{"id":5233,"date":"2013-08-23T06:00:01","date_gmt":"2013-08-23T09:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5233"},"modified":"2013-08-23T05:28:43","modified_gmt":"2013-08-23T08:28:43","slug":"des-contos-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/08\/des-contos-fria\/","title":{"rendered":"Des Contos: Fria."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5234\" alt=\"desc-fria\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/desc-fria.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/desc-fria.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/desc-fria-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Augusto sente o corpo gelado, as p\u00e1lpebras parecem pesar uma tonelada. O ar preenche seus pulm\u00f5es de forma abrupta, sente um formigamento correndo do centro do seu peito at\u00e9 as extremidades de seu corpo. Seus sentidos parecem finalmente estar voltando. Apesar de um leve desequil\u00edbrio, consegue-se manter em p\u00e9. Lentamente, abre os olhos e depara-se com a pequena janela na porta met\u00e1lica.<!--more--><\/p>\n<p>Do lado de fora, enxerga o laborat\u00f3rio. O som do mecanismo de libera\u00e7\u00e3o da porta traz um grande al\u00edvio. A porta se levanta lentamente, Augusto n\u00e3o espera e decide passar abaixado mesmo para se livrar daquela c\u00e2mara o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Do outro lado, Paula, como esperado. A rea\u00e7\u00e3o dela, nem tanto.<\/p>\n<p><b>PAULA:<\/b> AH! Que susto!<br \/>\n<b>AUGUSTO:<\/b> Desculpa?<br \/>\n<b>PAULA:<\/b> Voc\u00ea tem que ir falar com o chefe&#8230; Deixa que eu arrumo o que falta aqui.<br \/>\n<b>AUGUSTO:<\/b> T\u00e1&#8230; ele est\u00e1 l\u00e1 na sala de reuni\u00e3o?<br \/>\n<b>PAULA:<\/b> Deve estar&#8230; Vai logo, Augusto! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 atrasado&#8230;<\/p>\n<p>O sirene que marca a libera\u00e7\u00e3o da porta de entrada do laborat\u00f3rio experimental toma conta do ambiente.<\/p>\n<p><b>PAULA:<\/b> Ai, ele j\u00e1 chegou?<br \/>\n<b>AUGUSTO:<\/b> Calma, eu converso com ele&#8230;<\/p>\n<p>O jovem presidente da empresa surge do corredor de entrada com seu habitual passo apressado. Concentrado numa liga\u00e7\u00e3o em seu celular, responde o cumprimento de Paula com a m\u00e3o em riste. Depois de repetir a mesma frase algumas vezes, parece frustrado.<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> N\u00e3o sei porque voc\u00eas fazem laborat\u00f3rios nesses lugares sem sinal! \u00c9 para me fazer perder tempo, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00eas cientistas n\u00e3o tem a menor ideia de como tempo \u00e9&#8230; \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Ele parece finalmente trocar olhares com Augusto. A express\u00e3o confusa \u00e9 complementada com um leve acenar de cabe\u00e7a e os dois dedos indicadores apontados para Augusto.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO:<\/b> Algum problema?<\/p>\n<p>Novamente a sirene.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO:<\/b> Pronto! Aqui est\u00e1 o seu caf\u00e9&#8230; demorou porque a gente teve que fazer e&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m adentrando a sala, Augusto. Outro Augusto. Diante dos incr\u00e9dulos presidente e assistente de laborat\u00f3rio, dois Augustos. Um postado logo diante da entrada da c\u00e2mara de criogenia, outro no final do corredor de entrada, segurando uma fumegante x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n<p><b>PAULA:<\/b> Gente&#8230; isso&#8230; isso n\u00e3o \u00e9 hora de piada.<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Muito engra\u00e7ado, bela maquiagem&#8230; mas eu n\u00e3o estou aqui para ver showzinho de cientista entediado. Chega de brincadeira e vamos logo aos testes.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Ha&#8230; hahahaha! T\u00e1 bom! Boa! Enquanto eu fiquei congelado voc\u00eas armaram tudo isso, n\u00e9?<\/p>\n<p>Paula bufa descontente e volta a analisar dados numa tela do painel. O chefe fica olhando para os dois Augustos, alternadamente. Augusto com a x\u00edcara de caf\u00e9 na m\u00e3o come\u00e7a a se aproximar de Augusto pr\u00f3ximo da c\u00e2mara de criogenia.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> A m\u00e1scara \u00e9 perfeita&#8230;<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> J\u00e1 perdeu a gra\u00e7a&#8230; Quem \u00e9 voc\u00ea? O Basti\u00e3o? O Gl\u00e1uber?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Voc\u00ea disse que ficou congelado?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> A m\u00e1scara \u00e9 perfeita mesmo&#8230; Mesma altura, mesmo porte f\u00edsico&#8230;<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Voc\u00eas s\u00e3o todos malucos!