{"id":4747,"date":"2013-06-07T07:55:40","date_gmt":"2013-06-07T10:55:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=4747"},"modified":"2013-06-07T07:56:49","modified_gmt":"2013-06-07T10:56:49","slug":"des-contos-a-festa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/06\/des-contos-a-festa\/","title":{"rendered":"Des Contos: A festa."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4748\" alt=\"desc_afesta\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/desc_afesta.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/desc_afesta.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/desc_afesta-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Eduardo come\u00e7ava a valorizar os \u00faltimos goles do u\u00edsque, na esperan\u00e7a de que sua longa estadia recostado no balc\u00e3o do bar parecesse algo natural. O olhar perdido no horizonte simulava pensamentos profundos, de forma a dignificar a figura de \u00fanica pessoa sozinha naquela festa de alta classe em uma mans\u00e3o cujo dono nunca vira mais gordo. Arrastado para l\u00e1 por seu grande amigo Salvador, ele n\u00e3o encontrava um rosto conhecido sequer na multid\u00e3o. Nem mesmo o que o convidara: Salvador havia sumido com uma bela ruiva h\u00e1 mais de hora. T\u00edpico.<!--more--><\/p>\n<p>Ainda ponderando se tentaria se enturmar ou se chamaria um t\u00e1xi, Eduardo repousou os olhos sobre um pequeno grupo que se formara do lado oposto da piscina. Mais precisamente numa voluptuosa morena, seios fartos quase escapando de um generoso decote em seu chique vestido. Ela ria e escorria os dedos pelos cabelos, terminando o movimento num lento e sugestivo encaracolar. Entre um sorriso e outro, os dentes mordiam caprichosamente o l\u00e1bio inferior.<\/p>\n<p>O flerte nem um pouco discreto tinha um alvo, mas com certeza n\u00e3o era Eduardo. A morena derretia-se para cima de um homem cujas vestes aparentavam mais caras que todos os bens de sua fam\u00edlia. Ao notar o rel\u00f3gio dourado, Eduardo adicionou mais algumas gera\u00e7\u00f5es \u00e0 estimativa. Sozinho com seus pensamentos, permitiu-se invejar abertamente, n\u00e3o sem antes tentar se convencer que se tamb\u00e9m tivesse esse tanto de dinheiro ele que estaria daquele lado da piscina.<\/p>\n<p>Talvez por culpa do excesso de bebida, talvez pela sensa\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o naquela reuni\u00e3o de estranhos; Eduardo desistiu de sua pose e resolveu concentrar a vista no que mais lhe interessara at\u00e9 ali: O decote posicionado estrategicamente na morena. Ou, naquela altura&#8230; vice-versa. Eventualmente ela fazia movimentos mais espalhafatosos enquanto ria, achando muita gra\u00e7a seja l\u00e1 do que aquele homem sortudo dizia. Eventualmente tamb\u00e9m, os seios dela pareciam \u00e0 beira da liberdade. Na falta de algo melhor, o prospecto se tornava suficientemente recompensador para mant\u00ea-lo por l\u00e1.<\/p>\n<p>Enquanto tentava se decidir se no \u00faltimo passo dessa dan\u00e7a do acasalamento alheio havia enxergado um mamilo ou apenas uma sombra bem posicionada, um frio passou por sua espinha. Eduardo finalmente notara que n\u00e3o era o \u00fanico olhando fixamente para algu\u00e9m distra\u00eddo com coisas melhores. A sensa\u00e7\u00e3o se traduziu num r\u00e1pido bater de olhos em um homem alto, vestido com um terno cor de chumbo, do qual se destacava sua gravata vermelha. Esse homem parecia observ\u00e1-lo fixamente do jardim, distante tanto dele quanto da morena e seu par. Realizando o qu\u00e3o pat\u00e9tico estava sendo em sua pr\u00e9via sess\u00e3o de voyeurismo, mal conseguiu perceber as fei\u00e7\u00f5es do curioso estranho; recuando os olhos para o pr\u00f3prio colo e tentando disfar\u00e7ar da melhor forma poss\u00edvel sua vergonha.