{"id":5367,"date":"2013-09-20T06:12:44","date_gmt":"2013-09-20T09:12:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5367"},"modified":"2013-09-20T05:14:55","modified_gmt":"2013-09-20T08:14:55","slug":"desfavor-explica-a-historia-dos-caes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/09\/desfavor-explica-a-historia-dos-caes\/","title":{"rendered":"Desfavor Explica: A hist\u00f3ria dos c\u00e3es."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5368\" alt=\"dex-historiacaes\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/dex-historiacaes.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/dex-historiacaes.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/dex-historiacaes-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Se algu\u00e9m perguntar de onde vieram os c\u00e3es, a resposta est\u00e1 na ponta da l\u00edngua: \u201cdo lobo!\u201d. Mas a hist\u00f3ria \u00e9 muito mais interessante do que isso. Desfavor Explica: a hist\u00f3ria dos c\u00e3es.<!--more--><\/p>\n<p>Os c\u00e3es foram os primeiros animais a serem domesticados pelos seres humanos, estima-se que isso tenha ocorrida h\u00e1 cerca de 14 mil anos (enquanto os gatos contam com &#8220;apenas&#8221; 9 mil anos de domestica\u00e7\u00e3o). A dobradinha de c\u00e3es com humanos deu t\u00e3o certo porque foi um bom neg\u00f3cio para ambos. H\u00e1 15 mil anos atr\u00e1s, o ser humano deixa de ser n\u00f4made e passa a fixar resid\u00eancia em uma esp\u00e9cie de vilas rudimentares. Tudo isso gra\u00e7as \u00e0 agricultura: ao aprender a plantar, isso os obrigou a se fixar um um \u00fanico local de modo a cuidar de sua planta\u00e7\u00e3o. Como qualquer aglomerado de gente, ao final do dia geravam restos de comida e lixo nas proximidades dessas vilas. Muitos animais, dentre eles o lobo, via nestes restos um \u00f3timo jantar, fazendo com que comecem a aparecer pelas proximidades regularmente.<\/p>\n<p>Ocorre que no entorno desses restos havia pessoas, ningu\u00e9m andava at\u00e9 muito longe para jogar o lixo fora e, como voc\u00ea pode imaginar, n\u00e3o havia servi\u00e7o de coleta de lixo \u00e0 \u00e9poca. Inicialmente isso foi um problema, porque os lobos s\u00e3o muito antissociais e relutavam muito em chegar perto dos humanos. Mesmo quando os humanos se afastavam, os lobos eram obrigados a pegar a comida com muita pressa, pois se um humano se aproximasse eles sairiam correndo. Assim, os lobos tinham uma fonte meio rudimentar e inc\u00f4moda de comida, que nem sempre conseguiam alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>O tempo foi passando, estes lobos foram procriando. Por um desses acasos da natureza, nasceram um que outro filhote destes lobos mais corajosinhos, que por um revert\u00e9rio qualquer, n\u00e3o tinha tanto medo dos humanos. Em toda fam\u00edlia, at\u00e9 mesmo em uma de lobos, sempre nasce um maluco. Pequenos psicopatas de rabo, destemidos, que n\u00e3o se intimidavam com a presen\u00e7a humana. Come\u00e7aram a se dar bem: fartura de comida, bastava ignorar aquele macaco pelado que estava nas redondezas. Na m\u00e3e natureza, quem come melhor vive mais, cruza mais e passa mais seus genes adiante. Resultado: a eclos\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o de lobos que n\u00e3o tinha medo de humanos. Al\u00e9m da quest\u00e3o gen\u00e9tica, \u00e9 preciso levar em conta que os filhotes destes pais destemidos aprendiam desde pequenos, ao observar o comportamento de seus pais, que n\u00e3o era preciso temer o homem, que poderiam se aproximar. Ao ver os pais comendo despreocupadamente perto de humanos, os filhotes refor\u00e7avam esse comportamento.