{"id":4074,"date":"2013-02-08T06:49:26","date_gmt":"2013-02-08T08:49:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=4074"},"modified":"2013-02-08T06:49:26","modified_gmt":"2013-02-08T08:49:26","slug":"descult-a-artista-esta-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/02\/descult-a-artista-esta-presente\/","title":{"rendered":"Descult: A Artista Est\u00e1 Presente."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4075\" alt=\"descult_artista-presente\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/descult_artista-presente.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/descult_artista-presente.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/descult_artista-presente-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Entre os dias 14 de Mar\u00e7o e 31 de Maio de 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa) exibiu uma &#8220;instala\u00e7\u00e3o&#8221; chamada &#8220;The Artist Is Present&#8221;, de Marina Abramovi\u0107. Marina, cujo sobrenome vou evitar que nem a peste por causa da letra final que n\u00e3o encontro em meu teclado, sentou silenciosa encarando fixamente visitantes do museu, durante horas, todos os dias. E se voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 achando chato, saiba que eu vou recomendar o document\u00e1rio feito sobre esse acontecimento. Vai encarar?<!--more--><\/p>\n<p>Marina \u00e9 uma daquelas artistas perform\u00e1ticas que adora &#8220;chocar a sociedade&#8221;, arquitetando e executando as mais diversas sandices para chamar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas. Voc\u00eas imaginam o tipo, n\u00e3o? Pessoalmente, nunca fui muito f\u00e3 desse tipo de arte, acho tudo simb\u00f3lico demais, com exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, da nada discreta vontade de aparecer. Entendam que n\u00e3o estou entrando nesse texto com a pretens\u00e3o de demonstrar bagagem cultural, afinal, n\u00e3o estamos num lugar onde sensibilidade art\u00edstica seja exatamente um predicado a ser anunciado. Ainda bem, que fique registrado.<\/p>\n<p>Onde eu estava? Ah, sim&#8230; Marina. Apesar do preconceito inicial pelo seu campo de atua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso negar exista um qu\u00ea de trollagem nesse tipo de intera\u00e7\u00e3o com a sociedade. Com a estrat\u00e9gia correta, esses arroubos de express\u00e3o art\u00edstica podem gerar o interessante efeito de desmascarar as pessoas ao seu redor. Marina passou boa parte de sua carreira pelada, fazendo coisas estranhas e mantendo a pose de &#8220;alternativa&#8221;. J\u00e1 gozava de relativa fama nos circuitos mais &#8220;art\u00edsticos&#8221;, mas estava afim de passar um pouco de tempo debaixo dos holofotes e ser lembrada por algo a mais do que suas esquisitices habituais.<\/p>\n<p>E n\u00e3o sou eu fazendo uma presun\u00e7\u00e3o, ela mesma declara que queria mesmo chamar aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fez pose, assumiu o objetivo. Achei digno. Digno por vir de quem vem: Pode-se culp\u00e1-la de v\u00e1rias coisas, mas uma delas com certeza n\u00e3o \u00e9 oportunismo. Marina passa a impress\u00e3o clara de que realmente se importa e acredita no que est\u00e1 fazendo. Direito de cada um achar arte perform\u00e1tica e interven\u00e7\u00f5es babaquice, em muitas situa\u00e7\u00f5es eu tamb\u00e9m acho, mas h\u00e1 de se louvar quem pelo menos faz isso porque quer, gosta e acha que tem fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa pequena defesa logo no come\u00e7o do texto \u00e9 para TENTAR conter narizes torcidos e olhos revirados ao descrever sobre o que se tratava a instala\u00e7\u00e3o &#8220;A Artista Est\u00e1 Presente&#8221;: Marina sentava-se em uma cadeira, no meio de um espa\u00e7oso espa\u00e7o quadrado dentro do museu, e as pessoas (qualquer uma) podiam se sentar logo a sua frente para encar\u00e1-la, olhos nos olhos, sem proferir uma palavra sequer, por pelo menos quinze minutos.<\/p>\n<p>Sim, a arte em quest\u00e3o era olhar em sil\u00eancio para os cornos de uma artista por um quarto de hora, levantar-se e ir embora. A exposi\u00e7\u00e3o foi um sucesso estrondoso, espa\u00e7os concorridos e in\u00fameras pessoas levadas \u00e0s l\u00e1grimas s\u00f3 por estar ali. S\u00f3 de explicar parece meio bobo, e pra mim era justamente isso at\u00e9 VER as cenas no document\u00e1rio.