{"id":370,"date":"2009-09-02T07:00:00","date_gmt":"2009-09-02T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=370"},"modified":"2009-09-02T07:00:00","modified_gmt":"2009-09-02T10:00:00","slug":"desfavor-explica-falsos-positivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2009\/09\/desfavor-explica-falsos-positivos\/","title":{"rendered":"Desfavor Explica: Falsos Positivos."},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i363.photobucket.com\/albums\/oo74\/desfavor\/img\/dexplica_falsopositivo.jpg\" alt=\"Desfavor Explica: Falsos Positivos\" \/><\/p>\n<p><span style=\"padding: 5px; background-color: rgb(255, 0, 0); display: block; color: rgb(255, 255, 255);\"><span style=\"font-weight: bold;\">ATEN\u00c7\u00c3O: ESTE TEXTO N\u00c3O \u00c9 FALSO, POSITIVO?<\/span><\/span><br \/>Come\u00e7o hoje uma s\u00e9rie de textos cujo objetivo \u00e9 analisar de uma forma racional a irracionalidade. Mais precisamente a irracionalidade do nosso dia-a-dia. N\u00e3o h\u00e1 o menor prop\u00f3sito de se criar um tratado sobre psicologia ou algo que o valha, a id\u00e9ia \u00e9 demonstrar como algumas <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;\u00e1reas escuras&#8221;<\/span> da mente humana podem ser facilmente exploradas por outras pessoas, independentemente de seus motivos.<\/p>\n<p>E nada melhor para come\u00e7ar esta s\u00e9rie do que falar sobre os falsos positivos. Trataremos <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;falsos positivos&#8221;<\/span> aqui como: <span style=\"font-weight: bold;\">Qualquer rela\u00e7\u00e3o entre causa e efeito inferida a partir de premissas ou m\u00e9todos err\u00f4neos.<\/span><\/p>\n<p>Mes esse tipo de defini\u00e7\u00e3o \u00e9 algo meio chato por si s\u00f3. Vamos partir para uma linha mais simples de pensamento: Pensemos num <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;amuleto da sorte&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p>Digamos que eu te ofere\u00e7a uma moeda da sorte contra estouro de manada de elefantes. Eu te garanto que enquanto voc\u00ea mantiver a moeda em seus bolsos, voc\u00ea NUNCA ser\u00e1 uma v\u00edtima de uma turba de paquidermes enfurecidos. Digamos ent\u00e3o que voc\u00ea me permita o benef\u00edcio da d\u00favida e mantenha a moeda.<\/p>\n<p>Anos depois, caso nos encontr\u00e1ssemos, voc\u00ea teria que dar o bra\u00e7o a torcer. Desde que voc\u00ea come\u00e7ou a andar com a moeda da sorte, n\u00e3o ouviu nem falar de um estouro de manada de elefantes. A l\u00f3gica \u00e9 simples no caso: A moeda realmente funciona com o prop\u00f3sito devido. Causa e efeito.<\/p>\n<p>Mas esse \u00e9 um exemplo absurdo, \u00e9 claro. Existem outros elementos nesse sistema que podem explicar com facilidade por que o detentor da moeda nunca foi atacado por uma manada de elefantes. No Brasil, elefantes s\u00f3 podem ser vistos em zool\u00f3gicos e circos. E nunca numa quantidade suficiente para se considerar uma manada. Ataques de elefantes s\u00e3o raros, principalmente para quem nunca teve contato com um&#8230;<\/p>\n<p>Um adulto em suas faculdades mentais normais nem consideraria a possibilidade da exist\u00eancia de um amuleto desse tipo. Mas v\u00e1rios adultos em em suas faculdades mentais presumidamente normais utilizam s\u00edmbolos religiosos para se proteger do mal no dia-a-dia. Qual a diferen\u00e7a entre os dois casos?<\/p>\n<p>\u00c9 mais simples do que parece. \u00c9 uma quest\u00e3o de tamanho da <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;equa\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span>. Enquanto no caso obviamente absurdo da moeda anti-estouro de manada de elefantes s\u00e3o apenas duas vari\u00e1veis facilmente explic\u00e1veis por l\u00f3gica simples, no caso do <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;santinho&#8221;<\/span> entra uma quantidade de informa\u00e7\u00f5es e possibilidades t\u00e3o grande que torna trabalhoso demais quebrar o racioc\u00ednio em peda\u00e7os menores <span style=\"color: rgb(102, 102, 102);\">(<span style=\"font-style: italic;\">&#8220;proteger do mal&#8221; <\/span>\u00e9 uma express\u00e3o muito complexa)<\/span> at\u00e9 se entender que a id\u00e9ia geral \u00e9 um conglomerado de amuletos da sorte.