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o ser humano tamb\u00e9m estava achando bacana o processo. Para o homem, tamb\u00e9m era muito produtivo ter estes lobos \u00e0 sua volta: os lobos n\u00e3o os atacavam e ainda davam alerta quando predadores se aproximavam, tomando conta da \u00e1rea. O homem podia dormir em paz, pois acabara de adquirir um \u00f3timo vigia noturno. Nessa via de m\u00e3o dupla, ambos, homens e lobos, come\u00e7aram a conviver cada vez mais. Os lobos que eram mais ariscos nem se aproximavam e os que eram mais d\u00f3ceis acabaram montando acampamento ali, na entrada das \u201cvilas\u201d humanas. O mundo dos lobos estava dividido em dois. E esta conviv\u00eancia acabou por aproximar mais ainda o homem do lobo. Com o tempo, criou-se uma gera\u00e7\u00e3o de lobos que j\u00e1 n\u00e3o sabia mais ca\u00e7ar, pois desde sempre estava habituada a comer os restos. Com isso tinham que for\u00e7osamente viver nas redondezas e acabavam se esbarrando com humanos mais cedo ou mais tarde.<\/p>\n<p>Foi quando se deu o primeiro passo para o contato f\u00edsico. Como j\u00e1 foi explicado em outro texto, n\u00f3s humanos temos uma atra\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel por filhotes de mam\u00edferos, pois nos remetem a nossos pr\u00f3prios filhotes, despertando instintos de amor e acolhimento. N\u00e3o demorou para humanos se encantarem pela fofura que s\u00e3o os filhotinhos de lobos e come\u00e7arem e traz\u00ea-los para perto de si. Em contrapartida, os filhotes, por serem curiosos e inconsequentes muitas vezes \u201cinvadiam\u201d o territ\u00f3rio humano para pedir comida quando estes faziam suas refei\u00e7\u00f5es. Dif\u00edcil resistir a um olhar pedinte de filhote. N\u00e3o demorou muito, o ser humano estava abra\u00e7ando e adotando filhotes desse lobo manso. Mas&#8230; como surgiu o afeto em si? De onde vem tanto amor rec\u00edproco? Tecnicamente j\u00e1 sabemos como foi a aproxima\u00e7\u00e3o, mas vamos aprofundar e entender o nascimento de uma rela\u00e7\u00e3o de amor t\u00e3o s\u00f3lida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 brincadeira, est\u00e1 cientificamente comprovado que c\u00e3es nos conquistam. Porque amamos tantos os cachorros? Sim, como eu disse, eles s\u00e3o uma gracinha, mas vai muito al\u00e9m disso. Boa parte da culpa \u00e9 de um horm\u00f4nio chamado Ocitocina, respons\u00e1vel pela sensa\u00e7\u00e3o de afeto e apego por outras pessoas. A ideia original da m\u00e3e natureza era usar a Ocitocina para unir bandos ou fam\u00edlias de modo a aumentar as chances de sobreviv\u00eancia do ser humano. Por exemplo, quando uma mulher tem um filho, os n\u00edveis de Ocitocina sobem absurdamente ap\u00f3s o parto. \u00c9 a m\u00e3e natureza assegurando a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Pois bem, por alguma raz\u00e3o que ainda n\u00e3o se entende bem, os malandrinhos de rabo criaram mecanismos para conseguir despertar a produ\u00e7\u00e3o de Ocitocina nos seres humanos.<\/p>\n<p>Estudos realizados com volunt\u00e1rios mostram que os n\u00edveis de Ocitocina disparam ao brincar com um c\u00e3o. Cientistas acreditam que a coisa se d\u00e1 quando eles nos olham nos olhos, um tipo de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00f3s humanos costumamos reservar apenas para pessoas queridas. Isso engana nosso c\u00e9rebro, pois ao travar uma comunica\u00e7\u00e3o visual com os meliantes quadr\u00fapedes se subentende que s\u00e3o entes queridos. Al\u00e9m disso, os c\u00e3es nos entendem, capacidade que nenhum outro animal desenvolveu t\u00e3o bem. Esconde um brinquedo debaixo de um balde e o embaralhe com outros dois. Chame o c\u00e3o e aponte ou olhe fixo para o balde onde est\u00e1 o brinquedo. Ele vai entender e vai encontr\u00e1-lo, dificilmente isso d\u00ea certo com outro animal.<\/p>\n<p>C\u00e3es aprenderam a nos entender porque para eles era muito ben\u00e9fico andar com humanos. C\u00e3es sabem distinguir express\u00f5es faciais, nosso tom de voz e mais uma s\u00e9rie de nuances. