{"id":33789,"date":"2025-10-07T12:35:03","date_gmt":"2025-10-07T15:35:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=33789"},"modified":"2025-11-12T16:59:02","modified_gmt":"2025-11-12T19:59:02","slug":"ta-facil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/10\/ta-facil\/","title":{"rendered":"T\u00e1 f\u00e1cil."},"content":{"rendered":"<p>Tenho visto umas novas gera\u00e7\u00f5es reclamarem muito das \u201cdificuldades\u201d em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estiv\u00e9ssemos em tempos dif\u00edceis. Pois bem, n\u00e3o estamos.<!--more--><\/p>\n<p>Dif\u00edceis s\u00e3o voc\u00eas, floquinhos de neve especiais, que, de t\u00e3o mimadinhos pelas facilidades da tecnologia, n\u00e3o suportam fazer um esfor\u00e7o. Deixa a tia Sally te contar o que era realmente dif\u00edcil, para voc\u00ea n\u00e3o reclamar de barriga cheia. Observe a realidade da minha gera\u00e7\u00e3o e pare de reclamar.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar pelo primeiro est\u00e1gio: conhecer gente. Quando n\u00e3o existiam redes sociais, antes da internet, antes de aplicativos, n\u00f3s precis\u00e1vamos sair para conhecer gente. N\u00e3o s\u00f3 sair, como interagir com estranhos at\u00e9 conseguir encontrar uma pessoa com a qual tiv\u00e9ssemos um m\u00ednimo de afinidade e atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha essa de mandar fotinho cheia de filtro, editada, ou tirada do melhor \u00e2ngulo, com a melhor luz, depois de cem tentativas. Era voc\u00ea, ao vivo e a cores, que tinha que ser atraente. Isso significa que sair com um layout escroto para ir ao banco, ao supermercado ou \u00e0 padaria poderia ser sin\u00f4nimo de minar uma chance de conhecer algu\u00e9m legal. T\u00ednhamos que estar apresent\u00e1veis o tempo todo. Toda ida na rua podia ser produtiva.<\/p>\n<p>E estar apresent\u00e1vel n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil. N\u00e3o havia facilitadores como escova progressiva, para manter o cabelo sempre lisinho, ou babyliss para manter sempre cacheado, era o cabelo que Deus te deu e fa\u00e7a as fazes com isso. N\u00e3o havia maquiagem de boa qualidade (e com uma variedade decente de cores) e n\u00e3o existiam nenhum dos procedimentos atuais, desde canetinha para emagrecer at\u00e9 depila\u00e7\u00e3o definitiva, que te ajudassem. Ou voc\u00ea fazia tudo na ra\u00e7a, no esfor\u00e7o, ou n\u00e3o fazia. Era alt\u00edssima manuten\u00e7\u00e3o estar sempre apresent\u00e1vel.<\/p>\n<p>E para os homens tamb\u00e9m era dureza. N\u00e3o tinha implante de cabelo, n\u00e3o tinha harmoniza\u00e7\u00e3o facial, n\u00e3o tinha lente de contato nos dentes, n\u00e3o tinha nem rem\u00e9dio para queda de cabelo. Um carro custava muito caro quando comparado ao sal\u00e1rio-m\u00ednimo e, se voc\u00ea fosse jovem, a menos que fosse de uma fam\u00edlia classe m\u00e9dia alta para cima, teria que buscar a mulher a p\u00e9. E n\u00e3o tinha remedinho azul para ajudar na performance.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha essa tonelada de informa\u00e7\u00e3o online, ent\u00e3o, o pouco que a gente sabia sobre o sexo oposto (e nem me refiro ao corpo humano) era por tentativa e erro (nossa ou dos amigos) e geralmente ningu\u00e9m era muito sincero sobre seus fracassos, as pessoas contavam umas hist\u00f3rias de sucesso ficcionais, que, quando voc\u00ea tentava reproduzir, nunca tinham um bom final. Isso quer dizer que voc\u00ea ia para a intera\u00e7\u00e3o olho no olho com pouqu\u00edssimo ou nenhum preparo.<\/p>\n<p>N\u00e3o existia f\u00f3rum de discuss\u00e3o, tutorial no Youtube e nem ao menos essa mentalidade de acolhimento. Se faziam algo escroto com voc\u00ea ou se voc\u00ea fazia alguma besteira, basicamente tinha que lidar com as consequ\u00eancias dos seus atos, sem poder contar para o mundo (no m\u00e1ximo para algum amigo mais chegado). N\u00e3o t\u00ednhamos essa no\u00e7\u00e3o de que certas coisas acontecem com todo mundo. Ningu\u00e9m recebia afago da coletividade quando algo dava errado. Especialmente homens.