<\/p>\n<p>Para que o s\u00edmbolo religioso se torne efetivamente apenas mais um amuleto cujo resultado pr\u00e1tico \u00e9 apenas mais um falso positivo, \u00e9 necess\u00e1rio lidar com a maior e mais poderosa ferramenta de controle que existe, estou falando do MEDO.<\/p>\n<p>Vamos voltar para o caso da moeda. O portador desse amuleto <span style=\"color: rgb(102, 102, 102);\">(que nem acredita muito no objeto, mas o levou por <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;precau\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span>)<\/span> finalmente se encontra na situa\u00e7\u00e3o que desprova o funcionamento dele. Durante um saf\u00e1ri na \u00c1frica, depara-se com dezenas de elefantes furiosos correndo em sua dire\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que ele est\u00e1 encurralado e sem nenhuma expectativa racional de escapar do perigo iminente.<\/p>\n<p>O medo \u00e9 um dos sentimentos mais b\u00e1sicos poss\u00edveis. Quando ele assume o controle da mente, n\u00e3o permite que nada mais complexo possa combat\u00ea-lo. O medo desliga a racionalidade e traz \u00e0 tona toda a carga de instintos que carregamos conosco. Rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas muito mais poderosas que as habituais nos tornam m\u00e1quinas de auto-preserva\u00e7\u00e3o. A busca pela seguran\u00e7a \u00e9 a \u00fanica prioridade. A quantidade de vari\u00e1veis DESABA.<\/p>\n<p>Os falsos positivos ficam irresist\u00edveis. O portador do amuleto anti-estouro de manada de elefantes tende a segur\u00e1-lo com for\u00e7a e manter sua esperan\u00e7a que no \u00faltimo segundo, ele vai funcionar e salv\u00e1-lo. E agora, a parte interessante: Se ele por algum acaso escapar, a l\u00f3gica simples de causa e efeito vai ganhar o apoio de um exemplo emp\u00edrico. N\u00e3o foi apenas coincid\u00eancia! Na hora que ele mais precisou, a moeda o salvou! \u00c9 verdade, ele vivenciou!<\/p>\n<p>Voc\u00ea, que est\u00e1 lendo, ainda sim pode imaginar outras possibilidades mais plaus\u00edveis para a sobreviv\u00eancia do homem que acreditava em seu amuleto. Uma \u00e1rvore no caminho pode ter desviado a manada. O homem pode ter se beneficiado por ter ficado parado e n\u00e3o colidido com nenhum dos animais por pura chance. Muita coisa pode fazer sentido, mas n\u00e3o existe nenhuma raz\u00e3o l\u00f3gica para uma moeda, um peda\u00e7o de metal, ter qualquer fun\u00e7\u00e3o que interfira com o funcionamento da mente de elefantes, os obrigando a mudar de dire\u00e7\u00e3o e n\u00e3o machucar o dono do amuleto. Dono esse que agora tem CERTEZA que o amuleto funciona. Certeza que voc\u00ea, observando de fora, n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>E vejam s\u00f3, o fato de que o amuleto N\u00c3O impediu o estouro da manada \u00e9 convenientemente ignorado. A conclus\u00e3o se ap\u00f3ia na parte mais s\u00f3lida da id\u00e9ia. A base, descreditada pela realidade, continua intacta com a ajuda do resultado. Isto \u00e9 um falso positivo refor\u00e7ado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, e se ele n\u00e3o escapasse? E se terminasse sua vida com uma moeda esmagada junto com o que restou da sua m\u00e3o? J\u00e1 que nesse exemplo fui eu que entreguei a moeda para o pobre coitado, um amigo dele vem me confrontar sobre a moeda que eu garanti ser verdadeira, um amuleto que pode ter diminu\u00eddo drasticamente a chance de sobreviv\u00eancia de seu dono naquela situa\u00e7\u00e3o. Eu posso escapar de v\u00e1rias maneiras mantendo a presun\u00e7\u00e3o de poder anti-estouro de manadas de elefante:<\/p>\n<p>&#8211; <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;Eu disse que a moeda tinha que estar no bolso para funcionar. Ele morreu segurando ela.