{"id":4009,"date":"2013-01-25T07:10:00","date_gmt":"2013-01-25T09:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=4009"},"modified":"2013-01-25T07:10:00","modified_gmt":"2013-01-25T09:10:00","slug":"des-contos-o-dono-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/01\/des-contos-o-dono-do-mundo\/","title":{"rendered":"Des Contos: O dono do mundo."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4010\" alt=\"desc_donodomundo\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/desc_donodomundo.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/desc_donodomundo.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/desc_donodomundo-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Um livro distribu\u00eddo de forma clandestina vem chamando a aten\u00e7\u00e3o de muita gente ultimamente. Mas ao inv\u00e9s de gritar &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221; como v\u00e1rios de meus colegas de profiss\u00e3o, pretendo me ater apenas aos fatos apurados sobre o assunto. E n\u00e3o se pode falar desse livro sem mencionar seu autor primeiro:<\/p>\n<p>Michel ficara conhecido no meio jornal\u00edstico por suas mat\u00e9rias precisas sobre os bastidores do poder. Diversos pr\u00eamios decoravam as prateleiras na sala de seu acanhado apartamento, alguns at\u00e9 mesmo internacionais. O sucesso de cr\u00edtica, como sugerido pelo adjetivo utilizado para qualificar sua moradia, n\u00e3o significava exatamente sucesso de p\u00fablico.<!--more--><\/p>\n<p>Apesar de acertar no alvo em suas den\u00fancias, o teor mais realista de sua abordagem jornal\u00edstica n\u00e3o o ajudava a vender mais revistas e jornais. Segundo seus \u00faltimos tr\u00eas editores, o consumidor m\u00e9dio da m\u00eddia de massa preferia hist\u00f3rias com um pouco mais&#8230; estimulantes \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Ou, num mundo sem eufemismos, mentiras e futilidades.<\/p>\n<p>E Michel n\u00e3o estava disposto a se rebaixar apenas para tornar seu trabalho mais palat\u00e1vel para a massa desejosa por aliena\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia profissional com uma estrutura \u00e9tica inabal\u00e1vel acabava criando, vez ap\u00f3s vez, a condi\u00e7\u00e3o determinante para sua alta frequ\u00eancia de recoloca\u00e7\u00f5es profissionais. Contratar Michel conferia status, mas mant\u00ea-lo empregado n\u00e3o era t\u00e3o vantajoso assim.<\/p>\n<p>Sua \u00faltima &#8220;sa\u00edda amig\u00e1vel&#8221; rendeu um longo per\u00edodo de &#8220;tempo para si mesmo&#8221;. Mas com as contas empilhando, aspas n\u00e3o seriam o suficiente para aliviar a situa\u00e7\u00e3o. As constantes mudan\u00e7as ocasionadas por sua dificuldade de manter um emprego tamb\u00e9m cobraram um salgado pre\u00e7o em sua vida pessoal. Separado de sua ex-mulher h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, alienado do crescimento de seu \u00fanico filho, praticamente um estranho em reuni\u00f5es familiares&#8230;<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 importante para essa hist\u00f3ria. Michel gastou a maior parte de sua felicidade e sa\u00fade pagando por sua integridade. A decis\u00e3o de escrever o best-seller traduzido em trinta l\u00ednguas diferentes e com sua d\u00e9cima nona edi\u00e7\u00e3o esgotada na maioria das livrarias foi uma das mais dif\u00edceis de sua vida. O livro em quest\u00e3o se chamava &#8220;O Dono do Mundo&#8221;. Fracasso de cr\u00edtica, sucesso retumbante de p\u00fablico.<\/p>\n<p>Utilizando-se de sua experi\u00eancia nos mais altos c\u00edrculos de poder, tanto de sua terra natal como de v\u00e1rios outros pa\u00edses, Michel foi capaz de criar um fant\u00e1stico e assustadoramente veross\u00edmil relato sobre o misterioso Sr. F e seu papel como homem mais poderoso do mundo. Sr. F., segundo o livro, dava as cartas nas maiores corpora\u00e7\u00f5es do mundo e tinha os l\u00edderes dos maiores ex\u00e9rcitos e economias do planeta em seus bolsos.