<\/p>\n<p>Os dois Augustos se aproximam, um coloca a m\u00e3o no pesco\u00e7o do outro, como se estivessem procurando alguma emenda. Eventualmente come\u00e7am a cutucar um o rosto do outro.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> N\u00e3o tem m\u00e1scara!<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> N\u00e3o faz sentido do ponto de vista cient\u00edfico&#8230; Se eu fui realmente congelado&#8230; Mas como eu voltei no tempo?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Voc\u00ea deveria se manter na linha de tempo original.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> A n\u00e3o ser que&#8230;<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Voc\u00ea ficou! Poincar\u00e9!<\/p>\n<p><b>PAULA:<\/b> Pera\u00ed&#8230; pera\u00ed&#8230; voc\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>Paula se aproxima dos dois e repete os gestos de confirma\u00e7\u00e3o de identidade das duas vers\u00f5es de Augusto. Ela entra em estado de choque, aparentando dificuldade de sequer balbuciar alguma coisa.<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Ou voc\u00eas me explicam agora mesmo o que est\u00e1 acontecendo ou est\u00e1 todo mundo no olho da rua!<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Posso?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Claro!<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Se a gente esperar o tempo suficiente ou viajar longe o suficiente, h\u00e1 uma teoria de que por pura chance encontremos uma c\u00f3pia exata da nossa realidade atual. \u00c9 o princ\u00edpio da recorr\u00eancia de Poin&#8230;<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> N\u00e3o interessa&#8230; Essa sua m\u00e1quina faz c\u00f3pias das pessoas?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Sim. Mas do ponto de vista de quem fica, voc\u00ea some.<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Imagine s\u00f3 o tempo que eu ganharia tendo dois de mim? Me coloca na m\u00e1quina!<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Calma, ainda n\u00e3o \u00e9 certeza que vai sempre funcionar assim! Precisamos fazer testes para comprovar a teoria e descobrir porque as cobaias animais n\u00e3o desapareceram em experimentos anteriores.<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Eu te pago, eu mando. Precisa colocar roupa especial ou pode ir assim?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO OUTRO:<\/b> Em tese as roupas n\u00e3o influenciam, a m\u00e1quina congela at\u00e9 o ar ao seu redor. Mas pense nos ris&#8230;<\/p>\n<p>O engomado executivo desdenha dos avisos de ambos os Augustos e segue decidido rumo \u00e0 c\u00e2mara criog\u00eanica. Um dos dois g\u00eameos temporais segue at\u00e9 o painel, apertando o bot\u00e3o de libera\u00e7\u00e3o da porta met\u00e1lica. Ela se abre lentamente, e para a surpresa de todos, esgueirando-se por debaixo da fresta surge mais uma pessoa: Paula.<\/p>\n<p><b>AUGUSTOS: <\/b> PAULA?<\/p>\n<p><b>PAULA UM:<\/b> Ai meu deus!<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Que porra \u00e9 essa? Era minha vez!<\/p>\n<p><b>PAULA OUTRA:<\/b> &#8230; Poincar\u00e9!<\/p>\n<p><strong>AUGUSTOS:<\/strong> Isso!<\/p>\n<p><b>PAULA UM:<\/b> Eu tinha que descobrir o que aconteceu, n\u00e9? Maluca!<\/p>\n<p><b>PAULA OUTRA:<\/b> Voc\u00ea me conhece!<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Posso ir agora?<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Bom, agora est\u00e1 provado que funciona mais que uma vez.<\/p>\n<p><b>PAULA OUTRA:<\/b> Mas voc\u00ea vai sumir!<\/p>\n<p><b>CHEFE:<\/b> Bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1, eu j\u00e1 sei. Abre de novo a porta! Minha vez! Minha vez!<\/p>\n<p>Um dos Augustos aperta novamente o bot\u00e3o de libera\u00e7\u00e3o da porta. O executivo observa para confirmar que n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m ali e finalmente entra. A porta se fecha. Augustos e Paulas se entreolham, sorrindo.<br \/>\nUm flash de luz azulada vaza pela janela na porta da c\u00e2mara. Assim que ela \u00e9 aberta novamente, nem sinal do chefe.<\/p>\n<p><b>AUGUSTO UM:<\/b> Bom, ele fez isso por escolha pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><b>PAULA OUTRA:<\/b> As c\u00e2meras de seguran\u00e7a s\u00e3o nossas testemunhas.<\/p>\n<p><b>PAULA UM:<\/b> Isso mesmo, D\u00ea.<\/p>\n<p>Todos ficam em sil\u00eancio, paralisados por alguns segundos. Um dos Augustos deixa escapar um longo suspiro.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>FIM FIM<\/strong><\/span><\/p>\n<h3>Para dizer que n\u00e3o entendeu nada, para dizer que acha importante conhecer quem trabalha para voc\u00ea, ou mesmo para dizer que s\u00f3 comenta quando essa realidade se repetir: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Augusto sente o corpo gelado, as p\u00e1lpebras parecem pesar uma tonelada. 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