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que seu c\u00e3o te entende melhor do que muitos seres humanos, afinal, ele \u00e9 resultado de um animal que passou s\u00e9culos observando e decifrando o ser humano. Al\u00e9m de fazerem um esfor\u00e7o enorme de observa\u00e7\u00e3o para nos entender, c\u00e3es gostam de nos imitar, o que torna ainda mais f\u00e1cil o conv\u00edvio. O cachorro segue um l\u00edder e se adapta as regras dele, \u00e9 um animal mold\u00e1vel por natureza. \u00c9 prov\u00e1vel que seu c\u00e3o durma na hora em que voc\u00ea dormir e acorde na hora em que voc\u00ea acordar, por exemplo. Tudo isso estreita la\u00e7os e facilita a conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse emprenho ao longo dos s\u00e9culos n\u00e3o foi apenas por nos observar e nos decifrar. O c\u00e3o tamb\u00e9m se esfor\u00e7am para se fazer entender. Observando nossas vocaliza\u00e7\u00f5es e nossas rea\u00e7\u00f5es, eles desenvolveram diversos tipos de latido com a inten\u00e7\u00e3o de serem compreendidos. Voc\u00ea j\u00e1 viu um lobo latindo? N\u00e3o, n\u00e9? C\u00e3es desenvolveram latidos espec\u00edficos para conversar conosco, j\u00e1 que o humano \u00e9 uma criatura muito vocal. Mais: desenvolveram um padr\u00e3o de latidos que pud\u00e9ssemos entender. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mesmo para quem n\u00e3o \u00e9 o dono, distinguir um latido de alerta ou um latido pedinte. Sim, eles se moldaram na nossa f\u00f4rma, por isso os amamos tanto. Est\u00e3o, cada vez mais, virando humanos quadr\u00fapedes. Eles sabem muito bem, ap\u00f3s poucas tentativas e erros, quem \u00e9 que se comove com eles, quem lhes d\u00e1 moral, e exploram essa pessoa. Mais: eles aprendem tamb\u00e9m como obter os melhores resultados dessa pessoa.<\/p>\n<p>Ser compreendido \u00e9 um alento para o ser humano. Mais: c\u00e3es al\u00e9m de fazer um esfor\u00e7o para nos entender, tamb\u00e9m se esfor\u00e7am para nos dar aquilo que queremos. Tem muito ser humanos que n\u00e3o faz isso! Essa combina\u00e7\u00e3o fatal de Ocitocina com a malandragem canina deu e d\u00e1 um bug no nosso c\u00e9rebro, que nos faz amar os cachorros como se de fato fossem um membro da nossa fam\u00edlia. Isso explica porque passamos a noite em claro se ele n\u00e3o est\u00e1 bem, porque sentimos saudades ou porque muitas vezes os tratamos como filhos. Existe uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, n\u00e3o \u00e9 loucura da sua cabe\u00e7a. E nessa eles nos ganharam e entraram de vez nas nossas vidas.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a essa combina\u00e7\u00e3o de fatores, em pouco tempo virou rotina estes lobos mansos semi-c\u00e3es circularem entre os humanos, como parceiros. Eles eram bons companheiros na hora das ca\u00e7adas, mantinham animais distantes das planta\u00e7\u00f5es, davam alerta caso algum predador se aproximasse no meio da noite. Assim, quanto melhor o lobo servia ao homem, mais bem cuidado ele era. E, como eu j\u00e1 disse, quem come mais cruza mais e passa mais seus genes adiante. Os filhotes que cresciam a permaneciam d\u00f3ceis eram mantidos, os que se mostravam agressivos eram mortos. Ocorreu a\u00ed uma sele\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, de modo a que lobos que mantivessem o comportamento desejado (comportamento de filhotes na vida adulta) sobrevivessem e ganhassem muita comida cuidado. Foram os que passaram os genes adiante, refor\u00e7ando cada vez mais esse comportamento.<\/p>\n<p>Ao menos era isso que se pensava. Hoje existe uma teoria que diz que na verdade esses lobos semi-c\u00e3es teriam a capacidade de perceber que um comportamento mais boc\u00f3 agradava os humanos e emulavam esse comportamento, para em troca receber mimos e comida. Ao serem recompensados por um comportamento infantilizado, eles rapidamente se adaptaram, muitas vezes fingindo. Sim, o c\u00e3o tem essa capacidade de \u201cvou dar a este humano o que ele quer, assim ganho algo gostoso em troca\u201d. Eles podem ser sociopatas com rabo quando querem. Eles nos manipulam, podem ter certeza disso. E a gente adora. Por sinal, c\u00e3es fingem conosco at\u00e9 hoje. N\u00e3o que n\u00e3o nos amem, eles nos amam e muito, mas muitas vezes eles nos d\u00e3o o que queremos para nos agradar. Como este, alguns poucos instintos dessa \u00e9poca ainda sobraram, mas n\u00f3s humanos, bicho bobo toda a vida, preferimos humaniz\u00e1-los e atribuir a eles sentimentos que n\u00e3o existem do que compreender a verdadeira origem do seu comportamento.