{"id":33792,"date":"2025-10-08T15:55:47","date_gmt":"2025-10-08T18:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=33792"},"modified":"2025-11-03T17:54:54","modified_gmt":"2025-11-03T20:54:54","slug":"quem-estupra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2025\/10\/quem-estupra\/","title":{"rendered":"Quem estupra?"},"content":{"rendered":"<p>Semana passada saiu <a href=\"https:\/\/agenciapatriciagalvao.org.br\/mulheres-de-olho\/dsr\/6-em-cada-10-brasileiros-conhecem-uma-mulher-que-foi-estuprada-quando-menina\/\" target=\"_blank\">um estudo dizendo que 15% das brasileiras j\u00e1 foram estupradas<\/a>. A imensa maioria antes dos 13 anos de idade, muitas sem nem entender o conceito de estupro na \u00e9poca. E isso impacta muito na an\u00e1lise do que est\u00e1 acontecendo. Importante avisar: o tema vai ser ainda mais pesado do que parece.<!--more--><\/p>\n<p>Quando eu comecei a pensar nesse tema, ca\u00ed numa armadilha que provavelmente muitos homens caem tamb\u00e9m: acreditar que o que est\u00e1 sendo discutido s\u00e3o casos de estupros de mulheres adultas por criminosos desconhecidos. E a\u00ed, talvez por corporativismo, \u00e9 natural pensar: mas isso n\u00e3o pode ser o caso de um estuprador ser respons\u00e1vel por v\u00e1rios casos? Porque em tese, isso reduz o grau do absurdo sobre os homens, se voc\u00ea imagina que tem meia d\u00fazia de estupradores muito \u201cprodutivos\u201d por a\u00ed, significa que o n\u00fameros de homens que realmente comete esse crime \u00e9 muito menor.<\/p>\n<p>E a\u00ed, passa a impress\u00e3o de ser muito mais um problema de seguran\u00e7a p\u00fablica. Para baixar o n\u00famero de mulheres abusadas, basta ter mais pol\u00edcia, mais repress\u00e3o&#8230; ou at\u00e9 mesmo alguns caminhos mais tortuosos de pensamento como dizer para mulheres tomarem mais cuidado. Tortuosos porque embora seja bom senso evitar situa\u00e7\u00f5es perigosas para todos os sexos em todas as idades, s\u00f3 vale se voc\u00ea estiver com essa ideia de \u201cmulher andando sozinha numa rua deserta de noite\u201d como situa\u00e7\u00e3o de risco para estupros.<\/p>\n<p>De fato, se fossem s\u00f3 esses casos, mais pol\u00edcia e at\u00e9 mesmo cuidado pessoal de mulheres poderia ser um caminho. Mas, quando saem dados dizendo que a maioria das v\u00edtimas s\u00e3o crian\u00e7as e pr\u00e9-adolescentes em casa ou em lugares supostamente seguros&#8230; \u00e9 muito importante mudar o foco de seguran\u00e7a p\u00fablica e \u201csolu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas\u201d e olhar para a realidade horr\u00edvel da coisa. O problema dos estupros no Brasil n\u00e3o se resolve com mais policial na rua ou aten\u00e7\u00e3o a quanta bebida se toma.<\/p>\n<p>Ainda seria um n\u00famero terr\u00edvel se fossem os 3% de mulheres que relatam ter sido estupradas depois dos 14 anos, mas 3% est\u00e3o dentro das capacidades de repress\u00e3o com mais compet\u00eancia de pol\u00edcia e autoridades. Dos 15% da pesquisa, 12% s\u00e3o menores de idade, e 9% ainda mais: menos de 13 anos. O Brasil tem um problema mais ou menos comum em sociedades desiguais com estupros, e tem uma hecatombe nuclear de problema com abusos de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>Mais um ponto: a legisla\u00e7\u00e3o brasileira e quem coleta esses dados segue a mesma defini\u00e7\u00e3o sobre rela\u00e7\u00f5es sexuais com menores de 13 anos, \u00e9 sempre estupro, n\u00e3o importa o que diga a pessoa menor de 13 anos. Se uma pessoa adulta sugere algo sexual para uma crian\u00e7a e a crian\u00e7a concorda, \u00e9 estupro do mesmo jeito. Mesmo assim, a pesquisa n\u00e3o presumiu estupro, ela perguntou para as mulheres explicitamente se tinha sido estupro. N\u00e3o tem nada a ver com come\u00e7ar a vida sexual antes dos 13 e a \u201csociedade\u201d chamar de estupro, \u00e9 literalmente sobre a parte das pessoas que responderam que reconheceram suas experi\u00eancias como estupro.