<\/p>\n<p>Os padr\u00f5es de comportamento aos quais est\u00e1vamos expostos eram p\u00e9ssimos. Voc\u00ea j\u00e1 viu, por curiosidade, um cap\u00edtulo de alguma novela da d\u00e9cada de 80\/90? \u00c9 tenebroso. O machismo, a insensibilidade, a babaquice. Aquilo era vendido como algo bonito, fod\u00e3o. Pessoas fumando eram consideradas atraentes. Uma pessoa traindo era sexy. E o layout de ator na \u00e9poca era totalmente destoante da gen\u00e9tica brasileira, n\u00e3o tinha como uma pessoa m\u00e9dia chegar remotamente perto daquilo, seja pela apar\u00eancia, seja pela produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Roupas eram artigo de luxo: n\u00e3o havia essa variedade nem esses pre\u00e7os de hoje. A roupa era cara e n\u00e3o tinha muitas op\u00e7\u00f5es. Se voc\u00ea queria estar \u201cna moda\u201d, tinha que usar a marca X, que sempre era car\u00edssima. E pul\u00e1vamos de modismo em modismo, um mais caro do que o outro: mochila da Company, t\u00eanis da Redley, moletom da Pakalolo e por a\u00ed vai. N\u00e3o tinha substituto, ou voc\u00ea usava o modismo da vez ou estava fora de moda. \u00cdamos para o campo de batalha quase todos fora de moda.<\/p>\n<p>E mesmo quando nossos pais se comoviam e atrasavam o aluguel para comprar o modismo da vez, n\u00e3o havia a variedade de roupa que vemos agora. Mesmo modelo, tr\u00eas cores diferentes. Escolhe uma e usa at\u00e9 n\u00e3o caber mais ou at\u00e9 se desfazer. Vai para o cinema, para a festa, para a excurs\u00e3o, tudo com a mesma roupa.<\/p>\n<p>Geralmente, quem n\u00e3o fosse muito privilegiado, tinha uma, duas ou no m\u00e1ximo tr\u00eas roupas de sair. E era com isso que voc\u00ea tinha que se virar em todos os eventos que fosse. Nem perfume era algo acess\u00edvel, muita gente s\u00f3 jogava o desodorante pelo corpo para se perfumar.<\/p>\n<p>Os eventos sociais de pega\u00e7\u00e3o geralmente se resumiam a festas. N\u00e3o grandes festas, festinha ca\u00edda no play de algu\u00e9m. Voc\u00ea nunca sabia quem ia e quem n\u00e3o ia, pois n\u00e3o tinha celular para confirmar quem vai chegar e quando. Era sempre uma taquicardia esperando que aquela pessoa que voc\u00ea queria que fosse chegasse. Todos n\u00f3s fomos a festas que foram um completo desperd\u00edcio, mais de uma vez. Perdia-se tempo, energia, dinheiro e preparo.<\/p>\n<p>E nas festas, meus amigos, voc\u00ea n\u00e3o podia contar com nada al\u00e9m da sua apar\u00eancia e desenvoltura. N\u00e3o tinha seu n\u00famero de seguidores para te tornar interessante, n\u00e3o tinha fotinho com o grupo ou selfie para mostrar o quanto foi legal. Normalmente eram umas festinhas ca\u00eddas, nas quais mulher levava algo para comer e homem levava algo para beber e a festa toda costumava girar em torno de&#8230; dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Isso mesmo, durante muitos anos o grande peneir\u00e3o acontecia na pista de dan\u00e7a. Era l\u00e1 que os meninos chegavam nas meninas. Se eram mais jovens, em festinha de play ou matin\u00ea. Se eram mais velhos, em boates. Mas era sempre na pista de dan\u00e7a. Voc\u00ea tinha que, no m\u00ednimo, fingir que dan\u00e7ava.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 +40 aqui certamente j\u00e1 se humilhou dan\u00e7ando o que n\u00e3o queria para tentar pegar mulher (deixe nos coment\u00e1rios se o seu cora\u00e7\u00e3o mandar, queremos rir). Existiam as m\u00fasicas da moda, que tocariam em qualquer festinha. Nos tempos mais obscuros, uma febre de lambada humilhou os homens como nunca antes na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Para pegar mulher homem tinha que tentar dan\u00e7ar lambada, Senhores. Pensem bem se voc\u00eas t\u00eam motivo para reclamar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m teve um tempo obscuro