<\/p>\n<p>Por exemplo, um c\u00e3o que insiste em lamber seu rosto, principalmente sua boca n\u00e3o est\u00e1 tentando te beijar. \u00c9 um h\u00e1bito antigo de filhotes, que ativava a regurgita\u00e7\u00e3o de suas m\u00e3es: o c\u00e3o lambia a boca da mam\u00e3e e ela vomitava comida para ele. Buscar a bolinha e trazer de volta nada mais \u00e9 do que a repeti\u00e7\u00e3o do comportamento de buscar uma presa e traz\u00ea-la \u00e0 matilha. Levantar a pata e mijar alto no poste? Era a forma dos lobos marcarem territ\u00f3rio. A verdade \u00e9 que boa parte do comportamento dos c\u00e3es encontra explica\u00e7\u00e3o na sua origem e n\u00e3o em sentimentos humanizados.<\/p>\n<p>J\u00e1 reparou que quase todos os c\u00e3es antes de deitar d\u00e3o uma (ou mais de uma) rodadinha? Giram em torno de si mesmos e deitam. N\u00e3o, seu c\u00e3o n\u00e3o \u00e9 maluco nem tem TOC, existe um bom motivo pelo qual ele faz isso. \u00c9 heran\u00e7a dos tempos em que c\u00e3es eram selvagens e tinham que se preocupar com predadores. O c\u00e3o gira para identificar para qual dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 o vendo, de modo a se posicionar com o focinho voltado para a dire\u00e7\u00e3o para onde vai a brisa. Isso porque se um predador chegasse nele sentindo seu cheiro, ele n\u00e3o estaria de costas na hora do ataque e teria mais chances de sobreviv\u00eancia. Deixa o bicho rodar, ele sabe o que faz.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 hist\u00f3ria&#8230; Nesse ponto, j\u00e1 podemos falar em c\u00e3es, n\u00e3o em lobos. Uma parceria firmada com humanos, uma depend\u00eancia deles para se alimentar (principal crit\u00e9rio para definir um animal domesticado) n\u00e3o deixam d\u00favidas que n\u00e3o eram mais lobos. A bilateralidade regia a rela\u00e7\u00e3o entre c\u00e3es e humanos. Os c\u00e3es tinham que trabalhar para merecer seu lugar na matilha humana: cuidar do territ\u00f3rio, ca\u00e7ar etc. Por\u00e9m, passaram-se os s\u00e9culos e a realidade do homem mudou.<\/p>\n<p>Ind\u00fastrias, urbaniza\u00e7\u00e3o e outros fatores fizeram com que os c\u00e3es perdessem suas fun\u00e7\u00f5es. O humano n\u00e3o dependia mais da ajuda do c\u00e3o para comer, pois ele n\u00e3o ca\u00e7ava mais ele comprava ou trocava comida agora. A parceria acabou, e como sempre, quando o ser humano est\u00e1 por cima e n\u00e3o depende mais de algo, ele tende a sacanear. Se o c\u00e3o n\u00e3o servia mais como parceiro, serviria agora como status, como objeto de consumo, como mero acompanhante.<\/p>\n<p>O c\u00e3o n\u00e3o era mais empregado do dono, passou a ser visto como filho do dono, como objeto de ostenta\u00e7\u00e3o. Sua \u00fanica fun\u00e7\u00e3o nas metr\u00f3poles era existir. Por mais que ainda existisse uma que outra fun\u00e7\u00e3o como ca\u00e7ar roedores ou ser guardi\u00e3o da casa, o ser humano n\u00e3o dependia mais do c\u00e3o como antes. Ter um c\u00e3o deixa de ser necessidade e passa a ser escolha, e, porque n\u00e3o, luxo. Afinal, sustentar um c\u00e3o n\u00e3o era para qualquer um. O ser humano ent\u00e3o decidir mexer em time que estava ganhando. C\u00e3es pararam de ser peneirados pela sua funcionalidade e passaram a ser selecionados pela sua apar\u00eancia. Foi quando come\u00e7aram a se desenvolver a maior parte das ra\u00e7as.