{"id":4230,"date":"2013-03-10T12:00:56","date_gmt":"2013-03-10T15:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=4230"},"modified":"2013-03-10T05:56:52","modified_gmt":"2013-03-10T08:56:52","slug":"desfavor-convidado-borderline","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/03\/desfavor-convidado-borderline\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: Borderline."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4231\" alt=\"descon_borderline\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon_borderline.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon_borderline.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon_borderline-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em> O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Transtorno de personalidade borderline.<\/strong><\/p>\n<p>Esque\u00e7a o Google nesse momento e preste aten\u00e7\u00e3o no que vou dizer, pois o tormento de ter um transtorno de personalidade borderline (ou lim\u00edtrofe) vai al\u00e9m dos crit\u00e9rios descritos em qualquer site que voc\u00ea leia.<!--more--><\/p>\n<p>E se voc\u00ea ler algo e se identificar e se auto diagnosticar como \u201cborderline\u201d, tenha em mente que muitos dos tra\u00e7os de algu\u00e9m com um transtorno \u00e9 comum em v\u00e1rias pessoas, o que se torna um problema, \u00e9 a intensidade, quando ele lhe impede de viver. Muitas pessoas, jovens, se sentem diferentes, passam por oscila\u00e7\u00f5es de humor, acreditam ter e, tamb\u00e9m, pensam que um transtorno \u00e9 uma resposta \u201cAh, ent\u00e3o por isso eu sou assim\u201d. N\u00e3o, \u00e9, sobretudo dor e f\u00faria, sem glamour algum. \u201cSer normal demais \u00e9 chato\u201d, n\u00e3o consigo descrever o qu\u00e3o ofendido eu me sinto quando com tal coment\u00e1rio. Somente quem n\u00e3o \u00e9 uma pessoa perturbada, atormentada, pode falar algo assim. E tamb\u00e9m, algu\u00e9m ignorante quanto ao tema.<\/p>\n<p>Eu, diagnosticado h\u00e1 anos, somente consigo me sentir um tanto quanto normal quando estou medicado por drogas diversas: Antidepressivo, moderador de humor, antipsic\u00f3tico e, por vezes, ansiol\u00edtico. Nenhuma dessas subst\u00e2ncias \u00e9 natural ao nosso organismo, que reage a elas nem sempre de uma forma muito agrad\u00e1vel ao paciente, os efeitos colaterais s\u00e3o diversos:<\/p>\n<p>Sono em excesso, n\u00e1useas sem fim, fraqueza nos membros, diarr\u00e9ia, cefal\u00e9ia, ins\u00f4nia. Entre outros tantos. Meu coquetel n\u00e3o me causa impot\u00eancia, mas h\u00e1 quem precise de outras drogas em dosagens que cause isso sim. O mais normal que posso ficar \u00e9 dopado. Com o c\u00e9rebro trancado em uma jaula e um sentimento de estar alheio ao mundo. O comum \u00e9 sentir que estou pisando em gelatina.<\/p>\n<p>Espero que at\u00e9 que voc\u00ea leitor conclua a leitura, a ilus\u00e3o e a glamouriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ter transtorno tenha come\u00e7ado a ser transformada.<\/p>\n<p>Ter um transtorno n\u00e3o \u00e9 como ter um adesivo para deficientes que lhe concede uma vaga especial, existe pouca empatia por parte das pessoas, poucos parceiros entendem que uma das principais caracter\u00edsticas \u00e9 o medo do abandono, que s\u00e3o comuns esfor\u00e7os fren\u00e9ticos para evitar ficar sozinho, necessidade constante de n\u00e3o se sentirem sem apoio. Qualquer ato m\u00ednimo do parceiro ir\u00e1 fazer com que o TPB se sinta rejeitado, desvalorizado e, isso ir\u00e1 desencadear uma crise.