{"id":31454,"date":"2025-08-01T15:56:33","date_gmt":"2025-08-01T18:56:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=31454"},"modified":"2025-11-03T19:02:09","modified_gmt":"2025-11-03T22:02:09","slug":"cha-derramado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/08\/cha-derramado\/","title":{"rendered":"Ch\u00e1 derramado."},"content":{"rendered":"<p>No come\u00e7o do ano, um aplicativo viralizou nos EUA: Tea Dating Advice, popularmente conhecido como Tea (Ch\u00e1, \u00e9 at\u00e9 o \u00edcone deles). Esse app chegou a ser o mais baixado no pa\u00eds por muito tempo. O que ele fazia? Permitia que mulheres classificassem homens com os quais se relacionaram, criando um banco de dados sobre a suposta qualidade desses homens para que outras mulheres pudessem pesquisar. Era para ser an\u00f4nimo&#8230; at\u00e9 que os dados das usu\u00e1rias vazaram.<!--more--><\/p>\n<p>A internet se divertiu muito. Porque o que vazou do aplicativo (no primeiro vazamento) foram as selfies das usu\u00e1rias para valida\u00e7\u00e3o de conta, e digamos que a m\u00e9dia do visual delas bate exatamente com o que voc\u00ea imagina de mulher que fica falando mal de homem na internet. Algumas ficaram furiosas pelas piadas com suas apar\u00eancias, mas calma que fica pior: o aplicativo era t\u00e3o malfeito que vazou uma segunda leva de informa\u00e7\u00f5es, as mensagens pessoais que elas trocavam. E l\u00e1 tinha o tipo de coisa que voc\u00ea espera de mensagens privadas entre pessoas com a certeza da impunidade.<\/p>\n<p>A parte t\u00e9cnica do vazamento de dados \u00e9 fascinante pela tosquice, mas eu sei que n\u00e3o \u00e9 o foco do nosso p\u00fablico, ent\u00e3o s\u00f3 um resumo b\u00e1sico: se o aplicativo fosse um banco, o jeito de depositar ou tirar dinheiro era deixar qualquer um entrar no cofre com o dinheiro de todo mundo e fazer o que quiser l\u00e1 dentro. O primeiro mal-intencionado viu que podia simplesmente pegar tudo o que quisesse dos dados \u201csecretos\u201d do aplicativo e sair pela porta da frente. E foi o que fizeram.<\/p>\n<p>Bom, \u00e9 claro que no meio disso tudo havia uma discuss\u00e3o bem maior sobre a \u00e9tica de um aplicativo desses: era um banco de dados de homens sendo julgados pelas mulheres que o conheciam. De forma an\u00f4nima e sem direito ao contradit\u00f3rio. A usu\u00e1ria do app simplesmente colocava um nome, o sistema procurava se ele j\u00e1 estava l\u00e1 ou se n\u00e3o estivesse, fazia a correspond\u00eancia com perfis de redes sociais e bancos de dados p\u00fablicos para criar uma p\u00e1gina dele, como se fosse um restaurante do iFood. A partir da\u00ed, a mulher poderia dizer o que quisesse sobre ele, e outras podiam fazer o mesmo.<\/p>\n<p>E aqui eu sinto que meus instintos libert\u00e1rios v\u00e3o tomar conta: \u00e9 uma vantagem desleal para as mulheres poderem ter esse sistema, mas \u00e9 realmente diferente de uma mulher descontente fazer a caveira de um ex para as outras numa conversa fora do app? Eu sei que um aplicativo do tipo com os g\u00eaneros invertidos geraria pedidos de pris\u00e3o por todos os lados, que seria banido em pouco tempo e impedido de usar qualquer sistema de pagamento por press\u00e3o hist\u00e9rica de rede social, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque isso aconteceria que muda a l\u00f3gica da coisa. Seria errado dar chilique at\u00e9 um aplicativo que julga mulheres cair, \u00e9 errado dar chilique at\u00e9 um aplicativo que julga homens cair.<\/p>\n<p>Em tese, o Tea \u00e9 anti\u00e9tico por n\u00e3o permitir direito de resposta, mas n\u00e3o muda o fato de que todo mundo tem uma imagem que pode ser exposta e manipulada por terceiros. Por motivos extremamente pr\u00e1ticos, mentira n\u00e3o \u00e9 crime por si s\u00f3, nem no Brasil, nem nos EUA, nem em qualquer outro lugar do mundo. E amea\u00e7a de mentira menos ainda. Voc\u00ea n\u00e3o pode julgar uma pessoa por algo que ela possivelmente vai fazer. O Tea permite que qualquer maluca minta descaradamente sobre um homem por vingan\u00e7a ou rejei\u00e7\u00e3o, mas ele nunca foi a ferramenta \u00fanica para fazer isso.