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, tinha sob seu poder tecnologias secret\u00edssimas, algumas at\u00e9 mesmo emprestadas de vizinhos c\u00f3smicos. Com o apertar de um bot\u00e3o, Sr. F poderia desencadear uma s\u00e9rie de desastres naturais, come\u00e7ar uma guerra apocal\u00edptica, quebrar economias inteiras, conseguir os segredos mais \u00edntimos de qualquer pessoa&#8230; Sr. F. tinha um plano, mas seus subordinados dele nada sabiam al\u00e9m de suposi\u00e7\u00f5es vagas e retalhos de informa\u00e7\u00f5es conquistados a duras penas.<\/p>\n<p>O cuidado incr\u00edvel com detalhes e a forma como Michel conseguira costurar fatos cotidianos e desconfian\u00e7as do cidad\u00e3o m\u00e9dio numa grande colcha conspirat\u00f3ria foram decisivos para tornar Sr. F. numa celebridade global. Mesmo que ningu\u00e9m fosse capaz de provar nada. Mas segundo Michel, n\u00e3o se prova nada contra algu\u00e9m que controla todas as informa\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Intelectuais e cr\u00edticos, que antes concediam trof\u00e9us e discursos elogiosos sobre seu trabalho, agora se resumiam a conceder farpas e esc\u00e1rnio. O livro de Michel era considerado literatura barata para a massa incapaz de reconhecer qualidade. Fabrica\u00e7\u00f5es de um homem desesperado por uns trocados e lenha na perigosa fogueira dos malucos que enxergavam conspira\u00e7\u00f5es at\u00e9 mesmo em suas sombras.<\/p>\n<p>Evidente que nada disso abalava a f\u00e9 de seus f\u00e3s. Suas sess\u00f5es de aut\u00f3grafos criavam filas que davam voltas no quarteir\u00e3o, suas entrevistas cada vez mais concorridas, pedidos desesperados da editora por novos livros&#8230; Dif\u00edcil argumentar sobre as benesses da integridade quando seu abandono come\u00e7a a render milh\u00f5es. Michel nunca demonstrou nada al\u00e9m de convic\u00e7\u00e3o na sua biografia n\u00e3o-autorizada do suposto l\u00edder de todas as conspira\u00e7\u00f5es globais.<\/p>\n<p>Apenas um ano depois do lan\u00e7amento, a obra j\u00e1 estava comprada por um grande est\u00fadio de cinema. Junto com os dividendos oriundos das livrarias, a fortuna pessoal de Michel j\u00e1 chegava aos milh\u00f5es. E \u00e9 aqui que eu quero que voc\u00eas prestem mais aten\u00e7\u00e3o: Antes de se mudar para sua ilha particular, ele gastou boa parte de seu patrim\u00f4nio comprando a\u00e7\u00f5es de uma proeminente fabricante de armamentos. Que nem t\u00e3o curiosamente acabou fechando o maior contrato de fornecimento para um grande ex\u00e9rcito meses depois.<\/p>\n<p>Pelo o que sabemos, o passado de Michel como jornalista pol\u00edtico o deu acesso a informa\u00e7\u00f5es privilegiadas sobre a estrat\u00e9gia de ocupa\u00e7\u00e3o do maior ex\u00e9rcito do mundo nos anos seguintes. Quando come\u00e7ou a guerra, seus milh\u00f5es viraram bilh\u00f5es. E esses bilh\u00f5es n\u00e3o foram utilizados apenas para montar uma fortaleza ao redor de sua isolada resid\u00eancia, eles viraram mais e mais a\u00e7\u00f5es, de in\u00fameras empresas que se valorizaram de forma espetacular pouco tempo depois. Curioso que sempre depois de algum boato mencionando o interesse de um tal de Sr. F. na compra delas.<\/p>\n<p>Claro, isso nunca veio realmente ao grande p\u00fablico. Atrav\u00e9s do depoimento de uma testemunha muito pr\u00f3xima a Michel, ele conseguira desmembrar sua corpora\u00e7\u00e3o em in\u00fameras empresas virtualmente desconectadas de sua pessoa. Ele sempre aparecia na lista dos mais ricos do mundo, mas nunca com seu real valor de mercado. Numa das antigas que conseguimos preservar, sete dos dez mais eram diretamente ligados a Michel. Na \u00e9poca ningu\u00e9m sabia, quer dizer, ningu\u00e9m al\u00e9m de alguns &#8220;malucos&#8221; cuja palavra n\u00e3o carregava muita confiabilidade.<\/p>\n<p>E a exposi\u00e7\u00e3o exagerada na m\u00eddia j\u00e1 estava no passado. N\u00e3o se passaram mais do que cinco anos do lan\u00e7amento do livro para que nenhum meio de comunica\u00e7\u00e3o fosse sequer capaz de chegar perto da ilha onde passava seus dias recluso. Para o grande p\u00fablico, Michel havia se tornado um multimilion\u00e1rio exc\u00eantrico com medo de se expor. Na realidade ele j\u00e1 era um quase trilion\u00e1rio capitaneando uma megacorpora\u00e7\u00e3o secreta, com participa\u00e7\u00e3o ativa desde a produ\u00e7\u00e3o de insumos b\u00e1sicos at\u00e9 mesmo eletr\u00f4nicos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o e equipamento militar.