usar IAs para interagir com a realidade. Pessoas que possivelmente v\u00e3o ficar menos tolerantes com discord\u00e2ncia ou mesmo demora para ouvir uma resposta. N\u00e3o s\u00f3 vai se tornar mais comum tratar a IA como outra pessoa, como pessoas mais acostumadas com IA v\u00e3o ter menos paci\u00eancia com pessoas reais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma mudan\u00e7a moral dupla: o artificial mais aceito e o humano menos. Eu entendo que assim como existem grupos antitecnologia hoje v\u00e3o existir grupos parecidos no futuro, meio como os Amish, vivendo em sociedades isoladas que se recusam a usar a IA. Mas assim como esses grupos modernos, evidente que v\u00e3o ser uma minoria, no m\u00e1ximo um ref\u00fagio para quem est\u00e1 sobrecarregado com a vida cotidiana.<\/p>\n<p>E dependendo de qu\u00e3o f\u00e1cil for viver dentro de uma casa com suas fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas cuidadas por m\u00e1quinas, mais e mais pessoas v\u00e3o olhar para a vida virtual onde a IA cobre todas suas necessidades psicol\u00f3gicas e acharem uma boa ideia. Vai come\u00e7ar com os rejeitados, mas assim como outras tecnologias, massifica e vira normal. Eu vi o mundo onde rede social era coisa de perdedor e vivi at\u00e9 n\u00e3o ter rede social ser coisa de perdedor.<\/p>\n<p>A moral n\u00e3o \u00e9 baseada nas escolhas mais inteligentes, e sim nas escolhas mais feitas pelas pessoas. Costuma ir na dire\u00e7\u00e3o do que \u00e9 mais f\u00e1cil de fazer, do que \u00e9 mais confort\u00e1vel. Voc\u00ea pode rejeitar viver num mundo virtual, mas seus descendentes v\u00e3o ver as coisas diferente. E s\u00e3o coisas que se retroalimentam, porque mais tecnologia gera mais mudan\u00e7as na moral, e mais mudan\u00e7as na moral tornam o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico mais desej\u00e1vel e recompensador.<\/p>\n<p>Eu realmente n\u00e3o vejo isso como uma quest\u00e3o de \u201cse\u201d, mas uma quest\u00e3o de \u201cquando\u201d. O ser humano eventualmente n\u00e3o vai se importar mais se suas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o reais ou virtuais, e provavelmente o virtual vai ser mais eficiente em entregar o que essas pessoas v\u00e3o querer da vida. Nem sei se vai ser bom para a humanidade ou n\u00e3o, s\u00f3 sei que n\u00e3o me parece algo que pode ser evitado sem um evento gigantesco que nos empurre de volta alguns s\u00e9culos em tecnologia.<\/p>\n<p>E mesmo assim, se n\u00e3o acabar com a humanidade, uma hora ou outra chegaremos nesse ponto de novo.<\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SALLY<\/span><\/h4>\n<p>Voc\u00ea acha que teremos uma escalada do virtual de forma desenfreada a ponto de desnaturar por completo as rela\u00e7\u00f5es humanas ou vai acontecer um ponto de ruptura?<\/p>\n<p>Por mais que eu ache que o mundo virtual vai tomar propor\u00e7\u00f5es avassaladoras muito al\u00e9m do que seria saud\u00e1vel, tamb\u00e9m acredito que existir\u00e1 um ponto de ruptura. Comportamento geralmente encontra limites na biologia, e somos animais sociais. Isso n\u00e3o vai mudar em poucas d\u00e9cadas. <\/p>\n<p>Em algum momento, o mundo excessivamente virtual vai come\u00e7ar a causar tantos danos f\u00edsicos e mentais (e talvez econ\u00f4micos) que Governos, m\u00e9dicos e as pr\u00f3prias pessoas v\u00e3o se empenhar em um resgate de algo do social. Talvez n\u00e3o seja exatamente como o que conhecemos hoje, mas ser\u00e1 algo para sair do virtual excessivo.<\/p>\n<p>Quem gosta do virtual, quem se beneficia do virtual, tem essa ilus\u00e3o de que d\u00e1 para ficar s\u00f3 no virtual de boa. N\u00e3o d\u00e1. Mesmo pessoas que hoje passam suas vidas massivamente no virtual, eventualmente tem alguma obriga\u00e7\u00e3o de se relacionar com outros seres humanos, nem que seja encontrar os pais no anivers\u00e1rio, ir ao shopping comprar algo ou atender um cliente. Por isso, essas pessoas n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do que \u00e9 realmente romper com rela\u00e7\u00f5es humanas. No dia que o fizerem, ver\u00e3o que n\u00e3o d\u00e1, que o custo \u00e9 alto demais.