<\/p>\n<p>Daqui uma presun\u00e7\u00e3o bem inc\u00f4moda: essas s\u00e3o as que lembram de algo que sabem reconhecer como n\u00e3o consensual. Provavelmente tem as que bloquearam, as que acharam que foi consensual e as que simplesmente n\u00e3o conseguem falar disso, mesmo lembrando. Pode ser muito mais do que isso.<\/p>\n<p>Estabelecidos esses pontos, temos que entender tamb\u00e9m quem est\u00e1 cometendo o crime. Se 12% das mulheres entrevistadas foram v\u00edtimas antes dos 13 anos (9% at\u00e9 os 13, 3% antes e depois dos 13). E a\u00ed, qualquer \u201cesperan\u00e7a\u201d que o n\u00famero de homens estupradores ser muito menor que 15% em compara\u00e7\u00e3o desaba. Com v\u00edtimas dessa idade, \u00e9 imensa a probabilidade de ser uma escala de um por um, ou seja, \u00e9 um homem pr\u00f3ximo com acesso e muitas vezes confian\u00e7a de meninas.<\/p>\n<p>Do crime imaginado de um homem correndo atr\u00e1s de uma mulher adulta num beco escuro, sobra quase nada. N\u00e3o acho que estou sendo pol\u00eamico ao dizer que o Brasil tem um problema muito maior de abuso contra crian\u00e7as do que propriamente a ideia de estupro que a maioria das pessoas tem.<\/p>\n<p>E como a parte do abuso em casa ou com conhecidos \u00e9 a mais inc\u00f4moda de pensar, por ser praticamente imposs\u00edvel de resolver de fora para dentro, pode ser que at\u00e9 mulheres se enganem achando que o problema do Brasil \u00e9 que n\u00e3o tem repress\u00e3o suficiente ao estupro violento. Podemos come\u00e7ar a pensar sobre educar homens a respeitar mulheres, e mal nunca vai fazer, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente esse o ponto.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o tratando meninas de forma humanit\u00e1ria. N\u00e3o est\u00e3o tratando crian\u00e7as de forma humanit\u00e1ria. Um dos problemas mais conhecidos sobre sociedades brutalizadas e desiguais \u00e9 abuso de pessoas muito fr\u00e1geis. N\u00e3o estou falando apenas de sexualiza\u00e7\u00e3o precoce, \u00e9 covardia descarada contra todo mundo que n\u00e3o pode se defender.<\/p>\n<p>Acho que essa parte acaba bloqueada na mente de quem analisa a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo terr\u00edvel de pensar: quantas pessoas fr\u00e1geis est\u00e3o sofrendo na m\u00e3o de absolutos covardes nesse pa\u00eds, enquanto voc\u00ea l\u00ea este texto? E o motivo n\u00e3o precisa ir al\u00e9m de baix\u00edssimo desenvolvimento intelectual e intelig\u00eancia emocional negativa. Quem est\u00e1 no caminho dessas pessoas vai apanhar f\u00edsica e emocionalmente na primeira oportunidade.<\/p>\n<p>Evidente que homens s\u00e3o desproporcional maioria em abusos de todos os tipos contra crian\u00e7as e\/ou qualquer pessoa mais fr\u00e1gil, pela agressividade e pela for\u00e7a f\u00edsica, mas n\u00e3o sei se adianta discutir esse assunto pelo \u00e2ngulo da mulher. Mulheres brutalizadas tamb\u00e9m abusam muito de crian\u00e7as, mas n\u00e3o da mesma forma sexual que tantas meninas relatam.<\/p>\n<p>Sociedades evoluem virando essa chave de abuso contra os mais fracos. O grau de escrotid\u00e3o do ser humano n\u00e3o pode nem ser comparado com Lei da Selva, porque mesmo que o bicho ataque quem \u00e9 mais fraco, normalmente tem um objetivo pr\u00e1tico. Mesmo que seja o instinto de ca\u00e7ar. O grau de abuso que o ser humano chega ao lidar com seres mais fr\u00e1geis que ele tem um fator psicol\u00f3gico muito mais complexo. Maltratam para se sentir bem.<\/p>\n<p>O meu ponto aqui \u00e9 que precisamos saber que quem estupra nesses casos \u00e9 um p\u00fablico que vai muito al\u00e9m de querer abusar sexualmente de mulher, querem abusar de fragilidade. Eu duvido que a\u00e7\u00f5es contra o estupro atinjam esse problema fundamental, porque vai muito al\u00e9m do conceito de estupro, \u00e9 gente covarde mesmo.<\/p>\n<p>Posso estar enxergando muito aqui, mas nem me parece t\u00e3o sexualizado assim. \u00c9 pelo abuso. \u00c9 gente que provavelmente foi muito maltratada na inf\u00e2ncia e empurra o comportamento gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o. Novamente, mal n\u00e3o faz tentar conscientizar as pessoas sobre estupro, mas uma hora ou outra temos que olhar para o elefante na sala: uma parte assustadora da nossa popula\u00e7\u00e3o enxerga crian\u00e7as como alvos f\u00e1ceis, e n\u00e3o tem nenhuma barreira interna para praticar os atos mais horr\u00edveis contra elas.