<\/p>\n<p>Aqui entra uma quest\u00e3o importante sobre toda a ideia de regula\u00e7\u00e3o de redes sociais e internet em geral: o que exatamente voc\u00ea est\u00e1 regulando? Quando as operadoras pensaram em aumentar ou diminuir a velocidade da internet para o usu\u00e1rio de acordo com o site que ele estava visitando, claramente t\u00ednhamos uma quest\u00e3o regulat\u00f3ria de internet. \u00c9 algo que s\u00f3 existe por causa do meio.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando os pol\u00edticos pensam em for\u00e7ar todo mundo a se identificar na internet, ainda \u00e9 uma quest\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o da rede. Concorde ou n\u00e3o, o ponto \u00e9 sobre a intera\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o com a rede de computadores. \u00c9 regula\u00e7\u00e3o da internet.<\/p>\n<p>Mas as mulheres do Tea&#8230; isso \u00e9 comportamento humano independente da internet. Assim como Fake News, golpes, sexualiza\u00e7\u00e3o de menores, etc. Coisas que o ser humano levou consigo para a internet, mas que n\u00e3o s\u00e3o fun\u00e7\u00e3o natural da rede de computadores. Quando voc\u00ea come\u00e7a a lutar contra algum comportamento humano que calha de aparecer em redes sociais, aplicativos e sites em geral, n\u00e3o \u00e9 regula\u00e7\u00e3o de internet.<\/p>\n<p>\u00c9 regula\u00e7\u00e3o de comportamento. E n\u00e3o deveria ser surpresa como isso \u00e9 dif\u00edcil de fazer. Primeiro porque as pessoas continuam cometendo todos os crimes poss\u00edveis e imagin\u00e1rios mesmo com leis por todos os lados, e segundo porque existe uma linha entre ser desagrad\u00e1vel e ser criminoso. Se voc\u00ea come\u00e7a a puxar ela muito para um lado ou muito para o outro, o nosso senso de justi\u00e7a come\u00e7a a ficar confuso.<\/p>\n<p>O que as usu\u00e1rias do Tea fizeram soa errado, mas deveria ser ilegal? O meu ponto aqui \u00e9 que \u00e9 bem bizarro algo ser permitido fora da internet, mas proibido dentro dela. Se uma mulher acusa falsamente um homem de estupro no aplicativo e a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai parar na capa de um portal de not\u00edcias, \u00e9 diferente dela mentir para um grupo de mulheres ao vivo?<\/p>\n<p>Se uma mulher diz no aplicativo que achou umas fotos estranha de meninas de biqu\u00edni no celular dele e avisa outras para passar longe, especialmente se tiverem filhas pequenas, \u00e9 algo que deveria ser crime fora do aplicativo? Pode ser um aviso bem-intencionado, pode ser uma vingan\u00e7a (ela n\u00e3o se importava at\u00e9 tomar um p\u00e9 na bunda) ou pode ser mentira. Cada caso \u00e9 um caso.<\/p>\n<p>O meu ponto fora da curva aqui \u00e9 que eu enxergo como \u00e9 algo extremamente discut\u00edvel de um ponto de vista \u00e9tico e como pode ser usado para o mal; sei que daria um esc\u00e2ndalo horr\u00edvel se fossem homens falando sobre mulheres, hipocrisia pura&#8230; e mesmo assim acho que \u00e9 um pre\u00e7o que temos que pagar pela comodidade da Era da Informa\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 um comportamento de fora de internet que se repete dentro dela.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 a melhor forma de articular a disson\u00e2ncia que aparece em legisladores e ativistas por seguran\u00e7a online: ao mesmo tempo acham que os problemas existem isolados na internet &#8211; exigindo legisla\u00e7\u00e3o separada \u2013 e consideram problemas justamente o que as pessoas j\u00e1 fazem fora dela. N\u00e3o sou eu tendo ataque idealista de liberdade de express\u00e3o ilimitada, sou eu dizendo o que todo mundo deveria saber: voc\u00ea n\u00e3o vai resolver na internet um problema da vida real.