do ax\u00e9. Aonde voc\u00ea ia, tocava ax\u00e9 e tinha que dan\u00e7ar, caso contr\u00e1rio voc\u00ea entrava no grupo marginalizado antissocial e inferiorizado que ficava \u00e0s margens da pista de dan\u00e7a, um grupo que reduzia muito suas chances de pegar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o bastava chegar e correr para a pista de dan\u00e7a n\u00e3o, ali era s\u00f3 para finalizar todo um trabalho pregresso de vender bem a voc\u00ea mesmo. As pessoas tinham que procurar aptid\u00f5es que as tornem valorizadas, j\u00e1 que n\u00e3o tinha como postar fotinho das realiza\u00e7\u00f5es online. N\u00e3o fazia muita diferen\u00e7a ter viajado para lugares lindos, ter comido pratos maravilhosos ou qualquer outra \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d do passado. Ningu\u00e9m via.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o entrava com status pregresso para te ajudar. Importava o que as pessoas viam quando olhavam para voc\u00ea, naquele momento. Tinha que ser interessante ao vivo, no improviso, na frente da plateia, mesmo com uma roupa escrota repetida 500 vezes. Se voc\u00ea n\u00e3o fosse aquele um e um milh\u00e3o que nascei bel\u00edssimo, tinha que se virar para conseguir chamar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o era aben\u00e7oado pela gen\u00e9tica, (e poucos eram\/s\u00e3o) tinham que encontrar e aprimorar outros atrativos para que, na intera\u00e7\u00e3o olho no olho, despertassem interesse. Tocar viol\u00e3o, ser muito bom de conversa, ser bem-humorado e muitos outros recursos eram testados e desenvolvidos. Havia um empenho real em se aprimorar, n\u00e3o por evolu\u00e7\u00e3o pessoal, mas para pegar gente mesmo.<\/p>\n<p>E voc\u00ea n\u00e3o podia pensar com calma no que ia \u201cpostar\u201d para ser atraente. Era na hora, em tempo real, no calor do momento. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto parece. Uma coisa \u00e9 estabelecer uma imagem online, pensando com calma em cada passo e depois s\u00f3 sustentar. Outra \u00e9 ter que construir essa imagem em tempo real. E sustentar.<\/p>\n<p>A imagem f\u00edsica tamb\u00e9m era um desafio. Ningu\u00e9m lembraria de voc\u00ea como sua foto de perfil de uma rede social e sim como voc\u00ea se apresenta em uma festa. E se j\u00e1 era dif\u00edcil se apresentar de forma bacana, terminar uma festa de forma atraente era pior ainda. Quase tudo que se fazia em mat\u00e9ria de beleza era gambiarra, j\u00e1 que no Brasil quase n\u00e3o entravam produtos importados e a ind\u00fastria brasileira n\u00e3o fabricava muita coisa al\u00e9m de Monange. Maquiagem borrava, desodorante vencia. N\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Se alisava o cabelo com ferro de passar, se hidratava o cabelo com babosa, se usava aquele batom hediondo verde, que voc\u00ea passava na boca sem ter a menor ideia da cor na qual iria se transformar (e sempre se transformava na pior cor, um vermelho menstrua\u00e7\u00e3o que fazia o l\u00e1bio parecer uma pe\u00e7a de carne do a\u00e7ougue). Spoiler: durava 24h e n\u00e3o sa\u00eda da pele nem com \u00e1gua sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O m\u00e1ximo de beleza que consegu\u00edamos alcan\u00e7ar era baixo. N\u00e3o dava para se garantir nisso, a menos que voc\u00ea fosse muito privilegiado geneticamente &#8211; e quase nenhum de n\u00f3s era, ao\u00a0 menos n\u00e3o eu. Todos os dentes retos e brancos? Causaria at\u00e9 estranhamento. Pele perfeita? Esquece, imposs\u00edvel. Corpo com pouca gordura? Altamente improv\u00e1vel. Voc\u00ea ia para a vida com o que m\u00e3e natureza te deu, podendo fazer pouqu\u00edssimas modifica\u00e7\u00f5es. E tinha que jogar com outras ferramentas, outras habilidades&#8230; ou se conformar em pegar uma pessoa n\u00e3o t\u00e3o bonita.