<\/p>\n<p>D\u00e1 para ficar com muito pouco de rela\u00e7\u00f5es humanas na sua vida? Acredito que sim. D\u00e1 para ficar com 0%? N\u00e3o. E nem \u00e9 uma opini\u00e3o minha, \u00e9 o entendimento que prevalece entre os estudiosos da mente. \u00c9 uma necessidade vital do ser humano, assim como respirar ou beber \u00e1gua, com a \u00fanica diferen\u00e7a que n\u00e3o te mata se voc\u00ea n\u00e3o a executar, apenas te adoece. Corpo e mente.<\/p>\n<p>\u201cMas Sally, eu posso tranquilamente nunca mais ter contato real com qualquer outro ser humano e passar todas as minhas rela\u00e7\u00f5es para o virtual\u201d. Pode sim. O que n\u00e3o pode \u00e9 fazer isso de uma forma sustent\u00e1vel. Tem um pre\u00e7o e a humanidade n\u00e3o consegue pagar. E n\u00e3o ser\u00e1 voc\u00ea, querido floquinho de neve \u00fanico e especial, que vai conseguir de boa algo que a humanidade n\u00e3o consegue.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea analisar a hist\u00f3ria, ver\u00e1 que sempre que fazemos uma escolha merda que nos adoece e amea\u00e7a nossa exist\u00eancia, criam-se mecanismos para contornar isso. N\u00e3o \u00e9 por prazer que o ser humano passa a vergonha de pegar um carro, ir at\u00e9 a academia e ficar andando em uma esteira. \u00c9 necess\u00e1rio. A pr\u00f3pria sociedade se encarregou de que seja necess\u00e1rio, estabelecendo um mecanismo forte de exclus\u00e3o para quem n\u00e3o o faz.<\/p>\n<p>Acredito que o mesmo v\u00e1 acontecer quando o virtual chegar em um ponto nocivo e come\u00e7ar a causar danos reais, significativos, que ameacem a nossa exist\u00eancia. Algum mecanismo de interesse ser\u00e1 constru\u00eddo para nos obrigar a resgatar algo do social, n\u00e3o sei de que forma, n\u00e3o sei como, mas vai acontecer. Somos previs\u00edveis, meus queridos.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 burro, mas nosso c\u00e9rebro est\u00e1 fortemente programado para sobreviver. Essa \u00e9 a meta, por mais que muita gente ache que a meta \u00e9 comer mulher, defender pol\u00edtico ou xingar muito na internet. E c\u00e9rebros cuja prioridade \u00e9 a sobreviv\u00eancia v\u00e3o encontrar formas, mecanismo, interesses que obriguem o humano fazer, ainda que manipulado ou enganado, o que precisa ser feito para sobreviver. <\/p>\n<p>Gostamos de acreditar que estamos no controle, mas n\u00e3o estamos. A por\u00e7\u00e3o racional-consciente do nosso c\u00e9rebro \u00e9 infinitamente menor do que a inconsciente. E adivinha quem est\u00e1 ao volante na maior parte do tempo?<\/p>\n<p>Eu comparo o mundo virtual a uma piscina: no come\u00e7o todo mundo quer, todo mundo gosta, todo mundo usa, mas como o tempo, enjoa e gera desinteresse. \u201cMas Sally, eu sou viciado no mundo virtual h\u00e1 anos!\u201d. Ok, mas em termos de \u201csignific\u00e2ncia\u201d para a humanidade, isso \u00e9 zero. Esse tempo se conta em s\u00e9culos. Eventualmente a humanidade vai enjoar do virtual, \u00e9 apenas um brinquedo novo.<\/p>\n<p>Ou enjoa pelo excesso, ou enjoa por algum mecanismo criado para isso, de modo a impedir nossa extin\u00e7\u00e3o por todas as consequ\u00eancias negativas que esse excesso vai gerar. Se o ser humano fosse capaz de se extinguir por sua pr\u00f3pria imbecilidade, isso j\u00e1 teria acontecido faz tempo. Tem algo na nossa programa\u00e7\u00e3o que nos salva.<\/p>\n<p>Essa conversinha de rela\u00e7\u00f5es acabarem \u00e9 papo de Incel e deriva\u00e7\u00f5es, \u00e9 terraplanismo emocional. N\u00e3o se sustenta. Em algum momento nosso sistema de alerta liga e nos obriga, pela for\u00e7a ou pela manipula\u00e7\u00e3o, a recalcular a rota.<\/p>\n<p>Vai ser tranquilo? Claro que n\u00e3o, a humanidade vai ter que se foder muito antes desse mecanismo de salva\u00e7\u00e3o ativar. Quem estiver vivo ver\u00e1 horrores, vivenciar\u00e1 horrores. Mas em algum momento, a ruptura com a vida virtual vai acontecer e teremos um resgate das rela\u00e7\u00f5es humanas, ainda que repaginadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7a mais uma Semana Nerd na Rep\u00fablica Impopular do Desfavor, e em tempos de Intelig\u00eancia Artificial, resolvemos especular loucamente, ou como se diz no jarg\u00e3o do setor: alucinar. Come\u00e7amos com uma discuss\u00e3o sobre at\u00e9 onde essa tecnologia pode ir, n\u00e3o na m\u00e1quina, mas no ser humano. Os impopulares fazem seus c\u00e1lculos. 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