<\/p>\n<p>Surge tamb\u00e9m o Pedigree, um documento bobo que conferia status ao c\u00e3o, designando-o como de \u201cra\u00e7a pura\u201d. O problema \u00e9 que gra\u00e7as a essa s\u00fabita import\u00e2ncia que passamos a dar para a apar\u00eancia do c\u00e3o em detrimento de sua funcionalidade, n\u00f3s humanos perdemos a m\u00e3o e, em alguns casos, sacaneamos os bichos. Patas muito curtas, focinhos muito achatados, excesso de pele e outras despropor\u00e7\u00f5es que terminaram por prejudicar os animais foram cometidas. Os coitadinhos pagam o pre\u00e7o at\u00e9 hoje, com dificuldades respirat\u00f3rias, problemas de pele e em muitos casos doen\u00e7as cong\u00eanitas.<\/p>\n<p>Pode observar, se uma ra\u00e7a teve em algum momento um boom de procura, \u00e9 certo que ela vir\u00e1 com uma carga gen\u00e9tica complicada. Isso porque na tentativa de obter filhotes com certas caracter\u00edsticas refor\u00e7adas, se cruzavam parentes, algo n\u00e3o recomendado. Exemplo t\u00edpico: c\u00e3es da ra\u00e7a Collie, a popular Lassie. Com a s\u00e9rie de televis\u00e3o estrelada por esta ra\u00e7a a procura subiu do dia para a noite. Como havia poucos exemplares, cruzaram parente com parente mesmo, na tentativa de obter filhotes rapidamente e com isso lucrar. Resultado: uma linhagem com pouca variedade gen\u00e9tica e com muitos problemas em decorr\u00eancia desta escolha errada. Estima-se que cerca de 80% dos c\u00e3es desta ra\u00e7a acabem seus dias cegos ou com problemas de vis\u00e3o. O homem \u00e9 corno e cruel, mata a baleia que n\u00e3o chifra e \u00e9 fiel.<\/p>\n<p>Mas a apar\u00eancia n\u00e3o foi a \u00fanica pisada de bola que demos com os c\u00e3es. Ao se tornarem objetos quase que decorativos, sem uma fun\u00e7\u00e3o concreta, acabamos por abandon\u00e1-los afetivamente e negligenciar suas necessidades. C\u00e3es que precisam se exercitar por horas s\u00e3o condenados a um, com sorte dois passeios por dia e meia hora de brincadeira. No resto do dia os donos est\u00e3o muito ocupados trabalhando, em seu lazer ou cuidando da fam\u00edlia. Resultado: c\u00e3es frustrados, com excesso de energia, que come\u00e7am a apresentar problemas comportamentais. O que o ser humano faz? Reflete e passa a dar ao c\u00e3o aquilo que ele precisa? N\u00e3o. Os chama de mal educados por eles se portarem como c\u00e3es. Em casos mais extremos, at\u00e9 mesmo os abandona. Mas tem uma novidade a\u00ed, a nova babaquice da vez \u00e9 medicar c\u00e3es para que eles fiquem quietos. Hoje, nos EUA, estima-se que cerca de 80% dos c\u00e3es est\u00e3o sob efeito de alguma medica\u00e7\u00e3o que atua de forma calmante. Cabe ao dono educar seu cachorro, se o cachorro \u00e9 um mal educado, a culpa \u00e9 do dono e n\u00e3o do c\u00e3o. Mas infelizmente quem paga \u00e9 o animal.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 sacanagem fazer isso com quem historicamente sempre nos ajudou e at\u00e9 hoje se desdobra para tentar descobrir o que voc\u00ea quer e te agradar? \u00c9 hora do ser humano ter vergonha na cara e come\u00e7ar a retribuir o m\u00ednimo que ele deve aos c\u00e3es: dignidade. Tenham vergonha na cara e s\u00f3 aceitem a responsabilidade de ter um c\u00e3o se puderem prover a ele muito tempo, muito exerc\u00edcio e muito afeto. Essa linda hist\u00f3ria de amor est\u00e1 tomando rumos escrotos e preocupantes. Como sempre, o ser humano acaba estragando o que constr\u00f3i de mais bonito gra\u00e7as ao seu ego\u00edsmo. Tor\u00e7o para que esta hist\u00f3ria entre homens e c\u00e3es n\u00e3o tenha um final infeliz.<\/p>\n<h3>Para perguntar se eu estou tomando calmantes porque este \u00e9 o segundo texto seguido que n\u00e3o tem um palavr\u00e3o, para dizer que os mensaleiros est\u00e3o saindo livres e eu aqui falando de c\u00e3es ou ainda para reclamar porque com um texto desses n\u00e3o tem como me marretar no Twitter: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m perguntar de onde vieram os c\u00e3es, a resposta est\u00e1 na ponta da l\u00edngua: \u201cdo lobo!\u201d. Mas a hist\u00f3ria \u00e9 muito mais interessante do que isso. 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