<\/p>\n<p>\u00c9 o problema de uma menina de 14 anos poder transar com vinte homens em uma semana de forma totalmente legal e ser crime um deles ter uma foto dela de calcinha e suti\u00e3. Eu nem sou do time de aumentar idade de consentimento, mas n\u00e3o faria mais sentido ser crime transar com a menina tamb\u00e9m? Pelo menos como ideia do que \u00e9 legal ou n\u00e3o. Vida real e digital equiparadas, para matar de vez essa ilus\u00e3o que comportamento se regula numa tela iluminada.<\/p>\n<p>Foi hil\u00e1rio ver v\u00e1rias mulheres com cara de quem n\u00e3o foram comidas e n\u00e3o gostaram sendo sacaneadas na internet pelas informa\u00e7\u00f5es vazadas, mas para mim a pena m\u00e1xima \u00e9 essa mesmo: esc\u00e1rnio. Se alguma delas cometeu um crime da vida real acusando falsamente um homem de estupro, por exemplo, que pague como pagaria em qualquer outra situa\u00e7\u00e3o da vida. O fato de estar num aplicativo n\u00e3o deve ser o definidor do que \u00e9 errado e deve ser combatido.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 botar um condicional novo no que configura ilegalidade. Mentiras s\u00e3o crime em algumas circunst\u00e2ncias, e n\u00e3o pelo fato de serem mentira, mas pelo alcance e consequ\u00eancias dessa mentira. Se a internet \u00e9 o meio pelo qual a mentira tem alcance e consequ\u00eancias, regula-se como meio, n\u00e3o como gerador da mentira. A internet n\u00e3o mente, pessoas mentem. Agora mentem com ajuda de ferramentas de IA, mas o ChatGPT ou o Grok n\u00e3o fazem nada sozinhos, s\u00e3o editores de texto e imagem glorificados.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea \u00e9 do time que quer ver regula\u00e7\u00e3o de redes baseada na realidade, n\u00e3o deveria ficar pedindo consequ\u00eancias legais para a turma do Tea. O app n\u00e3o inventou o comportamento, a internet n\u00e3o est\u00e1 na defini\u00e7\u00e3o do problema, ela \u00e9 s\u00f3 a forma como as ideias humanas foram trocadas. N\u00e3o se pune a companhia telef\u00f4nica por n\u00e3o derrubar uma liga\u00e7\u00e3o falando de coisas ilegais.<\/p>\n<p>Falta realidade na mente das pessoas sobre como regular a rede. N\u00e3o vira outra coisa porque est\u00e1 online. Voc\u00ea nunca vai ter uma internet mais limpa que seus usu\u00e1rios. Voc\u00ea regula temas de meio de comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o comportamento. Mas \u00e9 claro, \u00e9 muito mais f\u00e1cil bater no que voc\u00ea entende, por isso continua essa conversa em c\u00edrculos sobre como controlar o que as pessoas comunicam nas redes sociais.<\/p>\n<p>A basteira s\u00f3 passou pela tela, ela estava na cabe\u00e7a da pessoa antes. Protejam o meio de monop\u00f3lios, censura ideol\u00f3gica e pr\u00e1ticas danosas ao consumidor, o resto a gente tem que resolver em casa mesmo. Para os homens que deram chilique pela exist\u00eancia do app, digo a mesma coisa que diria para mulheres dando chilique por um app invertido: n\u00e3o podemos ferir a liberdade que temos por que voc\u00ea est\u00e1 chateado com uma coisa.<\/p>\n<p>E para de reclamar dessas coisas, porque a cada vez que voc\u00ea d\u00e1 um chilique por causa do comportamento do outro exigindo regula\u00e7\u00e3o sobre o que nem crime \u00e9, mais perto de uma ditadura ficamos. Esses filhos da puta v\u00e3o nos enfiar num sistema autorit\u00e1rio s\u00f3 porque n\u00e3o sabem lidar com os pr\u00f3prios sentimentos.<\/p>\n<p>E se umas mulheres feias estiverem falando mal de homem por a\u00ed&#8230; mudou alguma coisa no mundo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o do ano, um aplicativo viralizou nos EUA: Tea Dating Advice, popularmente conhecido como Tea (Ch\u00e1, \u00e9 at\u00e9 o \u00edcone deles). Esse app chegou a ser o mais baixado no pa\u00eds por muito tempo. O que ele fazia? 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