{"id":4271,"date":"2013-03-17T13:00:15","date_gmt":"2013-03-17T16:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=4271"},"modified":"2013-03-17T06:12:01","modified_gmt":"2013-03-17T09:12:01","slug":"desfavor-convidado-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/03\/desfavor-convidado-amor\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: Amor."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4272\" alt=\"descon-amor\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon-amor.jpg\" width=\"600\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon-amor.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/descon-amor-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em> O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1602620\/\" target=\"_blank\">Amor<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Quando li a resenha do filme Amor, pensei que fosse um filme sobre&#8230;amor. No caso, o amor de duas pessoas na casa de seus oitenta anos, tentando suavemente lidar com a velhice \u00e0 espera da transi\u00e7\u00e3o para o andar de cima, de baixo ou simplesmente o fim, dependendo da sua cren\u00e7a.<!--more--><\/p>\n<p>S\u00f3 que de transi\u00e7\u00e3o, suavidade e amor, esse filme n\u00e3o tem nada. E \u00e9 por isso que merecia ganhar o Oscar.<\/p>\n<p>Georges e Anne s\u00e3o dois professores de m\u00fasica aposentados no alto dos seus oitenta anos, com uma vida tranq\u00fcila, j\u00e1 que a filha mora com sua fam\u00edlia no exterior, morando em um grande apartamento em Paris e aproveitando a vida cultural que a cidade oferece, como assistir concertos de um grande pianista ex-aluno deles.<\/p>\n<p>Um dia, Anne sofre um pequeno derrame. M\u00e9dicos dizem que a cirurgia que ela fizera pouco antes para justamente evitar essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia dado certo e que a piora era inevit\u00e1vel. Tanto que, logo em seguida, ela fica com metade do corpo paralisado.<\/p>\n<p>Nessa hora, pensei que ser daqueles filmes melosos, em que a \u00fanica filha deixaria de ser aquele ser ingrato ausente, e comporia com o pai aquele quadro ador\u00e1vel de fam\u00edlia de comercial de margarina, na torcida de que o amor curasse milagrosamente a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Porra nenhuma. Nada de amor e abnega\u00e7\u00e3o. O que o derrame da mulher desencadeou foi o ego\u00edsmo de todo mundo.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar pela pr\u00f3pria doente, a mais ego\u00edsta de todas, ao pedir que n\u00e3o fosse levada novamente para o hospital. Afinal, uma coisa \u00e9 ter um c\u00e2ncer terminal, poucos meses de vida. Outra \u00e9 ter um derrame e n\u00e3o saber quanto tempo levar\u00e1 para a pessoa morrer (a av\u00f3 de um amigo meu passou dez anos entrevada). Uma coisa \u00e9 ter uma fam\u00edlia morando junto ou perto, em que todos possam se revezar na hora de limp\u00e1-la. Outra \u00e9 incumbir um idoso de oitenta e tantos anos ao esfor\u00e7o f\u00edsico e psicol\u00f3gico de cuidar sozinho da mulher. Por mais que se contratem enfermeiras que d\u00eaem banho com aquele carinho de um banho-e-tosa.<\/p>\n<p>Em seguida, o velho. Muito bonito ficar ao lado da cama da velha, cantar-lhe m\u00fasicas, fazer-lhe carinho. Mas, caramba, de novo, uma coisa \u00e9 topar algo que vai ter um final determinado. Outra \u00e9 topar algo que n\u00e3o se sabe quando vai acabar. Numa dessas, estar\u00e1 t\u00e3o velho e fr\u00e1gil que ele mesmo se coloca em risco (e a mulher) quando faz um esfor\u00e7o descomunal para tir\u00e1-la ou coloc\u00e1-la na cadeira de rodas. Ou colocar a mulher de volta na cama, quando esta caiu no ch\u00e3o. Sem falar do desgaste psicol\u00f3gico. Ter que amenizar o sofrimento da mulher, enquanto esta o xinga, faz pouco de seus cuidados, delira ou mesmo se recusa a tomar \u00e1gua. A\u00ed soldadinho perde a paci\u00eancia, senta a m\u00e3o na doente e todos saem criticando.