<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.hbo.com\/documentaries\/marina-abramovic-the-artist-is-present\/index.html#\/documentaries\/marina-abramovic-the-artist-is-present\/index.html\" target=\"_blank\">document\u00e1rio de t\u00edtulo hom\u00f4nimo<\/a> \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 passando na HBO, e com um pouco de pesquisa &#8220;tapa olho e perna de pau&#8221; tamb\u00e9m na internet. Por si s\u00f3, \u00e9 basicamente um apanhad\u00e3o do dia a dia da exposi\u00e7\u00e3o, com o b\u00e1sico de entrevistas e escolha de melhores momentos da partida. Muito bem feito, com um ritmo \u00e1gil o suficiente para at\u00e9 gente que faz cara feia para arte moderna (feito eu) aguentar o tranco at\u00e9 o final.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio, como todo bom document\u00e1rio (ouviu, Michael Moore?), n\u00e3o tenta enfiar nenhuma conclus\u00e3o goela abaixo de quem o assiste. Talvez te fa\u00e7a mudar de ideia sobre essa obra em quest\u00e3o, talvez voc\u00ea continue achando tudo uma pataquada. Mas com certeza deixa o terreno bem preparado para que voc\u00ea mesmo tire suas conclus\u00f5es. E foi isso que eu fiz.<\/p>\n<p>Para entender um pouco sobre o que eu vou falar antes de assistir, \u00e9 bom entender um pouco qual \u00e9 o &#8220;layout&#8221; de Marina: Ela tinha 63 anos de idade na \u00e9poca do &#8220;A Artista Est\u00e1 Presente&#8221;, mas se ningu\u00e9m te avisar, ela passa f\u00e1cil por uma quarentona. E mesmo com fei\u00e7\u00f5es pendendo bem mais para o lado ex\u00f3tico (vulgo narig\u00e3o), ainda sim \u00e9 uma mulher surpreendentemente atraente e jovial para a idade. E isso \u00e9 importante para que n\u00e3o se confunda-a com uma mulher que evoca a imagem de matrona propriamente dita. Madura, mas sem aquela aura inofensiva de &#8220;vov\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>As pessoas ficavam esperando sua vez para passar seus quinze minutos em frente dela, e muitas saiam de l\u00e1 visivelmente abaladas. O tempo todo em sil\u00eancio, olhando fixamente nos olhos de outro ser humano. Minha empatia funcionou muito bem nesse caso porque eu nunca gostei muito de olhar nos olhos dos outros, parece uma experi\u00eancia banal, mas ela claramente carrega um peso impressionante, tanto nas pessoas quanto em Marina.<\/p>\n<p>\u00c9 vis\u00edvel como depois de algum tempo as duas pessoas come\u00e7am a se sentir mais vulner\u00e1veis. \u00c9 tenso viver num mundo onde as pessoas tendem a n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o umas nas outras e se ver como foco central de algu\u00e9m. As pessoas n\u00e3o parecem preparadas para isso. Apesar de achar meio exagerado, at\u00e9 consegui &#8220;entender&#8221; quem acabava chorando ou sa\u00eda de l\u00e1 desconcertado. \u00c9 uma guinada brusca na vida de muita gente.<\/p>\n<p>Normalmente eu n\u00e3o vejo o ponto desse tipo de arte, mas dessa vez pegou na veia. Posso estar fazendo o famoso papel do cr\u00edtico que cria o significado para o artista, mas o importante \u00e9 que havia ali uma mensagem e uma an\u00e1lise humana a ser depreendida. N\u00f3s nos vemos pelos olhos dos outros, a t\u00e3o desejada aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla, muitas vezes dif\u00edcil de lidar.<\/p>\n<p>Tinha gente que estava claramente desconcertada ali, dava para ver na express\u00e3o da pessoa que ela estava se sentindo pelada na frente de uma multid\u00e3o. Tudo isso resultado apenas de uma mulher olhando nos seus olhos por quinze minutos. Isso deve ser m\u00e9todo de interrogat\u00f3rio em algum lugar do mundo, parece muito eficiente. Por si s\u00f3, isso \u00e9 um insight precioso sobre a mente humana. E essa parte se pega logo ao assistir o document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas enquanto o tempo passa no filme, tamb\u00e9m corre na vida real que se prop\u00f5e a captar. E \u00e9 quando a exposi\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ficar famosa em Nova Iorque e no resto do mundo que as coisas come\u00e7am a ficar mais divertidas para mim. \u00c9 quando as pessoas que se sentam ali come\u00e7am a vivenciar os efeitos da fama alcan\u00e7ada pela instala\u00e7\u00e3o de Marina.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, temos v\u00e1rias pessoas que s\u00f3 &#8220;curtem o momento&#8221;, curiosas pela quebra do cotidiano e o contato com uma artista que teve uma ideia inusitada. Mas quando come\u00e7am a chegar as pessoas que receberam indica\u00e7\u00f5es ou viram as mat\u00e9rias na m\u00eddia, a rea\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ficar mais &#8220;cat\u00e1rtica&#8221;, parece que todo mundo come\u00e7a a chorar depois de alguns minutos, gente de tudo quanto \u00e9 canto n\u00e3o est\u00e1 mais numa obra de arte cabe\u00e7uda, est\u00e1 vivendo uma experi\u00eancia quase que religiosa.<\/p>\n<p>As filas come\u00e7am a aumentar, pessoas come\u00e7am a acampar fora do museu por dias a fio s\u00f3 pela oportunidade de se sentar em frente a Marina. Agora \u00e9 algo que as pessoas &#8220;precisam experimentar&#8221;. E \u00e9 aqui que meu lado troll come\u00e7a a guiar a an\u00e1lise. A arte acaba domesticada, transformada em lugar comum, ponto tur\u00edstico&#8230; As pessoas entram na dan\u00e7a porque querem se sentir parte de algo maior.