&#8221;<\/span>;<\/p>\n<p>&#8211; <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;Ele n\u00e3o acreditava de verdade no poder dela. Isso era condi\u00e7\u00e3o para ela funcionar.&#8221;<\/span>;<\/p>\n<p>&#8211; <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;A moeda s\u00f3 funciona no Brasil.&#8221;<\/span>;<\/p>\n<p>&#8211; <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;Elefantes africanos? N\u00e3o! A moeda era para os asi\u00e1ticos.&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p>Para escapar de qualquer confrontamento sobre um falso positivo, aumente o n\u00famero de vari\u00e1veis. Uma pessoa que n\u00e3o tem capacidade ou coragem de question\u00e1-lo num primeiro momento VAI continuar sendo levada ao erro de acordo com a escalabilidade da complexidade da id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Repito: Estou usando um exemplo absurdo. A chance de algu\u00e9m acreditar num amuleto desses, mesmo ouvindo sobre ele por interm\u00e9dio de uma testemunha de seu funcionamento, \u00e9 praticamente nula. Praticamente. Apenas o medo \u00e9 capaz de enfraquecer sua l\u00f3gica a ponto de aceitar um falso positivo simples. Lembram que o portador do amuleto no exemplo o levou apenas por <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;precau\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span>?<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic; font-weight: bold;\">&#8220;No creo en las brujas, pero que las hay, las hay.&#8221;<\/span><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o muito comum entre a mente humana e o medo do desconhecido. Mesmo que a racionalidade n\u00e3o permita que algu\u00e9m se entregue totalmente a uma supersti\u00e7\u00e3o, existe uma parte de n\u00f3s que n\u00e3o quer ser pega de surpresa no improv\u00e1vel caso dela ser real. Medo. O medo est\u00e1 l\u00e1 na base, nos fazendo aceitar, pelo menos parcialmente, uma quantidade de bobagens impressionante em nossas vidas. O medo nos faz aceitar as rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas simplistas entre causa e consequ\u00eancia sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com a reprodutibilidade do comportamento. <span style=\"color: rgb(102, 102, 102);\">(A id\u00e9ia \u00e9 buscar padr\u00f5es, e mesmo assim abandonamos essa necessidade assim que ele bate de frente com o que QUEREMOS acreditar para nos sentirmos mais seguros.)<\/span> Somos muito mais permissivos nas <span style=\"font-style: italic;\">&#8220;profundezas&#8221; <\/span>de nossa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Falsos positivos s\u00e3o o resultado de falhas na nossa l\u00f3gica causadas pelo medo do que n\u00e3o conhecemos. Todo mundo tem esse ponto fraco. Muita gente lucra com isso. Muita gente sofre com isso. Mas ningu\u00e9m deixa de ser esmagado por elefantes por causa disso.<\/p>\n<p>Os falsos positivos s\u00e3o uma esp\u00e9cie de pir\u00e2mide invertida. Basta prestar aten\u00e7\u00e3o na base para perceber a sua fragilidade estrutural. Nunca tente derrubar um argumento aparentemente insano pelas conclus\u00f5es. O n\u00famero de vari\u00e1veis aumenta exponencialmente, inclusive com v\u00e1rias delas parecendo muito racionais.<\/p>\n<p>Derrube a base. Acenda a luz.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: rgb(102, 102, 102);\">Para me perguntar o quanto eu cobro pelo amuleto anti-estouro de manadas de elefantes, para dizer que eu abordei o assunto de forma surpreendemente n\u00e3o-ofensiva, ou mesmo para expor as falhas b\u00e1sicas na minha explica\u00e7\u00e3o: <\/span><a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ATEN\u00c7\u00c3O: ESTE TEXTO N\u00c3O \u00c9 FALSO, POSITIVO?Come\u00e7o hoje uma s\u00e9rie de textos cujo objetivo \u00e9 analisar de uma forma racional a irracionalidade. Mais precisamente a irracionalidade do nosso dia-a-dia. 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