<\/p>\n<p>Mas as crises n\u00e3o ocorrem somente em relacionamentos homem-mulher.<\/p>\n<p>Lembro que me por anos minhas notas no col\u00e9gio a cada bimestre eram as m\u00e1ximas, esperava elogios, mas uma vez ao perguntar o motivo deles n\u00e3o se importarem com isso, ouvi \u201cSei que n\u00e3o preciso me preocupar com voc\u00ea, al\u00e9m disso, estamos sempre preocupados com seu irm\u00e3o\u201d. E em seguida sempre escutava um elogio para ele. Rea\u00e7\u00e3o agressiva minha, provocava alguma briga, discuss\u00e3o, chorava de dor e \u00f3dio. Em seguida, depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje voc\u00ea diz bom dia sorrindo, amanh\u00e3 est\u00e1 de mau humor (como qualquer pessoa normal), diz um bom dia diferente e, o TPB, com seu ego fr\u00e1gil e doentio pensa \u201cEla mudou comigo!\u201d, \u201cEla n\u00e3o gosta mais de mim\u201d, o que desencadeia uma discuss\u00e3o ou simplesmente um afastamento da pessoa, pois ele ir\u00e1 v\u00ea-la como algu\u00e9m ruim, m\u00e1, que n\u00e3o gosta dela e n\u00e3o merece sua considera\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m a auto-imagem que um borderline faz de si mesmo oscila entre se sentir o m\u00e1ximo, poderoso e, sentir-se um uma pessoa ruim, um paria. A apar\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 algo preocupante, se sentem feios, inclusive indignos do parceiro. \u00c9 comum a distor\u00e7\u00e3o da imagem (inclusive alguns borderlines desenvolvem transtornos alimentares, entre outras comorbidades poss\u00edveis).<\/p>\n<p>A r\u00e1pida valoriza\u00e7\u00e3o, idealiza\u00e7\u00e3o, diante de rec\u00e9m conhecidos e, uma desvaloriza\u00e7\u00e3o que ocorre na mesma velocidade, faz com que o borderline se envolva em relacionamentos conturbados, inst\u00e1veis. Isso se repetindo em um ciclo doentio.<\/p>\n<p>Por vezes, a intelig\u00eancia emocional de um TPB beira a de uma crian\u00e7a de cinco anos. E uma crian\u00e7a m\u00e1 e mimada, porque borderlines sabem como ser cru\u00e9is e colocar o dedo na ferida, por vezes, at\u00e9 s\u00e3o violentos.<\/p>\n<p>Quando estou hiperativo penso em mil coisas, as quais naquele momento fazem sentido, entro em discuss\u00f5es banais, agrido com palavras pessoas pelas quais tenho carinho. Mas quando passa esse estado, tenho consci\u00eancia dos estragos, depress\u00e3o. \u201cSinto muito eu n\u00e3o queria ter dito aquilo, n\u00e3o penso assim de verdade, eu n\u00e3o sou assim\u201d. Discurso comum. Como resultado, pessoas importantes pra mim acabam se afastando.<\/p>\n<p>A impulsividade leva um TPB a se envolver em brigas, por vezes corporais. Eu at\u00e9 pouco tempo andava com um soco ingl\u00eas no bolso, j\u00e1 desci do carro com extintor de inc\u00eandio na m\u00e3o, em uma discuss\u00e3o no tr\u00e2nsito. J\u00e1 joguei meu carro em cima de outro, de uma senhora.<\/p>\n<p>Eu sempre escuto uma voz dizendo \u201cvoc\u00ea tem de fazer isso\u201d, a tristeza, o vazio, essas emo\u00e7\u00f5es costumavam me levar ao uso de qualquer coisa pra me fazer fugir da realidade, bebida e outras coisas mais, mas gastar tamb\u00e9m me fazia bem. Os mesmos sentimentos que me motivavam a isso retornavam mais fortes, pois vinham acompanhados de um remorso, culpa, sensa\u00e7\u00e3o de fraqueza e impot\u00eancia. N\u00e3o que eu tenha eliminado isso.