<\/p>\n<p>At\u00e9 por isso, sua morte n\u00e3o ganhou muito destaque na m\u00eddia. F\u00e3s fizeram belas homenagens, mencionaram o belo gesto de doar quase toda sua fortuna declarada para a caridade, mas nada que rendesse reportagens de grande dura\u00e7\u00e3o. Ajudou nessa falta de interesse midi\u00e1tico o fato de que mulher, filho e parentes mais pr\u00f3ximos ou n\u00e3o foram encontrados, ou se recusavam a dar entrevistas. Al\u00e9m disso, a certid\u00e3o de \u00f3bito confidencial e o enterro em local n\u00e3o revelado impossibilitaram qualquer outra forma de aproxima\u00e7\u00e3o de jornalistas e curiosos.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria de Michel se esvaiu rapidamente da mente do p\u00fablico. At\u00e9 mesmo porque com a Terceira Grande Guerra Mundial acontecendo um ano depois, n\u00e3o havia mais muito espa\u00e7o para outros assuntos. A Guerra todos sabemos como acabou&#8230; As crian\u00e7as de hoje sequer entenderiam o mundo de antigamente. Muitas concess\u00f5es foram feitas em nome da paz, cedemos de bom grado boa parte da liberdade que t\u00ednhamos em troca de um futuro.<\/p>\n<p>Sabemos como a Guerra acabou, mas muito pouco ainda se diz sobre como ela come\u00e7ou. Aquele ataque nuclear ainda n\u00e3o faz sentido, principalmente da forma como ocorreu. Entendo que fizemos um compromisso para virar a p\u00e1gina, mas algumas das palavras da p\u00e1gina anterior ainda n\u00e3o formam uma senten\u00e7a. E espero que minhas nem t\u00e3o discretas insinua\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam vistas como um desafio ao regime de sucesso organizado pelo General Ferdinando.<\/p>\n<p>Temos a civiliza\u00e7\u00e3o de volta, e por isso somos todos gratos, mas um dos pilares dos nossos melhores momentos como sociedade estava na liberdade de express\u00e3o, na capacidade de questionar e sanar nossas d\u00favidas. O acesso aos registros militares pr\u00e9vios \u00e0 Grande Guerra nos ajudariam imensamente a dirimir quaisquer suposi\u00e7\u00f5es sobre suas motiva\u00e7\u00f5es e ajudar nesse dif\u00edcil processo de reconstru\u00e7\u00e3o, t\u00e3o ligado \u00e0 confian\u00e7a do povo em seus l\u00edderes.<\/p>\n<p>O povo quer saber. Os boatos sobre as pl\u00e1sticas realizadas antes do acordo de paz tamb\u00e9m n\u00e3o ajudam. Sem uma vers\u00e3o oficial, muitas pessoas v\u00e3o continuar distribuindo o livro de Michel, mesmo sob o risco de san\u00e7\u00f5es legais, como as promulgadas recentemente.<\/p>\n<p>N\u00e3o pe\u00e7o a verdade apenas pela minha curiosidade jornal\u00edstica, pe\u00e7o-a por me preocupar com esta grande civiliza\u00e7\u00e3o. A verdade nos libertar\u00e1.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">NOTA DO EDITOR: Ficou maluco? Essa porra de editorial nunca vai passar pela censura! E mesmo se passasse, n\u00e3o passaria por mim&#8230; Muito chato. Eu n\u00e3o te mandei escrever sobre o novo reality show &#8220;Tr\u00eas seios&#8221;? Seu sal\u00e1rio \u00e9 alto demais para voc\u00ea ficar perdendo tempo!<\/span><\/p>\n<h3>Para dizer que est\u00e1 desconfiando que eu mudo de ideia sobre o texto no meio do texto, para pegar a refer\u00eancia e ganhar meu respeito, ou mesmo para dizer que j\u00e1 sabia de tudo isso faz tempo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um livro distribu\u00eddo de forma clandestina vem chamando a aten\u00e7\u00e3o de muita gente ultimamente. Mas ao inv\u00e9s de gritar &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221; como v\u00e1rios de meus colegas de profiss\u00e3o, pretendo me ater apenas aos fatos apurados sobre o assunto. E n\u00e3o se pode falar desse livro sem mencionar seu autor primeiro: Michel ficara conhecido no meio jornal\u00edstico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-4009","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4009"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4009\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}