<\/p>\n<p>O m\u00e1ximo que a gente conseguia, em termos de beleza, era passar um gel New Wave no cabelo ou um brilho labial que vinha dentro de uma embalagem que simulava um morango. Espinha no rosto? Se fode a\u00ed, compensa sendo muito legal. A gente era o que era e tinha que encontrar dentro da gente armas para lutar esse jogo da conquista.<\/p>\n<p>E mesmo no campo da conversa, nada era f\u00e1cil. N\u00e3o era poss\u00edvel ver redes sociais do outro para saber quais eram seus interesses e nortear a conversa para esse lado. A gente entrava em uma conversa sem ter a menor ideia de quem a pessoa era, se era solteira ou n\u00e3o ou do que ela gostava. N\u00e3o raro fal\u00e1vamos algo que ia totalmente de encontro como o que a pessoa gostava, era altamente constrangedor.<\/p>\n<p>Pense no tempo que voc\u00ea precisa interagir com algu\u00e9m em redes sociais para conhecer melhor a pessoa e imagine que esse mesmo tempo deveria ser gasto em encontros presenciais, para conseguir criar alguma conex\u00e3o com a pessoa. N\u00e3o era poss\u00edvel fazer algo multitarefas: conversa com a pessoa enquanto trabalha, enquanto faz o almo\u00e7o, enquanto faz compras. O tempo era usado 100% para o outro. Pensa no trabalho e no tempo que levava fazer tudo presencial.<\/p>\n<p>E muitas vezes a gente investia bastante tempo em conhecer uma pessoa e depois de todo esse investimento, descobria um obst\u00e1culo inegoci\u00e1vel (o fato de a pessoa ser comprometida, o fato de a pessoa fumar ou qualquer outra coisa) que nos obrigava a jogar fora todo o trabalho. Tinha zero conversinha de responsabilidade afetiva, todo mundo mentia e pronto, voc\u00ea que lide com isso.<\/p>\n<p>Quando a pessoa mentia para voc\u00ea, voc\u00ea s\u00f3 descobria em um futuro distante. N\u00e3o existia foto de rede social para provar que ela n\u00e3o morava em determinado bairro ou que ela n\u00e3o estava viajando a trabalho. A peneira, meus amigos, era muito, mas muito dif\u00edcil, pois cientes disso, todo mundo mentia muito.<\/p>\n<p>Imagina s\u00f3, homem falando de si mesmo sabendo que as chances de uma mentira ser descoberta s\u00e3o m\u00ednimas. T\u00e1 decepcionado porque descobriu que o contatinho votou no pol\u00edtico X? Na nossa \u00e9poca a gente descobria que o contatinho era pai de fam\u00edlia ou procurado pela pol\u00edcia!<\/p>\n<p>E se voc\u00ea tivesse a sorte de pegar algu\u00e9m e essa pessoa n\u00e3o estar mentindo para voc\u00ea, seus desafios estavam s\u00f3 come\u00e7ando. N\u00e3o havia celular, o que significava que, para falar com a pessoa novamente, voc\u00ea teria que ligar para a casa dela (se, com sorte, ela tivesse telefone fixo) e correr o risco de falar com o pai ou com a m\u00e3e dela. Era uma taquicardia ligar para os outros, voc\u00ea nunca sabia quem ia atender.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era f\u00e1cil falar com a pessoa de primeira, pois para isso, a pessoa precisaria estar em casa e a linha precisaria estar desocupada. Era muito comum ligar e ningu\u00e9m atender, o ligar e o telefone estar ocupado, ou ainda ligar e falar com pai\/m\u00e3e e eles te avisarem que a pessoa n\u00e3o est\u00e1. Era todo um processo. Geralmente demandava pelo menos umas 5 tentativas. Imagina essa gera\u00e7\u00e3o que tem medo de falar ao telefone tendo que passar por isso cada vez que quer falar com seu ficante&#8230;<\/p>\n<p>Se finalmente voc\u00ea conseguisse falar com a pessoa e tivesse a sorte dela topar sair com voc\u00ea, precisava marcar dia e hora para o encontro. E quando chegava o dia e hora, torcer para que a pessoa esteja l\u00e1, pois n\u00e3o era poss\u00edvel avisar em caso de atrasos ou imprevistos. A vida sem celular era bem desafiadora. A gente ia mais nunca tinha certeza se o outro de fato estaria l\u00e1. N\u00e3o por te rejeitar, podia acontecer qualquer imprevisto e a pessoa n\u00e3o teria como te avisar.