<\/p>\n<p>Existe para o borderline um risco aumentado para pr\u00e1tica de sexo prom\u00edscuo, gastos compulsivos, abuso de subst\u00e2ncias, automutila\u00e7\u00e3o e menos comumente, se queimam. Um colega, 45 anos, \u00e9 adicto e entra e sai de cl\u00ednicas de reabilita\u00e7\u00e3o. Tentativas de suic\u00eddio s\u00e3o comuns, algumas s\u00e3o feitas no desespero, sem premedita\u00e7\u00e3o; uma tentativa de parar a dor. Outras s\u00e3o realmente para chamar a aten\u00e7\u00e3o. \u201cEu existo, se importe comigo, me ame\u201d. Ao menos tr\u00eas colegas de um grupo de borderlines que eu freq\u00fcentava se suicidaram.<\/p>\n<p>Causas? Pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica aliada com fatores externos \u00e9 o mais comum, os meus foram alguns, como abusos de diversas formas: Sexual, moral; Agress\u00f5es e abandono; Aus\u00eancia dos meus pais e suas aten\u00e7\u00f5es; Predile\u00e7\u00e3o pelo seu primog\u00eanito; austeridade paterna motivada pelo \u00e1lcool em seu sangue. Costumo fazer a analogia de que tenho um software ruim, instalado em um hardware defeituoso.<\/p>\n<p>Lembran\u00e7as de ouvir &#8220;Como voc\u00ea \u00e9 feio&#8221;, &#8220;Voc\u00ea \u00e9 uma crian\u00e7a m\u00e1&#8221;, e os abusos, os quais fui compreender durante a pr\u00e9-adolesc\u00eancia, esses fatos me danificaram e penso n\u00e3o ter conserto, somente pequenos reparos pra ir sobrevivendo.<\/p>\n<p>Vivo com um excesso de sensibilidade, como se tivesse sofrido uma queimadura de terceiro grau, um inferno que beira a loucura, aonde o m\u00ednimo fator j\u00e1 altera o meu humor e, as rea\u00e7\u00f5es nunca s\u00e3o ponderadas ou saud\u00e1veis. Sofro com as incertezas sobre minha carreira, muitas mudan\u00e7as de c\u00edrculos de amizade, relacionamentos inst\u00e1veis, personalidade indefinida, sem identidade&#8230; Sempre olhando pra fora, nas outras pessoas, agindo feito uma esponja, adquirindo trejeitos, gostos, mentindo pra elas e pra mim mesmo, apenas querendo encontrar meu lugar nesse mundo.<\/p>\n<p>At\u00e9 esse ponto talvez voc\u00ea pense \u201cMas todo mundo \u00e9 assim\u201d, volte e releia aonde eu falei que a chave \u00e9 a intensidade, e se alguns desses aspectos atrapalham sua vida, um tratamento \u00e9 necess\u00e1rio. Al\u00e9m do uso da medica\u00e7\u00e3o, a psicoterapia \u00e9 importante, creio que hoje seja capaz de manter uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel um dia, talvez filhos, estou mais soci\u00e1vel e tenho mantido amigos, uma vida. Ainda tenho meus surtos, como no momento em que sentei para escrever esse texto que editei , pois enquanto eu o escrevia, meu humor foi mudando.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 vasto, existem diversos livros, para transtornados e familiares, o melhor \u00e9 o \u201cPare de pisar em ovos\u201d, uma busca r\u00e1pida pelo Google lhe retornar\u00e1 resultados sobre esse livro. N\u00e3o tinha como evitar exemplos pessoais, creio ter sido a melhor forma de tentar elucidar um pouco sobre o tema.<\/p>\n<p>Minha vida poderia ter sido outra, minha carreira e rela\u00e7\u00f5es foram prejudicadas. Mas nunca usei qualquer desculpa para minhas atitudes, nem me coloco em um grupo de \u201cIntoc\u00e1veis\u201d, pois n\u00e3o me interessa piedade e compaix\u00e3o. Tamb\u00e9m desprezo pr\u00e9-conceito.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Assinado: An\u00f4nimo.<\/strong><\/span><\/em><br \/>\n<span style=\"color: #888888;\">Nota do Somir: N\u00e3o sabia se a pessoa queria se identificar. Preferi pecar pela cautela&#8230; Se quiser, \u00e9 s\u00f3 avisar (por aqui ou por e-mail) que eu corrijo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. Transtorno de personalidade borderline. 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