<\/p>\n<p>A babaquice humana volta com tudo. O primeiro passo \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de Marina em uma esp\u00e9cie de deusa, que tudo sabe e tudo v\u00ea. Justi\u00e7a seja feita: Marina nunca parece comprar essa bobagem e mant\u00e9m uma invej\u00e1vel integridade durante o processo. E parece ser uma rotina extenuante&#8230; mesmo sentada o dia todo. S\u00e3o os que sentam a sua frente e se empoleiram ao seu redor assistindo os outros sentarem que v\u00e3o gerando essa &#8220;aberra\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E aberra\u00e7\u00e3o entre aspas mesmo. \u00c9 previs\u00edvel que as pessoas comecem a se comportar assim, est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do processo de idoliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o comum ao ser humano. Mas ao mesmo tempo, isso come\u00e7a a alienar e desumanizar a artista, virando a proposta de ponta-cabe\u00e7a. Me parece claro que tem gente chorando e dizendo que sua vida mudou por pura auto sugest\u00e3o, at\u00e9 mesmo crian\u00e7as. Uma crian\u00e7a n\u00e3o deveria ter dentro de si &#8220;monstros&#8221; suficientes para serem desvendados por um olhar fixo de outro ser humano. Deveria ser uma experi\u00eancia curiosa, n\u00e3o uma catarse.<\/p>\n<p>Muitos babacas aparecem querendo pegar uma carona no sucesso e baratear TODO o processo com a maldi\u00e7\u00e3o dos quinze minutos de fama. Achei o m\u00e1ximo como os seguran\u00e7as locais n\u00e3o abriam nenhuma brecha para quem queria fazer daquilo um palco pessoal e dividir a aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o bastava o conceito da exposi\u00e7\u00e3o, tinham que aparecer mais. A porra da ideia toda era dissociar fama de aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Se esse era o plano de Marina o tempo todo, o que pode ser depreendido pela sua alegada motiva\u00e7\u00e3o de ser lembrada e deixar um legado, n\u00e3o deixa de ser uma bela de uma trollada nas pessoas que estiveram por l\u00e1. As pessoas s\u00e3o t\u00e3o carentes e sugestion\u00e1veis que basta quinze minutos de aten\u00e7\u00e3o para uma pessoa se entregar completamente. Muitos(as) sa\u00edram de l\u00e1 se dizendo perdidamente apaixonados, outros praticamente pregando a sobrenaturalidade do momento&#8230; Quinze minutos olhando nos olhos de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00f3s aqui no desfavor sempre falamos que trollagem \u00e9 arte quando voc\u00ea exp\u00f5e a pessoa pelo o que ela realmente \u00e9, sem precisar ser invasivo. E \u00e9 sublime quando voc\u00ea consegue fazer suas &#8220;v\u00edtimas&#8221; virem at\u00e9 voc\u00ea, pedindo mesmo que por vias indiretas para ser cobaia. Nesse ponto, eu enxerguei &#8220;A Artista Est\u00e1 Presente&#8221; como uma das formas mais l\u00fadicas e&#8230; n\u00e3o acredito que vou escrever isso&#8230; po\u00e9ticas&#8230; de trollagem poss\u00edvel. Marina ainda pode ser apenas mais uma intelectual\u00f3ide movida a pretens\u00e3o, dif\u00edcil entrar na cabe\u00e7a da pessoa para definir isso com certeza, mas mesmo que de forma n\u00e3o intencional, ainda sim tem o m\u00e9rito de ser mais reveladora sobre a natureza humana do que muitas teses e estudos por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00e1tica. \u00c9 um experimento social. E por isso me chamou a aten\u00e7\u00e3o como poucas coisas chamaram nos \u00faltimos tempos. Altamente recomendado, principalmente se voc\u00ea n\u00e3o entrar nessa querendo colocar express\u00e3o art\u00edstica num pedestal.<\/p>\n<p>Ah, e tem gente pelada.<\/p>\n<h3>Para dizer que agora n\u00e3o sabe mais o que eu posso fazer para ser chato, para perguntar se eu estou punindo os leitores por discordarem de mim, ou mesmo para dizer que eu n\u00e3o entendi a proposta da artista (e?): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os dias 14 de Mar\u00e7o e 31 de Maio de 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa) exibiu uma &#8220;instala\u00e7\u00e3o&#8221; chamada &#8220;The Artist Is Present&#8221;, de Marina Abramovi\u0107. Marina, cujo sobrenome vou evitar que nem a peste por causa da letra final que n\u00e3o encontro em meu teclado, sentou silenciosa encarando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-4074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-descult"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4074"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4074\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}