{"id":30927,"date":"2025-07-16T14:48:03","date_gmt":"2025-07-16T17:48:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=30927"},"modified":"2025-11-03T19:19:48","modified_gmt":"2025-11-03T22:19:48","slug":"sexo-commodity","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/07\/sexo-commodity\/","title":{"rendered":"Sexo commodity."},"content":{"rendered":"<p>Uma pesquisa feita por um famoso site de conte\u00fado adulto brasileiro trouxe uma <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/visao-do-corre\/ta-on\/classes-c-e-d-lideram-consumo-de-videos-adultos-600-mil-por-hora-em-plataforma,4328eaa1bf72d2df36287835912e0bb41xt73a86.html\" target=\"_blank\">informa\u00e7\u00e3o curiosa<\/a>: o consumo de v\u00eddeos adultos \u00e9 mais comum entre pessoas da classe C e D. E o formato preferido \u00e9 o de v\u00eddeos curtos. N\u00e3o sei a metodologia exata que usaram, mas faz sentido com o que vemos de outras not\u00edcias e pesquisas recentes: sexo virou commodity.<!--more--><\/p>\n<p>Commodity \u00e9 o nome dado para produtos que s\u00e3o comprados e vendidos sem uma marca espec\u00edfica. Quando a pessoa quer comprar soja, por exemplo, ela compra por toneladas, e n\u00e3o importa quem plantou ou colheu. S\u00f3 importa que a quantia desejada seja entregue no local combinado.<\/p>\n<p>E a ideia do sexo entrar no mercado das commodities \u00e9 que deixa de ser algo relacionado com o \u201cprodutor\u201d, e sim resultado da demanda pelo produto. O desejo humano por sexo \u00e9 instintivo, mas j\u00e1 aconteceu muita coisa desde os tempos do sexo utilit\u00e1rio das cavernas at\u00e9 os fetiches cada vez mais virtuais de hoje.<\/p>\n<p>E nesse caminho, eu entendo que o ato e o desejo come\u00e7aram a se separar. O desejo \u00e9 constante, mas o ato ficou livre para seguir por caminhos diferentes. Existe alguma vantagem evolutiva em imitar comportamentos do bando, e a ideia de pornografia parece estar diretamente relacionada: a sua mente e o seu corpo reagem ao ver outros humanos fazendo sexo. Gera um incentivo que vem com v\u00e1rias das recompensas mentais relacionadas a fazer sexo voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que pornografia funciona. E durante muito tempo, a pornografia tinha limita\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e alcance. Dava trabalho ver foto de mulher pelada, por repress\u00e3o social, \u00e9 claro, mas tamb\u00e9m pela parte mec\u00e2nica da coisa. Tinha o trabalho e a criatividade de produzir esse material, e depois de produzido, ainda tinha que achar um jeito de distribuir.<\/p>\n<p>Isso manteve o ser humano mais controlado por mil\u00eanios. Mas, num piscar de olhos diante da hist\u00f3ria da sociedade humana, as barreiras de esfor\u00e7o, criatividade e distribui\u00e7\u00e3o desabaram. Foi muito r\u00e1pido: eu cresci num mundo onde o moleque realmente tinha dificuldade de saber como era uma mulher pelada. Pisquei e de repente a pornografia precisava ser evitada, de t\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Essa parte \u00e9 mais baseada em fatos, o que eu vou dizer agora \u00e9 uma vis\u00e3o das coisas: em pouco tempo de disponibilidade infinita, a pornografia mexeu com a forma como o ser humano enxerga o sexo. Quando aparecem aquelas pesquisas dizendo como os jovens n\u00e3o ligam mais tanto para sexo, tem essa quest\u00e3o de desvaloriza\u00e7\u00e3o por excesso de oferta.<\/p>\n<p>Mas pornografia n\u00e3o \u00e9 substituta de sexo, certo? Bom, tudo depende do que voc\u00ea espera do sexo. Para o sexo commodity, pornografia resolve sim. N\u00e3o importa o produtor, importa que seja entregue. V\u00e1rios dos elementos relacionados ao ato do sexo podem ser separados: intimidade, conex\u00e3o, prazer, est\u00edmulo mental&#8230; todas coisas que existem com ou sem a parte f\u00edsica.<\/p>\n<p>Embora eu n\u00e3o esteja dizendo que foi s\u00f3 a internet que causou a separa\u00e7\u00e3o entre o ato e o desejo, porque toda mudan\u00e7a social impacta nisso, a disponibilidade de todos os elementos separados do ato mexeu com a forma como as pessoas enxergam sexo hoje.<\/p>\n<p>E aqui voltamos ao que considerei curioso na pesquisa do primeiro par\u00e1grafo: o sexo commodity ficou t\u00e3o acess\u00edvel que at\u00e9 as pessoas mais pobres j\u00e1 conseguem abstrair o desejo. O v\u00eddeo e o contato virtual custam muito menos em tempo e dinheiro, ent\u00e3o chegou no celular de todo mundo.