<\/p>\n<p>Eduardo continuou retra\u00eddo por mais alguns intermin\u00e1veis minutos, guiando apenas os olhos na dire\u00e7\u00e3o onde o homem estaria. Nada. Eduardo procura ent\u00e3o nos arredores da vista, tomando coragem para erguer a cabe\u00e7a ao perceber que ningu\u00e9m mais parecia ter sequer notado sua presen\u00e7a, quanto mais o que estava observando at\u00e9 aquele momento. Ao casualmente voltar sua aten\u00e7\u00e3o para a mulher, percebe que agora ela est\u00e1 acompanhada por dois homens. O que tentava seduzir e o estranho do terno cinza com o qual trocara olhares h\u00e1 poucos. Ela novamente s\u00f3 parecia dar aten\u00e7\u00e3o para o suposto rica\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas o estranho n\u00e3o demonstrava inc\u00f4modo algum. Continuava est\u00e1tico ao lado da mulher. Mesmo quando mais um dos movimentos abruptos dos bra\u00e7os dela desarranjou seu vestido de forma a quase revelar o que Eduardo tanto queria ver. Frustrado novamente, Eduardo praguejou internamente. Foi quando aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>O estranho do terno cinza deu dois passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morena, esticou os bra\u00e7os e num movimento s\u00f3, agarrou as al\u00e7as do vestido e as trouxe para baixo, ao redor dos bra\u00e7os da mulher. Agora n\u00e3o havia mais nenhuma d\u00favida sobre jogo de sombras: Os belos seios dela estavam completamente \u00e0 mostra. Eduardo n\u00e3o teve muito tempo de apreciar a vista, parte pelo choque da cena &#8211; compartilhado por todos os outros presentes, alguns de forma mais enf\u00e1tica &#8211; e parte pela agilidade dela em se recompor.<\/p>\n<p>A bela morena n\u00e3o teve d\u00favidas, tascou um sonoro tapa na cara do homem com o qual flertara a noite toda. Ato cont\u00ednuo, ela desandou uma sequ\u00eancia de improp\u00e9rios &#8211; apoiados em palmas e assovios por diversos presentes &#8211; para cima do homem, claramente confuso. T\u00e3o desorientado quanto, Eduardo se perguntava se teria sido o \u00fanico a notar o verdadeiro respons\u00e1vel pela exposi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Mas ao notar quanto aquele homem que invejara at\u00e9 alguns minutos atr\u00e1s estava lidando mal com a rea\u00e7\u00e3o dos outros convidados, acabou se contentando em apenas aproveitar o momento.<\/p>\n<p>O homem do terno cinza j\u00e1 havia se afastado. A discuss\u00e3o ficava mais acalorada, com um dos outros homens tomando as dores da donzela e partindo de forma mais agressiva para cima do dono do rel\u00f3gio dourado. Aquilo estava divertido, finalmente. Melhor ainda quando um empurr\u00e3o jogou o playboy &#8211; de roupa e rel\u00f3gio &#8211; para dentro da piscina. Eduardo saboreava o momento, torcendo para durar o m\u00e1ximo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O que de fato, come\u00e7ava a acontecer. Depois das risadas generalizadas, sil\u00eancio. As pessoas que se aglomeravam ao redor da \u00e1gua se entreolhavam, como se todos realizassem ao mesmo tempo que aquele homem n\u00e3o estava conseguindo retornar \u00e0 superf\u00edcie. Eduardo entre elas. Ao prestar um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o, notou um vulto escuro logo abaixo do homem submerso. Parecia uma outra pessoa. Finalizando o surto coletivo de inatividade, um dos gar\u00e7ons mergulha apressadamente para fazer o salvamento.<\/p>\n<p>Eduardo consegue finalmente fazer senso do vulto e reconhece: Uma gravata vermelha flutuando gentilmente presa a um homem vestido com um terno cinza. Antes mesmo do gar\u00e7om finalmente conseguir trazer o homem \u00e0 borda da piscina, Eduardo olha assustado ao redor, tentando encontrar aquele estranho no meio das pessoas. Nem sinal. Agora, inclusive dentro da piscina.<\/p>\n<p>Um dos convidados, declarando-se m\u00e9dico, faz os primeiros-socorros. Ap\u00f3s cuspir bastante \u00e1gua, o homem puxa o ar pela boca de forma aud\u00edvel, aliviando a grande tens\u00e3o no ambiente. O respons\u00e1vel pelo empurr\u00e3o est\u00e1 aos prantos, desculpando-se desesperadamente enquanto se reclina ao lado de sua quase v\u00edtima fatal, dizendo que n\u00e3o pensou na hora e sequer imaginava que ele n\u00e3o saberia nadar. Ainda de forma s\u00f4frega, o homem completamente encharcado o desmente, dizendo que era um proficiente nadador e que sua roupa deveria ter ficado presa em alguma coisa&#8230; talvez por orgulho, talvez para acalmar os \u00e2nimos de uma pessoa genuinamente arrependida. N\u00e3o havia nada que pudesse prender suas vestes.