<\/p>\n<p>Por fim, a filha. A cena mais legal do filme \u00e9 quando a infeliz est\u00e1 sentada ao lado da m\u00e3e, incapaz de falar pelo derrame, e insinua que seria uma boa aproveitar o bom momento do mercado imobili\u00e1rio para vender o apartamento, que n\u00e3o seria uma boa heran\u00e7a j\u00e1 que a filha morava na Inglaterra. No filme todo, a filha se desespera, chora, reclama da atitude do pai, cobra um melhor tratamento para a m\u00e3e, mas ajuda efetiva me$mo, nada. Ao que o pai responde que, \u201cse \u00e9 para falar s\u00e9rio\u201d, a alternativa seria deixar a mulher aos cuidados da filha, e esta arrega. O \u00fanico mais sensato \u00e9 o genro, que pergunta ao sogro at\u00e9 quando ele pretende ir com aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, podem criticar, mas simplesmente n\u00e3o consigo engolir filhos \u00fanicos que deixam seus pais idosos para ir morar bem longe. Afinal, nem todos nossos idosos t\u00eam as mesmas condi\u00e7\u00f5es financeiras quanto o casal do filme para se virarem sozinhos. E t\u00e3o nojento quanto aqueles que seguem carreiras rom\u00e2nticas e deixam os seus aos cuidados do SUS.<\/p>\n<p>Ao final do filme, a primeira coisa que disse ao marido foi de que, se eu ficasse doente na idade daquela mulher, pode me mandar para um asilo sem o menor problema. Asilo sim, n\u00e3o sou f\u00e3 dessa coisa de que o idoso possa levar uma vida independente. N\u00e3o s\u00f3 porque vi o quanto, no come\u00e7o do filme, j\u00e1 era dif\u00edcil cuidar das lides dom\u00e9sticas com uma desenvoltura muito ruim, mas tamb\u00e9m por ter como vizinhas, quando solteira, senhoras vi\u00favas que compartilhavam um mesmo terreno, cada uma na sua casa. Uma delas, a mais velha, me confidenciou uma vez que, para preparar o almo\u00e7o, tinha que acordar cedinho para cozinhar.<\/p>\n<p>Diante disso, por que n\u00e3o, no final da vida, ir para um bom asilo? Em primeiro lugar, n\u00e3o teria que incomodar filho nenhum, e os profissionais cuidariam de mim com profissionalismo, sem qualquer bondade condicionada a um quinh\u00e3o maior de heran\u00e7a. Al\u00e9m disso, caso eu precisasse de cadeira de rodas, os apartamentos de hoje n\u00e3o tem o mesmo tamanho dos apartamentos de antigamente, ao passo que um bom asilo teria espa\u00e7o suficiente para me deslocar. Em seguida, qual o estigma de ir para um asilo em se tratando do conv\u00edvio com os filhos? Com a vida corrida de hoje, a freq\u00fc\u00eancia da visita deles tenderia a ser a mesma, seja na sua pr\u00f3pria casa, seja estando em um asilo. A n\u00e3o ser que essas visitas fossem para tascar os netos para que voc\u00ea alimente, d\u00ea banho e eduque por anos e anos, da inf\u00e2ncia at\u00e9 a adolesc\u00eancia (estendida), aproveitando-se da sua m\u00e3o-de-obra, e, nisso, melhor mesmo ficar no asilo.<\/p>\n<p>Enfim, do que adianta ter a suposta vida independente se a pessoa idosa leva muito mais tempo para realizar as tarefas do dia-a-dia? N\u00e3o seria melhor delegar essas tarefas e aproveitar o pouco tempo que lhe resta realizando algo que realmente agregue? Afinal, estudar, ter fam\u00edlia, criar os filhos, ser ainda capaz de realizar tarefas dom\u00e9sticas, n\u00e3o \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o para levar para o t\u00famulo ou para a urna. Criar os netos muito menos. \u00c9 meramente um conjunto de escolhas a que voc\u00ea se prop\u00f4s ao longo da vida e tem a obriga\u00e7\u00e3o de concluir. Nada de edificante nem de especial.<\/p>\n<p>Sem falar que me doeria ver o marido, bem idoso, se desdobrando, indo al\u00e9m de suas for\u00e7as, s\u00f3 para cuidar de mim. Longe de mim ser um fardo no caminho dos meus&#8230;Esse filme abriu os olhos.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, esse filme, aquele outro, os Intoc\u00e1veis, fazem com que prestemos mais aten\u00e7\u00e3o ao cinema franc\u00eas, sem firulas, sem o dito-pelo-n\u00e3o-dito. Pena que ainda dependo (e muito) de legendas para assistir seus filmes. Caso contr\u00e1rio, baixaria muito mais filmes de l\u00e1.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Assinado: Suellen<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. 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