{"id":5404,"date":"2013-09-29T14:00:09","date_gmt":"2013-09-29T17:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5404"},"modified":"2013-10-06T02:39:02","modified_gmt":"2013-10-06T05:39:02","slug":"desfavor-convidado-no-terreiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/09\/desfavor-convidado-no-terreiro\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: No Terreiro."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5405\" alt=\"desc-desven001\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/desc-desven001.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/desc-desven001.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/desc-desven001-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: No Terreiro.<\/strong><\/p>\n<p>Aos que ainda n\u00e3o sabem, eu sou jornalista e sempre tive um certo respeito pelo jornalismo Gonzo. O Gonzo \u00e9 um estilo que mistura realidade com fic\u00e7\u00e3o e foi criado por Hunter S. Thompson ao ser contratado para escrever uma reportagem sobre uma corrida no deserto. Ao inv\u00e9s disso, ele ficou em Las Vegas e gastou todo o dinheiro que o jornal havia lhe dado em bebidas e drogas, al\u00e9m de ter fugido do hotel onde havia se hospedado ap\u00f3s fazer uma enorme d\u00edvida. No final das contas, o que ele entregou ao jornal foi uma s\u00e9rie de impress\u00f5es pessoais desses dias malucos que passou na esb\u00f3rnia e claro que o neg\u00f3cio foi um sucesso, tanto que pode ser visto at\u00e9 em filme (Medo e Del\u00edrio Dire\u00e7\u00e3o: Terry Gilliam &#8211; 1998).<!--more--><\/p>\n<p>Pois bem, sempre que poss\u00edvel, eu realizarei reportagens com esse estilo mais pessoal e liter\u00e1rio. N\u00e3o chegarei aos extremos de Hunter, mas tomarei certas liberdades que beiram a \u00e9tica jornal\u00edstica para contar uma hist\u00f3ria sobre algum fato que pesquisarei. Para tanto, farei uma produ\u00e7\u00e3o digna de jornalismo com pesquisas, entrevistas e tudo mais.<\/p>\n<p>Um dos preceitos do jornalismo Gonzo \u00e9 realizar entrevistas sem a necessidade da pessoa saber que est\u00e1 sendo entrevistada, mas isso pode acarretar em problemas judiciais. Nesses casos manterei o bom senso de preservar as fontes, divulgando apenas as iniciais de seus nomes ou criarei nomes fict\u00edcios. Quando o assunto n\u00e3o for pol\u00eamico ou quando minhas opini\u00f5es n\u00e3o forem agressivas o suficiente para gerar desconforto nos entrevistados, manterei seus nomes reais.<\/p>\n<p>Caso algu\u00e9m se interesse em conhecer mais sobre esse estilo, recomendo a revista Piau\u00ed, o <a href=\"http:\/\/www.vice.com\/pt_br\" target=\"_blank\">site da Vice<\/a>, as reportagens-quadrinhos de Joe Sacco ou as hist\u00f3rias escritas por Hunter que podem ser facilmente encontradas na internet. Boa leitura e vamos ao texto de hoje.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">I<\/h2>\n<p>Sempre me interessei em pesquisar religi\u00f5es, mas algumas me agradavam mais que outras, sendo que duas delas sempre me despertaram um interesse mais forte: o budismo e o espiritismo. De todas as religi\u00f5es que pesquisei, essas duas foram as mais male\u00e1veis com rela\u00e7\u00e3o aos pensamentos de seus seguidores. Tanto que elas n\u00e3o se consideram como religi\u00e3o, mas sim como doutrinas espirituais para atingir n\u00edveis mais altos da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante minhas pesquisas sobre o espiritismo, acabei me deparando com a Umbanda, uma religi\u00e3o jovem que nasceu em Niter\u00f3i no RJ. Por\u00e9m, sempre que eu resolvia visitar um terreiro, algo errado acabava acontecendo e isso me impedia de conhecer a religi\u00e3o. Comecei a pensar que isso era um aviso divino de que aquilo n\u00e3o era para mim, mas teimoso que sou continuei a busca mesmo assim.<\/p>\n<p>At\u00e9 que belo dia, pesquisando sobre a Umbanda, descobri que havia um terreiro a duas quadras da onde eu trabalho e que os trabalhos eram feitos \u00e0s sextas-feiras a partir das 8 da noite. Eis que me surpreendo ao olhar para o calend\u00e1rio e perceber que aquele dia era sexta-feira. N\u00e3o tive d\u00favida, fiquei no trabalho at\u00e9 mais tarde e fui conhecer o terreiro, que fica na Rua Mecia\u00e7u em um bairro de Campinas chamado Vila Ip\u00ea.<\/p>\n<p>Caminhei por ruas escuras, mas encontrei o local com certa facilidade, j\u00e1 que podia ouvir os batuques de longe. Ao entrar, fui recebido com um sorriso pela Dona Sueli Galerani, que \u00e9 a m\u00e3e do terreiro. Ela me perguntou se era minha primeira vez ali e ao responder que sim, ela me deu um ficha com senha para falar com um cacique quando meu n\u00famero fosse chamado. Estranhei, pois n\u00e3o via nenhum ind\u00edgena por ali, mas enfim.<\/p>\n<p>Aguardei os trabalhos come\u00e7arem e depois fiquei rodando o pequeno sal\u00e3o, que deve caber no m\u00e1ximo umas quarenta pessoas. Pequeno, por\u00e9m acolhedor, pois perguntando para as pessoas que frequentavam ali h\u00e1 mais tempo, descobri que o terreiro havia nascido nos fundos da casa de Dona Sueli. Por\u00e9m, o n\u00famero de atendimentos foi aumentando e ela precisou ir para um lugar maior, encontrando ali o lugar ideal para o prop\u00f3sito da Umbanda.