<\/p>\n<p>Isso te colocava em um exerc\u00edcio muito cruel de autoestima: quanto tempo esperar caso a pessoa n\u00e3o apare\u00e7a na hora marcada. A pessoa marcou \u00e0s 20h com voc\u00ea em um lugar p\u00fablico, mas s\u00e3o 20:20 e ela n\u00e3o chegou. Voc\u00ea sabe que ela n\u00e3o vai poder te avisar se acontecer um imprevisto, seja de falta, seja de atraso.<\/p>\n<p>O quanto \u00e9 digno esperar? Quando ir embora? Era uma decis\u00e3o dif\u00edcil quando est\u00e1vamos realmente interessados na pessoa. E geralmente os locais de encontro eram locais p\u00fablicos, como porta do cinema ou restaurante, ent\u00e3o, todas as outras pessoas podiam assistir sua espera ansiosa. Voc\u00eas ficam a\u00ed chorando ghosting quando a pessoa n\u00e3o responde um Whatsapp? A gente se arrumava todo, ficava plantado e todo mundo assistia a nossa humilha\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E mesmo que desse tudo certo, fatalmente, voc\u00eas teriam outros encontros, ent\u00e3o, isso se repetiria outras vezes: ligar e falar com o pai da menina, ter que se arrumar com pouqu\u00edssimos recursos, ter aquela taquicardia de n\u00e3o saber se a pessoa vai atrasar ou te deixar plantado esperando&#8230; Namoro era basicamente esse grande combo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha como se falar o dia todo. N\u00e3o tinha como saber onde o outro estava, o que estava fazendo ou se estava bem. As pessoas se falavam, no m\u00e1ximo, no final do dia para contar rapidamente (liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica j\u00e1 custou muito caro) como foi o dia.<\/p>\n<p>Dividir problemas? Pedir conselho? Conversas profundas? S\u00f3 no final de semana. A gente ia construindo intimidade e proximidade final de semana a final de semana. Demorava muito mais. O que essa gera\u00e7\u00e3o faz em seis meses a nossa demorava anos para construir. E os bonitos reclamam que tudo vai muito devagar na vida deles&#8230;<\/p>\n<p>O lazer tamb\u00e9m era muito limitado: cinema, pracinha, casa dos outros, festinha. N\u00e3o fugia muito disso, a menos que sua fam\u00edlia fosse rica. Isso nos obrigava a focar mais nas pessoas do que nos lugares, mais na conversa do que no espet\u00e1culo. \u00c9 bem mais desafiador sustentar algo s\u00f3 na base das pessoas. Essa nova gera\u00e7\u00e3o enjoa f\u00e1cil do outro? Imagina quanto duraria quando o programa era s\u00f3 sair para comer um cachorro-quente e ficar conversando olho no olho.<\/p>\n<p>J\u00e1 ultrapassei uma p\u00e1gina do meu limite e n\u00e3o cheguei nem perto de cobrir todos os perrengues que pass\u00e1vamos quando \u00e9ramos jovens. Se interessar, posso fazer uma continua\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que hoje a vida t\u00e1 f\u00e1cil, t\u00e1 muito f\u00e1cil. Se est\u00e1 dif\u00edcil para voc\u00ea conhecer gente, bem, desculpa te informar, a responsabilidade \u00e9 s\u00f3 sua. Pare de reclamar e busque ferramentas para: 1) aprender a escolher pessoas boas e 2) conseguir se conectar com elas e construir algo.<\/p>\n<p>E&#8230; s\u00e9rio mesmo, deixa nos coment\u00e1rios as suas maiores humilha\u00e7\u00f5es na pista de dan\u00e7a para tentar pegar algu\u00e9m. Todos n\u00f3s precisamos dessa alegria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho visto umas novas gera\u00e7\u00f5es reclamarem muito das \u201cdificuldades\u201d em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estiv\u00e9ssemos em tempos dif\u00edceis. Pois bem, n\u00e3o estamos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":33790,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-33789","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-flertando-desastre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33789","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33789"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33789\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37648,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33789\/revisions\/37648"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}