<\/p>\n<p>Eduardo, agora convencido que estava vendo coisas por culpa do \u00e1lcool, colocava em d\u00favida at\u00e9 mesmo o plano de voltar de t\u00e1xi para casa. Seria mais seguro voltar com o amigo, sob o risco de acabar perdido pela cidade em plena madrugada. Mas, como de h\u00e1bito, Salvador deveria estar perdido nos bra\u00e7os de alguma jovem inocente ao ponto de acreditar em suas hist\u00f3rias de riqueza e conex\u00f5es no mundo do entretenimento. Eduardo buscava pelo seu amigo na multid\u00e3o, ainda atordoada pelos acontecimentos recentes. Desejava que pelo menos uma vez ele deixasse de pensar com a cabe\u00e7a de baixo e viesse socorrer seu melhor amigo&#8230;<\/p>\n<p>O som de vidro quebrado foi seguido de um grito de desespero. Um vulto atinge o ch\u00e3o ao redor da piscina, a poucos cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia de Eduardo. Um homem nu. Por reflexo, todos olham para cima, reconhecendo a janela quebrada da qual a queda provavelmente teve origem. A altura com certeza n\u00e3o era das maiores, mas o homem n\u00e3o parece se mexer. Ele est\u00e1 ca\u00eddo com as costas para cima, e uma grande po\u00e7a de sangue come\u00e7a a se formar ao redor de sua face. Algumas mulheres come\u00e7am a gritar, o m\u00e9dico que acabara de socorrer o homem ca\u00eddo na piscina corre para averiguar a v\u00edtima, evitando que os outros tentem mexer no corpo estirado.<\/p>\n<p>Eduardo aproxima-se o suficiente para notar a extens\u00e3o dos danos: Um longo caco de vidro parece atravessar o olho esquerdo do homem ca\u00eddo. De l\u00e1 que o sangue parece escorrer com mais intensidade. N\u00e3o fosse a cena traum\u00e1tica o bastante, logo reconhece naquele corpo seu amigo Salvador. Incapaz de sequer balbuciar uma palavra, ajoelha-se, tentando absorver o acontecido. O m\u00e9dico, ap\u00f3s tomar o pulso de Salvador, faz sinal negativo com a cabe\u00e7a. Eduardo olha mais uma vez para cima, agora reconhecendo a ruiva com a qual seu amigo havia se amaciado no come\u00e7o da festa, segurando um len\u00e7ol sobre o corpo nu, em estado de choque atr\u00e1s do restante da grande janela do segundo andar.<\/p>\n<p>Ao lado dela, outra figura recentemente familiar. O homem do terno cinza troca um r\u00e1pido olhar com Eduardo, volta-se para dentro e desaparece. Mesmo interpelado por outros presentes, Eduardo n\u00e3o profere mais nenhuma palavra ou se permite qualquer outro pensamento mais complexo nas horas seguintes. Mesmo ap\u00f3s a chegada da pol\u00edcia. Em meio \u00e0 confus\u00e3o de testemunhos e vers\u00f5es, Eduardo \u00e9 acomodado num grande sof\u00e1, numa das salas da mans\u00e3o. Impass\u00edvel e cabisbaixo, n\u00e3o faz nenhuma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o de uma mulher, que diz algumas palavras de conforto enquanto segura levemente em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Enquanto discursa algo irrelevante &#8211; como qualquer discurso proferido numa hora dessas &#8211; ela se agacha, mantendo o contato entre as m\u00e3os. Ele n\u00e3o faz sequer quest\u00e3o de levantar a cabe\u00e7a, ocupando seu campo de vis\u00e3o com o generoso decote no vestido chique da mulher. Mesmo sem ver o rosto, \u00e9 capaz de reconhec\u00ea-la. A noite passa diante de seus olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8212;<\/p>\n<p>Ao redor da piscina, todos podem ouvir um grito agudo. Os policiais correm para dentro da casa. L\u00e1 dentro, encontram Eduardo chorando copiosamente enquanto uma mulher ca\u00edda tenta esconder os seios. Ela recoloca o vestido na posi\u00e7\u00e3o correta e se afasta dele, express\u00e3o mais confusa do que revoltada.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o prestou queixa, mas n\u00e3o faria diferen\u00e7a: Eduardo foi encontrado morto alguns dias depois, sozinho em sua casa&#8230; aparentemente sufocado por dois travesseiros.<\/p>\n<h3>Para dizer que a moral da hist\u00f3ria tem a ver com peitos, para pedir o cart\u00e3o do homem de terno cinza, ou mesmo para dizer que a inveja mata: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo come\u00e7ava a valorizar os \u00faltimos goles do u\u00edsque, na esperan\u00e7a de que sua longa estadia recostado no balc\u00e3o do bar parecesse algo natural. 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