<\/p>\n<p>Durante meus rodeios pelo lugar enquanto n\u00e3o chamavam meu n\u00famero, por coincid\u00eancia reencontrei uma antiga colega de trabalho, que conheci no meu primeiro emprego na \u00e1rea de jornalismo. Conversamos por um tempo e ela me explicou que era a segunda vez que estava indo l\u00e1, por indica\u00e7\u00e3o de um cinegrafista que havia aliviado suas dores gra\u00e7as \u00e0s ora\u00e7\u00f5es da casa. Enquanto isso, as pessoas l\u00e1 na frente se contorciam e faziam barulhos estranhos, j\u00e1 que estavam incorporando os esp\u00edritos que iriam fazer o trabalho do dia.<\/p>\n<p>Na casa funciona assim, os m\u00e9diuns ficam separados por uma corrente e \u00e9 dentro dela que ocorrem as ora\u00e7\u00f5es iniciais e toda a parte de prepara\u00e7\u00e3o dos trabalhos. Do outro lado da corrente, ficam as pessoas que aguardam pacientemente serem chamadas pelo seus n\u00fameros de ficha. Ao entrar na corrente, a pessoa deve pedir permiss\u00e3o e estar descal\u00e7a para simbolizar respeito por aquele local sagrado. Quando chamaram meu n\u00famero, juro que procurei o tal cacique novamente, mas fui levado at\u00e9 a Dona Sueli.<\/p>\n<p>Nesse primeiro contato, me mantive o mais c\u00e9tico poss\u00edvel, pois n\u00e3o consegui acreditar que meia d\u00fazia de batuques e cantoria seriam o suficiente para trazer esp\u00edritos incorporados. Ao questionar o cacique sobre isso, ele s\u00f3 me respondeu: &#8220;Voc\u00ea acredita em reencarna\u00e7\u00e3o?&#8221;. Respondi que n\u00e3o, ent\u00e3o ele (ou ela) me olhou e retrucou: &#8220;Por que?&#8221;. &#8220;N\u00e3o consigo acreditar que um mesmo esp\u00edrito retorne v\u00e1rias vezes pra essa merda de mundo. Se o objetivo \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o, mesmo a pessoa mais atrasada espiritualmente s\u00f3 passa aqui uma \u00fanica vez e segue em frente&#8221;.<\/p>\n<p>O cacique me olhou com mais interesse e me perguntou se j\u00e1 havia lido &#8220;O livro dos esp\u00edritos&#8221; de Allan Kardec, respondi que n\u00e3o (mas j\u00e1 havia lido, fiz isso apenas como teste para ver se ele percebia a minha mentira, mas n\u00e3o percebeu). Ap\u00f3s isso ele me contou a hist\u00f3ria de Tup\u00e3: &#8220;Na minha tribo, Tup\u00e3 \u00e9 o Deus do trov\u00e3o que com a ajuda de Jaci desce \u00e0 Terra. Quando chega aqui, ele come\u00e7a a criar os seres vivos, as florestas e coloca as estrelas uma a uma l\u00e1 no c\u00e9u. Tup\u00e3 ent\u00e3o criou a humanidade a partir de est\u00e1tuas de argila e deu vida a elas com seu sopro divino. Depois disso foi embora, deixando o homem conviver com os esp\u00edritos do bem e do mal. Voc\u00ea \u00e9 como um desses homens de argila, que vive no mundo rodeado de gente boa e de gente ruim , que chega aqui sem saber o quer e ainda duvida do que \u00e9 ensinado aqui nessa casa, mas logo vai aprender que o caminho de Tup\u00e3 \u00e9 o \u00fanico verdadeiro e certo&#8221;.<\/p>\n<p>Ao final da consulta, ele me abra\u00e7ou e nos despedimos cordialmente. Esperei minha colega ser atendida e fomos embora juntos. Ao caminharmos at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus, expressei minha indigna\u00e7\u00e3o com esse primeiro contato com a Umbanda, j\u00e1 que eu esperava uma esp\u00e9cie de espet\u00e1culo paranormal com esp\u00edritos fazendo poltergeist, lendo mentes e mostrando poderes que n\u00f3s reles mortais n\u00e3o possu\u00edmos. Hoje sei que essa foi uma das maiores besteiras que j\u00e1 pensei na vida, mas at\u00e9 ent\u00e3o eu era um reles ignorante na religi\u00e3o umbandista.<\/p>\n<p>Mesmo assim, esqueci o assunto e pensei que nunca mais colocaria os p\u00e9s novamente naquele terreiro. Um outro erro, j\u00e1 que dali algumas semanas um problema de sa\u00fade de minha afilhada de casamento mudaria para sempre minha forma de pensar sobre a f\u00e9, a justi\u00e7a divina e at\u00e9 mesmo uma poss\u00edvel convers\u00e3o umbandista.<\/p>\n<p>Por enquanto a hist\u00f3ria acaba aqui, pois um bom jornalista liter\u00e1rio nunca entrega toda a hist\u00f3ria de uma vez, j\u00e1 que \u00e9 preciso deixar aquele gostinho de esperar pelo pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. Sendo assim, al\u00e9m das coisas ocultistas que costumo escrever para o blog, sempre que poss\u00edvel enviarei tamb\u00e9m essas reportagens com impress\u00f5es pessoais. Apesar de minha inten\u00e7\u00e3o ser o mais ver\u00eddico poss\u00edvel, colocarei sim pitadas de fic\u00e7\u00e3o nessas hist\u00f3rias, ent\u00e3o espero que tenham gostado e aguardem o pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<p>Paz Profunda a todos.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Chester Chenson<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: No Terreiro. 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