<\/p>\n<p>Se os mais ricos e estudados j\u00e1 brincavam com essa abstra\u00e7\u00e3o, o smartphone democratizou. Qualquer pessoa pega um celular e come\u00e7a a ser porn\u00f3grafa em minutos. Qualquer pessoa consegue acessar esse material em segundos. Ficou t\u00e3o mais eficiente que buscar contato f\u00edsico real que at\u00e9 mesmo prostitutas come\u00e7am a se concentrar mais em conte\u00fado online.<\/p>\n<p>A demanda reprimida da parcela mais pobre da popula\u00e7\u00e3o encontrou oferta. Sally que tinha me passado essa not\u00edcia como poss\u00edvel tema, na d\u00favida sobre se pornografia tinha se tornado coisa de pobre. E quanto mais eu penso nisso, mais claro fica: pornografia est\u00e1 virando coisa de pobre n\u00e3o porque o rico est\u00e1 acima disso, mas porque como praticamente todo mundo foi para uma camada de abstra\u00e7\u00e3o superior com sexo, a parte mais barata \u00e9 a pornografia como conhecemos.<\/p>\n<p>Sexo por sexo e pornografia se encontram nessa parte de produto sem marca. Sim, existem pessoas que pagam horrores para seus criadores de conte\u00fado adulto, mas n\u00e3o \u00e9 um meio focado em fidelidade: a rota\u00e7\u00e3o \u00e9 alta porque como j\u00e1 tinha dito em outros textos, existe um limite de quanta diferen\u00e7a voc\u00ea consegue ver em duzentas mulheres tatuadas com a bunda gigante peladas na tela do celular.<\/p>\n<p>Commodities tem isso de concorr\u00eancia por volume. Ningu\u00e9m \u00e9 insubstitu\u00edvel no mercado. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que eu ache que s\u00f3 pobre liga para essa pornografia de v\u00eddeos curtos, \u00e9 que \u00e9 justamente essa parte que virou commodity. O pobre est\u00e1 consumindo o que \u00e9 mais barato, que se exploda se faz bem ou mal para a mente no longo prazo.<\/p>\n<p>J\u00e1 a parcela mais abastada e\/ou educada da popula\u00e7\u00e3o&#8230; bom, a\u00ed temos que voltar na ideia de separa\u00e7\u00e3o de ato e desejo. O desejo pode ficar t\u00e3o abstrato ao ponto de ter gente formando rela\u00e7\u00f5es com intelig\u00eancias artificiais. Ele pode ir se adaptando a outras atividades, especialmente se o ato do sexo come\u00e7ar a ficar complicado. O ser humano mais bem conectado com o mundo est\u00e1 debaixo de uma tsunami de informa\u00e7\u00e3o, sua aten\u00e7\u00e3o disputada a tapa por qualquer tela e com menos tempo de treinar e aperfei\u00e7oar rela\u00e7\u00f5es com outros humanos.<\/p>\n<p>Novamente, pode ser quest\u00e3o de conveni\u00eancia. O pacote de unir ato e desejo no sexo fica mais caro em compara\u00e7\u00e3o com outras atividades. E a\u00ed, como o sexo commodity vai se espalhando pela sociedade sem parar, me parece natural que pare\u00e7a uma troca de baixo valor para quem tem mais op\u00e7\u00f5es ou para quem j\u00e1 tenha tido uma cria\u00e7\u00e3o muito online.<\/p>\n<p>Sexo custava mais caro, o real e os substitutos. E quem n\u00e3o tem muita no\u00e7\u00e3o da parte emocional dificilmente entende por que se pagava tanto por ele. N\u00e3o ter essa no\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que une pessoas mais brutalizadas por ambientes de baixo desenvolvimento e curiosamente, pessoas que tem op\u00e7\u00f5es demais.<\/p>\n<p>Isso se reflete na pessoa mais simples se viciando em pornografia porque \u00e9 o mais \u201cbarato\u201d dispon\u00edvel, e na pessoa mais jovem e educada vendo o pacote todo como muito barulho por nada. Em ambos os casos, \u00e9 o sexo commodity mudando o valor da coisa para as pessoas.<\/p>\n<p>E explica tamb\u00e9m como ao mesmo tempo voc\u00ea pode achar que esse mundo est\u00e1 muito baixaria ao mesmo tempo que acha que o jovem n\u00e3o quer mais transar. As coisas se complementam. Muita oferta derruba o pre\u00e7o. Quem n\u00e3o conseguia comprar vai se empanturrar, e quem via valor na escassez agora enxerga como algo nunca mais vai faltar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pesquisa feita por um famoso site de conte\u00fado adulto brasileiro trouxe uma informa\u00e7\u00e3o curiosa: o consumo de v\u00eddeos adultos \u00e9 mais comum entre pessoas da classe C e D. E o formato preferido \u00e9 o de v\u00eddeos curtos. N\u00e3o sei a metodologia exata que usaram, mas faz sentido com o que vemos de outras [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":30928,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[617],"tags":[],"class_list":["post-30927","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nao-fode"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30927"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30927\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30928"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}