<\/p>\n<p>Eu nem sei o qu\u00e3o separado isso est\u00e1 de bater, humilhar e traumatizar crian\u00e7as&#8230; porque abusos sexuais s\u00e3o parte de v\u00e1rias t\u00e1ticas de tortura. Se voc\u00ea consegue enxergar seguidos contatos sexuais com crian\u00e7as como uma forma de tortura (e v\u00e1rias das v\u00edtimas reagem como se fossem v\u00edtimas de tortura pelo resto da vida, porque \u00e9 algo que a crian\u00e7a n\u00e3o entende e gera rea\u00e7\u00f5es emocionais muito fortes), voc\u00ea consegue enxergar o tamanho do problema que a sociedade enfrenta.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que est\u00e3o \u201cmexendo\u201d com as meninas, est\u00e3o as torturando e deixando marcas para a vida toda. Se a gente quiser lidar esse assunto apenas por uma lente de inicia\u00e7\u00e3o sexual, surgem \u00e1reas cinzas que nada tem a ver com o problema da viol\u00eancia contra crian\u00e7as. \u00c9 sobre adultos covardes torturando crian\u00e7as, mesmo que em suas cabe\u00e7as vazias n\u00e3o seja a mesma coisa.<\/p>\n<p>Do algo do meu desconhecimento aprofundado sobre o tema, me parece muito importante tratar da doen\u00e7a e n\u00e3o de um dos sintomas que \u00e9 o abuso sexual de meninas. Porque se formos realistas, n\u00e3o existe rem\u00e9dio para esse sintoma: as meninas abusadas v\u00e3o continuar dentro da mesma casa dos agressores, e se em momento algum conseguirmos colocar na cabe\u00e7a de um povo brutalizado que est\u00e3o torturando crian\u00e7as de v\u00e1rias formas, inclusive sexualmente, eu n\u00e3o vejo resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem algo que grita chamando aten\u00e7\u00e3o quando vemos estat\u00edsticas como essas, e eu sei que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel n\u00e3o focar na parte de homens abusando de meninas, mas se quisermos sair do ciclo in\u00fatil de aumentar penas para crimes que n\u00e3o s\u00e3o punidos, precisamos entender que \u00e9 muito mais do que isso. \u00c9 uma sociedade cheia de pessoas brutalizadas que sequer percebem como maltratam qualquer um que parece mais fr\u00e1gil que elas.<\/p>\n<p>E normalizam isso. Acham nada de mais espancar e berrar com crian\u00e7as, sem perceber que isso \u00e9 mais um elemento que gera essas estat\u00edsticas de abuso sexual contra crian\u00e7as e adolescentes. Eu n\u00e3o sei como essa pessoa que abusa da crian\u00e7a racionaliza o comportamento, mas se eu tivesse que apostar, apostaria que passa por separar contato sexual n\u00e3o consentido de outras formas de viol\u00eancia e tortura psicol\u00f3gica. E n\u00e3o me parece separado, \u00e9 s\u00f3 o ve\u00edculo do abuso que muda.<\/p>\n<p>Sou da teoria que sociedades s\u00f3 evoluem quando combinam esfor\u00e7os para manter crian\u00e7as seguras de verdade, fora de casa, \u00e9 claro, mas especialmente dentro. A coisa n\u00e3o avan\u00e7a com gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as traumatizadas. A quest\u00e3o do abuso sexual chama mais aten\u00e7\u00e3o, mas eu acredito que uma pesquisa que considerasse v\u00e1rios outros tipos de abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos n\u00e3o sexuais nos daria um cen\u00e1rio ainda mais chocante sobre como o pa\u00eds est\u00e1 se sabotando gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sim, todos contra o estupro&#8230; mas n\u00e3o \u00e9 isso que essa pesquisa mostra de verdade. Quem estupra \u00e9 quem n\u00e3o tem c\u00e9rebro suficiente para entender que crian\u00e7a precisa de um n\u00edvel alt\u00edssimo de prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a para desenvolver seu potencial e melhorar a vida de todo mundo. Nossa planta\u00e7\u00e3o de humanos envenena as sementes e fica se perguntando porque a colheita \u00e9 t\u00e3o ruim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada saiu um estudo dizendo que 15% das brasileiras j\u00e1 foram estupradas. 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